terça-feira, 22 de agosto de 2017

Lógica milagrosa

Matheus Viana

“Se a intelectualidade cristã não nos fazer voltar os olhos para a soberania de Deus no poder do Espírito, pela fé na graça de Cristo, ela será tão vã quanto qualquer outra filosofia materialista”.

Esta frase foi publicada, recentemente, em uma rede social. O autor acredita – pois o próprio ato de publicar atesta tal fato – que realizou uma apologética cristã, fruto de uma devoção de mesmo caráter. Mas esta frase não é uma apologética porque é desprovida de elementos lógicos básicos. Caso clássico de técnica do espantalho.

Uma “intelectualidade cristã” que não faça o que o referido autor citou não pode ser considerada cristã. Ela sequer existe. É questão ontológica pura e simples. Seria o mesmo que afirmar que uma porção de água que não seja composta de moléculas formadas por átomos de hidrogênio e de oxigênio não pode ser considerada uma porção de água. Sem tais moléculas, o elemento água simplesmente não existe.

Ao ler a afirmação aqui analisada, notei, de súbito, que estava diante de uma afirmação que apregoa e analisa o que não existe como se existisse. É o mesmo equívoco que fundamenta a mentalidade daqueles que acham possível viver um cristianismo sem Cristo. Toda crítica a um cristianismo sem Cristo não tem sentido por pretender criticar o que não existe. O que temos visto em atividade em muitas denominações é uma caricatura, simulacro, qualquer outra coisa, menos cristianismo.

Vemos aqui um caso semelhante ao que Jesus certa vez enfrentou (Evangelho segundo Marcos 7:1-7). Os fariseus tratavam a ética criada pelo movimento rabínico que interpretava a Lei mosaica ao seu modo como se fossem a Lei de Deus. Seguiam algo que não era como se fosse. A Lei de Deus, manipulada e deturpada por homens, deixa de ser de Deus. Foi o que Jesus disse (Evangelho segundo Marcos 7:6-7).

Um exemplo marcante é a expressão milagre. Alguns aplicam a ela um significado reduzido. Pois consideram milagre apenas a ocorrência de sinais e prodígios. Esquecem de que milagre, de acordo com o que as Escrituras ensinam, é toda e qualquer – o pleonasmo é proposital – ação de Deus sobre a criação.

Certa vez ouvi uma pessoa dizendo que milagre é Deus operando fora das leis naturais. Não, não é. Explico por quê. Todas as leis foram estabelecidas por Deus. O homem e mesmo o diabo não têm poder de criar leis. O máximo que eles podem é deturpar as Leis de Deus. Deturpar não é criar. Se todas as leis foram criadas e estabelecidas por Deus, mesmo as que foram corrompidas como consequência do pecado do homem (Cf. Gênesis 3:17), Lhe são naturais. Todavia, embora um milagre seja considerado um acontecimento sobrenatural, ele é completamente natural para Deus.

Assim, toda ação de Deus é um milagre. Logo, não existe ação de Deus que não seja milagrosa. A criação - incluindo eu e você – é resultado da ação de Deus. Jesus ensinava e realizava sinais e prodígios. Resumindo, fazia milagres. O ato de ensinar era tão milagroso quanto as outras obras espetaculares que Ele realizou. Em Marcos 2, quando curou um paralítico, Jesus realizou dois milagres: perdoou os pecados do homem e restaurou suas pernas. Não é o perdão de Deus sobre nossos pecados um milagre? Tanto é que os próprios fariseus consideravam tal fato como sendo de competência exclusiva de Deus (Evangelho segundo Marcos 2:8-11).

Mas alguns, por não entenderem este princípio elementar, cometem o erro primário de classificar as ações de Deus como milagrosas e não milagrosas. O fato de acordarmos todas as manhãs é tão milagroso quanto ver um morto ressuscitado ou alguém curado, instantaneamente, de uma enfermidade grave. A racionalidade que nos foi concedida para entendermos as Escrituras que testificam de Jesus (Evangelho segundo João 5:39), para que possamos conhecê-Lo e imitá-Lo, é tão milagroso quanto. Assim, há quem diga que a racionalidade humana não é um milagre. Eis o mesmo princípio. O fato de um ser humano, criado por Deus, pensar é um milagre. A questão é o que fazemos com ele.

A Igreja moderna, como consequência de não se atentar a este caráter da expressão milagre, valoriza apenas o “extraordinário”. Com isso, o ensino da doutrina cristã, visando uma conduta ortodoxa, é deixada de lado. São cada vez mais comuns cultos onde não há pregação da Palavra, mas apenas orações pelos milagres sobrenaturais. Isto não é cristianismo.

Há muito mais a ser dito. Mas paro por aqui, antes que eu seja acusado - ainda mais do que já sou – de “racionalista antimilagreiro”. Quem faz tal acusação, contudo, ignora o fato de ser um milagre o fato de eu ter escrito este texto. Na verdade, o simples fato de estar vivo é um... milagre. Se você leu e entendeu este texto, acredite, foi um milagre.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Ensaios sobre o Reino de Deus - Parte II

Matheus Viana

Em qual terra? No ser humano e, consequentemente, em toda a criação. Foi neste princípio que o apóstolo Paulo declarou: “A natureza criada aguarda, com grande expectativa, a manifestação dos Filhos de Deus” (Romanos 8:19). Antes de elaborar as questões aqui analisadas, Jesus elucidou: “O Reino de Deus é semelhante a um homem que lança a semente sobre a terra” (Evangelho segundo Marcos 4:26). Analogia perfeita. O Reino de Deus começa pequeno, pois começa nos seres humanos, cuja pequenez foi relatada poeticamente pelo salmista: “Que é o homem para que com ele te importes?”. (Salmo 8:4). Mas torna-se grande, conforme o próprio Jesus afirmou: “No entanto, uma vez plantado, cresce e se torna a maior de todas as hortaliças...” (Evangelho segundo Lucas 4:32).
    
Contudo, seu processo de crescimento e desenvolvimento possui um alicerce: “uma vez plantado...”. Por ser como uma semente, ele deve ser plantado/cultivado em nós. O culto racional não é meramente causa ou efeito. É as duas coisas ao mesmo tempo. Ele é o efeito do governo de Jesus Cristo sobre nós e é por meio dele (causa) que o Reino de Deus é disseminado e manifesto, conforme Jesus ordenou, a toda criatura (Evangelho segundo Marcos 16:15) e a todas as nações (Evangelho segundo Mateus 28:19), a fim de que toda terra seja cheia do conhecimento Dele (Isaías 11:9).
    
Eis um grave problema que a Igreja no ocidente enfrenta: Uma semente chamada entretenimento tem substituído a semente chamada Reino de Deus. Semelhantemente aos primeiros seres humanos, temos trocado a ética de Deus por uma ética contrária que vá de encontro aos nossos desejos por substituirmos o culto racional por um culto ególatra. A egolatria em si é indício de que o Reino de Deus não é operante no indivíduo. Descrição precisa da realidade humana atual.

Jesus não é mais apresentado como o único e soberano SENHOR, mas como uma espécie de “guru espiritual” que oferece soluções para os anseios humanos fúteis; como um “manager”, CEO ou “coaching” – confesso minha repulsa a estes termos presentes no contexto eclesiástico - cujos princípios são usados meramente para enriquecimento material; ou como um mero psicólogo consultado para resolver tensões emocionais e afetivas.
    
A grandeza do Reino de Deus nada tem haver com ufanismo, mas com universalidade – e não universalismo (o conceito de que todos, no final das contas, serão salvos). Ou seja, visa atingir pessoas de todas as nações, mas sempre de forma humilde, uma de suas características indeléveis. Este amplo alcance, portanto, não ignora as premissas preconizadas pelo próprio Jesus: “Entrem pela porta estreita, pois larga é a porta e amplo o caminho que leva à perdição, e são muitos os que entram por ela. Como é estreita a porta, e apertado o caminho que leva à vida! São poucos o que a encontram”. (Evangelho segundo Mateus 7:13-14).
    
Aqui é necessário um ajuste de termos. Grandeza não significa ufanismo, tampouco massificação do Evangelho. O fato de Jesus ter afirmado serem poucos os que entram no Reino de Deus, por sua vez, também não significa exclusivismo ou sectarismo. Dois extremos atualmente em voga. As multidões seguiam Jesus, mas Ele estava à procura de discípulos. E este mesmo princípio Ele passou aos Seus discípulos: “Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando a obedecer a tudo o que eu lhes ordenei” (Evangelho segundo Mateus 28:19-20).
    
Nesta advertência, Jesus falou sobre os dois pontos que integram o Reino de Deus ao afirmar: “... vão e façam discípulos de todas as nações”. O fato de fazer discípulos simboliza o plantio da semente do Reino de Deus no coração do ser humano. Por sua vez, o fato de serem discípulos de todas as nações simboliza o longo alcance do germinar desta semente.
    
Muitos em meio à Igreja têm desejado multidões, o que culmina na descaracterização do Evangelho do Reino de Deus e no comprometimento do discipulado. A premissa básica que demonstra o intento de disseminarmos o Evangelho do Reino de Deus é o discipulado, conforme Jesus preconizou. No entanto, não há discipulado sem cruz. Palavras do próprio Jesus: “Aquele que quiser me seguir, negue-se a si mesmo, tome a tua cruz e siga-me” (Evangelho segundo Mateus 16:24).
    
O Evangelho, que é a base do discipulado ordenado por Cristo, não é atrativo para as multidões. Por isso a alternativa para os que as buscam é tentar a insanidade de extirpar a cruz de Cristo de modo a tornar o Evangelho do Reino atrativo. Impossível. A verdadeira conversão, o primeiro passo do discipulado, é fruto da ação do Espírito Santo no ser humano (Evangelho segundo João 16:8). O registro de Marcos em relação ao centurião romano que participou da crucificação de Jesus Cristo é pertinente neste sentido: “Quando o centurião que estava em frente de Jesus ouviu o seu brado e viu como ele morreu, disse: ‘Realmente este homem era o Filho de Deus’” (Evangelho segundo Marcos 16:39). Este centurião teve uma experiência com o Cristo crucificado. O Cristo o qual Paulo pregou (I Coríntios 2:2). Não há como desvencilhar Evangelho do Reino da cruz de Cristo.
    
Mas, infelizmente, ele tem sido substituído por um pseudo-evangelho regado a baladas gospel entre outros entretenimentos que nada tem haver com a liturgia do culto racional elucidada pelos apóstolos, parte fundamental da ortodoxia cristã. O resultado: multidões entorpecidas pelo entretenimento eclesiástico, convencidas de que são devotas a um cristianismo sem cruz, – algo cuja existência é impossível – completamente conformado com o sistema secular (Cf. Romanos 12:2). Sem Evangelho do Reino, não há discipulado. Sem discípulos, não há Igreja. Sem Igreja, não há instrumento para a manifestação do Reino de Deus sobre a terra (Cf. Evangelho segundo Mateus 16:18). Apostasia na certa.
    
Todavia, a Igreja Gloriosa de Cristo, Seu corpo na terra, triunfará. O Reino de Deus está em seu processo de crescimento sobre ela, embora completamente na contramão do “cristianismo pós-moderno”. Você é um membro dela?

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Ensaios sobre o Reino de Deus - Parte I

Matheus Viana

“Com o que compararemos o Reino de Deus?” (Evangelho segundo Marcos 4:30). A resposta a esta indagação é crucial para entendermos todo o ensino de Jesus Cristo. Ele o iniciou falando exatamente sobre o Reino de Deus (Evangelho segundo Marcos 1:15). Não foi em vão que, ao ensinar Seus discípulos a orar ao Pai, declarou: “Venha a nós o Seu Reino, seja feita a Sua vontade, assim na terra como nos céus” (Evangelho segundo Mateus 6:10). Também pudera! Antes de Sua concepção em forma humana, o anjo disse à Maria: “Você ficará grávida e dará à luz um filho, e lhe porá o nome de Jesus (...) e ele reinará para sempre sobre o povo de Jacó; seu Reino jamais terá fim”. (Evangelho segundo Lucas 1:33).

Seu antecessor, João, o Batista, viveu pautado na mesma temática (Evangelho segundo Mateus 3:2). Os profetas que profetizaram a vinda de Jesus, como Isaías, por exemplo, declararam que Ele viria como o Rei que estabeleceria o Reino de Deus: “Então, em amor será firmado um trono; em fidelidade um homem se assentará nele na tenda de Davi: um juiz que busca a justiça e se apressa em defender o que é justo” (Isaías 16:5).

O fato de O Reino de Deus ser a essência da vida de Jesus levou Seus discípulos, após Sua ressurreição, Lhe perguntarem: “Senhor, é neste tempo que vais restaurar o reino em Israel?” (Atos 1:6). Ao estabelecer sobre eles a chamada grande comissão, lhes afirmou: “Foi-me dada toda a autoridade nos céus e na terra” (Evangelho segundo Mateus 28:18). Antes disso, portanto, lhes advertiu: “E este evangelho do Reino será pregado em todo o mundo...” (Evangelho segundo Mateus 24:14 – Ênfase acrescentada). É impossível dissociar Reino de Deus do Evangelho de Jesus Cristo, bem como de Sua pessoa.

A primeira vez que apareceu o termo evangelho nas Escrituras foi na carta do apóstolo Paulo aos romanos. Este era um termo de caráter governamental utilizado pelo império romano. Conforme ensina o professor Franklin Ferreira, quando uma nação era conquistada por Roma, era-lhe enviada uma comitiva de emissários para levar o evangelion. Isto era a mensagem de que aquela nação tornara-se propriedade do império e que o César estava a caminho de sua parousia: a ida do imperador para estabelecer nela seu governo.

Este termo, em seu sentido literal, significa estar presente. A doutrina apostólica cristã o utilizava para se referir à vinda definitiva de Jesus Cristo à terra para julgá-la e reinar plenamente sobre ela. Sendo assim, o evangelho é o Reino de Deus estabelecido sobre o ser humano, e consequentemente sobre toda a terra, para que o Rei, Jesus Cristo, venha (parousia) e reine de maneira soberana.
    
Ao utilizar o termo evangelho, Paulo quis afirmar que o verdadeiro governante não era César, mas Jesus Cristo. Por isso ele (Paulo) era um enviado do próprio Jesus Cristo para pregar o verdadeiro evangelho: O Reino de Jesus Cristo. E foi exatamente este evangelho do Reino sobre o qual Jesus elucidou, conforme registrou o evangelista Mateus, no versículo citado nas linhas acima. Isto, portanto, não foi mero elemento do advento messiânico de Sua encarnação, mas algo manifestado pelo Deus Trino desde a criação.

O governo que o ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus, exerceria sobre a terra (Gênesis 1:28) seria o reflexo do governo que Deus exerce nos céus e sobre o ser humano. Por isso, ribomba sobre nós a indagação feita por Jesus. Mas antes de tentar responde-la, precisamos responder outra que lhe está diretamente relacionada: O que é o Reino de Deus?
    
Jesus não respondeu esta questão de forma direta. Quanto mais estudamos as Escrituras, fica mais claro que a resposta começa com o que não é o Reino de Deus. Jesus disse que ele não é físico nem visível: “O Reino de Deus não vem de modo visível, nem se dirá: ‘Aqui está ele’, ou ‘Lá está’; porque o Reino de Deus está entre vocês”. (Evangelho segundo Lucas 17:20-21). Ele também disse que o governo que lhe é característico não é a tirania dos homens, mas consiste em servir (Evangelho segundo Mateus 20:25-28). O apóstolo Paulo afirmou que ele não é comida nem bebida, mas paz, justiça e alegria no Espírito Santo (Romanos 14:17).
    
Várias definições de Reino de Deus podem ser, como foram ao longo da história, construídas a partir das expectativas e anseios das pessoas. Os judeus, após milênios sofrendo sob diferentes cativeiros, aguardavam o Messias que estabeleceria um reino político e militar que restauraria o trono de Davi e os libertaria do jugo do império romano. Quando Jesus pergunta aos Seus ouvintes sobre com o que o Reino de Deus poderia ser comparado, um dos intentos era demonstrar que ele era na contramão do clamor popular. Esta pergunta é pertinente a nós. A definição de Reino de Deus é concernente às nossas expectativas e anseios?
    
Em meio a todas as características que mostram o que o Reino de Deus não é, há uma que ajuda a definir o que ele é: “... o Reino de Deus está entre vocês” (Evangelho segundo Lucas 17:21). Ele é uma pessoa: Jesus Cristo. Após indagar sobre com o que o Reino de Deus poderia ser comparado, Jesus questiona sobre como ele poderia ser descrito. Passa então, ao mesmo tempo, a compará-lo e a descrevê-lo como um grão de mostarda (Evangelho segundo Lucas 4:31). Por que grão de mostarda? Por que Jesus usou como metáfora algo pequeno para elucidar sobre algo magnífico? Um dos motivos é porque o grão de mostarda é a menor semente que se planta na terra.

Plantar na terra. Longe de ser mera característica, é fator essencial. Ele simboliza a encarnação de Deus em forma humana (Evangelho segundo João 1:14). A semente de Deus plantada/cultivada no ventre humano a fim de que o Deus Filho participasse da natureza humana para redimi-la. O ser humano, feito do pó-da-terra, foi receptáculo da vida (fôlego) de Deus (Gênesis 2:7) e, consequentemente, de Sua ética (Gênesis 1:28). Por isso, a maneira que Deus instituiu ao homem para cultuá-Lo foi cultivar a terra/solo do jardim onde habitava (Gênesis 2:15). O Reino de Deus começa com o plantio/cultivo na terra. Começa com culto racional.


Continua...

terça-feira, 13 de junho de 2017

Legados culturais e traços sociais - Parte II

Para melhor compreensão do texto, leia a parte I.

Matheus Viana

Guiado por sua egolatria, Caim se afastou da presença do SENHOR. Gerou uma família e, consequentemente, uma sociedade à sua imagem e semelhança, conforme vemos em Lameque (Gênesis 4:24). Na contramão, Enos, filho de Sete, reconheceu seu estado de degradação e o fato de Deus ser O seu Redentor. Por isso invocou o nome do SENHOR. Foi baseado nesta verdade que Davi declarou, milênios depois: “Feliz a nação cujo Deus é o SENHOR” (Salmos 33:12).
    
Noé, o homem cuja família foi escolhida por Deus para ser o protótipo de uma nova humanidade, era descendente de Sete. Vivendo em uma sociedade depravada e corrupta, foi justo e íntegro (Gênesis 6:9). Tsadiyq e tamiyn são os termos em hebraico traduzidos para o português, respectivamente. O significado do termo tsadiyq abrange o indivíduo que age de forma justa e também o que é justificado por Deus, O Justo. Em termos de causa e efeito, podemos concluir que tsadyiq é aquele que é justificado por Deus e suas ações são determinadas por esta justificação.
    
Foi baseado neste princípio que o apóstolo Paulo citou o profeta Habacuque (2:4) ao escrever aos romanos: “O justo viverá pela fé” (Romanos 1:17). Somos justificados por Deus mediante a fé que depositamos na obra única, magna e redentora de Jesus Cristo. Isto é invocar o nome do SENHOR e ser salvo (Atos 2:21, Romanos 10:13). E esta justificação, cujo selo é o Espírito Santo (Efésios 4:30), nos faz agir e viver com retidão diante de Deus. Noé foi justificado por Deus por ser fiel à cultura que recebeu de seus antecessores.
    
Esta retidão produz o tamiyn. Conforme vimos, este termo pode ser traduzido como perfeito ou íntegro. Tamiyn é amar e cultuar a Deus com tudo o que somos e temos. Não é em vão que o Shemá, citado por Jesus aos saduceus, preconiza: “Amarás o SENHOR teu Deus de todo coração, de toda alma, de todo intelecto e com todas as suas forças” (Deuteronômio 6:5, Evangelho segundo Marcos 12:28). Foi neste princípio que Jesus se fundamentou ao advertir seus ouvintes: “Sedes perfeitos como perfeito é o vosso pai celeste”. (Evangelho segundo Mateus 5:48). A versão septuaginta (LXX) traduz o termo tamiyn como teleion, que significa perfeito, completo, íntegro. E foi a expressão teleion usada por Marcos e também por Mateus ao registrarem esta afirmação de Jesus. Ou seja, o que Jesus quis dizer foi que devemos servir ao Ser Perfeito com todo o nosso ser.
    
Um dos mais ilustres descendentes de Sete, Enoque, “já não era” (Gênesis 5:24). O texto hebraico ve´enenu traduzido literalmente para o português é: e ele não era. Enoque andava com Deus ao cultuá-lo de forma íntegra por observar a cultura ao qual fora formado. Tal integridade fez com que Deus o tomasse para si, por isso ele não era. Deus deseja que vivamos “tomados” por Ele ao ponto de que não sejamos nós mesmos, e sim Cristo vivendo em nós (Gálatas 2:20). Óbvio que isso não significa a extinção de nossa existência. Mas que ela, integralmente, deve estar pavimentada na pessoa de Jesus Cristo (Sua vida e obra) a fim de que possamos refletir Sua imagem, conforme Deus deseja (Romanos 8:29).

Em outras palavras, vivermos para a Sua Glória (I Coríntios 10:31). Isso fala de renunciarmos a egolatria que permeia o nosso ser (Jeremias 17:9, Tiago 4:2-3). Significa, como Paulo exortou, morrermos para a nossa natureza terrena (Colossenses 3:5). Significa negarmos a nós mesmos conforme Jesus Cristo nos advertiu: “Aquele que quiser me seguir, negue-se a si mesmo, tome cada um a sua cruz e siga-me” (Evangelho segundo Mateus 16:24 – Ênfase acrescentada).
    
Para uma melhor compreensão, evoquemos a definição de essência humana de Arthur Schopenhauer: vontade de viver. De acordo com ela, o ser humano, por ser essencialmente vontade, ao deixar de realizá-la está morrendo. Assim, quando renunciamos a nossa vontade para realizarmos a vontade de Jesus Cristo, estamos morrendo para que Ele (Sua vontade) possa viver em nós. Óbvio que não devemos concordar com a definição do filósofo. Mas a utilizamos apenas como analogia para compreendermos, por exemplo, a exortação do apóstolo Paulo: “Trazemos sempre em nosso corpo o morrer de Jesus, para que a vida de Jesus também seja revelada em nosso corpo. Pois nós, que estamos vivos, somos sempre entregues à morte por amor a Jesus, para que sua vida também se manifeste em nosso corpo mortal” (II Coríntios 4:10-11).
    
Ambos (Tsadiyq - justo e tamiyn – íntegro), no entanto, foram efeitos de uma causa: Noé andava com Deus. Esta foi uma característica cultural fundamental na sociedade gerada por Sete a partir de Enos. Ele começou, ensinado pelo pai, a invocar o nome do SENHOR. Enoque andou com Deus ao ponto de ser tomado por Ele (Gênesis 5:24). Noé manteve a tradição cultural. Conforme vimos, não é correto dissociar cultura de culto. A cultura da sociedade originada em Caim era um culto ao homem. A cultura da sociedade originada em Sete era o culto a Deus. Qual a cultura que fundamenta sua maneira de pensar, ser e agir? Ela demonstra quem você cultua.
   
Andar com Deus fala do caminho que o indivíduo trilha em sua vivência. As duas árvores que estavam no jardim do Éden (Gênesis 2:17) - a da Vida e a do conhecimento do bem e do mal - representaram dois caminhos. A Escritura Sagrada afirma que Deus “Depois de expulsar o homem, colocou a leste do jardim do Éden querubins e uma espada flamejante que se movia, guardando o caminho para a árvore da vida” (Gênesis 3:24 – Ênfase acrescentada). A palavra hebraica traduzida como caminho para o português é derech. Ela aparece, por exemplo, no salmo 18:30: “O caminho de Deus é perfeito”. A tradução literal deste salmo, no entanto, é Deus é o caminho perfeito (derech tamiyn).
    
Andar com Deus é viver, de forma ativa, neste derech tamiyn. Quando Jesus afirmou ser O Caminho (Evangelho segundo João 14:6), evocou esta premissa. Estava afirmando que Ele é O Caminho Perfeito, o derech tamiyn que conduz ao Pai. Jesus foi (e é) a personificação do salmo 18:30, bem como o cumprimento da profecia feita por intermédio de Isaías: “E ali haverá uma grande estrada, um caminho que será chamado Caminho de Santidade. Os impuros (não justificados) não passarão por ele; servirá apenas aos que são do Caminho...” (Isaías 35:8). Tal fato fez com que Seus primeiros seguidores fossem conhecidos como a seita do Caminho (Atos 9:2). Noé, à semelhança de Enoque, não andava no caminho dos homens, mas no derech tamiyn.
    
O pai de Noé, Lameque (que não é o descendente de Caim), declarou uma sentença ao nomeá-lo: “Deu-lhe o nome de Noé e disse: ‘Ele nos aliviará do nosso trabalho e do sofrimento de nossas mãos, causados pela terra que o SENHOR amaldiçoou”. (Gênesis 5:29). O nome de Noé carregava um propósito estabelecido por seu pai. A palavra traduzida por sofrimento é itsevon, que significa fadiga. Embora fadiga seja sofrimento, é algo característico de trabalho. Contudo, este trabalho não é o avodah, o cultivo – estabelecido por Deus - que o homem exercia no jardim do Éden como mandato cultural ou culto racional a Deus (Gênesis 2:15). A expressão traduzida como trabalho neste trecho é assenu. Este é o trabalho que o homem realiza no intuito de meramente sobreviver (Cf. Gênesis 3:19), e não de cultuar o Criador.
    
Sabemos que o que levou Deus a amaldiçoar a terra foi o estabelecimento de Seu juízo pela desobediência do homem a Ele, proveniente de um culto ególatra (Gênesis 3:17). Davi declarou em seu salmo: “Deus é um juiz justo, um Deus que manifesta cada dia o seu furor” (Salmo 7:11). O apóstolo Paulo preconizou aos cristãos em Roma: “... a ira de Deus é revelada nos céus contra toda impiedade e injustiça dos homens que suprimem a verdade pela justiça”. (Romanos 1:18). Tais declarações descrevem nosso contexto atual.
    
As várias faces do mal que nos assolam são a manifestação da ira de Deus, que ainda se manifestará de forma definitiva com a volta de Jesus Cristo, por conta do ser humano viver à revelia Dele (Cf. Romanos 2:5-11). Enquanto isto não acontece, somos chamados a confortar o mundo de todo trabalho e fadiga (sofrimento) resultantes da ação dos homens (Romanos 8:19-21). A palavra traduzida por aliviará é chamenu, que significa confortar. Conforme vimos, o conforto de Deus é resultado de sermos confrontados a fim de nos conformarmos à Sua vontade soberana (Cf. Romanos 12:2).
    
Eis o chamado de Noé, exercido através da construção da arca: Confrontar o erro dos homens a fim de que fossem conformados à vontade de Deus, e transformar o trabalho em cultivo/culto para que a terra fosse redimida pelo SENHOR. O dilúvio representou tudo isso. O modo profano e devasso segundo o qual as pessoas viviam foi confrontado com a mensagem do dilúvio iminente (Gênesis 6:12-13). O conformarem-se à vontade de Deus foi o fato de perecerem como resultado do juízo decretado por Deus em detrimento de suas más ações. Com o dilúvio, a terra foi redimida e o culto racional a Deus foi estabelecido novamente. A Escritura registra que após o fim do dilúvio e o baixar de suas águas:

“... Noé construiu um altar dedicado ao SENHOR e, tomando alguns animais e aves puros, ofereceu-os como holocausto, queimando sobre o altar. O SENHOR sentiu o aroma agradável e disse a si mesmo: ‘Nunca mais amaldiçoarei a terra por causa do homem, pois o seu coração é inteiramente inclinado para o mal desde a infância. E nunca mais destruirei todos os seres vivos como fiz desta vez”.
(Gênesis 8:20-21).

A terra foi redimida de todo o mal causado pelos homens. Na inauguração do recomeço de Deus sobre a criação, Noé ofereceu a Ele um culto racional. Note que Noé ergueu um altar ao SENHOR e Lhe ofereceu um holocausto. Mas... o princípio do holocausto não foi estabelecido por Deus através de Moisés? Sim, pois Ele intentou que o culto fosse restaurado (invocar o nome do SENHOR), uma sociedade que pudesse ser chamada de Seu povo fosse formada, e que Sua Glória enchesse toda a terra, conforme o plano original. O holocausto estabelecido através de Moisés não foi algo novo. Era um traço cultural da sociedade gerada em Sete e, por isso, exercido por Noé.
    
Em seguida, a Escritura afirma: “Deus abençoou Noé e seus filhos, dizendo-lhes: ‘Sejam férteis, multipliquem-se e encham a terra. Todos os animais da terra tremerão de medo diante de vocês: os animais selvagens, as aves do céu, as criaturas que se movem rente ao chão e os peixes do mar; eles estão entregues em suas mãos. Tudo o que vive e se move servirá de alimento para vocês. Assim como lhe dei os vegetais, agora lhes dou todas as coisas'” ­(Gênesis 9:1-3).
    
Houve uma repetição aumentada da ética que Deus estabeleceu ao homem após tê-lo criado (Gênesis 1:28-29). No primeiro versículo do capítulo 9, há a mesma interação, dividida nos mesmos dois momentos, feita por Deus com o primeiro ser humano da face da terra: Abençoou e lhes disse. Contudo, foi a Noé e aos seus filhos. Eis a importância da família para a formação da sociedade e a perpetuação da cultura de Deus sobre Sua criação. Encher a terra nada mais é do que formar gerações de acordo com a ética de Deus, personificada em Jesus Cristo. Foi exatamente este culto racional que Jesus advertiu aos Seus discípulos: “Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a obedecer a tudo o que eu lhes ordenei”. (Evangelho segundo Mateus 28:19-20).
    
Abraão era descendente de Noé (Evangelho segundo Lucas 3:34-36). Também pudera. Apesar de viver em um contexto cultural politeísta, completamente diferente do vivido por seus antecessores, Abrão – seu nome na ocasião – recebeu de Deus a proposta de voltar o exercer o traço cultural estabelecido por Sete por meio de seu filho Enos: “Anda na minha presença e seja íntegro (tamiyn)” (Gênesis 17:1). Deus quis que Abraão possuísse as mesmas características que Noé, alcançado por Sua Graça por ser descendente de Sete, possuía. Conosco não é diferente. Por isso Jesus, em seu sermão da montanha, advertiu: “Sedes perfeitos como perfeito é o vosso pai celeste” (Evangelho segundo Mateus 5:48). Contudo, só é possível ser perfeito/completo/íntegro (teleion) andando na presença de Deus, em Seu derech tamiyn, que é o próprio Cristo.

Por falar em Cristo, na descrição genealógica de Lucas, vemos que Jesus, em sua natureza humana, era da linhagem de Sete. 

terça-feira, 6 de junho de 2017

Legados culturais e traços sociais

Matheus Viana
    
As ações de indivíduos corruptos resultam em uma sociedade perversa. Tal perversidade, no entanto, passa pelo âmbito da família. Conforme afirmou Aristóteles, sociedade é o conjunto de famílias. Esta também é a definição bíblica, que é anterior à do filósofo. Não é em vão que a engenharia social, peculiar do sistema vigente que visa destruir os absolutos judaico-cristãos, não mede esforços em mutilar a estrutura familiar teonômica com todo seu mosaico de conceitos e valores.
    
Ao analisarmos a depravação da humanidade que levou Deus a subverter o mundo com dilúvio, vemos que ela foi desdobramento da degradação familiar que, por sua vez, foi resultado da corrupção dos indivíduos. A sentença bíblica é clara: “Por causa da perversidade do homem...” (Gênesis 6:3). No entanto, como ela se manifestou? “Quando os homens começaram a multiplicar-se na terra e lhes nasceram filhas, os filhos de Deus viram que as filhas dos homens eram bonitas, e escolheram para si as mulheres que lhes agradaram.” (Gênesis 6:1-2).
    
Os filhos de Deus – independente do que esta expressão signifique - manifestaram suas vilanias nas famílias até então compostas. Neste trecho das Escrituras vemos que os homens estavam cumprindo o mandato cultural estabelecido por Deus (Cf. Gênesis 1:28), mas Ele não era mais o ser cultuado. Isto resultou na formação de famílias desfiguradas em relação ao padrão familiar constituído por Deus ao homem. O que degradou toda a humanidade, exceto uma família: a de Noé. E foi através dela que Deus recomeçou.
    
Tratemos, contudo, a narrativa do capítulo 6 de Gênesis como efeito. Do pecado original – corrupção do indivíduo (Romanos 5:12) - até a depravação de toda a humanidade, houve dois homens que geraram, por meio de suas respectivas famílias, dois tipos de sociedade: Caim e Sete. Ambos, filhos de Adão. As diferenças entre eles, bem como de suas respectivas sociedades, foram abismais. Para termos uma pequena ideia de tamanha discrepância, Enoque, o homem que andou com Deus ao ponto de ser tomado por Ele, foi descendente de Sete (Gênesis 5:24). Já Lameque, o homem de “estopim curto” que matou um homem por tê-lo ferido e um menino por tê-lo machucado, foi descendente de Caim (Gênesis 4:24). Analisemos estas duas sociedades de modo a contextualizá-las com a nossa realidade.
    
Caim, o primeiro fratricida da história, casou-se e gerou um filho chamado Enoque, que significa iniciado. Depois disso, fundou uma cidade com o nome do filho, a primeira mencionada em toda a Bíblia (Gênesis 4:17). Aqui é clara a relação entre a tríade indivíduo, família e sociedade. Mas o ponto fulcral é a circunstância primária que levou Caim a trilhar sua saga: “Então Caim afastou-se da presença do SENHOR e foi viver em Node, a leste do Éden.” (Gênesis 4:16). Duas coisas a serem analisadas: O afastamento da presença de Deus e a morada em Node. Node significa peregrinação. Peregrinação, neste contexto, significa uma vida distante do propósito de Deus.
    
Houve dois momentos no episodio da criação do ser humano: O primeiro foi quando, ao receber do fôlego de vida de Deus (Gênesis 2:7), o ser humano passa a existir e ter consciência de sua existência. O segundo foi quando ele recebeu a ética de Deus que lhe deu propósito e sentido para sua vida (Gênesis 1:28). Ao abandonar a ética de Deus para se aventurar na ética proposta pela serpente, ele deixou de viver de acordo com o propósito pelo qual foi criado. A perda do sentido foi súbita. Recordemos que um dos significados de pecado (hátá) é errar o alvo/deixar de cumprir o propósito. Peregrinação é a jornada do ser humano em busca de sentido, que pode ser encontrado apenas em Deus encarnado na pessoa de Jesus Cristo, o Logos.
    
Andando a esmo, no labirinto de sua peregrinação, Caim formou uma família e, consequentemente, uma cidade. As gerações posteriores definiram os traços culturais desta sociedade. Jabal, por exemplo, foi o pai dos que moram em tendas e criam rebanhos (Cf. Gênesis 4:20). Seu irmão, Jubal, foi pioneiro na arte da música. E Tubalcaim foi ferreiro. Por crescer inserido nesta sociedade que propiciou o florescer de sua natureza corrompida, Lameque reproduziu o legado homicida de Caim: “Eu matei um homem porque me feriu, e um menino porque me machucou. Se Caim é vingado sete vezes, Lameque o será setenta e sete”. (Gênesis 4:24).
    
Vejamos, agora, a sociedade oriunda de Sete. Ele gerou um filho chamado Enos. Conforme a Bíblia afirma: “Nessa época começou-se a invocar o nome do SENHOR”. (Gênesis 4:26). O texto hebraico, de forma transliterada, afirma: “vayiqra´ shemo-`et `enosh `az huchal liqro`beshem `adonay” – “Ele chamou o nome dele de Enos. Então ele começou chamar pelo nome de SENHOR”. Ou seja, Enos, cujo nome significa ser humano/homem, passou a invocar o nome do SENHOR. Vemos aqui, ainda não na forma estabelecida por intermédio de Moisés, o ministério sacerdotal.
    
Diante desta análise, surgem algumas indagações: De onde Enos tirou a ideia de invocar o nome do SENHOR? Foi ele ensinado pelo pai, ou aprendeu sozinho? Quem lhe transmitiu o conhecimento do SENHOR de modo que O invocasse? Apesar de a Escritura não dizer explicitamente, a própria narrativa em si é um indício de que Enos foi ensinado a realizar esta invocação, este culto racional.
    
Invocar o nome do SENHOR. Não foi em vão que Jesus, ao ensinar Seus discípulos como orar, declarou: “Pai nosso que estás nos céus, santificado seja o seu nome.” (Evangelho segundo Mateus 6:9 – Ênfase acrescentada). Ao falarmos neste princípio, não há como não evocar o diálogo entre Deus e Moisés: “Moisés perguntou: ‘Quando eu chegar diante dos israelitas e lhes disser: O Deus de seus antepassados me enviou a vocês, e eles me perguntarem: ‘Qual é o seu nome?’ Que lhe direi?’. Disse Deus a Moisés: ‘Eu sou o que sou. É isto o que você dirá aos israelitas: Eu sou me enviou a vocês’”. (Êxodo 3:13-14).
    
Neste mote, podemos afirmar que invocar o nome do SENHOR significa declarar, prestando-lhe o culto racional, que Ele é o único e verdadeiro Deus de modo a viver segundo tal declaração. O apóstolo Paulo, citando o profeta Joel, declarou: “Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo” (Romanos 10:13). Pedro, em sua mensagem após o evento em Pentecostes, também. Ambos usaram a expressão epikalésetai, cujo significado é clamar. De acordo com o Léxico do Novo Testamento de Wilbur Gringrich e Frederick Danker, esta expressão é usada para indicar que a pessoa invocada é pertencente ao nome que ela possui[1].
    
Às vésperas da encarnação de Jesus Cristo, o anjo advertiu a José sobre a gravidez de Maria: “Ela dará à luz um filho, e você deverá lhe dar o nome de Jesus (Yahoshua/Yeshua – Yahweh/Yaho salva), pois ele salvará o povo de seus pecados.” (Evangelho segundo Mateus 1:21). O nome determina o ser. O ser, por sua vez, determina o fazer. Jesus não se tornou O Salvador por salvar. Ele salvou – e salva - por ser O Salvador desde antes da fundação do mundo (Apocalipse 13:8).
    
As ideologias existentes no mundo não visam apenas prover uma ética para a humanidade seguir e, através dela, encontrar sentido existencial. Mas, principalmente, redimi-la. Todas elas têm início na premissa de que o mundo está caótico. Uma das diferenças entre elas, no entanto, é a situação do ser humano em relação a tal realidade.
    
Invocar o nome do SENHOR é resultado de se ter a consciência de que o mundo está caótico por culpa do próprio homem. Seu pecado degradou o ambiente em que habita (Cf. Gênesis 3:17). Por isso, não há redenção do mundo sem a redenção do homem. Esta, por sua vez, se dará apenas pela obra de Jesus Cristo, o Deus que se fez homem. É neste mote que o apóstolo Paulo declarou: “Pois a natureza foi submetida à inutilidade, não pela sua própria escolha, mas por causa da vontade daquele que a sujeitou (o ser humano), na esperança de que a própria natureza criada será libertada da escravidão da decadência em que se encontra, recebendo a gloriosa liberdade dos filhos de Deus” (Romanos 8:20-22).
    
O materialismo histórico/dialético, que desfruta de hegemonia no pensamento coletivo, não considera a depravação humana (antropológica). Na contramão, propõe apenas uma redenção social (que contempla a cultura, a educação, a política e a economia) como “solução final”. Sim, o termo pertencente ao movimento nazista vem bem a calhar. Anulando a necessidade de redenção do ser humano, anula-se, subitamente, O Redentor. Assim, não há razão para invocar o nome do SENHOR. Cria-se, a partir de então, uma sociedade anticristã.

Foi exatamente isto que o apóstolo Paulo exprimiu em sua carta aos romanos: “... trocaram a Glória do Deus imortal por imagens feitas segundo a semelhança do homem mortal (...) Trocaram a verdade de Deus em mentira, e adoraram e serviram a coisas e seres criados em lugar do Criador, que é bendito para sempre. Amém” (Romanos 1:23 e 25). O culto a Deus foi substituído pelo culto ao homem. Ele divide-se em duas partes: O culto ao homem em si e o culto à sua obra.
    
No outro polo, temos o libertarianismo que manifesta um materialismo característico. Ele vê, à semelhança do histórico/dialético, qualquer figura de autoridade como elemento opressor. Contudo, na contramão do supracitado, ele não se resume à ética social promovida pelo Estado (Status Quo), mas à capacidade redentora do próprio homem, sem precisar da ajuda (capacidade) ou intervenção (autonomia) de ninguém. O que, além de desconsiderar a obra redentora de Jesus Cristo, elimina o princípio comunitário – e não comunista - do cristianismo.
    
Caim, embora reconhecendo seus pecados de idolatria e de fratricídio, - cujo reconhecimento não foi fruto de arrependimento, mas da abordagem disciplinatória de Deus sobre ele - não se atentou à necessidade de se redimir. Sintoma da plena ausência de culto racional. Conforme afirmei no livro Culto Racional:

“... a base de um culto racional é a consciência de que somos pecadores e a consequente necessidade de redenção que temos ao ponto de desejarmos ser libertos e redimidos como fruto de Sua misericórdia e Graça (I João 4:10). Este desejo nos leva a renunciarmos nossa vontade e realizarmos a vontade de Deus como consequência de seguirmos a Cristo (Evangelho segundo Mateus 16:24). Este processo é chamado de cristianismo”.[2]



[1] GINGRICH, F. Wilbur. Léxico do Novo Testamento: grego, português; revisão Frederick W. Danker; tradução Júlio P. T. Zabatiero – São Paulo: Vida Nova, 2007, p. 83.
[2] VIANA, Matheus. Culto racional: A interação entre as razões divina e humana - Ribeirão Preto: Legis Summa, 2016. p. 50.

terça-feira, 9 de maio de 2017

Cognição emocional

Matheus Viana    

Entre a informação que recebemos e o conhecimento que, a partir dela, desenvolvemos há a cognição. Para melhor compreensão deste tema, devemos considerar o conceito judaico – do qual o cristianismo primitivo utilizou – de ser humano. Quando um judeu se refere ao nefesh, traduzido para o português como alma, não fala apenas do interior do homem, tampouco se refere àquilo que os gregos chamaram de psique. Mas fala do homem integral. Conforme afirmei no livro Culto racional, os judeus não fazem distinção entre corpo e alma, comum no pensamento grego que influenciou o pensamento ocidental, incluindo o cristianismo. Além disso, também não considera a distinção entre céfalo (cérebro) - e noia/nous (mente) - e psique, também conhecida como neuro e psico.
     
Jean Piaget, ao seu modo, chamou este processo de equilibração majorante. Nesta teoria, a captação da informação – que recebemos através de nossos sentidos - é chamada de assimilação e a obtenção do conhecimento de acomodação. A cognição é composta de dois elementos distintos, porém coesos: razão e emoção.  O que significa que um não é completamente destituído do outro. Eles abarcam seus respectivos desdobramentos, que Herman Dooyeweerd chamou de aspectos modais ao descrever a experiência do ser humano com a realidade que o cerca[1].
     
Dooyeweerd dividiu esta experiência em duas atitudes: a pré-teórica, que é o conjunto de premissas  que fundamentam o modo como o indivíduo interpreta suas experiências empíricas (senso-percepção); e a teórica que é o ato da cognição em si. Assim, vemos que ele chamou de atitude pré-teórica as premissas de fé que interpretam as informações que o ser humano recebe, e a teórica o processo de transformar estas informações em conhecimento. A atitude teórica, segundo Dooyeweerd, se divide em dois aspectos: lógicos e não-lógicos.[2] Ele classificou como lógicos os aspectos concernentes à razão. E como não-lógicos os concernentes à fé e também a emoção/afeto. Podemos ver, portanto, que ele chamou cognição de atitude teórica.
     
Nossa reação diante de uma informação nova, no caso positivo, será, no momento da assimilação - ou da atitude pré-teórica - de admiração e depois de um esforço racional para acomodá-lo. No caso negativo, será de rejeição, o que acarretará, em algumas vezes, na eliminação do próximo passo. Quando criança, o ser humano não é capaz de distinguir estes dois elementos com seus respectivos aspectos. Por isso é comum entre os adolescentes e jovens, embora mais frequente nas mulheres, um(a) aluno(a) se apaixonar pelo(a) professor(a). Pois sentirá admiração pelo que aprendeu e não conseguirá, por conta de sua incapacidade de discernimento, separar o conteúdo ensinado de quem o ensina. Na medida em que amadurece, o indivíduo consegue colocar cada elemento em seu devido lugar.
     
Os gregos, principalmente Platão e seus discípulos, diziam que uma pessoa virtuosa é aquela cujos desejos são governados pela razão. No caso do cristão, Cristo governa sua razão e esta, por sua vez, governa suas emoções (II Coríntios 10:5-6). Suas ações serão demonstrações de tal governo. Mas no indivíduo infanto-juvenil, esta capacidade (virtude) ainda não está amadurecida. Diante do novo, em muitos casos, a emoção guiará sua cognição. Embora saiba que a vontade de Deus, revelada em Sua Palavra, seja a coisa correta a fazer (razão), o indivíduo irá preteri-la diante de sua vontade, pautada majoritariamente nas emoções.
     
Diante de uma proposta inédita que lhes for apresentada (informação), como por exemplo, a do homossexualismo, alguns agirão (assimilação) com curiosidade, que é uma maneira como a admiração se manifesta. Devido à incapacidade de desmembrarem emoção de razão, peculiar do período etário, tal curiosidade dará a estes indivíduos a impressão de que nutrem, de fato, um desejo pelo mesmo sexo. O que os levará a deduzirem (acomodação), por eles mesmos, que são homossexuais. Há um salto de mera curiosidade para a ilusória definição de sua identidade, o que se tornará hábito.
     
O desejo, oriundo da curiosidade, fará a razão sucumbir diante dele. No entanto, há outro problema ainda mais grave. O padrão ético/moral – no qual a razão se fundamenta - atual é definido pelo Estado com todos os seus tentáculos, utilizados na destruição de todo padrão ético/moral fundamentado nos absolutos de Deus ao homem (antropológico) e ao universo (cosmológico), chamando-os de construções sociais. Vide a questão, por exemplo, da identidade de gênero. Neste rolo compressor relativista, a família, principal ente responsável pela formação do indivíduo e base da sociedade, é alvo de severa degradação.
     
O ideal do Estado, como instrumento do movimento revolucionário, é suprimir a moral judaico-cristã para estabelecer uma moral soberana, pautada puramente nos desejos humanos. Proposta elucidada por Friedrich Nietzsche, ao definir o que chamou de moral nobre, que denominou como vontade de poder. Vale lembrar que seu raciocínio está fundamentado na vontade de viver elucidada por Arthur Schopenhauer, que afirmou ser vontade a essência humana. Ou seja, o ser humano não apenas possui vontade. Ele é vontade. A partir desta premissa, afirmou que o caráter humano se divide em três partes: inteligível, empírico e adquirido. O inteligível, segundo ele, é o conhecimento racional da vontade. Sobre o empírico, afirmou: “O caráter empírico, simples instinto natural, é em si desprovido de razão. Suas próprias manifestações são impedidas pela razão...”[3].
     
Neste raciocínio, Schopenhauer definiu justiça como o ato de permitir que o indivíduo realize sua vontade (que ele não diferenciou de instinto), pois isso significa que ele está vivendo; e injustiça como o ato de impedir, por qualquer meio, que o indivíduo realize sua vontade, pois isso significa que ele está morrendo. É notório que, nesta proposta, a razão se transforma em obstáculo do livre fluir da vontade, por isso é rechaçada. A consequência é o estabelecimento da supremacia das emoções.   
     
No entanto, séculos antes, Agostinho de Hipona desvendou este enigma em seu livro Cidade de Deus quando falou do caráter do império romano e seu ataque contra a Igreja Cristã. Conforme preconizou Karl Marx em seu livro A ideologia alemã, o homem é aquilo que faz, e não o que pensa. Segundo ele, as ações do homem são determinadas pelos seus instintos e desejos, e não por um padrão racional determinado pela burguesia.
     
Mas algo a ser considerado é que, para Marx, os instintos e desejos humanos se resumem na busca pela libertação da “opressão burguesa”, representada pela moral judaico-cristã. Todas as demais vertentes deste pensamento no âmbito sociocultural, com suas muitas nuanças, emanam desta fonte, que nada mais é do que desdobramento do episódio ocorrido no Éden entre o ser humano e Deus. Ao ver a ética que Deus lhe estabeleceu como privação da liberdade (interpretada como uma autonomia utópica), cuja deturpação foi fruto da mente corrompida pelo engano de Satanás, o ser humano desejou o ilícito e irrompeu em sua rebeldia contra Deus e Seus mandamentos. Qualquer semelhança não é mera coincidência.
     
Ainda que não possa ser considerado como um movimento homogêneo, parte considerável do pensamento iluminista do século 18 visou, no afã pela mesma liberdade (autonomia) que o homem buscou no Éden, que a razão deixasse de ser influenciada – e em alguns casos governada - pela teologia cristã. É considerado por muitos como o ápice do período chamado de modernidade. Mas o resultado foi uma razão centrada em si mesma, não tendo nada além dela. Com isso, a tão buscada liberdade se transformou numa máquina regida pelos ditames racionais. A saída foi o salto existencial, que marcou o período pós-moderno. A posição em que a sociedade se encontra é uma síntese de toda esta miscelânea. O salto existencial não visa somente libertar o homem das correntes da razão, mas também dos absolutos de Deus (chamados de religiosos) que não são somente racionais. Pois qualquer absoluto é visto como elemento opressor.
     
Um fator preponderante é que o conhecimento que tem regido as ações de muitos indivíduos que se confessam cristãos não está fundamentado em Cristo. É comum o fato de alguns jovens cristãos, vítimas do processo elucidado nas linhas acima, orarem para que Deus tire desejos pecaminosos de seus corações. Pelo fato de tal clamor não ser atendido, deduzem que o próprio Deus, por ser soberano, colocou tais desejos. Tanto a oração como a dedução são equivocadas por estarem baseadas puramente nas emoções. Em outras palavras, na vontade de viver e de poder.
     
Fica nítida neste caso a falta de um pensamento alicerçado nas doutrinas da soberania de Deus e da pecaminosidade e responsabilidade humanas. O motivo? Informação incorreta. Eis a lógica: Informação incorreta gera conhecimento incorreto que redunda em ações incorretas. Diante deste quadro, convém questionar: Quais informações os jovens têm recebido?
     
O evangelho autoajuda atualmente disseminado deturpa a imagem de Deus, do ser humano e do relacionamento entre ambos. Por ser um evangelho egocêntrico, a soberania de Deus é reduzida ao desejo humano. Pecado gera culpa, que por sua vez gera mal-estar existencial. Logo, é necessário transferir a culpa do pecado para a soberania de Deus. Proposta pra lá de indecente. De tal forma, temos o disseminar de um evangelho que não confronta o pecado a fim de libertar o homem de sua terrível condição, fazendo valer o fruto do penoso trabalho de Cristo (Isaías 53:10). Mas o de causar bem-estar.
     
O apóstolo Paulo falou de dois tipos de tristeza, que podemos interpretar como mal-estar: o gerado por Deus, através do arrependimento que é fruto da ação do Espírito Santo em nós; e o do mundo (II Coríntios 7:10). Mas em nenhum momento fala de bem-estar ou conforto. Apesar de serem expressões semelhantes, confronto é completamente diferente de conforto. O Evangelho nos confronta visando nos conformar a Cristo, o padrão perfeito de Deus ao ser humano (Efésios 4:13). O conforto é um estágio posterior. Assim, não há verdadeiro conforto, que a Bíblia chama de descanso, sem confronto. Se o cristianismo que você vive é confortável, não é cristianismo. É idolatria. Ou melhor, é um engodo religioso construído por uma cognição emocional.





[1] DOOYERWERD, Herman. No crepúsculo do pensamento: Estudos sobre a pretensa autonomia do pensamento filosófico. São Paulo: Hagnos, 2010. p. 57.
[2] Ibid. p. 54
[3] SCHOPENHAUER, Arthur. Do mundo como vontade e representação: Como vontade – Segunda consideração. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012 (Saraiva de bolso). p. 68.