terça-feira, 4 de outubro de 2011

Triunfalismo delirante


 

A fé, mesmo com um discurso positivo nos lábios, é pavimentada por um coração humilde que sabe reconhecer as fraquezas que nele residem. Já o orgulho as ignora.

Matheus Viana

As profecias de Jesus, na maioria das vezes, possuem duas conotações distintas: a curto e a longuíssimo prazo. O aviso que deu aos discípulos, dias antes de ser crucificado em Jerusalém, não foi diferente: “Todos vós vos escandalizareis, porque está escrito: Ferirei o pastor, e as ovelhas ficarão dispersas”. (Evangelho segundo Marcos 14:27).

Advertência completamente atual. A iminência da aprovação de leis que impedem observâncias bíblicas apenas comprovam a veracidade do veredicto messiânico. Em breve seremos considerados criminosos por vivermos e disseminarmos as verdades bíblicas (Evangelho segundo Mateus 24:9-10). Os verdadeiros sacerdotes serão feridos e muitos se dispersarão.

Em outras palavras: a perseguição virá. Ou seja, se intensificará. Pois os que observam e propagam os princípios contidos nas Sagradas Escrituras têm sido feridos de diversas formas. O que chama atenção na narrativa de Marcos, no entanto, é a postura dos discípulos, principalmente a de Pedro.

Ao ouvir a advertência de Jesus, foi rápido no gatilho: “Ainda que todos se escandalizem, eu, jamais!”. Quanta confiança! Excesso baseado em pura prepotência. Orgulho que lhe custou caro. Como já dizia o sábio Salomão, a soberba precede a ruína (Provérbios 16:18). Em amor, Jesus lhe advertiu novamente: “Em verdade te digo que hoje, nesta noite, antes que duas vezes cante o galo, tu me negará três vezes”.

Que balde de água fria! Jesus precisava ser tão pessimista assim? Precisava. Não era mera desconfiança, e sim a revelação plena dos limites de Pedro. Jesus sabe distinguir palavras evasivas, embora entusiasmadas, destoantes de um coração temeroso. Contudo, Pedro, mesmo desnudado, não se rendeu: “Ainda que me seja necessário morrer contigo, de nenhum modo te negarei”.

Conhecemos o desfecho deste episódio. Apesar de enfrentar os soldados romanos no momento em que Jesus era preso, no Getsêmani (Evangelho segundo João 18:10), Pedro titubeou exatamente como o Mestre havia predito (Evangelho segundo Marcos 14:66-72). Todavia, um detalhe tem passado despercebido nos muitos sermões sobre suas afirmações prepotentes: Marcos diz que todos os doze discípulos disseram o mesmo (Evangelho segundo Marcos 14:31).

Tal narrativa é a descrição exata da Igreja atual. Temos buscado um padrão de excelência que, em muitos aspectos, não condiz com o que Jesus espera dela. O foco divino é e sempre será a qualidade que culminará na Igreja Gloriosa (Efésios 5:27). Muitos filhos, sim, mas conforme à imagem de Jesus (Romanos 8:29). É comum pessoas dizerem, em uníssono, que não abandonarão a fé mesmo nas situações mais adversas. Mas, basta uma adversidade para que o discurso e a atitude mudem.

A linguagem da fé é totalmente diferente do triunfalismo delirante. A fé, mesmo com um discurso positivo nos lábios, é pavimentada por um coração humilde que sabe reconhecer as fraquezas que nele residem (Salmos 51:17, Jeremias 17:9). Já o orgulho as ignora. Paulo era um homem que nutria a linguagem da fé (Filipenses 3:14) e, ao mesmo tempo, sabia reconhecer suas debilidades (II Coríntios 12:10).

O cristianismo presente se baseia em retóricas ufanistas. Aquele que se mostrar o mais compromissado com a causa, mesmo não estando em seu coração, é o modelo de excelência. No entanto, conforme Jesus disse aos discípulos, seremos peneirados como o trigo. E, embora o espírito pareça pronto, a carne é fraca (Evangelho segundo Marcos 14:38). Na hora ‘h‘, irão sucumbir.

Não se trata de pessimismo, mas de simples constatação. Pedro já havia recebido a profecia de que seria o protagonista do estabelecimento da Igreja de Jesus sobre a Terra (Evangelho segundo Mateus 16:18), porém ainda não estava pronto para tal façanha. Mesmo assim, quis impressionar o Mestre. Por se portar como um triunfalista delirante, provou do dissabor do fracasso. Que não trilhemos esta rota!

Nenhum comentário:

Postar um comentário