Matheus Viana
Me expresso constantemente sobre a relação entre fé e
razão. Mesmo assim, quero refletir sobre um episódio vivido por Jesus. “O profeta não tem honra em sua própria
casa.”, proferiu em determinada ocasião. Passado certo tempo, Ele voltou à
Galileia. Aproveitando o ensejo, visitou a cidade de Caná, local onde
transformara água em vinho. Quando ali chegou, foi, de súbito, abordado pelo
oficial de um rei, cujo filho estava gravemente adoecido em Cafarnaum
(Evangelho segundo João 4:46).
O oficial suplicou-lhe: “Senhor, vem, antes que meu filho morra!”. Jesus, porém, não foi. O
quê? Ele não atendeu tal
súplica? Ele que pregava
sobre amor e compaixão?
Isso mesmo. Ao invés de ir com o oficial, fez algo prático e eficaz. Disse-lhe:
“Pode ir. Seu filho continuará vivo.”
(Evangelho segundo João 4:50).
O primeiro aspecto evidente é o fato de que o oficial
reconheceu Jesus como o Messias, por isso chamou-lhe de Senhor. Ele sabia que Jesus poderia reverter a drástica e dramática
situação de seu filho. O segundo aspecto é o modo como Jesus agiu:
simplesmente... falou.
Palavras. Elas podem mais do que imaginamos. Pela palavra
Deus criou todas as coisas que o ser humano não é capaz de criar, Jesus venceu
a tentação no deserto... Enfim, poderíamos discorrer sobre os muitos exemplos
descritos nas Escrituras falando da importância e da crucialidade da palavra em
suas diversas formas.
No entanto, há quem ainda a menospreze. Vociferam: - “A
Bíblia diz que a palavra mata, mas o Espírito vivifica”. Tal argumento apenas
evidencia a precariedade da exegese aplicada. Pois Paulo afirmou: “A palavra, por si só, mata, mas o Espírito vivifica.” (II Coríntios 3:6 –
Ênfase acrescentada). São muitos os argumentos que refutam quem diz que a razão
é inimiga da fé. No entanto, o propósito deste texto não é “dar tiro de calibre
doze” em pernilongo.
O conhecimento que temos de Jesus, conforme Ele mesmo
preconizou, dá-se através das Escrituras (Evangelho segundo João 5:39). Ou
seja, da mensagem sobre o que Ele foi, é e será, seja através da palavra
escrita ou falada. De acordo com o próprio Jesus, o Espírito Santo age de
acordo com as Escrituras: “Mas o
Consolador, o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, vos ajudará,
vos ensinará, e vos fará lembrar de tudo
o que tenho dito.” (Evangelho segundo João 14:26 – Ênfase
acrescentada).
Jesus apenas falou. Atitude mais do que suficiente. Além do
fato de, como Deus, ser a Logos
divina, conhecia, como homem, a Lei e os Profetas. Ele tinha permissão de ensinar
nas sinagogas porque era um Rabi (mestre da Lei). Mas era muito mais do que um
mero erudito. Ele era – e é – a Palavra que é Espírito e vida (Evangelho
segundo João 6:63). Jesus é a plena convergência do natural (razão, sabedoria)
com o sobrenatural (fé, poder). Este caráter é elucidado pelo apóstolo Paulo em
sua carta aos coríntios: “Jesus é a
sabedoria e o poder de Deus.” (I Coríntios 1:24).
Mas algo que chama a minha atenção neste episódio é o
fator tempo. No exato momento em que Jesus emitiu uma palavra ao oficial, seu
filho foi curado da enfermidade que o assolava. Simples assim. Não houve
esperneio. Não houve tremor. Nada. Esta cura foi resultado do encontro
sobrenatural entre o kairós (tempo de
Deus, eternidade) e o chronos (tempo
terreno). Toda palavra, cuja essência seja o Espírito Santo, tem esta
capacidade.
Em sinergia com a palavra de Jesus, vemos o florescer da
fé do oficial. Fatores determinantes que desencadearam a cura de seu filho. Uma
não anda sem a outra. Conforme preconizou Agostinho, a razão é serva da fé. O
fundamento da fé é a palavra. Por isso o apóstolo Paulo elucida: “A fé vem pelo ouvir, e o ouvir vem pela
palavra.” (Romanos 10:17). No nosso caso, que cremos em Jesus, que é Deus, a nossa fé é
pavimentada pela Palavra (logos) de
Deus (Theos), que forma a sentença no
grego Theologos, de onde deriva o
termo teologia. Entendeu onde quero
chegar? Sim, a teologia é aliada
da fé. Jesus, no episódio aqui analisado, demonstrou e testificou tal verdade.
“Assim
também ocorre com a palavra que sai da minha boca: ela não voltará para mim
vazia, mas fará o que desejo e atingirá o propósito para o qual a enviei.” (Isaías 55:11). Jesus conhecia tal sentença.
Muito boa abordagem Matheus.
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