segunda-feira, 10 de abril de 2017

O brilho das candeias - Parte I

Matheus Viana




“Quem traz uma candeia para ser colocada debaixo de uma vasilha ou de uma cama? Acaso não a coloca num lugar apropriado?”

(Evangelho segundo Marcos 4:21).



É incrível ler os ensinamentos de Jesus e ver a forma inteligente como levava Seus ouvintes neles refletirem. O trecho acima citado é um exemplo. É nítido, ao analisar tais palavras, que quem traz consigo uma candeia possui um propósito em tal ação. E ele está implícito na existência deste objeto. Surgem, então, as seguintes questões: O que é uma candeia? Qual sua finalidade? Como utilizá-la?



Ela também é conhecida como candeeiro ou candelabro (menorah), utensílio outrora utilizado no tabernáculo, e posteriormente no templo, para iluminar. Contudo, para entendermos o que Jesus quis dizer, não basta pensarmos nela apenas em sua função de iluminar, mas em todas as suas características.

    

Comecemos, porém, com esta. Sabemos que a luz também ilumina as trevas. Lembrando que trevas não possui existência como substância (ontológica), mas é a ausência de luz. A luz originada pela Palavra de Deus não foi apenas algo que iluminou. Na narrativa de Gênesis, trevas era o vazio, e a luz era a manifestação do Criador, O Verbo, em seu ato de criar (Gênesis 1:3, João 1:1-3). A versão hebraica de Gênesis 1:3, em sua forma transliterada, diz: “Vayomer Elohim yehi or vayehi or”, cuja tradução literal é: “Disse Deus: Seja luz e ele foi luz”. Assim, a criação foi (e é) como que uma candeia que refletiu a luz do Criador (Salmos 19:1, Romanos 1:18-19).

    

A primeira vez que algo relacionado à candeia ou candelabro aparece na Bíblia – o que não significa que não existia até então - é no livro de Êxodo, quando Deus ordena a Moisés sua construção a fim de servir como utensílio tabernacular (Êxodo 25:31-37). Seu devido funcionamento era à base de azeite puro de olivas batidas (Êxodo 27:20). É impossível não associar tal característica com o episódio de Jesus no Getsêmani, que ficava no jardim das Oliveiras (Evangelho segundo Lucas 22:39-45). Ali, Ele foi esmagado em Sua alma para depois ser dilacerado em sua carne. O azeite necessário para que sejamos iluminados é o Seu sangue vertido no madeiro, resultado do fato de Ele ter sido, como homem perfeito, completamente moído pelas nossas transgressões e iniquidades (Isaías 53:5, Romanos 3:25), bem como a ação do Espírito Santo que nos foi concedido após esta obra magna.

    

Jesus disse que somos a luz do mundo (Evangelho segundo Mateus 5:14) que, por sua vez, está coberto por trevas (Isaías 60:2). A expressão traduzida para o português como luz é fos, que é derivada de fotós, de onde se origina a expressão foto. Fos é a luz refletida para captação de uma imagem pelos olhos, o refletir da imagem como um prisma. Portanto, somos candelabros que refletem a luz (imagem) de Cristo. Assim como a luz do próprio Deus se manifestou em meio às trevas na criação, somos chamados a refletir Cristo em um mundo repleto de trevas. Eis o nosso mandato cultural ou culto racional.

    

Receber o azeite puro de olivas batidas, portanto, simboliza o fato de nossa vida, por completo, estar fundamentada no sacrifício de Cristo. É isso que Paulo afirmou em sua carta aos coríntios: “Pois decidi nada saber entre vós, a não ser Jesus Cristo, e este crucificado.” (I Coríntios 2:2). O que corrobora no fato de tomarmos a nossa cruz (Evangelho segundo Mateus 16:24). Os apóstolos foram candelabros porque participavam do sofrimento de Cristo. Refletir a luz de Cristo, no entanto, é ser sua testemunha. (Relação entre Apocalipse 2:4 e Mateus 25:1-13) (Cf. João 1:8, Atos 1:8).

    

Jesus disse que os olhos são a candeia do corpo (Evangelho segundo Mateus 6:22). O texto grego diz: “ó luxnós tou somatos estin ó oftalmos”, cuja tradução literal é: “A lâmpada/candeia do corpo é os olhos”. A expressão traduzida como candeia é luxnós que, diferente de fos ou fotós, é a luz que ilumina, por isso é traduzida como lâmpada ou candeia. Diante deste fato, devemos questionar: Qual a luz que ilumina (fundamenta) a nossa cosmovisão? A imagem de quê ou de quem ela tem refletido? 


Continua...

quinta-feira, 9 de março de 2017

A relativização substancial



Matheus Viana

Toda palavra carrega consigo algumas propriedades. Cito três: um significado semântico, um propósito ao ser emitida e uma tonalidade determinada pela carga emocional de quem a emite. A primeira e a segunda são de ordem racional; a terceira, de ordem emocional.


Jesus é apontado no livro de João como Logos (Evangelho segundo João 1:1). Esta expressão, por ser uma palavra, é composta das propriedades citadas acima. Conforme vimos no livro Culto racional, João quis mostrar que o significado de Logos aplicado a Jesus era completamente diferente do que possuía no senso comum de sua época, pautado na cultura grega. Quis mostrar que Jesus não era apenas uma personificação da mente de Deus, uma espécie de Demiurgo que criou o mundo sensitivo; mas que era O Eterno que deu origem ao universo e a tudo o que nele há, seja de caráter natural ou sobrenatural.


João, portanto, mudou o significado semântico de Logos. Pois revelou não apenas o caráter racional desta expressão, mas também o espiritual. Evidenciou a síntese entre ambos. Seu propósito foi revelar quem, de fato, Jesus é. A tonalidade com que a proferiu foi por conta de ter andado com Ele e tê-Lo visto ressuscitado (I João 1:1-2), e não como resultado de um mero espasmo emocional ou psicológico.


Atualmente, os significados que aplicamos às palavras são definidos pelas nossas cargas emocionais. O aspecto sentimental tem a primazia – para não dizer supremacia - em relação ao racional/espiritual. Veja, por exemplo, a definição de templo de acordo com os paradigmas atuais. Alguns parecem shopping centers. São representações simbólicas do desejo de seus dirigentes de fazerem com que os frequentadores sintam-se plenamente satisfeitos por serem, primeiramente, atraídos pela beleza externa do recinto. A estética sobrepuja a essência. Assim, o belo, enquanto massageia o ego, cria em tais indivíduos a expectativa imaginária de que seus anseios serão saciados.


A velha máxima da economia corporativa de criar a demanda e posteriormente a oferta está em voga. Tal fato é o sintoma da acomodação à cultura consumista. Assim, a fé vira objeto mercadológico, com tabela de preços para a oração e o sermão. “Unção” e “profecia” são itens a parte no cardápio. Se estivesse em nosso meio, Jesus repetiria o episódio em que expulsou os cambistas do templo em Jerusalém.


Com isso, a definição (significado semântico) de Igreja sofre desgaste e seu propósito sofre um contundente desvio. Ao invés de ser a comunidade dos salvos que se reúnem para prestar a Deus o Culto racional que Lhe é devido, passa a ser um conjunto de pessoas que se reúnem com o único propósito de satisfazer necessidades pessoais. Isto quando não é para reunião de marketing multinível. Um culto puramente humanista, egocêntrico, ególatra. Tudo isso, portanto, é efeito do fato de a definição de quem é Jesus ser vítima de uma grave deturpação.


Quando Ele não é um mero modelo de militância política/social, como alguns adeptos da teologia da libertação O definem, é um agente das bênçãos materiais e físicas, como a teologia da prosperidade O define. Ambas são aberrações provenientes de uma definição de Jesus pautada nos moldes sentimentais e, por conseguinte, materialistas. Como outras existentes no vasto mercado da fé, são produtos de uma profunda devoção às emoções. Afinal, na presença de Deus há abundância de alegria. Logo, um cristão não pode viver triste. Por isso não pode sofrer angústias e padecer males.


Neste mosaico do pseudo-evangelho, o significado de alegria, como você pode notar, também foi deturpado. É visto como satisfação de desejos ou, como em alguns casos, produto de um modelo de culto que tem se tornado cada vez mais comum: o do entretenimento. Assim, o significado que a Sagrada Escritura contempla: o do contentamento, sai de cena, literalmente, do teatro da fé. Ou seria do picadeiro? Não, não é do cinema?

Se a definição de quem é Jesus for deturpada, tudo o mais será. Por isso o apóstolo Paulo afirmou, com forte convicção, que considerou todas as outras coisas como esterco para obter o conhecimento de quem Cristo é (Filipenses 3:7-9). Pois sabia que isso transformaria sua vida de forma completa. Eis aí outra palavra que sofreu deturpação: conhecimento. Há duas definições dominantes em voga: uma que preconiza que Cristo é um mero personagem histórico e, por isso, deve ser estudado de acordo com os parâmetros racionais da história, eliminando qualquer atributo de caráter sobrenatural (chamado por seus representantes de mítico); e outra de que tal conhecimento pode ser obtido apenas por experiências espirituais livres de toda “teologia inútil”.


Trata-se da polarização: liberalismo x pentecostalismo. Ambos são de caráter gnóstico. Sim, refiro-me à seita oriental que perturbou a Igreja em seus primeiros anos de existência e que preconizava, grosso modo, que um determinado conhecimento de Jesus, revelado a poucos escolhidos, garantia a salvação do homem, e não Seu sacrifício perfeito consumado no calvário. Para uma, o “conhecimento especial” é obtido através do racionalismo. Para a outra, é obtido através de experiências “sobrenaturais” em momentos de “êxtase espiritual”. A exacerbação do sentimentalismo floresce, e o ensino ortodoxo da Sagrada Escritura é deixado de lado. Afinal, a “palavra mata, mas o espírito vivifica”. Eis um exemplo clássico da regra básica da hermenêutica: Texto fora de contexto vira pretexto.


Diante desta realidade, surge outro termo cujas propriedades sofreram degradação: espiritualidade. O catálogo de definições é vasto. De rodopios, passando por voo da águia, até a unção do cachorro que urina nos quatro cantos de uma cidade para “marcar território”. Literalmente, “coisa do cão”. Você acha que é brincadeira? Queria que fosse. Recuso-me a entrar nos pormenores dos atos proféticos por respeito ao meu e ao seu bom senso. Não é, todavia, a expressão ato profético vítima de degradação em suas propriedades? A resposta é óbvia.


Assim como a definição de quem Jesus é foi deturpada, a de quem é o ser humano também foi. Aqui vemos outra polarização. Em um polo, ele é um deus. No outro, um miserável condenado à ira divina, totalmente destituído da Imago Dei. Resumindo, um demônio. A Sagrada Escritura, todavia, não abarca tais definições. O homem é um ser formado à imagem de Deus. No entanto, por conta do pecado original, esta imagem foi perdida - e não extinta -, o que deixou o homem à mercê de sua natureza corrupta. Deus, em Sua terceira pessoa (Espírito Santo), habita no homem restaurando-lhe Sua imagem (II Coríntios 3:18). Tal processo, todavia, só acontece após a regeneração que Ele (Espírito Santo) opera no interior do homem quando Jesus torna-se Senhor e Salvador de sua vida.


Eis o cerne do problema: Pelo fato da definição de quem é Jesus ter sido deturpada, Seu Senhorio sobre o ser humano também foi. Se Jesus não é quem realmente é, não é visto e reconhecido como o SENHOR. Consequentemente, a definição de cristianismo é deturpada. No começo de tudo, Deus falou, A Luz se manifestou e tudo criou. Jesus é a manifestação da Palavra, A Luz que deu origem à criação (natureza). A Palavra, contudo, tem sido deturpada. Logo, toda a criação, como um efeito cascata, também. (Gênesis 3:17). Por isso, conforme elucidou o apóstolo Paulo, ela “... aguarda, com grande expectativa, que os filhos de Deus sejam revelados” (Romanos 8:19).

Bem vindo à realidade nua e crua! Precisamos aprender quem, de fato, Jesus é a fim de que possamos revela-Lo ao mundo  e responder à expectativa elucidada pelo apóstolo Paulo.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

O alicerce do conhecimento - Parte II

Matheus Viana

Um método do conhecimento, qualquer que seja, precisa de absolutos, abstratos ou concretos, que sejam usados como fundamentos e referências do objeto a ser conhecido. Na tentativa de estudar o homem (antropologia, seja ela biológica, psíquica ou sociocultural) sem a existência de Deus, o padrão referencial utilizado é desprovido de transcendentalidade por ser originado na natureza de forma aleatória (sem propósito). Por sua vez, a natureza que gerou o homem, na concepção materialista/naturalista, teve seu início em leis físicas não conhecidas, conforme afirmou Stephen Hawkins. Para os militantes desta linha de pensamento, estas leis também são naturais e aleatórias.

Contudo, deve-se considerar que tal fato, por mais que não pareça, demonstra o sensus divinitatis que o ser humano possui. Neste caso, a natureza, e consequentemente o próprio homem, são colocados como objetos de fé e culto. O fato de uma ciência ser desprovida de elementos teológicos/cristãos – ou de qualquer outro pensamento transcendental - não anula o fato de que seu exercício, assim como a própria estrutura racional que ela utiliza, demonstram possuir religiosidade. Não é possível dissociar o exercício da razão de pressupostos de fé, também classificados como religiosos.
    
A sabedoria humana que o apóstolo Paulo abordou, portanto, não está desprovida de fé e de religião. A questão é que sua estrutura não está fundamentada em Cristo, mas na natureza deificada. Por isso ele afirmou em sua carta aos romanos: “Trocaram a verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram a coisas e seres criados em lugar do Criador, que é bendito pra sempre.” (Romanos 1:25). Aqui é clara a abordagem do apóstolo, apesar de se referir ao centro de poder do império romano, ao evento ocorrido no Éden. 

O ser humano apenas deu continuidade a este círculo vicioso. Não houve extinção do sensus divinitatis com o fato de Deus deixar de ser o fundamento. Apenas uma drástica substituição de ente a ser cultuado. Para que compreendamos melhor a estrutura da sabedoria humana, deve-se considerar que Paulo dialogou com a filosofia romana, cujo fundamento era a filosofia grega que, por sua vez, sofreu influência da egípcia.
    
A filosofia egípcia, que influenciou os gregos com sua mitologia, era baseada na cosmogonia, onde os entes naturais eram vistos e cultuados como deuses. Hesíodo - com sua teogonia - e Homero não criaram nada novo. Apenas deram outra roupagem ao pensamento egípcio. Mesmo com o fim da chamada era mítica para o advento da chamada era clássica, os pensadores que surgiram, na busca pelo sentido da vida e das coisas, o arché, utilizaram a estrutura cosmogônica.

Embora desprovida de caráter mitológico, os entes naturais foram elevados ao patamar de entes criadores. Os pertencentes a esta corrente de pensamento criam que a origem e, consequentemente, o sentido de todas as coisas não estavam nas divindades, mas na physis, na natureza. Demonstração clara de fé na religião natural. Tais pressupostos foram o fundamento do pensamento dos chamados pré-socráticos, guardadas algumas diferenças entre as escolas pitagórica, eleática e jônica.
    
Embora os pós-socráticos desenvolveram consideravelmente tal pensamento, não houve uma ruptura. Platão, por exemplo, partindo dos ensinos de Parmênides (escola eleática), considerou o mundo das ideias (sobrenatural ou metafísico, abstrato) como elemento que iria formatar e estruturar o mundo dos sentidos (natural, concreto). Ou seja, o fundamento da realidade era algo transcendental. Expressão clara do sensus divinitatis. Para Aristóteles era o ato-puro ou primeiro-motor o elemento originário de todas as coisas. A demonstração do sensus divinitatis, ou senso religioso, nas filosofias platônica e aristotélica foi tão explícita que ambas foram usadas na construção teológica cristã nos períodos patrístico e escolástico, respectivamente.

Mas Paulo não lidou somente com devotos da filosofia grega. Lidou também com judeus. Por isso afirmou em sua primeira carta aos coríntios: “Os judeus pedem sinais miraculosos, e os gregos sabedoria; nós, porém, pregamos a Cristo crucificado, o qual, de fato, é escândalo para os judeus e loucura para os gentios.” (I Coríntios 1:22-23).

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terça-feira, 29 de novembro de 2016

O alicerce do conhecimento - Parte I

Matheus Viana

“Não fui com discurso eloquente, nem com muita sabedoria para lhes proclamar o mistério de Deus. Pois decidi nada saber entre vocês, a não ser Jesus Cristo, e este, crucificado.” (I Coríntios 2:1-2).

Embora registrada há muito tempo, esta declaração do apóstolo Paulo é pertinente a nós. Seu fator central é a proclamação do mistério de Deus. Em algumas traduções aparece o termo testemunho, já que a expressão grega é martírion. Por quê? Que mistério ou testemunho é esse? O Evangelho de Jesus Cristo (Cf. I Coríntios 1:17). O que é Evangelho? As boas novas de Deus aos homens. O que são estas boas novas? Cristo, a imagem do Deus invisível. Sua pessoa, vida e obra.

Por que Paulo não usou em sua declaração o termo evangelion (evangelho), e sim martírion? Este termo é derivado de mártires, que aparece em Atos 1:8, por exemplo, e é traduzido por testemunha. O que ele quis dizer foi que, ao se portar como uma testemunha de Cristo, estava sendo um instrumento usado por Deus para transmitir o conhecimento de quem Cristo é e o que fez e ensinou (Cf. Atos 1:1). Mediante isso, você já parou para pensar por que precisamos obter tal conhecimento?

Conforme preconizaram Agostinho de Hipona em seu livro Cidade de Deus e João Calvino em suas Institutas, o conhecimento do homem é completamente dependente do conhecimento de Deus, revelado em Jesus Cristo (Colossenses 1:15, João 14:9). O conhecimento de Cristo, além de revelar quem Deus é, revela também, além de sua origem, o que o ser humano deve ser e realizar (Filipenses 2:13). Por isso Jesus possui duas naturezas - plenamente Deus e plenamente homem -, conforme afirma o Credo niceno-constantinopolitano, também confirmado no Concílio de Calcedônia (451 d. C.).

Tal conhecimento, entretanto, não se refere a uma espécie de gnosticismo. Não é o conhecimento (gnose) de Cristo quem salva, mas o próprio Cristo (pessoa e obra). Assim, embora o conhecimento do Theologos não seja condição prévia para nossa salvação e redenção, ele é fundamental para a plena restauração da Imago Dei (Imagem de Deus) em nós (Cf. II Coríntios 3:18 e Filipenses 3:7-11) e o consequente cumprimento de Seu propósito. Elementos que o apóstolo Paulo chamou de desenvolvimento da salvação (Filipenses 2:12). Óbvio que ele não se referiu ao desenvolvimento da obra salvadora de Cristo, consumada na cruz (Evangelho segundo João 19:30), tampouco da salvação em si. Mas da restauração da ética de Deus no homem, que é oriunda de Sua essência em nós.

A nossa vida só possui sentido neste conhecimento. Pois fomos formados por Ele, por meio Dele e para Ele (Colossenses 1:16). Fomos criados à Sua imagem e semelhança. Ele é a fonte da vida e de todos os aspectos que a constituem, que foram depravados pelo pecado. Este conhecimento, no entanto, não se dá através da sabedoria humana. Sobre isso, o apóstolo Paulo afirmou: “Visto que, na sabedoria de Deus, o mundo não o conheceu por meio da sabedoria humana...” (I Coríntios 1:21).  

Conforme vimos no livro Culto racional, a sabedoria humana é produto da depravação de nossa mente. Por isso, a racionalidade humana tornou-se obscurecida, por se afastar da Luz suprema, ao ponto de não ser capaz de obter os conhecimentos teológicos (de Deus), antropológicos (do homem) e cosmológicos (do universo) como realmente são (Isaías 60:1, II Coríntios 4:4), pois são complementares. O primeiro serve de referência aos demais. Se o primeiro não for considerado, os outros não serão plenamente obtidos.

Um método do conhecimento, qualquer que seja, precisa de absolutos, abstratos ou concretos, que sejam usados como fundamentos e referências do objeto a ser conhecido. Na tentativa de estudar o homem (antropologia, seja ela biológica, psíquica ou sociocultural) sem a existência de Deus, o padrão referencial passou a ser um ancestral comum que, por sua vez, é oriundo da evolução natural aleatória (sem propósito). Assim, o ser humano é definido como um mero acidente da natureza. Por isso, não há definição que sirva como resposta para a questão: O que é o ser humano?. Pois ela só será respondida quando houver o reconhecimento de que Seu antecessor, que funciona como padrão referencial, é Cristo, o Deus que se fez homem.

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quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Integridade devocional

Matheus Viana

É interessante a dialética que o apóstolo Paulo utilizou em sua carta aos cristãos em Corinto ao falar das divisões existentes naquela congregação: carnais x espirituais. Desde o surgimento do pecado, somos subjugados por ela. Contudo, para melhor a entendermos, é necessário recordarmos a realidade humana antes do pecado.

Esta distinção não existia pelo fato do homem exercer, integralmente, na criação a ética de Deus estabelecida a ele, proveniente de seu relacionamento com o Criador, também chamada de mandato cultural ou culto racional.

Com o pecado, o homem se apartou de Deus e, consequentemente, de Sua ética. Assim, passou a seguir uma ética contrária originada em uma mente degradada pelo engano de Satanás (II Coríntios 11:3). Seus atos tornaram-se carnais por serem desprovidos da espiritualidade contida na ética divina, sendo esta um desdobramento do relacionamento entre Deus e o homem. Ou seja, esta espiritualidade, ou devoção, não tem nada haver com a dicotomia natural/secular -espiritual que muitos, equivocadamente, relacionam.

Quando recebemos o Espírito Santo, somos regenerados por recebermos a mesma essência que o homem recebeu ao se tornar um ser vivente (Gênesis 2:7, Romanos 8:11). Desta forma, na medida em que, por meio do consolo do Espírito Santo (Evangelho segundo João 14:26), somos submetidos à ética de Deus, esta dicotomia vai desaparecendo. Pois o Senhorio de Cristo é absoluto como consequência de sua redenção ser completa, conforme Ele mesmo (Evangelho segundo Marcos 12:28-30) e o apóstolo Paulo preconizaram (I Coríntios 10:31).

É a esta absolutização da ética divina sobre nós que Jesus se referiu quando disse: “Sejam perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste.” (Evangelho segundo Mateus 5:48). A expressão perfeito é teleion, também traduzida como completo e íntegro. Assim, perfeição, neste contexto, é se submeter à ética divina integralmente, em todas as áreas de nossa vida. Logo, na vida de um cristão não existe tal distinção.

Paulo, por sua vez, estava lidando com pessoas que ainda estavam sob sua tutela. Por isso os chamou de carnais. Sendo, de acordo com a exortação paulina, carnal aquele que ainda vive sob tal dicotomia, surge a questão: O que é uma pessoa espiritual? É aqui que reside a grande confusão.

Por sermos influenciados por um pensamento dialético (duas éticas) e, dentro dele, antitético (éticas contrárias e excludentes), temos a tendência de classificar como espiritual o que for contrário a esta carnalidade. Assim, não atribuímos espiritualidade aos atributos humanos que Deus, em Sua sabedoria e soberania, atribui (Cf. Gênesis 1:28, 2:15).

O problema é que esta carnalidade também é produto de uma mentalidade dialética e antitética que redunda no dualismo citado por Paulo. Mas, diferente de Paulo, muitos (e coloque muitos nisto) classificam como carnal o que é considerado secular, e espiritual o que é do âmbito religioso/eclesiástico. Um erro crasso e, infelizmente, muito comum.

A espiritualidade ou devoção oriunda desta dicotomia é problemática por não ser íntegra. Esta falta de integridade, por sua vez, redunda em uma espiritualidade alienante. Você conhece o “irmãozinho do monte”? Nada contra orar no monte. Mas este não deve ser o “artifício único” de espiritualidade. No decorrer do desenvolvimento histórico do cristianismo houve pessoas que, fundamentadas em um pensamento estoico de que a matéria é, em si, má, exerceram uma espiritualidade de reclusão no deserto, em monastérios e mosteiros. Porém, a oração sacerdotal de Jesus em favor de Seus apóstolos também recai sobre nós, Seus discípulos: “Não lhe peço que os tires do mundo, mas livra-os do mal” (Evangelho segundo João 17:15).

João, o Batista, viveu no deserto. Mas o contexto que envolveu o seu chamado foi peculiar. Deus quis emitir, além do cumprimento das profecias feitas por meio de Isaías, a mensagem de que estava rechaçando o sacerdócio corrompido e de que Ele não falava mais do Templo, mas do deserto através de um sacerdote que não se corrompeu com o farisaísmo. Assim, podemos ver que a devoção de João não foi alienante. Deus apenas quis que o povo entendesse que Ele estava substituindo o culto que era realizado no Templo pelo realizado no deserto através de João, o Batista.

Um homem lavar a louça para a esposa é tão espiritual quanto um momento de oração. O fato desta afirmação lhe parecer estranha – ou até sem sentido -, indica o quanto estás acometido por esta distinção. Lavar a louça implica em mordomia doméstica. Ela, por sua vez, redunda em harmonia familiar, que redunda na glorificação de Cristo por meio de testemunhos de famílias saudáveis.

É interessante a narrativa da devoção da Igreja em Jerusalém, em seus primórdios, descrita no livro de Atos: “Eles se dedicavam ao ensino dos apóstolos e à comunhão, ao partir do pão e às orações. (...) Todos os dias, continuavam a reunir-se no pátio do Templo. Partiam o pão em suas casas, e juntos participavam das refeições, com alegria e sinceridade de coração” (Atos 2:42 e 46 - NVI).

Veja que Lucas, em seu relato, não classificou “ensino dos apóstolos” e “orações” como coisas espirituais e a “comunhão” e o “partir do pão” como carnais. Para um cristão, tudo o que envolve sua vida é culto racional. A Igreja de Atos vivia esta realidade, apesar de terem alguns Ananias e Safiras que faziam esta distinção.

Quantas pessoas conhecidas no meio evangélico priorizaram seus “ministérios” e não deram a devida atenção à família (cônjuges e filhos)? Os resultados? Divórcio, filhos químico-dependentes, entre outras catástrofes. Como disse Paulo a Timóteo, aquele que não cuida de sua família é pior do que o infiel. Família é algo espiritual. Trabalho, desde que não infrinja a Escritura, é espiritual. Com o termo espiritual quero dizer culto e devoção a Deus. Eis um ponto fundamental da renovação de mente elucidada pelo apóstolo Paulo, em sua carta aos romanos (12:1-2), a fim de que vivamos o culto racional.