quarta-feira, 5 de junho de 2019

Saldo devedor

 Matheus Viana

Em uma sociedade devota ao senso comum do ufanismo travestido de autoconfiança, somos confrontados pela sentença proferida pelo apóstolo Paulo sobre si: “Sou devedor...” (Romanos 1:14). Quanto mais aprendemos sobre Cristo, torna-se mais claro o fato de que devedor é a nossa imutável condição. Há quem retruque tal afirmação citando o conhecido texto de Romanos 8:1: “Já não há condenação para aqueles que estão em Cristo Jesus”. Esta declaração, por sua vez, confirma a veracidade da minha tese e invalida todas as tentativas de refutação. Através dela, o apóstolo Paulo mostrou a premissa que deve fundamentar a nossa conduta como cristãos. Pois fomos salvos (livres de toda condenação) com um propósito: o de fazer boas obras[1]. Ser salvo para fazer boas obras é diametralmente oposto à prática de boas obras para a obtenção da salvação. A obra de Jesus é completa. E tem uma finalidade. Foi neste mote que o apóstolo Paulo advertiu: “Desenvolvei com temor e tremor a vossa salvação” (Filipenses 2:12).
     
Fomos libertos, pelo sangue de Cristo derramado na cruz, da escravidão do pecado[2]. No entanto este ato, ao mesmo tempo em que foi libertador, sacramentou, de forma definitiva, nosso saldo devedor. Fomos comprados pela obra de Jesus[3]. Ou seja, deixamos de ser devedores do maligno para sermos devedores de Jesus Cristo. Houve apenas uma substituição de credores. Devemos considerar, todavia, a diferença do caráter de cada um destes credores: o Adversário é enganador[4] e usurpador[5]. Cristo, por Sua vez, é a luz dos homens[6], o Caminho, a Verdade e a Vida[7] e, apesar de ter toda autoridade nos céus e na terra[8] por ser o Criador de tudo[9], nos chama de amigos[10].
     
Era este senso devedor que orientava a vida do apóstolo Paulo. Sua consciência era tomada a tal ponto que ele se considerava como um doulos (escravo) de Jesus Cristo[11]. Ele conhecia o salmo que diz: “Entrai pelas suas portas com ações de graças” (Salmos 100:4). Quando adquirimos, pela obra do Espírito Santo em nós, a consciência da magnitude da obra de redenção realizada por Jesus em nosso favor, não temos outra opção a não ser a de submeter nossa vida a Ele em obediência à Sua soberana vontade. Foi por este motivo que ele afirmou: “Não sou mais eu quem vivo, mas Cristo vive em mim” (Gálatas 2:20). Ao recebermos algo de valor, independente qual seja, surge em nosso coração um senso de dívida de retribuirmos a dádiva recebida. No caso da Graça de Deus, também manifesta na cruz de Jesus Cristo, não há como retribuir de maneira simétrica e justa. Sempre ficaremos devendo­-Lhe.
     
Assim, podemos deduzir que Cristianismo consiste em nossa tentativa de retribuirmos a Graça que Deus previamente nos concedeu, conscientes de que não conseguiremos. Eis a loucura do Evangelho, também chamado de mensagem da cruz (I Coríntios 1:8). E esta tentativa consiste, conforme advertiu o próprio Jesus, em negarmos a nós mesmos e tomarmos a nossa cruz[12]. O apóstolo Paulo, certamente fundamentado no Salmo 100:4, descreve estas ações de graças como a entrega de nossos corpos (extensão da entrega de todo o nosso ser, pois um judeu considera o ser humano em sua integralidade) como sacrifícios vivos, santos e agradáveis a Deus e chama este ato de culto racional[13]. Em outras palavras: ser discipulado por Jesus Cristo através de Sua Palavra e de Sua Igreja. Elucidando sobre este aspecto, o pastor e teólogo alemão Dietrich Bonhoeffer (1906-1945) afirmou:

“Os discípulos de Jesus, por causa dele, vivem na renúncia aos próprios direitos. (...) Se ainda fizessem questão, mesmo depois de terem abandonado tudo por causa dele, de continuar apegado a essa posse, isto é, a seu direito individual, já teriam abandonado o discipulado”.[14]

Eis o dilema. Estamos inseridos em uma turbulenta dialética que se dá entre duas leis elucidadas pelo apóstolo Paulo: a Lei de Deus, também chamada de Espírito de vida, cumprida em Jesus Cristo[15], e a lei do pecado e da morte[16]. O entendimento equivocado sobre a Lei de Deus pode ocasionar na submissão inconsciente à lei do pecado e da morte. Algo comum na Igreja contemporânea. Há sobre o imaginário coletivo cristão uma espécie de dispensacionalismo que divide a História em: a era da Lei e a era da Graça. Tal dicotomia baseia-se em uma intepretação equivocada de Romanos 6:14. Para os seus adeptos, Cristo cumpriu toda a Lei e, por isso, somos livres para fazermos o que quisermos. Doutrina conhecida, grosso modo, como antinomismo[17]. Foi esta que Bonhoeffer nomeou de graça barata.

“A graça barata é a pregação do perdão sem arrependimento do pecador, é o batismo sem disciplina eclesiástica, é a comunhão sem confissão de pecados, é a absolvição sem convicção pessoal. A graça barata é a graça sem discipulado, é a graça sem cruz, é a graça sem Jesus Cristo vivo e encarnado”.[18]

Um dos fundamentos da ortodoxia cristã - que nada mais é do que a sistematização do que Jesus chamou de vontade[19] e de mandamentos do Pai[20], e o apóstolo Paulo chamou de boa, perfeita e agradável vontade de Deus[21] e de fundamento dos apóstolos e profetas, tendo Jesus como a Pedra angular[22] - é o de que, embora Jesus Cristo tenha cumprido a plenitude da Lei de Deus, o aspecto moral da Lei ainda permanece. O próprio Jesus deixou isso bem claro no sermão na montanha[23].

No entanto, há uma espécie de marcionismo moderno que ignora o Antigo Testamento, relegando-o a mitos judaicos e crendo que o Novo testamento ultrapassou e anulou o Antigo. Ledo engano. Todo o Novo Testamento foi escrito com base no Antigo. O próprio Jesus usou o Antigo Testamento para testificar sobre Sua vida e obra[24]. O Antigo Testamento (Tanach) foi a Bíblia que Jesus e os apóstolos usaram. Assim, ele é um dos pilares da ortodoxia cristã. O outro pilar é o Novo Testamento. Philip Yancey nos traz a seguinte advertência:

“Quando lemos o Antigo Testamento, estamos lendo a Bíblia que Jesus lia e usava. Trata-se das orações que Jesus fazia, dos poemas que memorizava, dos cânticos que entoava, das histórias de ninar que ouvia quando criança, das profecias nas quais refletia. Ele reverenciava cada ‘iota ou (...) til’ da Bíblia Hebraica. Quando mais entendemos o Antigo Testamento, mais entendemos Jesus. Como disse Martinho Lutero: ‘O Antigo Testamento é um testamento de Cristo, o qual ele pediu que fosse aberto após a sua morte e lido e proclamado em todos os lugares por intermédio do evangelho”.[25]

Como podemos ver, o Novo Testamento complementa o Antigo Testamento, mas não anula-o. O falso dogma de que o Novo Testamento anula o Antigo não é uma característica peculiar da Igreja atual. A Igreja primitiva também foi acometida por ela. Judas (o irmão do Senhor Jesus), em sua carta à Igreja em Jerusalém, registrou: “... senti que era necessário escrever-lhes insistindo que batalhassem pela fé de uma vez por todas confiada aos santos. Pois certos homens, cuja condenação já estava sentenciada há muito tempo, infiltraram-se dissimuladamente no meio de vocês. Estes são ímpios, e transformam a graça de nosso Deus em libertinagem e negam Jesus Cristo, nosso único e soberano Senhor”. (Judas 3-4). Qualquer semelhança não é mera coincidência. Esta fé confiada aos santos nada mais é do que a doutrina dos apóstolos e dos profetas, tendo Jesus como a Pedra angular, citada pelo apóstolo em sua carta aos efésios. Veja que não se trata de duas doutrinas distintas, mas da síntese entre ambas como uma só. Como podemos ver, o cerne desta prática vil, denunciada por Judas, é o pensamento equivocado, alicerçado na premissa de que não somos mais devedores de coisa alguma. E sim que somos beneficiários que devem usufruir das bênçãos conquistadas por Jesus, disponíveis nas regiões celestes[26] sem nenhum senso de responsabilidade. Em outras palavras, chamam libertinagem de liberdade. Se esquecem do que disseram os apóstolos Paulo e Pedro:

“Irmãos, vocês foram chamados para a liberdade. Mas não usem a liberdade para dar ocasião à vontade da carne; ao contrário, sirvam uns aos outros mediante o amor”.
                                                                  (Gálatas 5:13)

“Vivam como pessoas livres, mas não usem a liberdade como desculpa para fazer o mal; vivam como servos (doulos – escravos) de Deus”.
(I Pedro 2:16)

Resumindo e finalizando, devemos viver nossa liberdade, conquistada em Jesus Cristo, como Seus escravos e, por isso, devedores para sempre.


[1] Efésios 2:9-10.
[2] Romanos 6:5-7, Efésios 1:7, Colossenses 1:13-14, Hebreus 9:28.
[3] I Coríntios 6:20.
[4] Evangelho segundo João 8:44, II Coríntios 11:3.
[5] II Tessalonicenses 2:4.
[6] Evangelho segundo João 1:4-9.
[7] Evangelho segundo João 14:6.
[8] Evangelho segundo Mateus 28:18.
[9] Evangelho segundo João 1:1-3, Colossenses 1:16-17.
[10] Evangelho segundo João 15:14-15.
[11] Romanos 1:1.
[12] Evangelho segundo Mateus 16:24.
[13] Romanos 12:1.
[14] BONHOEFFER, Dietrich. Discipulado. São Paulo: Mundo Cristão, 2017, p. 107.
[15] Evangelho segundo Mateus 5:17, Romanos 10:4
[16] Romanos 8:2.
[17] Sistema doutrinário que preconiza, grosso modo, que a Graça de Deus, manifesta em Jesus, extingue qualquer dever de cumprir a Lei. Ou seja, anula, por completo, as implicações de qualquer aspecto da Lei de Moisés na vida do cristão.
[18] BONHOEFFER, Dietrich. Discipulado. São Paulo: Mundo Cristão, 2017, p. 20.
[19] Mateus 6:9-10
[20] João 14:21-23
[21] Romanos 12:2
[22] Efésios 2:20-22
[23] Evangelho segundo Mateus 5:18-20.
[24] Evangelho segundo João 5:39, Lucas 4:14-20, 24:27, 44-45.
[25] YANCEY, Phillip. A Bíblia que Jesus lia. São Paulo: Vida, 2000, p. 23.
[26] Efésios 1:3

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

O fermento da hipocrisia

 Matheus Viana

É impressionante detectar como o episódio vivido por Jesus, há milênios, seja atual: “Nesse meio tempo, tendo-se juntado uma grande multidão de milhares de pessoas, ao ponto de se atropelarem umas às outras, Jesus começou a falar primeiramente aos seus discípulos, dizendo: ‘Tenham cuidado com o fermento dos fariseus, que é a hipocrisia’” (Evangelho segundo Lucas 12:1). 

Ao nos depararmos com o termo hipocrisia, surge em nosso interior uma súbita rejeição. Isso, portanto, é fruto de um entendimento raso, e por vezes equivocado, do termo. Uma análise mais profunda é suficiente para vermos que, apesar de rejeitarmos a expressão, somos hipócritas em alguma área de nossas vidas. Mas, antes de tal análise, convém nos atentarmos ao contexto em que Jesus fez tal advertência.
     
Ele estava cercado de uma grande aglutinação de pessoas que queriam ver Seus milagres. Atualmente, não é diferente. Além de ser um país majoritariamente cristão, nas últimas quatro décadas o Brasil viveu – e ainda vive - um crescimento vertiginoso no número de cristãos, principalmente de confissões evangélicas/pentecostais e neopentecostais. 

De acordo com o mais recente censo demográfico feito pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), divulgado em 2012, o número de evangélicos cresceu em 61,45% no período de 10 anos (2000 a 2010). Conforme afirma o IBGE, em 1980 o número de evangélicos no Brasil era de 6,6% da população. Em 1991, foi para 9%. Em 2000, 15,4% da população afirmavam ser cristãos evangélicos. Em 2010, este número subiu para 22,2%. 

De acordo com pesquisa realizada pelo DataFolha, nos dias 5 e 6 de dezembro de 2019, dos 80% dos brasileiros que confessam ser cristãos, 31% afirmam ser evangélicos. Ou seja, os evangélicos-protestantes, atualmente, são uma porcentagem bastante expressiva em um país de colonização católica.
       
Contudo, esta multidão, em sua esmagadora maioria, não é formada por discípulos. Conforme Lucas registrou, Jesus preteriu a multidão e falou, de forma exclusiva, com os discípulos. Qualquer semelhança com a realidade contemporânea não é mera coincidência. Não faço esta afirmação a esmo, desprovido de fatos que a sustentem. Por isso, apresento-os de agora em diante.
     
Assim como na época de Jesus, os pertencentes à multidão buscam Seus milagres e a plena satisfação de suas necessidades, não fazendo questão de Seu ensino. Ao ler este texto, surge em minha mente a lembrança de alguns templos repletos de pessoas buscando o milagre de cada dia. Se você for sincero, reconhecerá que em sua mente também. Toda a liturgia do culto neles exercida é voltada para que o participante possa fazer a sua súplica. Uma espécie de “mercado dos milagres”. A gritaria histérica que eclode dos púlpitos, e concomitantemente entre os participantes, lembra o frenesi de uma bolsa de valores em operação.
     
Não há ensino da Escritura. Apenas o entoar de canções curtas e repetitivas, semelhantes a um mantra, regadas a orações repletas da sentença: “Eu determino, em nome de Jesus”. Há ainda aqueles que não querem nem o milagre da manifestação sobrenatural, mas apenas receber roupa, alimento e dinheiro. Ou seja, pessoas que frequentam tais denominações com o entendimento de que Igreja é nada mais, nada menos do que uma instituição de assistência social. Assim, veem o cristianismo (ou melhor, uma séria distorção dele) como um assistencialismo. Ao fazer uma clara dicotomia entre Graça preciosa e graça barata, Dietrich Bonhoeffer afirmou:

“De acordo com a palavra de Jesus, há somente dois sentimentos em relação a Deus: devoção ou desprezo. Se não amarmos a Deus, o odiaremos. Não existe meio-termo. Deus é assim, e por isso mesmo Ele é Deus; só pode ser amado ou odiado. Existe somente esta opção: amarmos a Deus ou os bens do mundo”.[1]

A mensagem de Jesus aos discípulos foi sucinta: “Tenham cuidado com o fermento dos fariseus, que é a hipocrisia”. Ele não utilizou a analogia do fermento em vão. Por ser um mestre judeu, estava evocando o princípio estabelecido na Lei, contido na festa dos pães asmos (Êxodo 23:14-15). Esta celebração tinha como intento relembrar a libertação do povo hebreu da escravidão do Egito. 

Na primeira Páscoa da história, o cordeiro sacrificado, cujo sangue seria vertido nos umbrais das casas para que seus moradores não fossem atingidos pelo anjo da morte, seria comido pelas famílias com pão sem fermento (Êxodo 12:8). Os discípulos, assim como o pão asmo, que tipifica Cristo (Evangelho segundo João 6:51)[2], devem ser sem fermento. Foi baseado neste princípio que o apóstolo Paulo advertiu aos coríntios: “... vocês não sabem que um pouco de fermento faz toda a massa ficar fermentada? Livrem-se do fermento velho, para que sejam massa nova e sem fermento, como realmente são. Pois Cristo, nosso cordeiro pascal, foi sacrificado” (I Coríntios 5:6-7).
     
Uma breve autoanálise é suficiente para diagnosticarmos o fato de que há muitos fermentos em nós. O apóstolo João advertiu: “Aquele que diz não ter pecado, a si mesmo se engana, e a verdade não está nele” (I João 1:8). Este fermento reside em nossa mente (Romanos 12:2, II Coríntios 10:5) e em nosso coração (Jeremias 17:9, Evangelho segundo Marcos 7:21-23, Tiago 4:3). O coração do homem foi contaminado como consequência do fermento da serpente corromper primeiramente sua mente (Gênesis 3:1-6). Este foi o fato sobre o qual o apóstolo Paulo fundamentou sua exortação:

“O que receio, e quero evitar, é que assim como a serpente enganou Eva com astúcia, a mente de vocês seja corrompida e se desvie de sua sincera e pura devoção a Cristo. Pois se alguém vem pregando um Jesus que não é aquele que pregamos, ou se vocês acolhem um espírito diferente do que acolheram ou um evangelho diferente do que aceitaram, vocês o toleram com facilidade”.
(II Coríntios 11:3-4)

Como podemos ver, a estratégia do inimigo não muda. O primeiro ponto em que ele visa nos contaminar com o seu ardiloso fermento é a nossa mente. Contudo, o intento é alcançar o nosso coração de modo a perverter a nossa devoção. Por isso o apóstolo Paulo preconizou que, para vivermos a boa, perfeita e agradável vontade de Deus, temos que renovar a nossa mente. Ou seja, tirarmos dela todo tipo de pensamento que não seja condizente com a Soberana Palavra de Deus. Esta renovação de mente, no entanto, consiste primeiramente em não nos conformarmos com o sistema secular vigente (Cf. Romanos 12:2) em quaisquer de seus âmbitos. Eis o desafio.
     
Atuo na área da educação - pedagógica e teológica. O número de professores cristãos contaminados pelo fermento do materialismo histórico/dialético - que sustenta as teologias liberal e da libertação -, do existencialismo e de várias outras filosofias destoantes das Escrituras é assustador. O pior é que, para as sustentarem, usam textos bíblicos completamente amputados de seus contextos históricos, gramaticais e semânticos. Praticam, exaustivamente, uma hermenêutica equivocada, recheada de anacronismos e fundamentada no método histórico-crítico. Estão contaminados pelo fermento do secularismo, mas não têm consciência disto. Ignoram a advertência do apóstolo Pedro:

“Antes de mais nada, saibam que nenhuma profecia da Escritura provém de interpretação pessoal, pois jamais a profecia teve origem na vontade humana, mas homens falaram da parte de Deus, impelidos pelo Espírito Santo”.
(II Pedro 1:20)

Como resultado de suas mentes terem sido capturadas por pressupostos seculares, seus corações foram por eles cooptados, fazendo com que se tornem a base para suas devoções. O próprio Jesus afirmou: “Onde está o seu tesouro, ali está o seu coração” (Evangelho segundo Mateus 6:21). Tal afirmação foi feita na esteira da elucidação de Salomão: “De todas as coisas que deves guardar, guarde o coração, pois dele procedem as fontes da vida” (Provérbios 4:23) e também da declaração do salmista: “Guardo as tuas palavras no meu coração, para que eu não peque contra Ti” (Salmo 119:11). O que está em nosso coração passa, primeiramente, pela nossa mente. O que tem passado por ela? Não seja contaminado por nenhum fermento!
     
Ao advertir os discípulos, Jesus falou de um fermento específico: o dos fariseus. Por quê? Havia naquele contexto uma dicotomia clara no tocante à Lei de Deus: a interpretação feita pelo movimento rabínico, conhecida como tradição oral, cuja classe dos fariseus fazia parte dela; e a interpretação feita por Jesus e ensinada aos Seus discípulos (Evangelho segundo Mateus 5:1-20). Vemos este confronto no Evangelho segundo Marcos 7:1-13. Jesus e Seus discípulos não observavam os costumes guardados pela tradição oral, que era uma interpretação rabínica da Torah. A análise de Jesus no tocante a ela foi precisa:

“Bem profetizou Isaías acerca de vocês, hipócritas; como está escrito: ‘Este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. Em vão me adoram; seus ensinamentos não passam de regras ensinadas por homens’. Vocês negligenciam os mandamentos de Deus e se apegam às tradições dos homens”.
(Evangelho segundo Marcos 7:7-8)

     Qualquer semelhança com a atualidade não é mera coincidência.




[1] BONHOEFFER, Dietrich. Discipulado. São Paulo: Mundo Cristão, 2016. p. 138.
[2] Neste episódio, Jesus fez referência de Sua vida como pão de forma análoga ao maná, o pão (espécie de cereal) que Deus derramava do céu para que o povo dele se alimentasse (Êxodo 16:4-16). Mas este texto, embora se refira ao maná, também fala do corpo de Cristo como sacrifício, fazendo desta forma alusão ao sacrifício pascal.

quinta-feira, 10 de maio de 2018

A relação entre verdade e vontade

Matheus Viana


A sociedade atual está cada vez mais formatada pela vã e insana tentativa de destruir absolutos, que também recebe o nome de relativização. Seu principal alicerce é a máxima de Protágoras: “O homem é a medida de todas as coisas”, que é entoada como um mantra e obedecida com uma devoção religiosa. O conceito de mundo preconizado por Arthur Schopenhauer, de que ele é a representação da vontade do homem, é o plus complementar. Por isso o filósofo afirmou que o mundo em que vivemos é fruto da ação de nossas vontades sobre ele. Sendo assim, o mundo é moldado pela vontade do homem. Logo, a “verdade” sobre si mesmo e sobre a realidade onde vive também é. A completa hegemonia humana.

Soma-se a esta torre de Babel a união equivocada dos conceitos de liberdade e autonomia. Simbiose semântica que sustenta o antropocentrismo vigente. Há, entretanto, o contraponto. Ao nos depararmos com o conceito de que verdades gerais (universais) não existem, mas apenas as “verdades” que cada ser humano constrói para si (particulares) e que, apesar de divergentes, devem ser consideradas como complementares; podemos afirmar: Se nenhuma verdade pode ser descartada, a verdade de que existem verdades universais também não pode. A resposta “Esta é a sua verdade” não cola. Pois, ainda que você não a considere, tal fato não anulará sua existência. A própria afirmação de que “não existem verdades absolutas” é absoluta para quem a faz. Assim, existem absolutos que não serão extintos pelo bradar exaustivo de máximas relativistas, como as citadas nas linhas acima. O fato de que o ser humano tem necessidade de encontrar a verdade, por exemplo, é um absoluto que não pode ser relativizado.
     
Feita esta breve análise, é possível detectar a relação ambígua entre verdade e vontade que hora funciona como uma dialética de causa e efeito e outra como dualismo. Na primeira, a “verdade” é construída – seja ela: (1) a partir de uma narrativa criada, (2) uma mera distorção da realidade ou (3) as duas alternativas funcionando de forma simultânea - a partir da vontade humana.
     
Já na segunda, a verdade, por funcionar como uma antítese, é preterida diante da vontade humana. Foi sobre esta relação que o apóstolo Paulo elucidou, em sua carta a Timóteo: “Pois virá o tempo em que não suportarão a sã doutrina; ao contrário, sentindo coceira nos ouvidos, juntarão mestres para si mesmos, segundo os seus próprios desejos. Eles se recusarão a dar ouvidos à verdade, voltando-se aos mitos” (II Timóteo 4:3-4 – Ênfases acrescentadas).
     
Estes dois aspectos que compõem a relação entre verdade e vontade não constituem um único movimento. Ou seja, é um erro dizer, por exemplo, que o materialismo histórico-dialético é fundamentado no primeiro aspecto enquanto o existencialismo pós-moderno fundamenta-se no segundo. Tanto o materialismo quanto o existencialismo possuem, em seus respectivos bojos, os dois aspectos. Nem mesmo a Ideologia de gênero escapa. Ao mesmo tempo em que ela cria “verdades” através de uma leitura sociológica do ser humano, considerando, sobretudo, o sentimento (subjetivo) que o indivíduo possui em relação ao gênero – sendo que o conceito de gênero utilizado é completamente destituído do sexo biológico - segundo o qual se define; ela desconsidera, em detrimento deste mesmo sentimento, as verdades biológicas (objetivas) que o abarcam.
     
A supremacia da vontade tem dado o tom do “cristianismo” atualmente vigente. Pois ela - a vontade - tem sido o principal elemento utilizado como ferramenta para a interpretação da Escritura. Prática a qual chamo de hermenêutica da conveniência.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

O admirado rejeitado - Parte II

Matheus Viana


Liberdade é o conjunto de direitos a serem usufruídos e deveres a serem cumpridos. A sociedade atual, no entanto, define liberdade como exigência de direitos e a abolição de deveres, vistos como instrumentos de opressão. Esta definição, por sua vez, é fruto de um conhecimento adquirido pelo fato de a emoção governar a razão. Lembremo-nos do processo de sabedoria para visualizarmos melhor este conceito.


Informação -------------- Conhecimento ------------------- Prática
(Senso-percepção)    Cognição
                               Emoção --------- Razão   
                               Desejos            Lei/ética – categorias de pensamento
                               Instintos           Consciência                                                                                                                 
Montesquieu preconizou: “Todo homem é livre para fazer o que a lei o permite fazer”. Tal afirmação está à sombra da afirmação de Jesus Cristo: “Conhecereis a verdade, e a verdade os libertará” (João 8:32). Esta lei a que Montesquieu se referiu é uma postulação da razão. Ou seja, o governo da razão - que estipula a lei e o exercício de legislar sobre ela - sobre a emoção – instintos e desejos – a fim de refreá-la. Esta postulação, todavia, consiste no processo de cognição. A questão a qual precisamos refletir é: Sobre quais pressupostos uma lei é estipulada?
     
Conforme Jesus afirmou, a verdadeira liberdade é produto do conhecimento da Verdade (Jesus – Verdade substantiva e seus absolutos), a fim de que ela governe nossa razão. Consequentemente, nossa razão, governada pela Verdade, rege nossas emoções (paixões, instintos). O resultado não pode ser outro senão a plena liberdade (completamente contrária à autonomia) em contraposição à sermos escravos de nossos instintos e paixões.
     
O ideal da revolução francesa consistiu, na esteira do humanismo renascentista, no renascer de um novo homem, chamado de virtú, que formaria uma nova sociedade pautada na vontade geral de Rousseau. Este novo significa a plena destituição de todos os valores e conceitos preconizados e estabelecidos pela tradição cultural e pela religião, por serem elementos coesos. A revolução fracassou. Mas o ideal permanece, mudando apenas a forma como ele se tornaria realidade.
     
Com o fracasso do radicalismo bélico e genocida dos jacobinos e napoleônicos, o movimento revolucionário partiu do idealismo hegeliano, que por sua vez veio na esteira do criticismo kantiano. O objetivo seria alcançado pela constante transformação do homem e da sociedade através da dialética tese-antítese. Contudo, esta transformação, conforme reza a teoria, acontece no espírito do homem, que é a síntese entre o corpo e a alma. Mas isto também não deu certo, pois a tão desejada síntese não foi alcançada, apesar do profetismo escatológico de Hegel em relação ao curso da história. O fato de a síntese sempre se transformar em tese para ser contraposta a uma antítese, tornava-a uma utopia. A tão desejada transformação da sociedade aconteceria como consequência do homem alcançar esta – inalcançável - síntese em seu espírito. Ou seja, nunca.
     
A “solução”, segundo Marx e Engels, seria a mudança do caráter abstrato do idealismo, mantendo a mesma dialética, para o materialismo. De acordo com tal proposta, a transformação não acontece a partir das ideias contidas no espírito, mas no que ele faz, em suas ações, que Marx nomeou de práxis. A tese seria, à semelhança da revolução francesa, a tradição cultural e a religião (cristã); e a antítese seria os valores e conceitos revolucionários, necessários para a construção de um novo homem e, consequentemente, uma nova sociedade.
     
Neste mote, Nietzsche elucidou sobre a construção não apenas de um novo homem, mas do super-homem pautado em sua vontade de poder. Nela, o homem não poderia se render à sua razão (consciência), mas sim ao livre fluir de seus instintos e desejos que pulsam em seu interior. Insano, para ele, seria tentar conter tal impetuosidade. Uma completa inversão psicótica. A razão, segundo ele, é um obstáculo incapaz de conter o turbilhão das paixões. A coisa mais “sensata” a se fazer, então, é se entregar ao domínio das emoções e ao mesmo tempo usá-las como instrumentos de domínio. Concluindo: o super-homem de Nietzsche é dominado pelas suas emoções e, consequentemente, usa-as como plataforma de domínio sobre outros. Assim, leis não são postulações da razão, mas das emoções.
     
Eis o paradoxo: A liberdade atual consiste em viver dominado pelos instintos e desejos. Em outras palavras, pelas emoções. E o pior escravo é aquele que não tem consciência de seu atual estado. Não foi em vão que o nazismo, por exemplo, visou doutrinar de modo a saturar as emoções das pessoas com o sentimento pelo nacionalismo alemão e pela supremacia ariana. Marx e Engels, algumas décadas antes, usaram a mesma fórmula, tendo como conteúdo o sentimento revolucionário – o combustível da práxis - dos que compõem o proletariado.
     
Deus criou o ser humano para ser livre. Tal liberdade, no entanto, consiste na escolha de se submeter à vontade de Deus e desfrutar do propósito que Ele estabeleceu. A advertência de não se alimentar do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal (Gênesis 2:17) foi o limite para que o homem não a perdesse. Pois a morte relatada ali se daria – como se deu – em vários níveis. Morte da infinitude da vida, morte da plena comunhão com Deus, morte da pureza e santidade... Morte da liberdade. O homem pós-moderno interpreta escravidão das emoções como liberdade. Sintoma da interpretação equivocada das realidades individual, coletiva e universal. O motivo: distanciamento da Verdade que as fundamenta, Jesus Cristo.

O admirado rejeitado - Parte I

Matheus Viana


“O bom filho para casa volta”, preconiza o adágio popular. Jesus viveu uma experiência similar. Lucas foi enfático em sua narrativa: “Ele (Jesus) foi a Nazaré, onde havia sido criado, e no dia de sábado entrou na sinagoga, como era seu costume” (Evangelho segundo Lucas 4:16). Antes disso, porém, Lucas detalhou que Jesus voltou para a região da Galileia “no poder do Espírito” (Vs. 14).

O que vem em sua mente quando ouve ou lê esta expressão? O que, de fato, significa estar sob o poder do Espírito? Não pretendo, por conta de minha incapacidade, dar uma resposta definitiva. Mas desejo que nos atentemos ao que a Escritura afirma a respeito. Esta narrativa segue uma cronologia. Jesus foi batizado por João no rio Jordão, onde o Espírito Santo veio sobre Ele (Evangelho segundo Lucas 3:22). Depois, foi conduzido pelo Espírito Santo ao deserto para ser tentado pelo Diabo (Evangelho segundo Lucas 4:1), por ser parte do plano da redenção ao que Se submeteu. Portanto, vemos dois elementos vividos por Jesus estando sob o poder do Espírito: Ser batizado e provado.
     
O fato de Jesus ser batizado por João representou Sua plena submissão ao Pai. Pois Ele não tinha pecados dos quais se arrepender e ser purificado. Por não ter nascido da semente humana, era imaculado. Assim, estar sob o poder do Espírito é ser plenamente submisso ao SENHOR. Infelizmente, esta é uma verdade que tem sido deturpada. O significado empregado a esta expressão possui uma conotação muito maior de entretenimento do que de submissão. O modelo de devoção cristã em voga prioriza a experiência sensorial em detrimento da transformação interior que culmina em uma devoção integral e constante. “Sentir” arrepios por estar na “unção” é mais desejado do que a plena obediência a Deus – através da observação à Sua Palavra - gerada pela contrição que o Espírito Santo realiza no coração do ser humano.
     
Jesus foi à Galileia no poder do Espírito e... “Ensinava nas sinagogas”. Tal fato não é mera coincidência. Não há manifestação do poder do Espírito que não culmine em ensino. O apóstolo Paulo exortou a Igreja em Corínto, que fluía nos dons do Espírito, contra as divisões e imoralidades que seus membros exerciam.  Em sua advertência, afirmou: “E foi com fraqueza, temor e com muito tremor que estive entre vocês. Minha mensagem e minha pregação não consistiram em palavras persuasivas de sabedoria, mas em demonstração do poder do Espírito”. (I Coríntios 2:3-4 – Ênfase acrescentada). Este poder do Espírito se referiu ao seu ensino e testemunho de vida perante os membros daquela congregação.
     
Jesus estava no poder do Espírito diante daquela sinagoga em Nazaré. Sua atitude, que evidenciou tal fato, foi o ensino da Escritura. E Seu ensino foi justamente sobre viver sob a ação do Espírito. Nele podemos ver quais são as evidências. O fato de Jesus escolher o texto escrito pelo profeta Isaías não foi em vão. Ao ler a sentença “O Espírito do SENHOR está sobre mim”, explicitou o fato de que Ele era o Messias (ungido) de Deus. Pois o pensamento que permeava as mentes dos judeus ali reunidos era sobre a expectativa da vinda do Messias. O Espírito do SENHOR repousava sobre pessoas específicas, com finalidades específicas. E Jesus queria deixar claro que Ele era o cumprimento daquela profecia (Vs. 21). Munido desta autoridade, Ele soprou este mesmo Espírito sobre Seus discípulos logo após Sua ressurreição, e também em Pentecostes, a fim de que eles continuassem Sua obra (Atos 1:8).
     
Desta forma, podemos ver que a primeira demonstração de estar sob o poder do Espírito é “pregar boas novas aos pobres” (Evangelho segundo Lucas 4:18), o que é comumente relacionado ao ato de evangelizar. No entanto, podemos exercer evangelismo sem, contudo, pregarmos as boas novas aos pobres. O cerne da questão está na mensagem. A expressão traduzida como boas novas é evangelion. O que é pregar boas novas aos pobres? Fazer e ensinar o que Jesus fez e ensinou (Atos 1:1).
     
É possível pregar outro evangelho que não seja o de Jesus Cristo? Sim, é possível. É possível estar no poder do Espírito e pregar outro evangelho que não seja o de Jesus Cristo? Não, não é possível. É possível, então, estar sob o poder do Espírito e não pregar as boas novas aos pobres? Não, também não é possível. Mas qual é, afinal, a mensagem destas boas novas? Nascimento (encarnação), morte (cruz) e ressurreição (glorificação e Senhorio) de Jesus, o Cristo. Quando algum destes elementos é extraído da mensagem, ela é deturpada.
     
Uma pessoa sob o poder do Espírito proclama liberdade aos cativos. Esta proclamação, no entanto, é resultado de o proclamador ser livre e viver como tal. Por isso o apóstolo Paulo afirmou: “Onde está o Espírito, aí há liberdade...” (II Coríntios 3:17). No entanto, esta palavra tem sofrido uma severa mudança em seu significado. A liberdade apregoada pelo sistema secular é completamente conflitante com a que o Espírito Santo nos concede. Eis o conflito...

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Antropologia cristã

Matheus Viana    

No afã de conhecer quem é e, consequentemente, encontrar sentido para sua existência, o ser humano criou ao longo da história referências antropológicas. Os homens das civilizações mais antigas que a história registra - as mesopotâmicas - criaram deuses antropomórficos (forma de homem). Como estavam mais próximos do evento da queda, as necessidades ética e religiosa - produtos da Imago Dei ter sido deturpada no interior do ser humano - geravam neles o desejo de criar substitutos para supri-las. Estes “deuses” foram criados à imagem e semelhança do homem. O historiador Jean Bottero afirmou:

     “Para dar sentido ao mundo e à própria existência, eles haviam, portanto, postulado uma sociedade sobrenatural de ‘deuses’, concebidos à sua própria imagem superlativa”.[1]

Vemos, então, que o modelo antropológico tinha como referência uma plêiade de deuses, o que denota as necessidades ética e religiosa - pois são indissociáveis - sentidas pelo ser humano. No entanto, ele é o avesso do parâmetro antropológico original. Os homens das civilizações mesopotâmicas tinham razão sobre o fato de que o que o homem é e o sentido de sua existência não serão encontradas nele mesmo, mas em alguém além dele. Mas estavam equivocados no tocante a quem é este alguém. Como podemos ver, estes seres os quais atribuíam como referência, apesar de estarem além do homem, eram derivados dele. Algo contraditório e que reflete a religião ególatra. Ou seja, o desejo de autoconhecimento e a falta de referência fizeram com que criassem, a partir deles mesmos, modelos e os divinizaram.

De onde surgiu as necessidades ética e religiosa? De onde surgiu o desejo de autoconhecimento? As respostas estão no modelo antropológico judaico-cristão. Ele se divide em três aspectos coesos: ortopedia, ortodoxia e ortopraxia. Ortopedia, segundo o senso comum, é o ramo da medicina que estuda os ossos. Contudo, seu significado semântico é mais amplo. O termo é a junção de duas palavras gregas: orto (correto/original) e pedia (que é derivada de paideia, criança). Sintetizando, ortopedia é o modelo correto com que Deus criou o ser humano, ligado a ortogênese.
    
O ser humano foi criado por Deus à Sua imagem e conforme Sua semelhança (Gênesis 1:27). O texto hebraico descreve os termos imagem e semelhança como tselem e demuth, respectivamente. Sobre isso, elucidei no livro Culto racional:

     O termo tselem é derivado da palavra tselel que significa sombra. Esta imagem relatada no texto bíblico simboliza uma coisa projetada sobre outra, assim como a nossa sombra é resultado da luz solar ser projetada sobre o nosso corpo. O caráter e a ética de Deus (ética, aqui, não possui apenas o significado de conjunto de leis e normas, tampouco o sentido que a teologia liberal aplica ao termo, mas à plenitude do padrão de vida que Deus outorgou ao ser humano, manifesto por Cristo quando encarnou) foram estabelecidos a nós a fim de serem refletidos na criação.
    Por mais que os hebreus utilizaram, na escrita bíblica, de repetições, o uso do termo demuth, ao invés de usar apenas tselem, tem um motivo. Quando analisamos o texto de Gênesis 1:26-27 com o todo bíblico, vemos que imagem se refere ao caráter (a maneira de ser, pensar e agir, que é definida como ética divina) de Cristo (a segunda pessoa da Deidade) – incluindo, claro, a racionalidade – projetado no homem e manifesto através dele. É por isso que o apóstolo Paulo afirmou: “Aos que de antemão escolheu, também os predestinou para serem conforme a imagem de seu filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos.” (Romanos 8:29). E semelhança é que o ser humano, por portar tal caráter (imagem), exerceria sobre a terra - que Deus criou e onde lhe colocou, com todas as coisas que nele existem – o mesmo governo que o Criador exerce sobre os céus. Por isso o salmista declara: “Os céus são os céus do Senhor, mas a terra ele deu aos filhos dos homens.” (Salmo 115:16)[2]”.

Além disso, as Escrituras afirmam: “Formou Deus o homem do pó-da-terra, e soprou em suas narinas de seu fôlego de vida, e ele se tornou um ser vivente” (Gênesis 2:7). Vemos aqui a descrição do processo de criação do homem. Deus concedeu-lhe um corpo/físico, soprou em suas narinas de Seu fôlego (Espírito) de vida, e ele se tornou um ser vivente capaz de pensar, sentir, desejar e escolher. Em algumas traduções aparecem a expressão alma no lugar de ser. Isso se dá pelo fato de que a septuaginta – tradução grega do Antigo testamento – traduz a expressão nefesh como psique, que por sua vez foi traduzida como anima na versão latina Vulgata e, posteriormente, como alma para o português. No entanto, conforme afirmei no livro Culto racional:

     “... a alma para um judeu não tem a mesma conotação que possui no pensamento ocidental, influenciado pelo pensamento grego, sobretudo platônico. Nefesh, embora traduzido como alma para o português, fala do ser humano integral. Um judeu não faz a dicotomia clássica que os ocidentais fazem de corpo e alma. Portanto, amar a Deus com toda psique é amá-Lo com todo o seu ser, com tudo o que é”[3].

Munido de um corpo e da capacidade de pensar, sentir, desejar e escolher (psique), o homem recebeu tais atributos, presentes em sua ortopedia, com um propósito: exercer ortodoxia. Esta expressão é comumente traduzida – ou interpretada – como doutrina correta, o que não é errado, mas limitado. O conceito contido na expressão doxa abarca diferentes significados. Platão, por exemplo, em seu livro República, usou este termo para falar do conhecimento baseado na opinião, que é contrário ao epísteme, que é o conhecimento da verdade sobre a realidade adquirido na Academia. Já os apóstolos aplicavam a esta expressão o significado de glória. Ou seja, ortodoxia refere-se à forma correta de glorificar a Deus.
    
No processo da criação do homem por Deus, relatado em Gênesis 1:28, vemos dois momentos. O primeiro é quando Deus lhe abençoa – lhe concede o fôlego de vida -, o que faz com que o homem seja consciente de sua existência. No entanto, embora munido de tal consciência, ainda não conhecia a razão (sentido) de existir. Foi quando Deus lhe revelou-a: “Disse Deus: ‘Sejam férteis e multipliquem-se...”. Assim, o homem só pode encontrar a razão plena de Sua existência quando conhecer a plenitude do propósito de Deus à Sua vida. E, com isso, exercer ortodoxia. Mas, como podemos ver, o propósito que Deus instituiu ao homem no tocante à ortodoxia nos leva à ortopraxia. Uma vez que o homem foi criado de acordo com a ortopedia de Deus a ele, ela determinaria a forma como ele cultuaria a Deus (ortodoxia) e, com isso, exerceria na terra o governo que Deus exerce nos céus através de suas atitudes (ortopraxia).
    
Com relação a estes três elementos da antropologia judaico-cristã, temos a tríade cultivo-culto-cultura. O ser humano foi criado por Deus à Sua imagem e conforme a Sua semelhança (ortopedia) ao receber o fôlego de vida sobre seu corpo, feito do pó-da-terra. Ou seja, o homem foi o cultivo de Deus. Isso aconteceu para que ele realizasse a vontade de Deus a Ele de cuidar e cultivar o jardim (culto), a fim de exercer o governo de Deus sobre a criação (cultura) – Gênesis 2:15. Esta tríade contempla o homem de forma integral.
    
Jesus foi o modelo ortopédico de Deus ao ser humano (Romanos 8:29, I João 2:6). Na medida em que somos conformados neste modelo, pela obra do Espírito Santo e a Palavra de Deus em nós (II Coríntios 3:18), vamos praticando ortodoxia/culto e isso determina nossa ortopraxia/cultura. Vemos esta tríade em Atos 1:8, que marcou o nascimento da Igreja em Jerusalém, em Pentecostes. “Mas recebereis poder ao descer sobre vós o Espírito Santo (cultivo), e sereis minhas testemunhas (culto) tanto na Judeia, em Samaria e até os confins da terra (cultura). Os apóstolos se submeteram a esta antropologia.




[1] BOTTERO, Jean. No começo eram os deuses; Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011. p. 172.
[2] VIANA, Matheus. Culto racional: A interação entre as razões divina e humana. Ribeirão Preto. Editora Legis Summa, 2016. p. 17.
[3] Ibid. p. 31.