segunda-feira, 13 de agosto de 2018

O fermento da hipocrisia

 Matheus Viana

É impressionante detectar como o episódio vivido por Jesus, há milênios, seja atual: “Nesse meio tempo, tendo-se juntado uma grande multidão de milhares de pessoas, ao ponto de se atropelarem umas às outras, Jesus começou a falar primeiramente aos seus discípulos, dizendo: ‘Tenham cuidado com o fermento dos fariseus, que é a hipocrisia’” (Evangelho segundo Lucas 12:1). 

Ao nos depararmos com o termo hipocrisia, surge em nosso interior uma súbita rejeição. Isso, portanto, é fruto de um entendimento raso, e por vezes equivocado, do termo. Uma análise mais profunda é suficiente para vermos que, apesar de rejeitarmos a expressão, somos hipócritas em alguma área de nossas vidas. Mas, antes de tal análise, convém nos atentarmos ao contexto em que Jesus fez tal advertência.
     
Ele estava cercado de uma grande aglutinação de pessoas que queriam ver Seus milagres. Atualmente, não é diferente. Além de ser um país majoritariamente cristão, nas últimas quatro décadas o Brasil viveu – e ainda vive - um crescimento vertiginoso no número de cristãos, principalmente de confissões evangélicas/pentecostais e neopentecostais. 

De acordo com o mais recente censo demográfico feito pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), divulgado em 2012, o número de evangélicos cresceu em 61,45% no período de 10 anos (2000 a 2010). Conforme afirma o IBGE, em 1980 o número de evangélicos no Brasil era de 6,6% da população. Em 1991, foi para 9%. Em 2000, 15,4% da população afirmavam ser cristãos evangélicos. Em 2010, este número subiu para 22,2%. 

De acordo com pesquisa realizada pelo DataFolha, nos dias 5 e 6 de dezembro de 2019, dos 80% dos brasileiros que confessam ser cristãos, 31% afirmam ser evangélicos. Ou seja, os evangélicos-protestantes, atualmente, são uma porcentagem bastante expressiva em um país de colonização católica.
       
Contudo, esta multidão, em sua esmagadora maioria, não é formada por discípulos. Conforme Lucas registrou, Jesus preteriu a multidão e falou, de forma exclusiva, com os discípulos. Qualquer semelhança com a realidade contemporânea não é mera coincidência. Não faço esta afirmação a esmo, desprovido de fatos que a sustentem. Por isso, apresento-os de agora em diante.
     
Assim como na época de Jesus, os pertencentes à multidão buscam Seus milagres e a plena satisfação de suas necessidades, não fazendo questão de Seu ensino. Ao ler este texto, surge em minha mente a lembrança de alguns templos repletos de pessoas buscando o milagre de cada dia. Se você for sincero, reconhecerá que em sua mente também. Toda a liturgia do culto neles exercida é voltada para que o participante possa fazer a sua súplica. Uma espécie de “mercado dos milagres”. A gritaria histérica que eclode dos púlpitos, e concomitantemente entre os participantes, lembra o frenesi de uma bolsa de valores em operação.
     
Não há ensino da Escritura. Apenas o entoar de canções curtas e repetitivas, semelhantes a um mantra, regadas a orações repletas da sentença: “Eu determino, em nome de Jesus”. Há ainda aqueles que não querem nem o milagre da manifestação sobrenatural, mas apenas receber roupa, alimento e dinheiro. Ou seja, pessoas que frequentam tais denominações com o entendimento de que Igreja é nada mais, nada menos do que uma instituição de assistência social. Assim, veem o cristianismo (ou melhor, uma séria distorção dele) como um assistencialismo. Ao fazer uma clara dicotomia entre Graça preciosa e graça barata, Dietrich Bonhoeffer afirmou:

“De acordo com a palavra de Jesus, há somente dois sentimentos em relação a Deus: devoção ou desprezo. Se não amarmos a Deus, o odiaremos. Não existe meio-termo. Deus é assim, e por isso mesmo Ele é Deus; só pode ser amado ou odiado. Existe somente esta opção: amarmos a Deus ou os bens do mundo”.[1]

A mensagem de Jesus aos discípulos foi sucinta: “Tenham cuidado com o fermento dos fariseus, que é a hipocrisia”. Ele não utilizou a analogia do fermento em vão. Por ser um mestre judeu, estava evocando o princípio estabelecido na Lei, contido na festa dos pães asmos (Êxodo 23:14-15). Esta celebração tinha como intento relembrar a libertação do povo hebreu da escravidão do Egito. 

Na primeira Páscoa da história, o cordeiro sacrificado, cujo sangue seria vertido nos umbrais das casas para que seus moradores não fossem atingidos pelo anjo da morte, seria comido pelas famílias com pão sem fermento (Êxodo 12:8). Os discípulos, assim como o pão asmo, que tipifica Cristo (Evangelho segundo João 6:51)[2], devem ser sem fermento. Foi baseado neste princípio que o apóstolo Paulo advertiu aos coríntios: “... vocês não sabem que um pouco de fermento faz toda a massa ficar fermentada? Livrem-se do fermento velho, para que sejam massa nova e sem fermento, como realmente são. Pois Cristo, nosso cordeiro pascal, foi sacrificado” (I Coríntios 5:6-7).
     
Uma breve autoanálise é suficiente para diagnosticarmos o fato de que há muitos fermentos em nós. O apóstolo João advertiu: “Aquele que diz não ter pecado, a si mesmo se engana, e a verdade não está nele” (I João 1:8). Este fermento reside em nossa mente (Romanos 12:2, II Coríntios 10:5) e em nosso coração (Jeremias 17:9, Evangelho segundo Marcos 7:21-23, Tiago 4:3). O coração do homem foi contaminado como consequência do fermento da serpente corromper primeiramente sua mente (Gênesis 3:1-6). Este foi o fato sobre o qual o apóstolo Paulo fundamentou sua exortação:

“O que receio, e quero evitar, é que assim como a serpente enganou Eva com astúcia, a mente de vocês seja corrompida e se desvie de sua sincera e pura devoção a Cristo. Pois se alguém vem pregando um Jesus que não é aquele que pregamos, ou se vocês acolhem um espírito diferente do que acolheram ou um evangelho diferente do que aceitaram, vocês o toleram com facilidade”.
(II Coríntios 11:3-4)

Como podemos ver, a estratégia do inimigo não muda. O primeiro ponto em que ele visa nos contaminar com o seu ardiloso fermento é a nossa mente. Contudo, o intento é alcançar o nosso coração de modo a perverter a nossa devoção. Por isso o apóstolo Paulo preconizou que, para vivermos a boa, perfeita e agradável vontade de Deus, temos que renovar a nossa mente. Ou seja, tirarmos dela todo tipo de pensamento que não seja condizente com a Soberana Palavra de Deus. Esta renovação de mente, no entanto, consiste primeiramente em não nos conformarmos com o sistema secular vigente (Cf. Romanos 12:2) em quaisquer de seus âmbitos. Eis o desafio.
     
Atuo na área da educação - pedagógica e teológica. O número de professores cristãos contaminados pelo fermento do materialismo histórico/dialético - que sustenta as teologias liberal e da libertação -, do existencialismo e de várias outras filosofias destoantes das Escrituras é assustador. O pior é que, para as sustentarem, usam textos bíblicos completamente amputados de seus contextos históricos, gramaticais e semânticos. Praticam, exaustivamente, uma hermenêutica equivocada, recheada de anacronismos e fundamentada no método histórico-crítico. Estão contaminados pelo fermento do secularismo, mas não têm consciência disto. Ignoram a advertência do apóstolo Pedro:

“Antes de mais nada, saibam que nenhuma profecia da Escritura provém de interpretação pessoal, pois jamais a profecia teve origem na vontade humana, mas homens falaram da parte de Deus, impelidos pelo Espírito Santo”.
(II Pedro 1:20)

Como resultado de suas mentes terem sido capturadas por pressupostos seculares, seus corações foram por eles cooptados, fazendo com que se tornem a base para suas devoções. O próprio Jesus afirmou: “Onde está o seu tesouro, ali está o seu coração” (Evangelho segundo Mateus 6:21). Tal afirmação foi feita na esteira da elucidação de Salomão: “De todas as coisas que deves guardar, guarde o coração, pois dele procedem as fontes da vida” (Provérbios 4:23) e também da declaração do salmista: “Guardo as tuas palavras no meu coração, para que eu não peque contra Ti” (Salmo 119:11). O que está em nosso coração passa, primeiramente, pela nossa mente. O que tem passado por ela? Não seja contaminado por nenhum fermento!
     
Ao advertir os discípulos, Jesus falou de um fermento específico: o dos fariseus. Por quê? Havia naquele contexto uma dicotomia clara no tocante à Lei de Deus: a interpretação feita pelo movimento rabínico, conhecida como tradição oral, cuja classe dos fariseus fazia parte dela; e a interpretação feita por Jesus e ensinada aos Seus discípulos (Evangelho segundo Mateus 5:1-20). Vemos este confronto no Evangelho segundo Marcos 7:1-13. Jesus e Seus discípulos não observavam os costumes guardados pela tradição oral, que era uma interpretação rabínica da Torah. A análise de Jesus no tocante a ela foi precisa:

“Bem profetizou Isaías acerca de vocês, hipócritas; como está escrito: ‘Este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. Em vão me adoram; seus ensinamentos não passam de regras ensinadas por homens’. Vocês negligenciam os mandamentos de Deus e se apegam às tradições dos homens”.
(Evangelho segundo Marcos 7:7-8)

     Qualquer semelhança com a atualidade não é mera coincidência.




[1] BONHOEFFER, Dietrich. Discipulado. São Paulo: Mundo Cristão, 2016. p. 138.
[2] Neste episódio, Jesus fez referência de Sua vida como pão de forma análoga ao maná, o pão (espécie de cereal) que Deus derramava do céu para que o povo dele se alimentasse (Êxodo 16:4-16). Mas este texto, embora se refira ao maná, também fala do corpo de Cristo como sacrifício, fazendo desta forma alusão ao sacrifício pascal.

quinta-feira, 10 de maio de 2018

A relação entre verdade e vontade

Matheus Viana


A sociedade atual está cada vez mais formatada pela vã e insana tentativa de destruir absolutos, que também recebe o nome de relativização. Seu principal alicerce é a máxima de Protágoras: “O homem é a medida de todas as coisas”, que é entoada como um mantra e obedecida com uma devoção religiosa. O conceito de mundo preconizado por Arthur Schopenhauer, de que ele é a representação da vontade do homem, é o plus complementar. Por isso o filósofo afirmou que o mundo em que vivemos é fruto da ação de nossas vontades sobre ele. Sendo assim, o mundo é moldado pela vontade do homem. Logo, a “verdade” sobre si mesmo e sobre a realidade onde vive também é. A completa hegemonia humana.

Soma-se a esta torre de Babel a união equivocada dos conceitos de liberdade e autonomia. Simbiose semântica que sustenta o antropocentrismo vigente. Há, entretanto, o contraponto. Ao nos depararmos com o conceito de que verdades gerais (universais) não existem, mas apenas as “verdades” que cada ser humano constrói para si (particulares) e que, apesar de divergentes, devem ser consideradas como complementares; podemos afirmar: Se nenhuma verdade pode ser descartada, a verdade de que existem verdades universais também não pode. A resposta “Esta é a sua verdade” não cola. Pois, ainda que você não a considere, tal fato não anulará sua existência. A própria afirmação de que “não existem verdades absolutas” é absoluta para quem a faz. Assim, existem absolutos que não serão extintos pelo bradar exaustivo de máximas relativistas, como as citadas nas linhas acima. O fato de que o ser humano tem necessidade de encontrar a verdade, por exemplo, é um absoluto que não pode ser relativizado.
     
Feita esta breve análise, é possível detectar a relação ambígua entre verdade e vontade que hora funciona como uma dialética de causa e efeito e outra como dualismo. Na primeira, a “verdade” é construída – seja ela: (1) a partir de uma narrativa criada, (2) uma mera distorção da realidade ou (3) as duas alternativas funcionando de forma simultânea - a partir da vontade humana.
     
Já na segunda, a verdade, por funcionar como uma antítese, é preterida diante da vontade humana. Foi sobre esta relação que o apóstolo Paulo elucidou, em sua carta a Timóteo: “Pois virá o tempo em que não suportarão a sã doutrina; ao contrário, sentindo coceira nos ouvidos, juntarão mestres para si mesmos, segundo os seus próprios desejos. Eles se recusarão a dar ouvidos à verdade, voltando-se aos mitos” (II Timóteo 4:3-4 – Ênfases acrescentadas).
     
Estes dois aspectos que compõem a relação entre verdade e vontade não constituem um único movimento. Ou seja, é um erro dizer, por exemplo, que o materialismo histórico-dialético é fundamentado no primeiro aspecto enquanto o existencialismo pós-moderno fundamenta-se no segundo. Tanto o materialismo quanto o existencialismo possuem, em seus respectivos bojos, os dois aspectos. Nem mesmo a Ideologia de gênero escapa. Ao mesmo tempo em que ela cria “verdades” através de uma leitura sociológica do ser humano, considerando, sobretudo, o sentimento (subjetivo) que o indivíduo possui em relação ao gênero – sendo que o conceito de gênero utilizado é completamente destituído do sexo biológico - segundo o qual se define; ela desconsidera, em detrimento deste mesmo sentimento, as verdades biológicas (objetivas) que o abarcam.
     
A supremacia da vontade tem dado o tom do “cristianismo” atualmente vigente. Pois ela - a vontade - tem sido o principal elemento utilizado como ferramenta para a interpretação da Escritura. Prática a qual chamo de hermenêutica da conveniência.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

O admirado rejeitado - Parte II

Matheus Viana


Liberdade é o conjunto de direitos a serem usufruídos e deveres a serem cumpridos. A sociedade atual, no entanto, define liberdade como exigência de direitos e a abolição de deveres, vistos como instrumentos de opressão. Esta definição, por sua vez, é fruto de um conhecimento adquirido pelo fato de a emoção governar a razão. Lembremo-nos do processo de sabedoria para visualizarmos melhor este conceito.


Informação -------------- Conhecimento ------------------- Prática
(Senso-percepção)    Cognição
                               Emoção --------- Razão   
                               Desejos            Lei/ética – categorias de pensamento
                               Instintos           Consciência                                                                                                                 
Montesquieu preconizou: “Todo homem é livre para fazer o que a lei o permite fazer”. Tal afirmação está à sombra da afirmação de Jesus Cristo: “Conhecereis a verdade, e a verdade os libertará” (João 8:32). Esta lei a que Montesquieu se referiu é uma postulação da razão. Ou seja, o governo da razão - que estipula a lei e o exercício de legislar sobre ela - sobre a emoção – instintos e desejos – a fim de refreá-la. Esta postulação, todavia, consiste no processo de cognição. A questão a qual precisamos refletir é: Sobre quais pressupostos uma lei é estipulada?
     
Conforme Jesus afirmou, a verdadeira liberdade é produto do conhecimento da Verdade (Jesus – Verdade substantiva e seus absolutos), a fim de que ela governe nossa razão. Consequentemente, nossa razão, governada pela Verdade, rege nossas emoções (paixões, instintos). O resultado não pode ser outro senão a plena liberdade (completamente contrária à autonomia) em contraposição à sermos escravos de nossos instintos e paixões.
     
O ideal da revolução francesa consistiu, na esteira do humanismo renascentista, no renascer de um novo homem, chamado de virtú, que formaria uma nova sociedade pautada na vontade geral de Rousseau. Este novo significa a plena destituição de todos os valores e conceitos preconizados e estabelecidos pela tradição cultural e pela religião, por serem elementos coesos. A revolução fracassou. Mas o ideal permanece, mudando apenas a forma como ele se tornaria realidade.
     
Com o fracasso do radicalismo bélico e genocida dos jacobinos e napoleônicos, o movimento revolucionário partiu do idealismo hegeliano, que por sua vez veio na esteira do criticismo kantiano. O objetivo seria alcançado pela constante transformação do homem e da sociedade através da dialética tese-antítese. Contudo, esta transformação, conforme reza a teoria, acontece no espírito do homem, que é a síntese entre o corpo e a alma. Mas isto também não deu certo, pois a tão desejada síntese não foi alcançada, apesar do profetismo escatológico de Hegel em relação ao curso da história. O fato de a síntese sempre se transformar em tese para ser contraposta a uma antítese, tornava-a uma utopia. A tão desejada transformação da sociedade aconteceria como consequência do homem alcançar esta – inalcançável - síntese em seu espírito. Ou seja, nunca.
     
A “solução”, segundo Marx e Engels, seria a mudança do caráter abstrato do idealismo, mantendo a mesma dialética, para o materialismo. De acordo com tal proposta, a transformação não acontece a partir das ideias contidas no espírito, mas no que ele faz, em suas ações, que Marx nomeou de práxis. A tese seria, à semelhança da revolução francesa, a tradição cultural e a religião (cristã); e a antítese seria os valores e conceitos revolucionários, necessários para a construção de um novo homem e, consequentemente, uma nova sociedade.
     
Neste mote, Nietzsche elucidou sobre a construção não apenas de um novo homem, mas do super-homem pautado em sua vontade de poder. Nela, o homem não poderia se render à sua razão (consciência), mas sim ao livre fluir de seus instintos e desejos que pulsam em seu interior. Insano, para ele, seria tentar conter tal impetuosidade. Uma completa inversão psicótica. A razão, segundo ele, é um obstáculo incapaz de conter o turbilhão das paixões. A coisa mais “sensata” a se fazer, então, é se entregar ao domínio das emoções e ao mesmo tempo usá-las como instrumentos de domínio. Concluindo: o super-homem de Nietzsche é dominado pelas suas emoções e, consequentemente, usa-as como plataforma de domínio sobre outros. Assim, leis não são postulações da razão, mas das emoções.
     
Eis o paradoxo: A liberdade atual consiste em viver dominado pelos instintos e desejos. Em outras palavras, pelas emoções. E o pior escravo é aquele que não tem consciência de seu atual estado. Não foi em vão que o nazismo, por exemplo, visou doutrinar de modo a saturar as emoções das pessoas com o sentimento pelo nacionalismo alemão e pela supremacia ariana. Marx e Engels, algumas décadas antes, usaram a mesma fórmula, tendo como conteúdo o sentimento revolucionário – o combustível da práxis - dos que compõem o proletariado.
     
Deus criou o ser humano para ser livre. Tal liberdade, no entanto, consiste na escolha de se submeter à vontade de Deus e desfrutar do propósito que Ele estabeleceu. A advertência de não se alimentar do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal (Gênesis 2:17) foi o limite para que o homem não a perdesse. Pois a morte relatada ali se daria – como se deu – em vários níveis. Morte da infinitude da vida, morte da plena comunhão com Deus, morte da pureza e santidade... Morte da liberdade. O homem pós-moderno interpreta escravidão das emoções como liberdade. Sintoma da interpretação equivocada das realidades individual, coletiva e universal. O motivo: distanciamento da Verdade que as fundamenta, Jesus Cristo.

O admirado rejeitado - Parte I

Matheus Viana


“O bom filho para casa volta”, preconiza o adágio popular. Jesus viveu uma experiência similar. Lucas foi enfático em sua narrativa: “Ele (Jesus) foi a Nazaré, onde havia sido criado, e no dia de sábado entrou na sinagoga, como era seu costume” (Evangelho segundo Lucas 4:16). Antes disso, porém, Lucas detalhou que Jesus voltou para a região da Galileia “no poder do Espírito” (Vs. 14).

O que vem em sua mente quando ouve ou lê esta expressão? O que, de fato, significa estar sob o poder do Espírito? Não pretendo, por conta de minha incapacidade, dar uma resposta definitiva. Mas desejo que nos atentemos ao que a Escritura afirma a respeito. Esta narrativa segue uma cronologia. Jesus foi batizado por João no rio Jordão, onde o Espírito Santo veio sobre Ele (Evangelho segundo Lucas 3:22). Depois, foi conduzido pelo Espírito Santo ao deserto para ser tentado pelo Diabo (Evangelho segundo Lucas 4:1), por ser parte do plano da redenção ao que Se submeteu. Portanto, vemos dois elementos vividos por Jesus estando sob o poder do Espírito: Ser batizado e provado.
     
O fato de Jesus ser batizado por João representou Sua plena submissão ao Pai. Pois Ele não tinha pecados dos quais se arrepender e ser purificado. Por não ter nascido da semente humana, era imaculado. Assim, estar sob o poder do Espírito é ser plenamente submisso ao SENHOR. Infelizmente, esta é uma verdade que tem sido deturpada. O significado empregado a esta expressão possui uma conotação muito maior de entretenimento do que de submissão. O modelo de devoção cristã em voga prioriza a experiência sensorial em detrimento da transformação interior que culmina em uma devoção integral e constante. “Sentir” arrepios por estar na “unção” é mais desejado do que a plena obediência a Deus – através da observação à Sua Palavra - gerada pela contrição que o Espírito Santo realiza no coração do ser humano.
     
Jesus foi à Galileia no poder do Espírito e... “Ensinava nas sinagogas”. Tal fato não é mera coincidência. Não há manifestação do poder do Espírito que não culmine em ensino. O apóstolo Paulo exortou a Igreja em Corínto, que fluía nos dons do Espírito, contra as divisões e imoralidades que seus membros exerciam.  Em sua advertência, afirmou: “E foi com fraqueza, temor e com muito tremor que estive entre vocês. Minha mensagem e minha pregação não consistiram em palavras persuasivas de sabedoria, mas em demonstração do poder do Espírito”. (I Coríntios 2:3-4 – Ênfase acrescentada). Este poder do Espírito se referiu ao seu ensino e testemunho de vida perante os membros daquela congregação.
     
Jesus estava no poder do Espírito diante daquela sinagoga em Nazaré. Sua atitude, que evidenciou tal fato, foi o ensino da Escritura. E Seu ensino foi justamente sobre viver sob a ação do Espírito. Nele podemos ver quais são as evidências. O fato de Jesus escolher o texto escrito pelo profeta Isaías não foi em vão. Ao ler a sentença “O Espírito do SENHOR está sobre mim”, explicitou o fato de que Ele era o Messias (ungido) de Deus. Pois o pensamento que permeava as mentes dos judeus ali reunidos era sobre a expectativa da vinda do Messias. O Espírito do SENHOR repousava sobre pessoas específicas, com finalidades específicas. E Jesus queria deixar claro que Ele era o cumprimento daquela profecia (Vs. 21). Munido desta autoridade, Ele soprou este mesmo Espírito sobre Seus discípulos logo após Sua ressurreição, e também em Pentecostes, a fim de que eles continuassem Sua obra (Atos 1:8).
     
Desta forma, podemos ver que a primeira demonstração de estar sob o poder do Espírito é “pregar boas novas aos pobres” (Evangelho segundo Lucas 4:18), o que é comumente relacionado ao ato de evangelizar. No entanto, podemos exercer evangelismo sem, contudo, pregarmos as boas novas aos pobres. O cerne da questão está na mensagem. A expressão traduzida como boas novas é evangelion. O que é pregar boas novas aos pobres? Fazer e ensinar o que Jesus fez e ensinou (Atos 1:1).
     
É possível pregar outro evangelho que não seja o de Jesus Cristo? Sim, é possível. É possível estar no poder do Espírito e pregar outro evangelho que não seja o de Jesus Cristo? Não, não é possível. É possível, então, estar sob o poder do Espírito e não pregar as boas novas aos pobres? Não, também não é possível. Mas qual é, afinal, a mensagem destas boas novas? Nascimento (encarnação), morte (cruz) e ressurreição (glorificação e Senhorio) de Jesus, o Cristo. Quando algum destes elementos é extraído da mensagem, ela é deturpada.
     
Uma pessoa sob o poder do Espírito proclama liberdade aos cativos. Esta proclamação, no entanto, é resultado de o proclamador ser livre e viver como tal. Por isso o apóstolo Paulo afirmou: “Onde está o Espírito, aí há liberdade...” (II Coríntios 3:17). No entanto, esta palavra tem sofrido uma severa mudança em seu significado. A liberdade apregoada pelo sistema secular é completamente conflitante com a que o Espírito Santo nos concede. Eis o conflito...

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Antropologia cristã

Matheus Viana    

No afã de conhecer quem é e, consequentemente, encontrar sentido para sua existência, o ser humano criou ao longo da história referências antropológicas. Os homens das civilizações mais antigas que a história registra - as mesopotâmicas - criaram deuses antropomórficos (forma de homem). Como estavam mais próximos do evento da queda, as necessidades ética e religiosa - produtos da Imago Dei ter sido deturpada no interior do ser humano - geravam neles o desejo de criar substitutos para supri-las. Estes “deuses” foram criados à imagem e semelhança do homem. O historiador Jean Bottero afirmou:

     “Para dar sentido ao mundo e à própria existência, eles haviam, portanto, postulado uma sociedade sobrenatural de ‘deuses’, concebidos à sua própria imagem superlativa”.[1]

Vemos, então, que o modelo antropológico tinha como referência uma plêiade de deuses, o que denota as necessidades ética e religiosa - pois são indissociáveis - sentidas pelo ser humano. No entanto, ele é o avesso do parâmetro antropológico original. Os homens das civilizações mesopotâmicas tinham razão sobre o fato de que o que o homem é e o sentido de sua existência não serão encontradas nele mesmo, mas em alguém além dele. Mas estavam equivocados no tocante a quem é este alguém. Como podemos ver, estes seres os quais atribuíam como referência, apesar de estarem além do homem, eram derivados dele. Algo contraditório e que reflete a religião ególatra. Ou seja, o desejo de autoconhecimento e a falta de referência fizeram com que criassem, a partir deles mesmos, modelos e os divinizaram.

De onde surgiu as necessidades ética e religiosa? De onde surgiu o desejo de autoconhecimento? As respostas estão no modelo antropológico judaico-cristão. Ele se divide em três aspectos coesos: ortopedia, ortodoxia e ortopraxia. Ortopedia, segundo o senso comum, é o ramo da medicina que estuda os ossos. Contudo, seu significado semântico é mais amplo. O termo é a junção de duas palavras gregas: orto (correto/original) e pedia (que é derivada de paideia, criança). Sintetizando, ortopedia é o modelo correto com que Deus criou o ser humano, ligado a ortogênese.
    
O ser humano foi criado por Deus à Sua imagem e conforme Sua semelhança (Gênesis 1:27). O texto hebraico descreve os termos imagem e semelhança como tselem e demuth, respectivamente. Sobre isso, elucidei no livro Culto racional:

     O termo tselem é derivado da palavra tselel que significa sombra. Esta imagem relatada no texto bíblico simboliza uma coisa projetada sobre outra, assim como a nossa sombra é resultado da luz solar ser projetada sobre o nosso corpo. O caráter e a ética de Deus (ética, aqui, não possui apenas o significado de conjunto de leis e normas, tampouco o sentido que a teologia liberal aplica ao termo, mas à plenitude do padrão de vida que Deus outorgou ao ser humano, manifesto por Cristo quando encarnou) foram estabelecidos a nós a fim de serem refletidos na criação.
    Por mais que os hebreus utilizaram, na escrita bíblica, de repetições, o uso do termo demuth, ao invés de usar apenas tselem, tem um motivo. Quando analisamos o texto de Gênesis 1:26-27 com o todo bíblico, vemos que imagem se refere ao caráter (a maneira de ser, pensar e agir, que é definida como ética divina) de Cristo (a segunda pessoa da Deidade) – incluindo, claro, a racionalidade – projetado no homem e manifesto através dele. É por isso que o apóstolo Paulo afirmou: “Aos que de antemão escolheu, também os predestinou para serem conforme a imagem de seu filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos.” (Romanos 8:29). E semelhança é que o ser humano, por portar tal caráter (imagem), exerceria sobre a terra - que Deus criou e onde lhe colocou, com todas as coisas que nele existem – o mesmo governo que o Criador exerce sobre os céus. Por isso o salmista declara: “Os céus são os céus do Senhor, mas a terra ele deu aos filhos dos homens.” (Salmo 115:16)[2]”.

Além disso, as Escrituras afirmam: “Formou Deus o homem do pó-da-terra, e soprou em suas narinas de seu fôlego de vida, e ele se tornou um ser vivente” (Gênesis 2:7). Vemos aqui a descrição do processo de criação do homem. Deus concedeu-lhe um corpo/físico, soprou em suas narinas de Seu fôlego (Espírito) de vida, e ele se tornou um ser vivente capaz de pensar, sentir, desejar e escolher. Em algumas traduções aparecem a expressão alma no lugar de ser. Isso se dá pelo fato de que a septuaginta – tradução grega do Antigo testamento – traduz a expressão nefesh como psique, que por sua vez foi traduzida como anima na versão latina Vulgata e, posteriormente, como alma para o português. No entanto, conforme afirmei no livro Culto racional:

     “... a alma para um judeu não tem a mesma conotação que possui no pensamento ocidental, influenciado pelo pensamento grego, sobretudo platônico. Nefesh, embora traduzido como alma para o português, fala do ser humano integral. Um judeu não faz a dicotomia clássica que os ocidentais fazem de corpo e alma. Portanto, amar a Deus com toda psique é amá-Lo com todo o seu ser, com tudo o que é”[3].

Munido de um corpo e da capacidade de pensar, sentir, desejar e escolher (psique), o homem recebeu tais atributos, presentes em sua ortopedia, com um propósito: exercer ortodoxia. Esta expressão é comumente traduzida – ou interpretada – como doutrina correta, o que não é errado, mas limitado. O conceito contido na expressão doxa abarca diferentes significados. Platão, por exemplo, em seu livro República, usou este termo para falar do conhecimento baseado na opinião, que é contrário ao epísteme, que é o conhecimento da verdade sobre a realidade adquirido na Academia. Já os apóstolos aplicavam a esta expressão o significado de glória. Ou seja, ortodoxia refere-se à forma correta de glorificar a Deus.
    
No processo da criação do homem por Deus, relatado em Gênesis 1:28, vemos dois momentos. O primeiro é quando Deus lhe abençoa – lhe concede o fôlego de vida -, o que faz com que o homem seja consciente de sua existência. No entanto, embora munido de tal consciência, ainda não conhecia a razão (sentido) de existir. Foi quando Deus lhe revelou-a: “Disse Deus: ‘Sejam férteis e multipliquem-se...”. Assim, o homem só pode encontrar a razão plena de Sua existência quando conhecer a plenitude do propósito de Deus à Sua vida. E, com isso, exercer ortodoxia. Mas, como podemos ver, o propósito que Deus instituiu ao homem no tocante à ortodoxia nos leva à ortopraxia. Uma vez que o homem foi criado de acordo com a ortopedia de Deus a ele, ela determinaria a forma como ele cultuaria a Deus (ortodoxia) e, com isso, exerceria na terra o governo que Deus exerce nos céus através de suas atitudes (ortopraxia).
    
Com relação a estes três elementos da antropologia judaico-cristã, temos a tríade cultivo-culto-cultura. O ser humano foi criado por Deus à Sua imagem e conforme a Sua semelhança (ortopedia) ao receber o fôlego de vida sobre seu corpo, feito do pó-da-terra. Ou seja, o homem foi o cultivo de Deus. Isso aconteceu para que ele realizasse a vontade de Deus a Ele de cuidar e cultivar o jardim (culto), a fim de exercer o governo de Deus sobre a criação (cultura) – Gênesis 2:15. Esta tríade contempla o homem de forma integral.
    
Jesus foi o modelo ortopédico de Deus ao ser humano (Romanos 8:29, I João 2:6). Na medida em que somos conformados neste modelo, pela obra do Espírito Santo e a Palavra de Deus em nós (II Coríntios 3:18), vamos praticando ortodoxia/culto e isso determina nossa ortopraxia/cultura. Vemos esta tríade em Atos 1:8, que marcou o nascimento da Igreja em Jerusalém, em Pentecostes. “Mas recebereis poder ao descer sobre vós o Espírito Santo (cultivo), e sereis minhas testemunhas (culto) tanto na Judeia, em Samaria e até os confins da terra (cultura). Os apóstolos se submeteram a esta antropologia.




[1] BOTTERO, Jean. No começo eram os deuses; Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011. p. 172.
[2] VIANA, Matheus. Culto racional: A interação entre as razões divina e humana. Ribeirão Preto. Editora Legis Summa, 2016. p. 17.
[3] Ibid. p. 31.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

O limbo do silêncio

Matheus Viana    

“Ai de vós, mestres da lei e fariseus, hipócritas!” (Evangelho segundo Mateus 23:13). Tais palavras saíram dos lábios de Jesus. E conforme Ele mesmo preconizou: “A boca fala do que está cheio o coração” (Evangelho segundo Mateus 12:34). O coração de Jesus estava farto da devoção incoerente que, afirmando – e acreditando – obedecerem a Deus, os alvos de Sua severa repreensão exerciam e, com isso, desviavam os homens cada vez mais Dele.
    
Na esteira desta narrativa, proponho-lhe: Imagine qual seria a realidade dos judeus se Jesus não proferisse tais palavras, mas ficasse em silêncio! Imagine se Ele agisse conforme muitos dizem: “Jesus, fique na sua, cuidando de sua vida e ensinando Seus discípulos! Deixe os fariseus e os mestres da Lei com os seus erros para lá!”. Em outras palavras: “Permaneça no limbo do silêncio!”.
    
Imagine se os apóstolos – os primeiros discípulos de Jesus Cristo - fizessem silêncio frente às seitas que ameaçaram a Igreja cristã, que se espraiava por todo o império romano, como os judaizantes, os gnósticos, os libertinos e os nicolaítas! Imagine se Justino - o mártir -, Orígenes, Irineu entre outros se calassem diante do escárnio que a fé cristã sofreu! Imagine se Atanásio permanecesse em silêncio diante da heresia ariana que pervertia a Pessoa de Jesus Cristo durante o concílio de Niceia!
    
Imagine se Jan Huss, em Praga, e John Wycliff, na Inglaterra, permanecessem em silêncio em relação ao abandono das Escrituras por parte da igreja romana! Imagine se Lutero permanecesse em silêncio em relação às indulgências e a tantos outros erros e abusos cometidos pela mesma instituição religiosa durante o papado de Leão X!
    
Jesus foi chamado de blasfemo (Evangelho segundo Mateus 26:65). Os apóstolos foram considerados apóstatas e pertencentes de uma seita chamada Caminho. Em outras palavras: hereges. Jan Huss foi queimado como um... herege. Lutero, até hoje, assim como os protestantes, independente da vertente ao qual pertençam, são considerados pelos católicos romanos como traidores e hereges.
    
Qualquer semelhança não é mera coincidência. “Se você quiser viver o Evangelho, viva-O de forma particular e deixe a gente viver o nosso evangelho”. Este é limbo do silêncio atual proferido, como um mantra, por muitas denominações evangélicas e direcionado às vozes que analisam as condutas do cristianismo vigente com a ortodoxia descrita nas Escrituras. Jesus veio para cumprir a plenitude da Lei de Deus (Evangelho segundo Mateus 5:17). Por isso foi enfático e direto (Evangelho segundo João 6:25-29). Foi público, abrangente e sem rodeios (Mateus 23:1-38). Tal firmeza O levou a se lamentar sobre Jerusalém. Pois a exposição do Evangelho, embora firme, sempre é feita em amor. Os apóstolos, por terem recebido este ensino, também.
    
Vejam a orientação do apóstolo Paulo aos filipenses: “Pois, como já lhes disse repetidas vezes, e agora repito com lágrimas, há muitos que vivem como inimigos da cruz de Cristo” (Filipenses 3:18). Como sabemos, estas cartas corriam as igrejas de várias cidades e eram lidas aos fiéis durante o culto público e coletivo. Ao seu discípulo Timóteo, advertiu: “Evite as conversas inúteis e profanas, pois os que se dão a isso prosseguem cada vez mais para a impiedade. O ensino deles alastra-se como câncer; entre eles estão Himeneu e Fileto. Estes se desviaram da verdade, dizendo que a ressurreição já aconteceu, e assim a alguns pervertem a fé” (II Timóteo 2:17).

João, o apóstolo do amor, não agiu diferente no tocante à manutenção da ortodoxia cristã. Falando sobre os anticristos de sua época, afirmou: “Eles saíram do nosso meio, mas na realidade não eram dos nossos, pois, se fossem dos nossos, teriam permanecido conosco; o fato de terem saído mostra que nenhum deles era dos nossos. (...) Quem é mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo?” (I João 2:19-20 e 22). Há várias outras citações. Mas não quero deixar o texto exaustivo.
    
O argumento usado para arrefecer as vozes dissonantes é o do “Não se levante contra uma autoridade instituída por Deus!”. Sendo assim, não devemos nos levantar contra os abusos do governo, em qualquer uma de suas esferas; o impeachment da Dilma foi “coisa do cão”; e não devemos nos levantar contra o Ministério da Educação (MEC), por exemplo, no tocante à imposição da ideologia de gênero, entre vários outros artifícios que visam o estabelecimento de uma sociedade anticristã. Pois o Sr. Ministro da educação é uma autoridade. E toda autoridade é instituída por Deus, e por isso devemos obedecê-las, não é verdade? Não completamente, de acordo com Atos 5:19. Como é possível se levantar contra estas autoridades e, ao mesmo tempo, sustentar o discurso do “não se levante contra as autoridades”? O nome disto foi dito por Jesus: hipocrisia.
    
Jesus afirmou que Ele possui toda a autoridade nos céus e na terra (Evangelho segundo Mateus 28:18). Assim, só é munido de autoridade quem permanece Nele. Como permanecer Nele? Vivendo, de forma íntegra, segundo o Seu Evangelho. Quem não estiver de acordo com Ele, ainda que não tenha deixado de ser pecador (Cf. I João 1:8), o que é completamente diferente de não abandonar a vida de pecado, não possui autoridade diante de Deus, ainda que a tenha diante dos homens.
    
A cúpula religiosa que Jesus enfrentou estava munida de autoridade diante dos homens, mas não diante de Deus (Evangelho segundo Marcos 7:6-9). A da época dos apóstolos, idem. A igreja romana que classificou de hereges Huss, Wycliff e Lutero, não estava munida da autoridade de Deus, por mais que o Papa falasse ex-cathedra por ser o “vigário de Deus na terra”, pois havia abandonado o Evangelho de Cristo.
    
Posso imaginar Lutero, diante de alguns representantes da cúria romana, na dieta de Worms em 17 de abril de 1521. Após ser forçado a renunciar seus escritos, sermões e as 95 teses que fixara quatro anos antes na Catedral de Wittemberg, sob a ameaça de morte, disse: “Levo minha consciência cativa à obediência de Cristo”. Nesta mesma ocasião, propôs que aqueles representantes da cúria dissessem a ele onde seus escritos, sermões e teses estavam contra as Escrituras. Não havia nada errado.
    
Esta é a mesma proposta, guardadas as devidas proporções, que faço aos meus detratores. Chamar-me de herege por expor as Escrituras é direito deles. Mas meu dever é continuar a expor as Escrituras como base para refutar, em amor, mas com seriedade, o falso evangelho que desviam pessoas da fé, apesar de minhas imperfeições. Uma coisa não anula a outra. Excetuando Jesus, todos os demais citados nas linhas acima eram pecadores. João chegou a afirmar que aquele que diz não ter pecado é mentiroso, ou seja, pecador (I João 1:8). Paulo declarou: “Miserável homem que sou” (Romanos 7:24). Mesmo assim, não titubearam em expor o Evangelho e as práticas erradas de pessoas que pervertiam a fé. Por que eu, embora pecador, agiria diferente?

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Parábolas ou mistérios do Reino de Deus? - Parte II

Matheus Viana

Conforme Jesus afirmou, Seu propósito em contar a parábola não foi um artifício lúdico para facilitar o entendimento da multidão de ouvintes, como afirmam alguns. Foi, pelo contrário, de que não compreendesse: “Por esta razão eu lhes falo por parábolas: ‘Porque vendo, eles não veem e, ouvindo, não ouvem nem entendem’” (Evangelho segundo Mateus 13:13). Jesus, por sua vez, não falou de Si mesmo, ainda que possuísse (e possui) toda a autoridade para falar (Evangelho segundo Mateus 28:18). Mas evocou a profecia feita por Isaías: “Neles se cumpre a profecia de Isaías: ‘Ainda que estejam sempre ouvindo, vocês nunca entenderão; ainda que estejam sempre vendo, jamais perceberão. Pois o coração deste povo tornou-se insensível; de má vontade ouviram com os seus ouvidos e fecharam os seus olhos...’” (Vs. 14).
    
A percepção plena da realidade, em todos os seus âmbitos, bem como o entendimento dela são desdobramentos do reconhecimento e exercício do pleno Senhorio de Jesus Cristo sobre tudo e todos. A multidão - assim como a cúpula religiosa judaica, cujos membros faziam parte dela - não reconhecia Jesus como soberano e único SENHOR, conforme afirma o Shemá. A maneira como aquelas pessoas pensavam, sentiam e agiam denunciava tal carência. Sem o conhecimento de quem Cristo é, não é possível conhecer quem somos e como é a realidade a qual estamos inseridos, em todos os seus níveis. Pois eles são fundamentados nos absolutos que Ele estabeleceu na criação (Colossenses 1:15-17).
    
Assim, o empirismo científico não é suficiente, bem como o racionalismo naturalista também não é. O subjetivismo pós-moderno, por sua vez, não apenas é insuficiente para interpretá-la, como cria uma realidade paralela e reduzida. Antes de elucidar sobre a semente que germinou e produziu bons frutos, Jesus descreveu três situações distintas. A primeira é a que chamo de periférica, de caráter sensitivo (empírico). A segunda é a superficial, de caráter sentimental (emocional). A terceira é a materialista, de caráter secular (racionalista). Embora distintos, estão relacionados de forma coesa.
    
O fato de Jesus usar a linguagem da semente na terra é alicerçado no princípio do culto racional, que consiste na tríade cultivo-culto-cultura. O ser humano foi formado do pó da terra e recebeu do fôlego de vida de Deus (Gênesis 2:7). Somos, portanto, o cultivo de Deus. Seu propósito para nós consiste em, através do nosso cultivo, cultuarmos a Ele e desenvolvermos Sua cultura sobre toda a criação (Isaías 11:9). Processo chamado de mordomia, conforme elucidado por mim no livro Culto racional. Devemos compreender criação como a realidade que nos permeia em todos os seus âmbitos. Assim, somos a primeira terra que deve receber o cultivo da semente do Evangelho do Reino, mas não a única.
    
Toda a criação sofreu um intenso processo de degradação por conta da depravação oriunda do pecado original (Gênesis 3:17). Tal fato fez com que vários obstáculos surgissem, impedindo o florescer desta preciosa e soberana semente. A primeira situação elucidada por Jesus foi a parte da semente que caiu à beira do caminho. Aqui surgem algumas indagações: À beira de qual caminho? Em qual caminho temos trilhado? Os fatos falam por si. É nítida, na abordagem de Jesus, a existência de dois caminhos: um trilhado pela multidão e outro pelos discípulos. O trilhado pela multidão é o que conduz às bênçãos que Jesus pode oferecer. O outro conduz ao próprio Cristo. Quando Jesus afirmou ser O Caminho (Evangelho segundo João 14:6), não se referiu meramente a uma rota – externa a Ele - que iria mostrar. Mas afirmou que Ele é o próprio Caminho.
     
O salmo 18:30 diz: “O caminho de Deus é perfeito”. O texto hebraico, transliterado, afirma: “HaEl tamiyn darko (derekh) imerat”. A tradução literal deste texto é “O Deus caminho perfeito é”. Para que ele tenha sentido ao leitor de língua portuguesa, os tradutores utilizaram das seguintes formas: “O caminho de Deus é perfeito” e “Deus, cujo caminho é perfeito”. Mas, para os judeus, não é necessário o acréscimo de nenhum artifício para dar sentido a esta afirmação. O sentido para eles é claro e definitivo: O Deus é o caminho perfeito. Jesus, ao fazer tal afirmação, estava declarando que Ele é a plena personificação do derekh tamiyn. Por isso Seus discípulos ficaram conhecidos como a seita do Caminho. E não há outra forma de se achegar a Ele sem a obra do Espírito Santo em nós (Evangelho segundo João 16:8). E esta, por sua vez, é resultado de nos submetermos à Sua cruz. Pois, para que o Espírito Santo viesse sobre os discípulos, era necessário que Jesus primeiramente fosse crucificado (Cf. Evangelho segundo João 15:26).
    
Assim, seguir e viver um evangelho desprovido de cruz é estar à beira do caminho. Considerar, equivocadamente, a dicotomia vida secular/vida espiritual é estar à beira do caminho. Interpretar o Evangelho pelas lentes do secularismo, em suas várias nuanças, é estar à beira do caminho. Por isso Jesus afirmou, ao explicar a mensagem íntegra de seu ensinamento: “Quando alguém ouve a mensagem do Reino e não a entende, o Maligno vem e arranca o que foi semeado...” (Evangelho segundo Mateus 13:18 – Ênfases acrescentadas).
    

Ouvir e não entender. Conforme vimos anteriormente, não entenderemos a mensagem do Reino, de forma íntegra, sem submetermos nosso modo de pensar a Ele (II Coríntios 10:5). Ou seja, não devemos submeter a Ele apenas o nosso aspecto sensitivo, mas também o racional (Tiago 1:22). Isso, claro, como desdobramento de nosso comprometimento espiritual (coração). Eis o ‘x’ da questão. Qual é a epistemologia que fundamenta o pensamento do evangelicalismo moderno?