terça-feira, 9 de maio de 2017

Cognição emocional

Matheus Viana    

Entre a informação que recebemos e o conhecimento que, a partir dela, desenvolvemos há a cognição. Para melhor compreensão deste tema, devemos considerar o conceito judaico – do qual o cristianismo primitivo utilizou – de ser humano. Quando um judeu se refere ao nefesh, traduzido para o português como alma, não fala apenas do interior do homem, tampouco se refere àquilo que os gregos chamaram de psique. Mas fala do homem integral. Conforme afirmei no livro Culto racional, os judeus não fazem distinção entre corpo e alma, comum no pensamento grego que influenciou o pensamento ocidental, incluindo o cristianismo. Além disso, também não considera a distinção entre céfalo (cérebro) - e noia/nous (mente) - e psique, também conhecida como neuro e psico.
     
Jean Piaget, ao seu modo, chamou este processo de equilibração majorante. Nesta teoria, a captação da informação – que recebemos através de nossos sentidos - é chamada de assimilação e a obtenção do conhecimento de acomodação. A cognição é composta de dois elementos distintos, porém coesos: razão e emoção.  O que significa que um não é completamente destituído do outro. Eles abarcam seus respectivos desdobramentos, que Herman Dooyeweerd chamou de aspectos modais ao descrever a experiência do ser humano com a realidade que o cerca[1].
     
Dooyeweerd dividiu esta experiência em duas atitudes: a pré-teórica, que é o conjunto de premissas  que fundamentam o modo como o indivíduo interpreta suas experiências empíricas (senso-percepção); e a teórica que é o ato da cognição em si. Assim, vemos que ele chamou de atitude pré-teórica as premissas de fé que interpretam as informações que o ser humano recebe, e a teórica o processo de transformar estas informações em conhecimento. A atitude teórica, segundo Dooyeweerd, se divide em dois aspectos: lógicos e não-lógicos.[2] Ele classificou como lógicos os aspectos concernentes à razão. E como não-lógicos os concernentes à fé e também a emoção/afeto. Podemos ver, portanto, que ele chamou cognição de atitude teórica.
     
Nossa reação diante de uma informação nova, no caso positivo, será, no momento da assimilação - ou da atitude pré-teórica - de admiração e depois de um esforço racional para acomodá-lo. No caso negativo, será de rejeição, o que acarretará, em algumas vezes, na eliminação do próximo passo. Quando criança, o ser humano não é capaz de distinguir estes dois elementos com seus respectivos aspectos. Por isso é comum entre os adolescentes e jovens, embora mais frequente nas mulheres, um(a) aluno(a) se apaixonar pelo(a) professor(a). Pois sentirá admiração pelo que aprendeu e não conseguirá, por conta de sua incapacidade de discernimento, separar o conteúdo ensinado de quem o ensina. Na medida em que amadurece, o indivíduo consegue colocar cada elemento em seu devido lugar.
     
Os gregos, principalmente Platão e seus discípulos, diziam que uma pessoa virtuosa é aquela cujos desejos são governados pela razão. No caso do cristão, Cristo governa sua razão e esta, por sua vez, governa suas emoções (II Coríntios 10:5-6). Suas ações serão demonstrações de tal governo. Mas no indivíduo infanto-juvenil, esta capacidade (virtude) ainda não está amadurecida. Diante do novo, em muitos casos, a emoção guiará sua cognição. Embora saiba que a vontade de Deus, revelada em Sua Palavra, seja a coisa correta a fazer (razão), o indivíduo irá preteri-la diante de sua vontade, pautada majoritariamente nas emoções.
     
Diante de uma proposta inédita que lhes for apresentada (informação), como por exemplo, a do homossexualismo, alguns agirão (assimilação) com curiosidade, que é uma maneira como a admiração se manifesta. Devido à incapacidade de desmembrarem emoção de razão, peculiar do período etário, tal curiosidade dará a estes indivíduos a impressão de que nutrem, de fato, um desejo pelo mesmo sexo. O que os levará a deduzirem (acomodação), por eles mesmos, que são homossexuais. Há um salto de mera curiosidade para a ilusória definição de sua identidade, o que se tornará hábito.
     
O desejo, oriundo da curiosidade, fará a razão sucumbir diante dele. No entanto, há outro problema ainda mais grave. O padrão ético/moral – no qual a razão se fundamenta - atual é definido pelo Estado com todos os seus tentáculos, utilizados na destruição de todo padrão ético/moral fundamentado nos absolutos de Deus ao homem (antropológico) e ao universo (cosmológico), chamando-os de construções sociais. Vide a questão, por exemplo, da identidade de gênero. Neste rolo compressor relativista, a família, principal ente responsável pela formação do indivíduo e base da sociedade, é alvo de severa degradação.
     
O ideal do Estado, como instrumento do movimento revolucionário, é suprimir a moral judaico-cristã para estabelecer uma moral soberana, pautada puramente nos desejos humanos. Proposta elucidada por Friedrich Nietzsche, ao definir o que chamou de moral nobre, que denominou como vontade de poder. Vale lembrar que seu raciocínio está fundamentado na vontade de viver elucidada por Arthur Schopenhauer, que afirmou ser vontade a essência humana. Ou seja, o ser humano não apenas possui vontade. Ele é vontade. A partir desta premissa, afirmou que o caráter humano se divide em três partes: inteligível, empírico e adquirido. O inteligível, segundo ele, é o conhecimento racional da vontade. Sobre o empírico, afirmou: “O caráter empírico, simples instinto natural, é em si desprovido de razão. Suas próprias manifestações são impedidas pela razão...”[3].
     
Neste raciocínio, Schopenhauer definiu justiça como o ato de permitir que o indivíduo realize sua vontade (que ele não diferenciou de instinto), pois isso significa que ele está vivendo; e injustiça como o ato de impedir, por qualquer meio, que o indivíduo realize sua vontade, pois isso significa que ele está morrendo. É notório que, nesta proposta, a razão se transforma em obstáculo do livre fluir da vontade, por isso é rechaçada. A consequência é o estabelecimento da supremacia das emoções.   
     
No entanto, séculos antes, Agostinho de Hipona desvendou este enigma em seu livro Cidade de Deus quando falou do caráter do império romano e seu ataque contra a Igreja Cristã. Conforme preconizou Karl Marx em seu livro A ideologia alemã, o homem é aquilo que faz, e não o que pensa. Segundo ele, as ações do homem são determinadas pelos seus instintos e desejos, e não por um padrão racional determinado pela burguesia.
     
Mas algo a ser considerado é que, para Marx, os instintos e desejos humanos se resumem na busca pela libertação da “opressão burguesa”, representada pela moral judaico-cristã. Todas as demais vertentes deste pensamento no âmbito sociocultural, com suas muitas nuanças, emanam desta fonte, que nada mais é do que desdobramento do episódio ocorrido no Éden entre o ser humano e Deus. Ao ver a ética que Deus lhe estabeleceu como privação da liberdade (interpretada como uma autonomia utópica), cuja deturpação foi fruto da mente corrompida pelo engano de Satanás, o ser humano desejou o ilícito e irrompeu em sua rebeldia contra Deus e Seus mandamentos. Qualquer semelhança não é mera coincidência.
     
Ainda que não possa ser considerado como um movimento homogêneo, parte considerável do pensamento iluminista do século 18 visou, no afã pela mesma liberdade (autonomia) que o homem buscou no Éden, que a razão deixasse de ser influenciada – e em alguns casos governada - pela teologia cristã. É considerado por muitos como o ápice do período chamado de modernidade. Mas o resultado foi uma razão centrada em si mesma, não tendo nada além dela. Com isso, a tão buscada liberdade se transformou numa máquina regida pelos ditames racionais. A saída foi o salto existencial, que marcou o período pós-moderno. A posição em que a sociedade se encontra é uma síntese de toda esta miscelânea. O salto existencial não visa somente libertar o homem das correntes da razão, mas também dos absolutos de Deus (chamados de religiosos) que não são somente racionais. Pois qualquer absoluto é visto como elemento opressor.
     
Um fator preponderante é que o conhecimento que tem regido as ações de muitos indivíduos que se confessam cristãos não está fundamentado em Cristo. É comum o fato de alguns jovens cristãos, vítimas do processo elucidado nas linhas acima, orarem para que Deus tire desejos pecaminosos de seus corações. Pelo fato de tal clamor não ser atendido, deduzem que o próprio Deus, por ser soberano, colocou tais desejos. Tanto a oração como a dedução são equivocadas por estarem baseadas puramente nas emoções. Em outras palavras, na vontade de viver e de poder.
     
Fica nítida neste caso a falta de um pensamento alicerçado nas doutrinas da soberania de Deus e da pecaminosidade e responsabilidade humanas. O motivo? Informação incorreta. Eis a lógica: Informação incorreta gera conhecimento incorreto que redunda em ações incorretas. Diante deste quadro, convém questionar: Quais informações os jovens têm recebido?
     
O evangelho autoajuda atualmente disseminado deturpa a imagem de Deus, do ser humano e do relacionamento entre ambos. Por ser um evangelho egocêntrico, a soberania de Deus é reduzida ao desejo humano. Pecado gera culpa, que por sua vez gera mal-estar existencial. Logo, é necessário transferir a culpa do pecado para a soberania de Deus. Proposta pra lá de indecente. De tal forma, temos o disseminar de um evangelho que não confronta o pecado a fim de libertar o homem de sua terrível condição, fazendo valer o fruto do penoso trabalho de Cristo (Isaías 53:10). Mas o de causar bem-estar.
     
O apóstolo Paulo falou de dois tipos de tristeza, que podemos interpretar como mal-estar: o gerado por Deus, através do arrependimento que é fruto da ação do Espírito Santo em nós; e o do mundo (II Coríntios 7:10). Mas em nenhum momento fala de bem-estar ou conforto. Apesar de serem expressões semelhantes, confronto é completamente diferente de conforto. O Evangelho nos confronta visando nos conformar a Cristo, o padrão perfeito de Deus ao ser humano (Efésios 4:13). O conforto é um estágio posterior. Assim, não há verdadeiro conforto, que a Bíblia chama de descanso, sem confronto. Se o cristianismo que você vive é confortável, não é cristianismo. É idolatria. Ou melhor, é um engodo religioso construído por uma cognição emocional.





[1] DOOYERWERD, Herman. No crepúsculo do pensamento: Estudos sobre a pretensa autonomia do pensamento filosófico. São Paulo: Hagnos, 2010. p. 57.
[2] Ibid. p. 54
[3] SCHOPENHAUER, Arthur. Do mundo como vontade e representação: Como vontade – Segunda consideração. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012 (Saraiva de bolso). p. 68.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

O Sublime Artista

Matheus Viana

Não deixe de ler, de antemão, o texto Cultura e o ser cultural

Não é possível pensar em cultura sem considerar arte. Pois arte é a maneira como o homem realiza o cultivo. Um artesão ou artífice é aquele que produz os artifícios (métodos, sistemas ou instrumentos) necessários para a prática do cultivo. Portanto, cultivo/cultura está intrinsecamente ligado à arte. E ambos conectados com culto.
    
Assim, toda arte é religiosa. As obras de arte mais antigas que a história registra tinham finalidades religiosas. Eram representações de seres naturais deificados pelo homem com a finalidade de suprir seu sensus divinitatis. A cultura grega trabalhava com a arte em dois aspectos: Techné e poésis. O primeiro era a técnica utilizada na produção de arte de maneira geral. Já o segundo era referente à forma no sentido estético. Ambos relacionados ao trabalho (cultivo) do homem. Portanto, ligados a culto. O objeto da arte greco-romana, por exemplo, era o culto aos deuses e, como consequência disto, ao homem. Por isso era comum deuses serem representados como figuras humanas (antropomórficas). Nos períodos da escolástica e da renascença, a arte era dividida como de ofício, ligada ao trabalho, e as liberais, ligadas à descrição da realidade.
    
Quando evocamos os primórdios da arte, vemos que Deus a concedeu ao homem para que este realizasse o mandato cultural ou culto racional, que era o cultivo do jardim no Éden (Gênesis 2:15). Antes disso, Ele criou o universo e tudo o que nele há, dos pontos de vista natural e sobrenatural, com arte, contemplando o belo. Por isso a Bíblia diz que, ao contemplar tudo o que criara, Deus viu que era bom (Gênesis 1:31). Belo está ligado à ordem. Por Sua vez, ordem está ligada à autoridade.
    
Imagine as expressões tohu e vavohu, usadas por Moisés para descrever a situação primária do universo e traduzidas para o português como “sem forma e vazia”, como uma tela diante do artista! Nela, Deus começou criar Sua obra de arte. Ele disse e Se manifestou como Luz. Não há como criar algo sem ver o que está sendo criado. Um artista não pode produzir no escuro completo. A luz é necessária. No caso de um portador de necessidades especiais visuais, a “luz” é os seus demais sentidos. Na arte de Deus, Luz não foi apenas algo que iluminou. Ele foi (e é) a própria Luz. Todo artista coloca algo de si em sua obra. Com Deus não foi diferente.
    
A primeira arte utilizada em Sua obra foi a fala. Por meio deste artifício, criamos e reproduzimos histórias, elucidamos conceitos e disseminamos argumentos. Com isso, levamos os ouvintes a criarem, pela imaginação, algo em suas mentes e corações. Pela fala, - sendo Ele a própria Palavra (logos) manifesta (Cf. João 1:1) - Deus criou as leis físicas (incluindo tempo, espaço, matéria e energia) para executar Sua obra de arte chamada universo. Baseado neste fato, o salmista afirmou: “Pois ele falou, e tudo se fez; ele ordenou e tudo surgiu” (Salmo 33:9).
   
É nítida a organização feita por Deus no processo de Sua obra. “Disse Deus: ‘Ajuntem-se num só lugar as águas que estão debaixo do céu, e apareça a parte seca’. E assim foi”. (Gênesis 1:9). Não há arte sem organização, sem limites a serem observados. Em seu diálogo com Jó, Deus lhe disse: “Onde você estava quando lancei os alicerces da terra? Responda-me, se é que você sabe tanto! Quem marcou os limites de suas dimensões? Talvez você saiba! Quem estendeu sobre ela a linha de medir? E os seus fundamentos sobre o que foram postos? Quem colocou sua pedra angular, enquanto as estrelas matutinas juntas cantavam e todos os anjos se regozijavam?”. (Jó 38:4-7). É claro que Jó sabia quem era (e é) O artista.
    
Mas o que falar de Sua principal obra de arte, o homem? Em Gênesis 2:7, lemos a expressão: “O Senhor Deus formou o homem do pó da terra”. Vemos aqui a primeira escultura da história. Ela foi feita pelo próprio Deus e recebeu de Seu fôlego de vida. Isso levou Jó a afirmar: “Foram as tuas mãos que me formaram e me fizeram (...) Lembra-te de que me moldaste como o barro ...” (Jó 10:8-9).
    
A expressão Ele formou (vayiyster), que aparece em Gênesis 2:7, traz a ideia de fazer conforme um modelo, que foi elucidada por Jó em sua afirmação citada acima. A Bíblia diz que Deus criou o homem à Sua imagem (tselem). A obra de arte chamada homem refletiria o caráter do Criador como uma espécie de Sua sombra, sendo esta resultante do irradiar da Luz (o próprio Deus) sobre ela. Mas para isto era preciso revestir esta escultura com Seu fôlego de vida. Assim, o homem passa a ser um ser vivente, munido de racionalidade para compreender e virtude para exercer Sua ética (Gênesis 1:28).
    

Para tal fim, Deus exerceu a arte do sopro. E para completar Sua obra, utilizou novamente a arte da fala. Sua fala ao homem, no entanto, teve uma forma peculiar. Além da ordem, houve ensino ou instrução. Instruir ou Ensinar é uma arte. O professor é o artista que, munido da Palavra de Deus e revestido pelo Seu Espírito, esculpe no caráter (todo o aspecto interior) do aluno a imagem de Cristo, a fim de que ele alcance a estatura do varão perfeito (Efésios 4:13). Isso é exatamente o que Deus realizou no homem no início e continua fazendo através do Espírito Santo em nós (II Coríntios 3:18).

terça-feira, 18 de abril de 2017

Cultura e o ser cultural

Matheus Viana

Tudo o que está relacionado à nossa vida, no campo material, tem sua origem na terra ou na natureza de forma geral. Nossas roupas são feitas de matérias-primas originadas de plantas, como por exemplo, o algodão. As sandálias, tênis ou sapatos que calçam nossos pés contêm borracha e látex extraídos de seringueiras. Nossas habitações são pavimentadas por pedras, tijolos (que vêm do barro), de blocos (compostos por minérios encontrados na natureza), de ferro (outro minério), madeiras entre outras matérias-primas naturais.

A eletricidade que nossas moradias dispõem vem da água e, em casos específicos, do sol ou do vento, entes naturais. Os instrumentos usados na produção de músicas que apreciamos (refiro-me ao quesito música, não aos barulhos eletrônicos produzidos atualmente) são feitos, entre outras matérias-primas, de madeira e de couro animal. O figurino dos atores da peça de teatro a qual assistimos, as bolas usadas em jogos de futebol (ou qualquer outra modalidade esportiva que use este artifício redondo) dos quais participamos, os uniformes e chuteiras dos jogadores... Enfim, toda atividade humana possui profunda relação com a natureza, com a terra. O que isso significa?
     
O ser humano produz, em todo momento, cultivo ou cultura. Ao ler este texto, estás cultivando o conhecimento. E a prática dele, o exercício chamado de sabedoria, também é produção de cultura. Portanto, uma pessoa culta não é apenas a que possui uma grande e variada quantidade de conhecimento, mas a que está inserida em uma sociedade e é capaz de receber e produzir cultura.
    
Imagine você e sua família morando em uma terra isolada, erma e distante! Não terão alternativas, caso queiram sobreviver, a não ser cultivarem o ambiente onde vivem. Procurarão extrair da natureza recursos, seja através da caça, da pesca ou da agricultura. Cultivarão o lugar não apenas para extrair alimentos, mas também roupas e materiais para a fabricação de uma habitação. Alimento, vestuário e habitação. Necessidades humanas básicas. Cultura/cultivo é o homem exercendo o ato de viver ou sobreviver no ambiente em que vive.
    
Na tentativa de cultivar a natureza, métodos, sistemas e instrumentos (ferramentas) - os quais são conhecidos como artifícios – surgirão e serão passados para as gerações posteriores como herança de costumes e valores. É a consolidação da cultura de uma sociedade[1] que, neste caso, é a sua família. Conforme Aristóteles definiu em seu livro Política, sociedade é o conjunto de famílias[2]. Isto, portanto, tem sua origem no Éden. A cultura humana também, pois provém do fato de o homem ter sua origem na terra (Gênesis 2:7). Ele é produto de uma cultura: A do Criador do universo. O cultivo do homem sobre a terra, que é a forma como ele cultua o Criador, é resultado do fato de ele ser, antes de tudo, o cultivo de Deus. Por isso foi criado para receber, produzir e exercer cultura. O teólogo e historiador Justo González elucidou:

“... parte do propósito de Deus ao criar a criatura humana e fazê-la livre é que essa criatura desenvolva cultura, que se relacione com seu ambiente em criatividade e amor, à imagem e semelhança da relação de Deus com o mundo e a humanidade.”[3]

E a finalidade disto é se relacionar com o Criador a fim de expressar Sua Glória à toda criação. O ato de cultivar o lugar onde habitava - no jardim do Éden - era exercer culto ao Criador, pois estava cumprindo o chamado mandato cultural, o qual chamo, a exemplo do apóstolo Paulo, de culto racional (Gênesis 2:15). Cultuar é glorificar. E glorificar é obedecer. Daí o termo ortodoxia, que, no sentido bíblico, ao se referir à doutrina correta, fala da forma correta de glorificar a Deus, já que os apóstolos, sobretudo Paulo, utilizaram o termo doxa para falar da Glória de Deus. Assim, fica claro que não basta cultuar a Deus da forma correta. A intenção também precisa ser correta. Pois é possível seguirmos à risca a liturgia doutrinária com o intento de nos envaidecermos em nossa devoção.
    
Quando ajo de acordo com a tradição cultural de uma sociedade, estou obedecendo-a. Com isso, exerço culto, pois cultuo (glorifico e honro) os que a criaram e a consolidaram, ainda que inconscientemente. Ao fazer do homem um ser vivente, Deus instituiu-lhe uma ética (Gênesis 1:28). Ela era a cultura sob a qual devia viver. Exercendo-a, estaria cultuando-Lhe. A qual cultura você é submisso? O que tens produzido e exercido como fruto de sua submissão a ela? Nossas ações e seus consequentes resultados respondem tais questões.
    
O cristão que pauta sua vida no materialismo histórico-dialético cultua, ainda que de forma inconsciente, Karl Marx e seus asseclas, bem como todo o projeto revolucionário de engenharia social e de destruição da moral judaico-cristã que lhe é próprio. Os que cultuam o liberalismo econômico cultuam Mamon e o individualismo, desdobramentos da idolatria humanista. Cultura cristã, por sua vez, é o homem agindo de acordo com o legado de Jesus Cristo revelado pela Sagrada Escritura (Cf. Evangelho Segundo João 5:39). Ele encarnou para exercer na terra a cultura do Céu, para cultivar em nós Sua vontade a fim de que possamos exercê-la onde vivemos. Resumindo, realizarmos Culto racional.



[1] GONZÁLEZ, Justo. Cultura & Evangelho: O lugar da cultura no plano de Deus. Hagnos, 2011. p. 38-39.
[2] ARISTÓTELES. Política. Nova Fronteira (Saraiva de bolso), 2011. p. 21.
[3] GONZÁLEZ, Justo. Cultura & Evangelho: O lugar da cultura no plano de Deus. Hagnos, 2011. p. 54.

terça-feira, 11 de abril de 2017

O conhecimento do crucificado




Matheus Viana

“Pois decidi nada saber entre vocês, a não ser Cristo, e este crucificado”.
(I Coríntios 2:2).

O contexto em que o apóstolo Paulo fez esta afirmação era semelhante ao atual. A Igreja em Corinto estava dividida por alguns teólogos que, nas palavras de Paulo, ocupavam, ainda que inconscientemente, o lugar do próprio Cristo no coração de seus seguidores (I Coríntios 1:12). Hoje, ouvimos algumas declarações como: “Sou de Lutero”, “sou de Calvino”, “sou da TMI”, “sou pentecostal”, “sou reformado”, “sou do MDA”, “sou do G12”, “sou universal”, enfim... Há muitas correntes confessionais existentes sob a alcunha de cristianismo. Cada uma delas afirma possuir a Verdade do Evangelho e, por isso, classifica o dissenso de herege.
     
Por outro lado, há os que desconsideram toda a herança histórica da Igreja dizendo “somos de Cristo” como justificativa para se confessarem como desigrejados ou antidenominacionalistas. Com isso, se esquecem do fato de que Igreja não é uma organização denominacional ou instituição humana, mas é a vasta comunidade de pessoas que foram salvas pelo Messias e que O seguem como SENHOR. Além de se considerarem como uma “casta superior” da fé cristã, criam exatamente o que visam destruir: Uma denominação chamada desigrejados.
     
O objetivo de Paulo era acabar com a divisão na Igreja em Corinto. Para isso, era ciente de que teria que mostrar quem Cristo, de fato, era (e É). Esta demonstração, no entanto, não seria realizada segundo os pressupostos humanos que fundamentavam o pensamento e a visão daquela congregação. O que levou Paulo afirmar: “Eu mesmo, irmãos, quando estive entre vocês, não fui com discurso eloquente, nem com muita sabedoria para lhes proclamar o mistério de Deus” (I Coríntios 2:1).
     
Paulo não desconsiderou a racionalidade – que difere de racionalismo - do culto a Deus e do consequente conhecimento da pessoa de Jesus Cristo. Mas descreveu qual era seu fundamento. É notório que Paulo estava dizendo que não usava de artifícios e pressupostos filosóficos para atingir seu objetivo. Ele não tinha sua demonstração do Evangelho alicerçada nas estruturas cognitivas da maiêutica socrática, da dialética platônica ou da lógica, retórica, ética e metafísica aristotélicas, ainda que em alguns momentos utilizou-se deles, como meras ferramentas, em seus discursos. Mas no fazer e ensinar do próprio Cristo. Eis o nosso desafio.
     
A existência dos muitos movimentos doutrinários, que surgiram ao longo da História da Igreja Cristã, se dá pela variedade de elaborações teológicas resultantes de interpretações oriundas dos pressupostos culturais vigentes em cada período. Vários apologistas do período patrístico, por exemplo, na tentativa de elaborar uma ortodoxia fiel ao ensino de Jesus e dos apóstolos, produziram uma teologia permeada de elementos filosóficos gregos, sobretudo platônicos, por serem características do pensamento da época. 
Em relação aos reformadores, é nítido ao analisar a teologia de Lutero, por exemplo, detectar aspectos do nominalismo de Ockham. Herman Dooyeweerd afirmou: “Lutero, o grande reformador, estivera sob a influência do círculo de Ockham durante sua permanência no mosteiro de Erfurt. Ele mesmo declarou: ‘Sou da escola de Ockham’. Sob a influência de Ockham, o motivo religioso básico da natureza e da graça continuou a permear a vida e o pensamento de Lutero.”[1]
     
Ao analisarmos os chamados contratualistas, como por exemplo, John Locke e Jean-Jacques Rousseau, vemos que, como cristãos, interpretaram as Escrituras de acordo com os pressupostos iluministas da liberdade autônoma e, com isso, elaboraram suas respectivas teorias políticas. O liberalismo teológico do século 19, com todas as nuances de seus proponentes, não fugiu à regra. Em contrapartida, o fundamentalismo, a fim de refutá-lo sacramentando a inerrância das Escrituras e a divindade de Cristo, submeteu as Escrituras às estruturas racionalistas.
     
No século 20, vemos teologias resultantes da tentativa de romper com este racionalismo em um salto de fé pós-moderno. Há também as que submetem as Escrituras às ideologias materialistas, sejam elas de direita ou de esquerda. Personagens como Marx, Gramsci, Mises, entre outros tornam-se chaves hermenêuticas. Assim, Jesus deixou de ser a Logos fundamental de Deus aos homens para se tornar um personagem interpretado e conformado sob tais prismas humanos. Daí o surgimento de um cardápio repleto de “cristianismos” ao gosto de cliente.
     
O Cristianismo genuíno, todavia, tem Cristo como fundamento. Fato óbvio, porém desconsiderado. Nossa vida e a realidade que nos cerca, em todos os seus âmbitos, devem ser submetidas a Ele, e não o contrário, como tem ocorrido. Os modelos de pensamento em voga na época em que Paulo escreveu sua carta aos coríntios, oriundos da filosofia grega, eram resultantes do esforço do homem em conhecer a origem de todas as coisas e, com isso, encontrar sentido em sua vida. Por isso Paulo, a exemplo do que fizera com os estóicos e epicureus em Atenas, apresentou Cristo como esta origem (Atos 17:22-31). Ao dizer que tinha a intenção de pregar Cristo crucificado, quis dizer que Jesus, por ser este arché, é o único Ser que dá sentido ao ser humano e à criação de modo geral.
     
O problema é que, por mais que Jesus Cristo esteja presente nos discursos ditos cristãos, não é considerado como alicerce epistemológico. Na contramão, a verdade que pavimenta tais discursos e qualifica o verdadeiro e o falso é, na realidade, ideologias que O consideram como mero personagem nelas inserido. Assim, Ele é visto, sob o prisma anacrônico do materialismo histórico, como um revolucionário que veio destruir a classe opressora dos fariseus, escribas e saduceus. E, baseados em seu exemplo, devemos destruir toda ordem vigente. Por outro lado, Ele é visto como um “Vale-bênção”, cuja função é suprir todas as expectativas produzidas por uma sociedade consumista. Assim podemos ver que Jesus, ao contrário de ser conhecido e cultuado pelo que É, é conformado aos anseios do sujeito que busca conhecê-Lo.
     
Jesus crucificado é a Verdade que sustenta toda a criação. Todas as coisas convergem Nele (Efésios 1:9-10) por ser Ele a origem e o fim de todas as coisas. Ao falar sobre a veracidade dos livros que falam do Evangelho de Jesus Cristo considerados canônicos, Eusébio de Cesareia, em sua obra História Eclesiástica, relatou algo fundamental. Mateus e Lucas descrevem a origem humana de Jesus. O primeiro descreveu Sua descendência davídica e o outro a descendência adâmica a fim de mostrar que Ele foi o cumprimento da profecia estabelecida por Deus à Eva (Gênesis 3:15). João, por sua vez, descreveu Sua origem divina, o Logos eterno, Criador de todas as coisas. A criação tem sua existência e seu consequente sentido determinados por Jesus. Por isso não conheceremos a verdade sobre nós e sobre onde vivemos a não ser por Ele e pelos absolutos que estabeleceu.
     
A revelação de Jesus como base epistemológica se dá em três aspectos, elucidados por Herman Dooyeweerd: Criação, queda e redenção. A criação só tem sentido diante de seu criador.
     
Senhor Jesus, ensina-me a viver disposto a morrer por ti. (Cf. II Co 4:10).



[1] DOOYEWEERD, Herman. Raízes da Cultura Ocidental: As opções pagã, secular e cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2015. p. 161