sexta-feira, 6 de maio de 2016

Destruir para construir - Parte I


Matheus Viana

Há algumas observações a serem feitas sobre o modelo pedagógico teorizado por Jean Piaget (1896-1980), denominado construtivismo. Grosso modo, ele preconiza que a criança deve, por ela mesma, adquirir o conhecimento através de suas experiências sensoriais e, a partir delas, desenvolver e formar seu intelecto. Sabemos que uma criança, mesmo que dotada de capacidades cognitivas, não possui a capacidade, por conta de sua tenra idade, de construir e definir padrões de pensamento necessários para a obtenção do conhecimento de sua realidade e também para seu pleno desenvolvimento intelectual.

Observemos o ciclo da sabedoria: Recebemos informações através de nossos sentidos (incluindo as experiências sensoriais) e as processamos com o nosso intelecto a fim de que se transformem em conhecimento. Sabedoria, por sua vez, é a prática deste conhecimento. Algo, porém, que deve ser considerado é o modo como as informações são adquiridas e como se dá o processo de transformação em conhecimento. No construtivismo de Piaget, o educador é apenas um facilitador das experiências sensoriais da criança, e por isso não deve lhe passar nenhum conteúdo. Ele não é considerado como o portador do conhecimento, mas apenas um mediador.

Eis o primeiro e grave problema. Uma criança não possui a capacidade de inferir sobre as informações oriundas de suas experiências sensoriais. Pois não há inferência (operação intelectual por meio da qual se afirma a verdade de uma proposição em decorrência de sua ligação com outras já reconhecidas como verdadeiras) sem premissas (verdades absolutas universais). Esta é uma regra básica da lógica. No entanto, o construtivismo preconiza que não há verdades absolutas, mas apenas a “verdade” que a criança constrói através de sua experiência individual. Portanto, cada criança possui a sua “verdade”. Como podemos ver, o construtivismo tira da criança as bases e diretrizes cruciais e necessárias para seu raciocínio.

O relativismo moral que dele emana não é apenas sintomático, mas também automático. Sem absolutos, não há certo e errado, tampouco moral e imoral. Tudo depende da experiência da criança. Se eu digo para uma criança que colocar a mão na tomada é errado, pois certamente sentirá em seu corpo uma descarga elétrica com sério risco de danos, minha atitude é considerada um conteúdo. Ou seja, não devo dizer a ela o que deve ou não fazer, mas apenas prover meios para que tenha sua própria experiência e sinta, por ela mesma, a descarga elétrica que eu, no intento de protegê-la, tentei evitar. O que, para um construtivista, é uma conduta... errada. Percebem a incoerência no ar? É errado dizer que existe algo errado. Insanidade nua e crua. Sei que este exemplo da mão na tomada pode ser considerado extremista. Mas elucida de forma satisfatória o caráter da pedagogia construtivista.

Como professor de alunos na faixa etária de 10 a 18 anos, percebo, juntamente com muitos outros professores, a dificuldade de abstração e de raciocínio lógico que eles enfrentam. A segunda dificuldade, sobretudo, é decorrente de não serem familiarizados com verdades absolutas. Não há pensamento subjetivo (abstrato) sem padrões (objetivo) que fundamentem tal atividade. O construtivismo anula a ideia de padrões e diretrizes, pois eles são fundamentados em... absolutos. Eis a contradição piagetiana: a afirmação de que não há absolutos. Ela não é, para Piaget e seus prosélitos, algo... absoluto? 
Se não, então não deve ser considerada. 

Sei que alguns esbravejarão: “Esta é a nossa verdade”. Sendo assim, tal sentença é absoluta para vocês, mesmo que seja um absoluto particular. Logo, existem absolutos, ainda que sejam individuais. Tal fato, por sua vez, é indício da existência de absolutos universais. Um exemplo pertinente é o desejo do ser humano pelo conhecimento da verdade sobre a sua realidade. A existência deste desejo é um absoluto universal que pavimenta os particulares. Particular, no entanto, é diferente do relativismo que o construtivismo, como ferramenta pedagógica, quer implantar: um relativismo total, ou melhor, absoluto.

Imagine o seguinte diálogo:

Indivíduo 1 – “Tudo é relativo, absolutos não existem.”.
Indivíduo 2 – “Você tem certeza disto?”.
Indivíduo 1 – “Absoluta.”.

Continua...

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Jesus e os conhecimentos



Matheus Viana

No grego há quatro expressões usadas para conhecimento: Eidos, Doxa, Epísteme e Gnose. Com o fim da era mítica, houve o surgimento do pensamento grego que buscou o conhecimento da origem de todas as coisas (arché). Nada mais do que a tentativa de responder as questões básicas: O que sou? De onde vim? Onde estou? Para onde vou? Estas questões, no entanto, surgiram a partir do momento em que o ser humano se apartou de Deus e de Sua ética soberana. Os gregos, milênios depois, apenas reverberaram este drama.

A base deste pensamento era a dialética básica entre sujeito (ente que conhece) e o objeto (ente a ser conhecido). Entre eles há um processo complexo onde estão inseridos os quatro tipos de conhecimento citados nas linhas acima. Não tenho a pretensão de descrever o sistema dos primeiros filósofos, pois seria necessário evocar detalhes da história da filosofia que deixariam este texto demasiadamente exaustivo e consumiriam completamente a sua paciência. O que faria você abortar esta leitura.

Mas algo que deve ser observado é o desenvolvimento deste conhecimento. O eidos seria o conhecimento pertencente ao mundo inteligível (ou das ideias) elucidado por Platão, cujo pensamento foi fortemente influenciado por Parmênides de Eleia. Platão dizia que o mundo sensitivo (objetivo) – o que nós vivenciamos através dos sentidos – nada mais é do que uma representação tosca do mundo inteligível (subjetivo). A dialética platônica dava-se entre estes dois mundos. Podemos defini-los, para melhor compreensão, como sobrenatural e natural ou metafísico e físico. Sendo assim, o eidos é o conhecimento que dá a base para todos os outros. Pois o mundo sensitivo só existe por conta do mundo inteligível. E só saberemos, de fato, o que o mundo sensitivo é quando obtivermos o conhecimento (eidos) existente no mundo inteligível. Platão o definiu da seguinte maneira:

“No mundo inteligível, a última coisa que se percebe é a ideia do bem, e isso com grande esforço; mas, uma vez percebida, forçoso é concluir que ela é a causa de todas as coisas belas e retas, geradora da luz e do senhor da luz do mundo visível e fonte imediata da verdade e do conhecimento no inteligível.”[1]

Este conhecimento (eidos), no entanto, não é obtido de forma súbita, mas é desenvolvido na medida em que analisamos o objeto a ser conhecido. Este desenvolvimento demanda os outros conceitos citados anteriormente. Quando analisamos o objeto a ser conhecido apenas com os nossos sentidos, o conhecimento que temos dele é o doxa. Portanto, ele não é suficiente e, além disso, pode ser enganoso.

Em seu livro República, Platão descreveu uma situação fictícia em que chamou de mito ou alegoria da caverna. Um grupo de humanos habitava em uma caverna iluminada apenas pela luz do fogo que incandecia em seu interior. Ao olharem, de dentro da caverna, as sombras dos homens e das demais coisas que passavam do lado de fora emitidas pela projeção dos raios solares sobre eles, aquelas pessoas viam seres totalmente diferentes do que, de fato, eram. Esta primeira impressão sobre a realidade é o doxa. É o conhecimento obtido apenas pelo uso dos sentidos[2].

Mas houve quem, munido de coragem, resolveu deixar a escuridão que havia no interior daquela caverna e buscar o conhecimento daquelas sombras. Ao sair da caverna, ele viu que aquelas sombras eram na verdade meros reflexos da verdade. Ele se deparou com uma realidade completamente diferente da que ele via do lado de dentro da caverna. Esta busca por obter o conhecimento além do doxa é o epísteme. Pois agora ele viu como são, de fato, os seres (homens, animais e plantas) que viviam fora da caverna. Mas este conhecimento só era possível por conta da luz do sol que o permitia ver a realidade como de fato era. Sem esta luz, ele não teria o epísteme. Platão dizia que esta luz era a razão.

Então, além de conhecer os seres que habitavam fora da caverna como realmente eram, ele viu que havia algo que contribuía para este conhecimento: a luz que o sol emitia. Agora o objeto de seu conhecimento não era mais os seres, mas o sol que transmitia a luz que os iluminava e lhe permitia ter este conhecimento. O conhecimento do sol, no entanto, é o gnose. Platão elucidou sobre ele:

“... estaria em condições de ver o Sol, não suas imagens refletidas na água ou em qualquer outro lugar que não seja o seu, mas o próprio Sol em seu próprio domínio e tal qual é em si mesmo.”[3]

Portanto, temos:

  1. O conhecimento da verdade soberana que é a base para toda e qualquer realidade: Eidos.
  2. O conhecimento da realidade que temos a partir dos nossos sentidos somente: Doxa.
  3. O conhecimento da realidade que temos quando os nossos sentidos são iluminados pela razão: Epísteme.
  4. O conhecimento desta luz que nos permite ter o conhecimento epistêmico: Gnose.

Jesus em relação a estes quatro conhecimentos.

Jesus e o eidos: “No princípio era a Palavra. A Palavra estava com Deus e era Deus. Ele estava com Deus no princípio. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele.” (Evangelho segundo João 1:1-3).

Jesus é o padrão soberano de Deus para toda Sua criação. Saberemos como toda a criação (incluindo o ser humano) deve ser quando soubermos quem Ele é. Deus estabeleceu sobre toda a criação o padrão perfeito. A Bíblia relata: “E Deus viu todo o que havia feito e que ficou muito bom.” (Gênesis 1:31). Este bom (tov) é a perfeição que Agostinho chamou de Bem Supremo. É o próprio Jesus. A criação ficou perfeita por ter sido criada por um Ser perfeito.

Em suas cinco vias da razão que visam provar a existência de Deus de forma racional, Tomás de Aquino, em seu quarto ponto, afirmou que todo grau de perfeição tem como base a perfeição soberana. Temos necessidade de atingirmos a perfeição pelo fato de nossa existência ter origem em um Ser perfeito.

Sobre isso, Descartes, em seu livro O discurso do método, diz que a todas as dúvidas que a mente humana possui são sinais de sua imperfeição. Mesmo sendo imperfeita, ela tem a ideia (eidos) da perfeição. Mediante este fato, ele questiona: Qual a origem desta perfeição, já que não pode ser a mente humana por ser imperfeita? Ele responde em seguida: Deus, o ser perfeito que colocou este conhecimento (ideia) sobre a mente humana.[4]

Jesus e o doxa: “Chegando Jesus à região de Cesareia de Filipe, perguntou aos seus discípulos: ‘Quem os outros dizem que o Filho do Homem é?’ Eles responderam: ‘Alguns dizem que é João Batista; outros Elias; e, ainda outros, Jeremias ou um dos profetas.’ ‘E vocês?’, perguntou Ele. ‘Quem vocês dizem que eu sou?’. (Evangelho segundo Mateus 16:13-15)

“Aquele que diz permanecer nele, deve andar como ele andou.” (I João 2:6).

Jesus é a ética de Deus aos homens (Doxa). Mas não é apenas isso. O verdadeiro cristão deve ter Cristo como a essência de sua existência. Sobre isso, o apóstolo Paulo afirmou: “Já não sou mais eu quem vivo, mas Cristo vive em mim.” (Gálatas 2:20).

Jesus e o epísteme: “Vocês estudam cuidadosamente as Escrituras, porque pensam que nelas vocês têm a vida eterna. E são as Escrituras que testemunham a meu respeito.” (Evangelho segundo João 5:39). Jesus é o pleno cumprimento das Escrituras (Epísteme).

O salmista declarou: “Lâmpada para os meus pés e luz para os meus caminhos é a sua palavra, ó Senhor.” (Salmo 119:105). Jesus é esta luz (Evangelho segundo João 1:4-5). Mas este conhecimento é dado através do Espírito Santo (Evangelho segundo João 16:13) que veio nos lembrar dos ensinamentos de Jesus (Evangelho segundo João 14:26).

Jesus e a gnose: “Disse Filipe: ‘Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta.’ Jesus respondeu: ‘Você não me conhece, Filipe, mesmo depois de eu ter estado com vocês durante tanto tempo? Quem me vê, vê o Pai.” (Evangelho segundo João 14:8-9).

“E o verbo se fez carne e habitou entre nós. Vimos a sua glória, glória como a do Unigênito do Pai.” (João 1:14).

“Ele (Jesus) é a imagem do Deus invisível.” (Colossenses 1:15).

Jesus é a plena revelação de quem Deus é (Gnose).


[1] PLATÃO, A república; Tradução de Leonel Vallandro. – Ed. Especial. – Rio de Janeiro: Nova Fronteira. Saraiva de Bolso, 2011. p. 283.
[2] Ibid. p. 279.
[3] Ibid. p. 281.
[4] DESCARTES, René. O discurso do método; tradução, prefácio e notas de João Cruz Costa. – Edição especial – Rio de Janeiro: Nova Fronteira. Saraiva de Bolso, 2011. p. 51-52.

quinta-feira, 31 de março de 2016

Sobrevivente ou mordomo?

Matheus Viana

Trabalho é um aspecto fundamental da vida desde seu início. Não é em vão que chamamos o processo de uma mãe dar à luz um filho de trabalho de parto. Mas não é só isso. A relação sexual da qual se origina o desenvolvimento da vida na mulher ao receber o sêmen do homem pode ser classificada como trabalho no sentido de realização.

Além disto, é crucial considerarmos que Deus criou todas as coisas em seis dias (independente de como você entenda estes dias) e no sétimo descansou. Descansar é o desdobramento de trabalho. O profeta Isaías proclamou: “Desde os tempos antigos ninguém ouviu, nenhum ouvido percebeu, e olho nenhum viu outro Deus, além de ti, que trabalha para aqueles que nele esperam. (Isaías 64:4 – Ênfase acrescentada).

Trabalhar nada mais é do que movimento. Movimento é energia. Sobre isso, o apóstolo Paulo disse: “Pois nele vivemos, nos movemos e existimos.” (Atos 17:28). Nossa vida é fruto do trabalho que Deus realizou ao formar o ser humano do pó da terra e soprar o Seu fôlego de vida a fim de que ele se tornasse um ser vivente (Gênesis 2:7). Somos resultados do trabalho de Deus e é nEle onde estão pautadas nossas existências e consequentes ações (movimentos).

É o trabalho de Deus, o nosso Criador, que viabiliza e sustenta todo e qualquer trabalho. Até mesmo daqueles que trabalham contra Ele, como o Faraó Ramsés ao tentar impedir o povo hebreu de sair do Egito, por exemplo. Sim, esta contrariedade, mesmo sendo resultado de sua liberdade de escolha, contribuiu para os propósitos de Deus. Ele é soberano em toda e qualquer circunstância. Foi baseado neste mote que o salmista declarou: “Se não for o SENHOR o construtor da casa, será inútil trabalhar na construção. Se não é o SENHOR quem vigia a cidade, será inútil a sentinela montar guarda. Será inútil levantar cedo e dormir tarde, trabalhando arduamente por alimento.” (Salmo 127:1-2).

Na esteira deste princípio, o apóstolo Paulo elucidou: “Pois é Deus quem efetua em vocês tanto o querer quanto o realizar, de acordo com a boa vontade dele.” (Filipenses 2:13). Em outras traduções aparece a expressão opera ao invés de efetua. A expressão grega traduzida para ambas no português é energon, que é oriunda de energein, que é traduzida para o português como realizar no referido texto. Ambas dão origem à expressão que conhecemos bem no português: energia.

É consenso que energia foi necessária para o início da existência do universo. A questão é que energia foi esta? Qual sua origem? Gênesis 1:1-3, embora não seja uma descrição em linguagem científica, emite a resposta. Quem não a aceita, ainda está procurando-a. Mas tal procura é baseada no axioma de que, embora desconhecida pela ciência, é algo que antecede a própria existência da energia enquanto elemento natural. Ou seja, sua origem é sobrenatural. Sendo assim, a energia de Deus - Sua realização, Seu trabalho - é a fonte de sustentação para o nosso trabalho, para a nossa energein.

Existem, no entanto, dois tipos de trabalho: o que o ser humano exerceu antes do pecado e o que surgiu como consequência deste. O primeiro está relatado em Gênesis 2:15, que é o princípio de mordomia. Conforme relatei no livro Culto racional:

     “... cultuar a Deus é refletir sua imagem (caráter, ética) sobre toda a criação a fim de exercer o mesmo governo sobre a terra que Ele exerce nos céus. O que também é chamado de mandato cultural: “O Senhor Deus colocou o homem no jardim do Éden para cuidar dele e cultivá-lo.” (Gênesis 2:15). A expressão traduzida pelo verbo cultivar é avodah. Este termo se refere ao que podemos chamar de trabalho agrícola, ou seja, cultivar a terra. Mas o que é este cultivar em relação ao culto racional?
     Para respondermos tal questão é necessário refletirmos sobre o termo mordomia. Mordomia implica em administrarmos, cuidarmos do que, embora não seja nosso, foi-nos confiado não apenas com o intento de manutenção, mas também de desenvolvimento. É exatamente isto que o salmista disse em Salmo 115:16. Pois toda a terra pertence ao Senhor (Deuteronômio 10:14, Salmos 24:1). Mas Ele a confiou ao ser humano para ser Seu mordomo (oikonomos, no grego, de onde se origina o termo economia, e que significa administrador da casa). E mordomia demanda racionalidade. Este cultivar, no entanto, é um dos atributos de culto.
     Desta forma, vemos que culto racional não é apenas ser mordomo da criação. Atrelado à mordomia está a relação do ser humano com a criação e também com o Criador. Aliás, a relação com a criação está fundamentada na relação com o Criador. Uma não é possível sem a outra. Por isso Deus formou o homem à Sua imagem (relação com o Criador), a fim de exercer Sua semelhança (relação com a criação). A esta relação chamamos mandato cultural ou cultura. Este é o significado de avodah.".

Mordomia, como podemos ver, é o trabalho como forma de adorar a Deus, de prestar-Lhe culto. Era o trabalho que o ser humano exercia até o advento do pecado original. Todavia, hoje estamos sob o jugo do trabalho que é consequência deste pecado, onde Deus ordenou ao homem: “Com o suor do seu rosto você comerá o seu pão, até que volte à terra. (Gênesis 3:18). Veja que este texto é plenamente contrastante com a advertência emitida por Deus ao homem em Gênesis 1:29-30.

Nosso trabalho é resultado do jugo da maldição do pecado. Ele não visa a mordomia em relação a Deus, mas o próprio sustento. Suas realizações não são mais instrumentos de adoração a Deus, o que implica em trabalhar para que Sua soberana vontade seja plenamente cumprida, mas a sua sobrevivência a qual ele mesmo supriria a partir de então.

Este trabalho é resultado de idolatria. Pois o pecado que gerou tal maldição foi consequência do homem abandonar Deus, através do abandono à Sua vontade, e buscar suprir os seus próprios desejos (Gênesis 3:5-6). Por isso ele é árduo, pois visa a sobrevivência e o enriquecimento obtidos de forma independente de Deus.

O ponto fulcral de um trabalho é o objetivo que ele visa alcançar: a vontade de Deus ou a sobrevivência e enriquecimento próprios. Deus foi claro ao dizer ao homem que enquanto ele exercia mordomia, Ele mesmo lhe provia o sustento (Gênesis 1:29-30). Mas com o surgimento do pecado, tal realidade mudou drasticamente.

O stress é algo comum do homem moderno. É resultado do trabalho árduo que realizamos. O que devemos analisar é se estamos vivendo como sobreviventes ou mordomos. É claro que a provisão de Deus não “vem do céu” literalmente. O sábio Salomão exortou: “Observe a formiga, preguiçoso, reflita nos caminhos dela e seja sábio.” (Provérbios 6:6). Devemos trabalhar para prover o nosso sustento. O próprio Jesus declarou: “Todo trabalhador é digno de seu trabalho.” (Evangelho segundo Mateus 10:10). Contudo, é muito diferente quando o exercemos com a consciência de que não somos meros sobreviventes, mas sim mordomos do SENHOR. E foi exatamente isto que Jesus exortou Seus discípulos no texto citado: trabalharem em prol do Reino de Deus. Esta é a renovação de mente que Paulo preconizou em Romanos 12:1-2.

Jesus disse: “Vinde a mim vós todos que estás cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Pois meu fardo é leve e meu jugo é suave.” (Evangelho segundo Mateus 11:29-30). Ele aqui está conclamando-nos para que deixemos de viver como sobreviventes para que vivamos como mordomos Dele. Pois Ele, através de Seu trabalho na cruz (Isaías 53:11) quebrou toda maldição que o pecado trouxe sobre a humanidade e também o jugo da Lei (Gálatas 3:13) para que sejamos Seus mordomos. É isto que Paulo tinha em mente quando advertiu os cristãos em Corinto (I Coríntios 10:31). Princípio que é conhecido como ética protestante. Porém, é bastante anterior à Reforma. Foi estabelecida pelo próprio Deus no início da Criação.

Infelizmente vivemos, como muitos cristãos já denunciaram à exaustão, uma dicotomia em relação ao trabalho secular e o culto espiritual. Esta dicotomia não existe para um mordomo. Não é em vão que a palavra culto no inglês seja service. Pois somos servos de Deus em todos os momentos de nossa vida, em todas as nossas atitudes. E a nossa forma de servir é sendo mordomos. Ou seja, glorificando e cultuando a Deus também com o nosso trabalho, seja ele qual for, claro, desde que não fira os princípios imutáveis das Escrituras. O culto a Deus é ininterrupto. Esta dicotomia, no entanto, é uma das causas que tem gerado como efeito a falha da Igreja em influenciar o mundo e subverter a ordem maligna que paira sobre ele (Cf. I João 3:8, I Pedro 5:8).

Somos chamados por Jesus para sermos luz do mundo (Evangelho segundo Mateus 5:14). Mas isso é possível apenas quando estamos Nele (I João 2:6). E para isso é necessário abandonarmos a posição de sobreviventes, resultado de idolatria, e nos tornarmos mordomos, assim como Ele foi (Filipenses 2:5-7). O apóstolo Paulo exortou: “De fato, a piedade com contentamento é grande fonte de lucro, pois nada trouxemos para este mundo e dele nada podemos levar; por isso, tendo o que comer e com o que vestir-nos, estejamos com isso satisfeitos.” (I Timóteo 6:8).

A busca por enriquecimento, desvirtuado do princípio de mordomia, é idolatria. Não sou eu quem afirma, mas o próprio Jesus (Evangelho segundo Mateus 6:24). A distância entre a busca pela sobrevivência e pelo enriquecimento idólatra é muito tênue. Pois o coração do homem é corrupto e enganoso (Jeremias 17:9), o que torna a nossa alma insaciável (Cf. I Timóteo 6:10-11). Nunca estamos satisfeitos com o que temos. Sempre queremos mais. E isso nos faz buscar o enriquecimento tendo o elemento sobrevivência como ferramenta. E é exatamente este equívoco que o apóstolo Paulo exorta Timóteo e os cristãos que ele pastoreava evitarem.

Há muito a dizer sobre isso. Minha tentativa produzirá um texto exaustivo e longo, todavia incompleto. Mas trabalho é algo no qual precisamos refletir. Temos sido sobreviventes ou mordomos?

Em breve, mais reflexões sobre este tema. Até lá!

terça-feira, 22 de março de 2016

Cegueira de essência

Matheus Viana

Jesus Cristo é a essência do Cristianismo. Óbvio ignorado por muitos, o que tem corroborado para a derrocada do Evangelho. A restauração rumo ao verdadeiro Cristianismo acontece na medida em que a revelação de quem Cristo É torna-se evidente (Cf. Colossenses 1:27-28, 2:2). E isto se dá através das Escrituras (Evangelho segundo João 5:39).

Mas outro fator que deve ser considerado é o nosso entendimento no tocante às Escrituras. Nossa mente não é, por si só, capaz de compreendê-las. Por isso é necessária sua renovação a fim de realizarmos o culto racional (Romanos 12:1-2) instituído desde o ato da Criação.

O apóstolo João narra um episódio protagonizado por Jesus que retrata esta realidade (Cf. João 9:1-12). Certa vez Ele viu um cego de nascença. Cego. Atributo que não pode passar despercebido. A narrativa não descreve nenhuma outra característica deste homem. Sua cegueira, de certa forma, era marca principal de sua identidade.

Cegueira na Bíblia fala de entendimento obscurecido. O apóstolo Paulo elucidou: “Porque o Deus deste século cegou o entendimento das pessoas, a fim de que não lhes resplandeça a luz do Evangelho.” (II Coríntios 4:4 – Ênfase acrescentada). Esta luz do Evangelho é o próprio Cristo. Esta afirmação está fundamentada no princípio elucidado pelo salmista que afirmou: “Lâmpada para os meus pés e luz para os meus caminhos é a Tua Palavra, ó Senhor.” (Salmos 119:105). Por sua vez, o apóstolo João, algumas décadas depois de Paulo, reiterou que Esta Palavra, a mesma que gerou a Luz criadora de todas as coisas (Gênesis 1:3), é o próprio Jesus (Evangelho segundo João 1:1-3). Como podemos ver, esta era a tônica da doutrina apostólica.

No entanto, nascemos em pecado (Cf. Salmos 51:5, Romanos 5:12), o que nos faz nascer com a mente degradada. Este entendimento incompleto e incorreto, e também o fato de que nosso coração é enganoso e desesperadamente corrupto são importantes entraves que nos impedem de conhecermos, de fato, quem Jesus foi, é e será (Cf. Hebreus 13:8) através das Escrituras.

O apostolo Paulo preconizou: “Destruímos argumentos e toda pretensão que se levante contra o conhecimento de Deus, e levamos cativo todo pensamento, para torna-lo obediente a Cristo.” (II Coríntios 10:5). Esta pretensão nada mais é do que o orgulho humano que, por sua vez, é resultado de nossa mente depravada e de nosso coração idólatra. Portanto, conforme disse Paulo, a única maneira de derrubarmos tais entraves a fim de obtermos o conhecimento de Cristo é submetermos todos os nossos pensamentos e sentimentos à obediência Dele. Isto nada mais é do que amá-Lo de todo coração, com toda alma e com todo o intelecto (Deuteronômio 6:5, Marcos 12:28).

Hoje, temos doutrinas oriundas de um falso evangelho que tenta colocar Jesus nos moldes dos pensamentos humanos. Vemos pessoas associando Jesus a ideologias políticas, a dinâmicas empresariais e a muitos outros modelos humanos. O que deve acontecer é exatamente o contrário. Jesus deve ser o nosso soberano modelo que norteia nossos pensamentos, sentimentos e, consequentemente, nossas atitudes.

Mas para isso, nossa cegueira deve ser curada. No processo de cura que Jesus realizou para com aquele cego, vemos uma abordagem interessante: “Seus discípulos lhe perguntaram: ‘ Mestre, quem pecou: este homem ou seus pais, para que ele nascesse cego?”. (Evangelho segundo João 9:2). Indagação pertinente. O padrão religioso judaico contava com o fato de que toda doença era resultado de uma transgressão da Lei, que por Sua vez era uma transgressão contra o próprio Deus. Um exemplo disso é quando Moisés profere ao povo as bênçãos decorrentes da obediência e as maldições decorrentes da desobediência (Deuteronômio 28). Uma verdadeira teodiceia da retribuição.

Este padrão ainda está vigente, mas de uma forma um pouco diferente. A teologia da prosperidade preconiza que toda doença é sinal de falta de fé ou de pecado. Intrigante! Pois a Bíblia diz que todos temos pecado, e que quem afirma o contrário é mentiroso, ou seja, pecador (I João 1:8-10). Assim, todos nós deveríamos estar doentes. Portanto, a teologia da prosperidade torna-se incoerente. Devemos também observar que Jesus disse que passaríamos por aflições (Evangelho segundo João 16:33). Mas, afinal, quais aflições são essas? Jesus não especificou. A expressão que aparece no texto traduzida como aflições é tlipsin, que também pode ser traduzida como tribulações.

Jesus disse que passaríamos por toda sorte de aflições e/ou tribulações e mesmo assim devemos ter bom ânimo, ou seja, disposição para continuarmos a jornada. Não se trata de motivação autoajuda, mas de vida cristã. Sobre isso, o apóstolo Paulo afirmou: “Agora me alegro em meus sofrimentos por vocês, e completo no meu corpo o que resta das aflições de Cristo (tlipseon tou Cristos), em favor do Seu corpo, que é a Igreja.” (Colossenses 1:24 – Ênfase acrescentada).

Este foi o mote que levou Jesus a responder aos Seus discípulos: “Nem ele nem seus pais pecaram, mas isto aconteceu para que a obra de Deus se manifestasse na vida dele.” (Evangelho segundo João 9:3). Independente da circunstância, devemos viver para glorificar a Cristo. Não há lugar, no cristianismo genuíno, para teologia da prosperidade ou qualquer outro ufanismo destoante do Evangelho. Devemos observar o princípio de que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus (Romanos 8:28). Mas que bem é este? Bênçãos materiais? Saúde? Riqueza? Sucesso? Não. Há apenas um bem para o verdadeiro cristão: glorificar a Cristo através de Sua vida em todos os momentos.

É claro que não estou querendo dizer que o verdadeiro Cristianismo consiste no sofrimento e que por isso devemos buscá-lo. Longe disso. Jesus veio para que fôssemos livres (Evangelho segundo João 8:36). O que a Bíblia afirma é que não estamos imunes às tribulações e aflições, mas mesmo em situações adversas o propósito divino que repousa sobre a nossa vida é glorificar Seu nome (Cf. I Coríntios 10:31). Esta foi a resposta de Jesus aos discípulos. O mal que vem sobre nós não deve ser creditado como poder do diabo, mas ao fato de que a Graça de Deus está sobre nós mesmo em meio às intempéries (Cf. II Coríntios 12:9).

Após Sua resposta, Jesus “cuspiu no chão.” Isso nos remete ao ato criador inicial em que Deus sopra nas narinas do ser humano Seu fôlego de vida (Gênesis 2:7). O elemento divino misturando-se com o humano (terreno). Isso aponta para a plenitude de Jesus em Sua dupla natureza divina/humana: O Deus que se fez homem para nos salvar. E esta salvação implica em curar nossa cegueira a fim de conhecermos quem Ele é (Filipenses 2:12). Pois Jesus é o Deus encarnado que veio revelar quem Deus é (Evangelho segundo João 1:14, 14:9, Colossenses 1:15).

Esta mistura foi colocada sobre os olhos daquele cego. A revelação do Deus/homem deve ser colocada sobre a nossa mente a fim de permear a nossa vida por completo. Esta é a renovação de mente elucidada pelo apóstolo Paulo. Interessante também foi o fato de Jesus orientar aquele cego para ir se lavar no tanque de Siloé, que significa enviado. Quem é o enviado de Deus a nós? Ele mesmo: Jesus Cristo. Este lavar os olhos nada mais é do que ter a nossa mente inundada com a Sua Palavra. Foi isto que Jesus disse, posteriormente, aos Seus discípulos: “Vos estais limpos pela Palavra que vos tenho dito.” (Evangelho segundo João 15:3). Depois de tudo isso, o resultado não poderia ser outro: “O homem foi, lavou-se e voltou vendo.”. Que esta seja a nossa realidade.