quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Oração racional

Matheus Viana

Oração, para muitos, é a principal demonstração de piedade cristã. Em seu livro A celebração da disciplina, Richard Foster afirmou: “De todas as disciplinas espirituais, a oração é a principal, porque nos conduz a uma comunhão perene com o Pai.”[1].

A vida de Jesus confirmou – e confirma – este fato. O apóstolo Paulo diz que Ele está à destra do Pai intercedendo em nosso favor (Romanos 8:34). Durante Seu ministério terreno, retirava-se, constantemente, para orar. Momentos antes de ser entregue para ser julgado e crucificado, convidou seus três discípulos mais próximos para um momento de oração. Ao chegar no tenebroso e dramático jardim do Gestêmani, distanciou-se deles para orar ao Pai. Após ressuscitar, reuniu os discípulos – com exceção de Judas – e orou ao Pai em favor deles (Evangelho segundo João 17).

Assim, o fato de Jesus orar frequentemente também é a prova cabal de que oração é um dos principais elementos de nosso culto racional. No episódio do Getsêmani, vemos uma demonstração de que a oração de Jesus era completamente racional. E esta racionalidade é que deve ser alvo de nossa análise a fim de a imitarmos.

Para entendermos o culto racional que Jesus realizou naquela ocasião, precisamos levar em conta seu estado emocional. Jesus estava profundamente angustiado, ao ponto de declarar: “Minha alma está profundamente triste, numa tristeza mortal.” (Evangelho segundo Marcos 14:34). Mesmo assim, Sua oração, ainda que evidenciou Seu drama e a intensidade de Seus sentimentos, baseou-se no plano de redenção estabelecido antes da fundação do mundo (Efésios 1:6-10, Apocalipse 13:8): “Pai, tudo te é possível. Afasta de mim este cálice; contudo, não seja como eu quero, mas sim como tu queres.” (Evangelho segundo Marcos 14:36).

As emoções de Jesus não determinaram Suas orações. A lição para nós é prática e sucinta: nossas emoções não podem determinar nossas orações. Devemos, sim, orarmos com fervor e sentimentos, pois não somos robôs. Porém, orar com sentimentos e realizar uma oração baseada neles são coisas bem diferentes. Jesus deixou claro que as turbulências emocionais não podem interferir, de modo a fazer sucumbir, na nossa racionalidade fundamentada na Palavra (Vontade) de Deus. Foi exatamente isso que Ele fez.

Mas esta, embora crucial, não foi a única vez em que Jesus realizou Seu culto racional através da oração. Toda a vida de Jesus foi pautada nas Escrituras (Evangelho segundo Mateus 5:17, Lucas 4:18, João 5:39). No quesito oração não foi diferente. Por isso, ao ensinar sobre sua prática, mostrou que devemos orar de modo racional, ou seja, conforme a Vontade do Pai.

Interessante que Jesus começa ensinando sobre a ética da oração: “E quando vocês orarem, não sejam como os hipócritas. Eles gostam de ficar orando em pé nas sinagogas e nas esquinas, a fim de serem vistos pelos outros.” (Evangelho segundo Mateus 6:5). Com isso, Ele quis demonstrar que oração é um ato de humilhação, e não de vanglória piedosa (Cf. Evangelho segundo Lucas 18:9-14). 

Quando um líder de Israel levantado por Deus – sacerdote ou um rei – convocava o povo para uma assembleia solene de oração e jejum, era o exercício de rendição e humilhação do povo perante Deus, onde rasgavam suas vestes, se prostravam com o rosto em terra e colocavam sobre suas cabeças pó e cinzas (Cf. Esdras 9:3-5, Joel 2:13-17). No entanto, os fariseus usavam o ato de orar como a demonstração de uma superioridade espiritual. Tal realidade também não faz parte do contexto atual? Lembre-se: oração racional visa a humilhação e a consequente comunhão com Deus. Pois não há comunhão com o pai sem quebrantamento e arrependimento (Salmo 51:17, II Coríntios 7:10).

Humilhação, conforme preconizou o apóstolo Paulo, é um dos principais elementos do culto racional (Romanos 12:1), pois oferecer nossos corpos como sacrifícios vivos, no sentido figurado, é se humilhar diante de Deus como sinal de reconhecimento de que somos completamente dependentes Dele (Cf. II Crônicas 7:14). E, sim, há circunstâncias em que este sacrifício vivo é literal. Haja vista o grande número de cristãos mortos por não negarem a fé em Jesus Cristo no passado e também no presente.

Jesus demonstrou a importância da racionalidade na oração quando advertiu: “E quando orarem, não fiquem repetindo a mesma coisa, como fazem os pagãos. Eles pensam que por muito falarem serão ouvidos.” (Evangelho segundo Mateus 6:7). Creio que Jesus, por ser profundo conhecedor dos profetas de Israel, tinha em mente a advertência do profeta Isaías: “Este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim.” (Isaías 29:13). Tanto é que Ele cita esta passagem em outro contexto não muito posterior (Cf. Evangelho segundo Marcos 7:1-7).

Oração não é ritualismo frívolo. É a demonstração de que O amamos de todo o nosso coração, de toda alma e com todo intelecto. Não há como dissociar coração de intelecto. Por isso Esdras proclamou: “Guardo no meu coração as minhas palavras para não pecar contra ti. (Salmos 119:11). Por amarmos a Deus, desejamos ter comunhão com Ele. Comunhão se dá através da oração. Oração é proclamar quem Ele é e quem somos perante Ele e Sua Palavra. Não se trata de repetirmos as Leis de Deus, mas conhecermos a Sua vontade, através de Sua Palavra a fim de orarmos de acordo com Ela. É neste mote que o apóstolo Tiago advertiu: “Pedis e não recebestes, pois pedistes mal, para o vosso próprio deleite.” (Tiago 4:3).



[1] FOSTER, Richard J. Celebração da disciplina: o caminho do crescimento espiritual; tradução de Marson Guedes – 2. Ed. São Paulo: Editora Vida, 2007. p. 67.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Intelecto consagrado

Matheus Viana

Na antiga aliança, um pecado não era redimido sem um sacrifício, fosse ele realizado em forma de oferta ou holocausto. Um sacrifício, por sua vez, não poderia ser oferecido sem a presença de um sacerdote, pois apenas ele poderia realizá-lo. Este sacrifício, no entanto, somente era válido se o sacerdote que o realizasse estivesse portando um adereço fundamental: “Faça um diadema de ouro puro e grave nele como se grava um selo: Consagrado ao SENHOR. (...) Estará sempre sobre a testa de Arão, para que as ofertas sejam aceitas pelo SENHOR.” (Êxodo 28:36).

Todos os detalhes que Deus ordenou para que fossem estabelecidos no Tabernáculo, em seus utensílios, no ritual e no traje sacerdotal não foram em vão. Embora o aspecto cerimonial da Lei foi cumprido em Cristo (Evangelho segundo Mateus 5:17, Romanos 10:4), seus significados ainda são aplicáveis a nós, mesmo que nosso culto seja realizado de forma diferente. Contudo, o espaço e a sua paciência não me permitem elucidar um estudo exaustivo de tipologia (estudo sobre o significado – e com seus devidos apontamentos para Jesus - de cada um destes detalhes), tampouco tenho conhecimento para tanto. Mas, por ser pertinente, proponho-me a refletir sobre o diadema que Deus ordenou que o sacerdote utilizasse na ocasião do ritual e suas devidas aplicações para os cristãos.

Este diadema deveria permanecer na testa (cabeça) do sacerdote. Por quê? Para que não se esquecesse de que o caráter daquele ritual deveria ser santo (kadesh, separado, consagrado), pois seria realizado para o único e verdadeiro Santo (Kadosh, santidade plena, completa ausência do profano): Yahweh. Além disto, era para demonstrar que este ritual era o culto racional que o povo, por intermédio do sacerdote, deveria oferecer a Deus.

O fato de este diadema permanecer na testa de Arão era a representação de uma mentalidade sacerdotal exigida por Deus: consagrada ao Senhor. Algo necessário, pois a mente humana foi corrompida pelo ardiloso argumento da serpente (Gênesis 3:5, II Coríntios 11:3). O culto que Deus espera do ser humano exige racionalidade, por isso ela precisa ser consagrada. Ou seja, nossos pensamentos devem refletir a Santidade e a Glória de Deus. Isto é amá-Lo e serví-Lo com todo o nosso intelecto (Evangelho segundo Mateus 22:37).

Esta consagração é apenas o início para que todo nosso ser seja consagrado (e santificado). É neste mote que o salmista declara: “Quão bom e agradável que os irmãos vivam em comunhão (como consequência de nossa comunhão com Deus)! É como óleo ungido, derramado sobre a cabeça, que desce pela barba, a barba de Arão, até a gola de suas vestes.” (Salmo 133:1-2).

Cabeça na Bíblia fala de autoridade. Por isso o apóstolo Paulo apresenta Jesus como “O cabeça da Igreja.” (Efésios 5:23). A analogia de que o cérebro comanda todo o corpo vem bem a calhar. Pois foi a uma semelhante a essa que Paulo se referiu usando tanto a didática judaica, elucidada no salmo anteriormente citado, e a grega, onde Platão, que em sua antropologia dividiu o ser humano em cabeça (razão), peito (coragem) e baixo ventre (desejo), afirmou que a razão deve ter o pleno controle sobre a coragem e o desejo de um indivíduo a fim de que ele seja virtuoso.

Assim, a racionalidade do sacerdote deveria ser utilizada como um dos fatores fundamentais do culto. Além disso, deveria ser desdobramento de uma consciência e racionalidade submissas à Santidade de Deus expressa em Sua Lei. Por isso, o diadema deveria trazer os dizeres: Consagrado ao SENHOR. Algumas traduções trazem o termo “Santidade ao SENHOR.”, pois o termo hebraico é kadesh, que pode ser traduzido tanto como consagrado quanto como santidade. Somente assim o culto, realizado através do sacrifício, seria aceito. Fato que representa a verdade de que nosso culto a Deus, para ser aceito por Ele, deve ser racional. E, claro, uma racionalidade consagrada. Este foi o significado que Jesus aplicou à declaração que fez para os discípulos: “Vocês estão limpos pela palavra que vos tenho dito.” (Evangelho segundo João 15:3). Aqui é necessário evocar o ouvir, o compreender e o praticar.

A Palavra de Deus nos purifica porque ao ouvirmos, Ela gera fé em nosso coração (Romanos 10:17). É por Ela que o Espírito Santo nos convence do pecado, da justiça e do juízo (Evangelho segundo João 16:8) a fim de que sejamos conscientes do fato de que precisamos nos arrepender (Evangelho segundo João 14:26) e de que o sacrifício realizado por Jesus é suficiente para nos purificar e nos redimir de todo pecado (II Coríntios 7:10). É por isso que o apóstolo Paulo exorta os romanos: “Transformai-vos pela renovação de vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, perfeita e agradável vontade de Deus.” (Romanos 12:2). Pois, como um judeu erudito na Lei mosaica, tinha conhecimento do fato, bem como o caráter nele implícito, do uso do diadema pelo sacerdote.


O fato do diadema ser de ouro puro também não é em vão. É baseado neste fato que Isaías proclama: “Mas o homem nobre faz planos nobres, e graças aos seus feitos nobres, permanece firme.” (Isaías 32:8). Não há nada mais nobre e precioso do que a Palavra de Deus. Por isso Esdras afirma: “Guardo no meu coração as tuas palavras.” (Salmo 119:11). E o apóstolo Paulo orienta: “Pois nele (Jesus) vocês foram enriquecidos em tudo, isto é, em toda palavra e em todo conhecimento.” (I Coríntios 1:5).

quinta-feira, 18 de junho de 2015

O maior mandamento

Matheus Viana

Certa vez um mestre da Lei perguntou a Jesus: “De todos os mandamentos, qual é o mais importante?” Jesus respondeu: “O mais importante é este: ‘Ouve, ó Israel, o Senhor, o nosso Deus, o Senhor é o único Senhor. Ame o Senhor, o seu Deus, de todo o coração, de toda alma e de todo o seu entendimento e de todas as suas forças.” (Evangelho segundo Marcos 12:28-30).

Para um judeu - ainda mais para um fariseu como o que fez tal questionamento a Jesus -, guardar os mandamentos de Deus era o mesmo que cultuá-lo. Os mandamentos contidos na Lei de Deus era uma demonstração de Seus atributos em plena interação com o ser humano, a coroa de toda a criação.

Quando Deus, do cume do monte Sinai, ordena que Moisés transmita ao povo hebreu os dez mandamentos, emite o seguinte preâmbulo: “Eu sou o Senhor, o teu Deus, que te tirou do Egito, da terra da escravidão.” (Êxodo 20:2). Isso não foi mera lembrança, tampouco uma apresentação formal. Mas o relato de quem Ele era (e É) e o que fez. Tal relato tinha como intenção gerar no povo a consciência de cultuá-lo e senso de gratidão em exercer, continuamente, este culto, que Davi chamou de Ação de Graças (Salmo 100:4).

Lembremos que, por conta do pecado, o culto racional que existia entre Deus e o ser humano foi extinto. Por isso Deus precisou instituir uma forma de culto que levasse em conta a contundente corrupção e consequente degradação da natureza humana em relação à Sua Santidade suprema e imutável. Os quatro primeiros dos dez mandamentos focam a relação entre Deus e o ser humano (Êxodo 20:1-7). Pois é ela que fundamentaria o relacionamento comunitário. Sendo assim, o culto racional começa com a interação entre Deus e o homem a fim de que seja a base para a vida comunitária. Não há vida comunitária sem relacionamento individual com Deus, e vice-versa.

A resposta que Jesus emite ao fariseu traz um princípio fundamental. Ele citou o Shemá, que foi a ordenança que Moisés estabeleceu ao povo antes de atravessar o Jordão rumo à terra prometida, Canaã (Deuteronômio 6:4). Antes de analisar o caráter deste princípio, convém nos atentarmos à ação antecedente: ouvir.

Ouvindo a voz do Bom Pastor

“Ouve, ó Israel”. Shemá significa ouvir. Por que Moisés ordenou que o povo ouvisse a Deus antes de proclamar o mandamento citado posteriormente por Jesus como resposta ao fariseu que Lhe questionou? Por que o ato de ouvir é tão importante? A principal causa do pecado original foi o fato de Eva ter dado ouvidos à ardilosa proposta da serpente (Gênesis 3:4-5). Sua mente foi corrompida (II Coríntios 11:3), o que a levou a pensar e agir de forma completamente contrária à vontade de Deus. O restante você já sabe...

Ouvir refere-se a se atentar, receber informação, aprender. O apóstolo Paulo advertiu: “A fé vem pelo ouvir, e o ouvir vem pela palavra.” (Romanos 10:17). Ouvir é a atitude primordial de um aprendiz e também de um servo. Um aprendiz ouve o seu professor. Um servo ouve o seu senhor. Somos chamados a ouvir a Deus. Não foi em vão que Jesus disse em relação aos Seus discípulos: “O porteiro abre-lhe a porta, e as ovelhas ouvem a sua voz. (...) Mas nunca seguirão um estranho; na verdade, fugirão dele, porque não reconhecem a voz de estranhos.” (Evangelho segundo João 10:3 e 5). Quando Jesus aparece a João, na ilha de Patmos, e lhe ordena a escrever as sete cartas para as sete igrejas da Ásia, disse: “Aquele que tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas.” (Apocalipse 2:7).

Coração, alma e entendimento

Kardia, psique e dianoia. Estas são as expressões originais para coração, alma e entendimento, respectivamente, na descrição que aparece no livro do Evangelho segundo Marcos. Moisés exortou o povo hebreu a, depois de ouvir o Único Senhor, amá-lO de todo coração. Coração para um judeu não implica somente em um órgão físico, tampouco apenas ao núcleo de nossos sentimentos. Refere-se ao centro da personalidade e da vida do indivíduo. Por isso Salomão advertiu: “De todas as coisas que deves guardar, guarde o coração, pois dele procedem as fontes da vida.” (Provérbios 4:23).

O termo psique substitui normalmente o termo hebraico nephesh. Contudo, a alma para um judeu não tem a mesma conotação que possui no pensamento ocidental, influenciado pelo pensamento grego, sobretudo platônico. Nephesh, embora traduzido como alma para o português, fala do ser humano integral. Ou seja, um judeu não faz a dicotomia clássica que os ocidentais fazem de corpo e alma. Portanto, amar a Deus com toda psique é amá-Lo com todo o seu ser.

E por fim, mas não menos importante, dianoia. Este termo é traduzido, em seu literal, como intelecto, já que o termo grego nous é que é traduzido como entendimento, por exemplo, em passagens como Romanos 12:2 e II Coríntios 4:4. Dianoia é o próprio intelecto humano, ou seja, sua plena racionalidade. E foi justamente a dianoia que foi totalmente corrompida pelo pecado.

O apóstolo Paulo exorta em sua carta aos romanos: “porque, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe renderam graças, mas os seus pensamentos tornaram-se fúteis e o coração insensato deles obscureceu-se. (...) Além do mais, visto que desprezaram o conhecimento de Deus, ele os entregou a uma disposição mental reprovável, para praticarem o que não deviam.” (Romanos 1:21 e 28 – Ênfases acrescentadas). Sim, tal narrativa é a causa e o devastador efeito da queda. Quando a narrativa de Gênesis descreve o homem como alma ou ser vivente, refere-se a ele em sua integralidade. Tal significado abarca a capacidade de pensar, sentir, desejar e escolher.

Conforme vimos, Jesus recebeu tal capacidade para que pudesse compreender a vontade de Deus a fim de exercer, de forma plena e excelente, o culto racional que lhe fora estabelecido. Por isso o Shemá, conforme Jesus afirmou, é o mandamento mais importante. Pois observá-lo é amar a Deus com a totalidade do que somos, do que temos, do que pensamos e de como agimos.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Aprendendo a humildade - Parte II

Matheus Viana

Obs: Caso não tenha feito, faça a leitura da parte I deste texto para melhor compreensão.

O ardiloso argumento da serpente, que deturpou a mente humana (II Coríntios 11:3), foi de que, além de não morrer conforme Deus havia dito (Gênesis 2:17), seria como Ele, conhecedor do bem e do mal (Gênesis 3:5). O que seria isto senão a soberba de querer ser como o Criador? A humildade de Jesus se manifestou exatamente na contramão. Eva, uma humana, quis ser como Deus, ou seja, obter um conhecimento que era lícito apenas a Ele. Jesus, sendo Deus, tornou-se humano.

O fato de Eva ser seduzida a desobedecer a Deus também demonstra uma atitude egoísta. Ela recebera a ordem de, juntamente com Adão, ser fértil e multiplicar sua espécie a fim de encher toda a terra (Gênesis 1:28). Não é em vão que seu nome significa “mãe de todos os seres humanos.” (Gênesis 3:20). Também era consciente de que seria acometida pela morte (tanto espiritual quanto física) se comesse do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, o que lhe permitia saber que tal consequência não atingiria somente sua vida, mas também a de todos os seus descendentes. Mesmo assim, ela não levou isso em consideração.

O apóstolo Paulo começa sua carta aos filipenses fazendo uma aplicação prática da humildade de Jesus: “Nada façam por ambição egoísta ou por vaidade, mas humildemente considerem os outros superiores a si mesmos. Cada um cuide, não somente de seus interesses, mas também dos interesses dos outros.” (Filipenses 2:3 e 4). A humildade de Jesus não vai apenas na contramão da soberba humana, mas também do egoísmo.

Em minha opinião, um dos atributos mais marcantes contidos na humildade de Jesus foi a resignação. Ele se tornou humano como consequência de resignar – e não renunciar ao ponto de abandonar - o fato de ser Deus. De acordo com a ortodoxia estabelecida no Concílio da Calcedônia (451), que foi uma confirmação das doutrinas estabelecidas em Niceia (325) e Constantinopla (381), Jesus foi – e é – plenamente Deus e plenamente homem. Ele, ao tomar a forma humana, se submeteu às limitações, dores, dramas e tribulações que vieram a reboque. Ele resolveu viver os padecimentos humanos, incluindo a morte. O fato de Jesus ter morrido testifica que foi humano. E o de que Ele ressuscitou testifica que era – e é -Deus.

O resultado de tal resignação foi o altruísmo. Sim, o atributo que contrapõe o egoísmo humano demonstrado por Eva que resultou na Queda. Jesus, ao se tornar humano, tornou-se servo. Doulos é a expressão utilizada por Paulo, traduzida por servo. Doulos era a expressão que designava os escravos, algo comum nas sociedades hebraica e greco-romana. Ao ensinar sobre quem seria o maior no Reino de Deus, Jesus disse: “Vocês sabem que aqueles que são considerados governantes das nações as dominam, e as pessoas importantes exercem poder sobre elas. Não será assim entre vocês. Ao contrário, quem quiser tornar-se importante entre vocês deverá ser servo, e quem quiser ser o primeiro deve ser escravo de todos. Pois nem mesmo o Filho do homem veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos.” (Evangelho segundo Marcos 10:43-45).

Ele usou os contextos de dominação política, que era o que o império romano exercia sobre a Palestina, e o do escravismo exercido por algumas famílias hebraicas, gregas e romanas como metáforas para o serviço que um postulante ao Reino de Deus deve exercer. Não foi em vão que Paulo utilizou a expressão doulos em sua carta aos romanos: "Vocês foram libertos do pecado e tornaram-se escravos da justiça." (Romanos 6:18). Ou seja, Jesus tornou-Se um escravo. 

Não foi em vão que, em seu contundente escárnio ao cristianismo, Friedrich Nietzsche, em seus livros Além do bem e do mal e Genealogia da moral, desenvolve uma dicotomia entre o que chamou de moral nobre e moral escrava. A moral nobre é a conduta egoísta, pavimentada pelas ações que praticamos como resultados de nossas próprias vontades e em prol de nosso bem-estar. Não é esta a filosofia que pavimenta a conduta humana, que por vezes recebe o nome de autoajuda e consequentemente a teologia da prosperidade? Claro que é. A moral escrava, por sua vez, é a conduta altruísta, que visa não o bem-estar próprio, mas o bem-estar do próximo. Foi exatamente esta a moral que Jesus exerceu. E isso não foi apenas Nietzsche, que terminou sua vida em um manicômio, que descobriu. Ele, porém, ignorou sua aplicação prática.

O Criador do universo tornando-Se escravo? Isso mesmo. Escravo de quem? De Deus em nosso favor. Pois Ele morreu em nosso lugar quando ainda éramos pecadores (Romanos 5:2, I João 4:10). Não apenas um mero escravo, mas um escravo maldito. Pois além de Paulo salientar o fato de Jesus ter se tornado escravo, ele explicou como Jesus exerceu tal escravidão: “E, sendo encontrado em forma humana, humilhou-se a si mesmo, e foi obediente até a morte, e morte de cruz.” (Filipenses 2:8).

Jesus não morreu no madeiro como coincidência ou mero acaso. Houve um princípio contido na Lei mosaica que apontava para a maneira – com seu consequente propósito - como ela aconteceria (Deuteronômio 21:23). Paulo fala sobre ele em sua carta aos gálatas: “Cristo nos resgatou da maldição da Lei quando se tornou maldição em nosso lugar, pois está escrito: ‘maldito todo aquele que for pendurado no madeiro.’” (Gálatas 3:13).

Um Deus que assumiu a forma humana, o que fez dEle um escravo. Escravidão que O tornou maldito e tal maldição O levou à morte. O Divino que se tornou humano. O Rei Soberano que se tornou escravo. O imaculado que tomou sobre si o pecado dos seres humanos. O Eterno que se tornou mortal. Sua ressurreição, além de testificar o fato de que também era Deus, inaugurou a nossa ressurreição pelo poder do Espírito Santo. É sobre isso que o apóstolo Paulo fala em sua carta aos coríntios (I Coríntios 15).

A pergunta que surge após esta reflexão é: como aplicamos, de forma prática, esta humildade em nossas vidas? Conforme Jesus orientou, devemos servir aos nossos próximos assim como Ele serviu. Ou seja, praticando a mesma humildade que Ele exerceu em nosso favor. “A ardente expectativa da criação aguarda pela manifestação dos filhos de Deus.” (Romanos 8:19). Eis a importância de aprendermos e exercermos a humildade praticada por Jesus.

Leia também: O efeito gangorra

Aprendendo a humildade - Parte I

Matheus Viana

Aprender, por si só, é um ato que implica em ser humilde. O culto racional que Deus deseja de nós também consiste em aprendermos todas as coisas que Jesus fez e ensinou (Evangelho segundo João 14:26, Atos 1:1). Entre elas está a humildade. Não é possível exercer cristianismo sem tal quesito. No entanto, o que é humildade? O que é ser humilde? Na árdua tentativa de responder tais questões, surge outra indagação: “como ser humilde?” Para respondê-la é necessário, primeiramente, responder as duas anteriores.

Fomos formados à imagem e semelhança de Deus (Gênesis 1:26-27, 2:7). Atributos que não se referem ao âmbito físico, mas ético. Há de considerar, todavia, que o termo ético não se resume ao conjunto de leis e normas, mas refere-se à plenitude do propósito que levou Deus a nos criar: pensarmos, sentirmos e agirmos de acordo com Sua soberana vontade. Por isso, fomos feitos de acordo com um modelo: Jesus.

Sobre isso, o apóstolo Paulo diz: “Jesus é a imagem do Deus invisível.” (Colossenses 1:15) em consonância com o apóstolo João: “Aquele que é a Palavra tornou-se carne e viveu entre nós. Vimos a sua glória, glória como do Unigênito vindo do Pai, cheio de graça e verdade.” (Evangelho segundo João 1:14). Jesus Se encarnou para ser o modelo de ser humano que Deus deseja que sejamos. É isso que Paulo quis dizer quando afirmou aos romanos: “Aos que de antemão os escolheu, também os predestinou para serem conformes à imagem de Seu filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos.” (Romanos 8:29).

Por que digo tudo isto? Para evidenciar o fato de que Jesus é o modelo soberano de humanidade e, consequentemente, também de humildade. Portanto, para respondermos as questões citadas anteriormente, é necessário analisarmos a humildade exercida por Jesus Cristo. Paulo elucida sobre ela em sua carta aos filipenses:

“Nada façam por ambição egoísta ou por vaidade, mas humildemente considerem os outros superiores a si mesmos. Cada um cuide, não somente de seus interesses, mas também dos interesses dos outros. Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus, que, embora sendo Deus não considerou que o ser igual a Deus era algo a qual devia apegar-se; mas esvaziou a si mesmo, vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens. E, sendo encontrado em forma humana, humilhou-se a si mesmo, e foi obediente até a morte, e morte de cruz.” (Filipenses 2:3-8).

Antes, porém, de entrarmos nos pormenores desta detalhada narrativa, reflitamos sobre as palavras do próprio Jesus: “... aprendei de mim que sou manso e humilde de coração...” (Evangelho segundo Mateus 11:29). Vemos aqui que a humildade de Jesus é precedida pela mansidão. As perguntas feitas no início deste texto são pertinentes também neste momento: O que é mansidão? O que é ser manso? Como ser manso?

Mansidão é obediência. Ser manso é ser obediente. Somos mansos obedecendo. Jesus, em tudo, foi obediente ao Pai. Tal atributo foi uma das características de Sua identidade: “... a própria obra que o Pai me deu para concluir, e que estou realizando, testemunha que o Pai me enviou.” (Evangelho segundo João 5:39). Sua mansidão (obediência) constante testificava de que era o Messias.

Não era, portanto, uma obediência forçada, mas plena submissão que foi produto de Seu desejo de Se submeter. A mansidão de Jesus era de coração pelo fato de ser Deus. Ele é o Logos divino, ou seja, o Verbo; a Palavra resultante da razão divina que trouxe o universo à existência (Evangelho segundo João 1:1-3). Para melhor compreensão deste tema, leia o texto O caráter de Logos divino. Ele planejou o soberano propósito, mas também o executou. Foi, portanto, o supremo objeto e, ao mesmo tempo, colaborador de tal propósito. Ele foi o “cordeiro que tira o pecado do mundo.” (Evangelho segundo João 1:29) por ser “o cordeiro morto antes da fundação do mundo.” (Apocalipse 13:8). Resumindo: foi a causa e o efeito. Também por isso é chamado de Alfa e Ômega (Apocalipse 1:8).

Mansidão é obediência proveniente do amor a quem obedecemos. Foi esta a mansidão a qual Jesus advertiu Seus discípulos a dEle aprenderem. Mediante tal fato, preconizou: “Quem tem os meus mandamentos e lhes obedece, esse é o que me ama.” (Evangelho segundo João 14:21). O exercício da mansidão resulta, por sua vez, em humildade. Conforme vimos, a humildade que Jesus nos ensinou é a que foi descrita por Paulo em sua carta aos filipenses. Em tal descrição vemos a contrapartida de alguns atributos que acometem o ser humano por conta de sua natureza caída.

Continua...

terça-feira, 19 de maio de 2015

Um culto incomum

Matheus Viana

Um culto a Deus diferente, bem distante do comum. Não aconteceu no templo de uma denominação eclesiástica. Tampouco em uma campanha de milagres ao ar livre. Aconteceu na residência dos meus pais.

Domingo, 17/05/2015, por volta das 19:30hs. Os presentes eram ao todo seis pessoas. Três delas em uma situação, digamos, “especial”: eu, portador de uma severa deformidade óssea instalada na coluna vertebral e no tórax que compromete órgãos vitais como pulmão e coração; meu tio José Reis, de 53 anos, vítima de alguns acidentes vasculares cerebrais (AVC) que comprometeram suas funções motoras e minha mãe, 54 anos, que estava, na ocasião, com alguns linfomas em seu sistema linfático.

Não houve tempo para reclamações, queixas, lamúrias ou qualquer outra coisa do gênero. Uma linguagem simples de fé que resultou em palavras de gratidão a Deus. Não, não foi uma fé triunfalista de que o “verdadeiro crente” não passa por lutas,  de que todas elas são obras do maligno e, por isso, Deus tem o “poder”, que na oração de muitos torna-se obrigação, de curar toda sorte de mal.

O que os presentes ouviram foram expressões de adoração a Deus. Uma adoração que não mede circunstâncias. Além de falarmos um pouco de nossos casos, que do ponto de vista natural são graves com chances de óbito, falamos de vários casos de cristãos que, no exercício do cristianismo, são sucumbidos por sérias enfermidades.

Seria Deus incompetente ou maldoso em deixar que Seus filhos adoeçam? Claro que não. Estamos em um mundo acometido pelo mal oriundo do mau uso do Livre-arbítrio concedido ao ser humano por Deus, conforme Agostinho elucidou fazendo uso dos ensinamentos de Paulo acerca do pecado. As Escrituras nunca prometeram que não passaríamos por provações entre outras situações de desalento. Muito pelo contrário. O próprio Jesus advertiu de que teríamos aflições (Evangelho segundo João 16:33) e Tiago elucida sobre a alegria de passarmos por provações (Tiago 1:2-3)

Paulo, um dos principais propagadores do cristianismo, afirmou em sua carta aos filipenses que seus constantes sofrimentos foram instrumentos para a proclamação do Evangelho de Cristo (Filipenses 1:12). Devemos lembrar também do cego que Jesus viu, o que levou Seus discípulos a Lhe perguntarem: “’Mestre, quem pecou: este homem ou seus pais, para que nascesse cego?’ Jesus respondeu: ‘Nem ele nem seus pais pecaram, mas isto aconteceu para que a obra de Deus se manifestasse na vida dele.’” (Evangelho segundo João 9:3).

Óbvio que não estou dizendo que a verdadeira espiritualidade é demonstrada apenas através do sofrimento, seja ele oriundo de perseguições ou de enfermidades. Não é necessário o cristão sofrer para demonstrar que ama e serve a Deus de todo seu coração, de toda alma e com todo seu entendimento. Tal discurso deve ser rechaçado. Contudo, outro que também deve ser é o atualmente disseminado à exaustão de que “crente não fica doente, pois se ficar é obra da serpente.”. Enfermidades e qualquer outro tipo de mal não são indícios da ausência de Deus, tampouco de uma demonstração do poder de Satanás. É preciso acabar com este maniqueísmo que deturpa a soberania de Deus e dá à luz heresias como teologia da prosperidade e da confissão positiva.

Paulo, de acordo com muitos teólogos, ao falar sobre o “espinho na carne, o esbofeteador de Satanás” (II Coríntios 12:7) – onde é evidente no texto que tal fato ocorreu com a permissão de Deus a fim de que não se tornasse orgulhoso - estava se referindo a um problema de saúde ao qual sofria. Ele, escrevendo a Timóteo, recomenda-lhe: “Não continue a beber somente água; tome também um pouco de vinho, por causa de seu estômago e de suas frequentes enfermidades.” (I Timóteo 5:23 – Ênfase acrescentada). Timóteo era um jovem e dedicado presbítero cristão, porém, era enfermo. Não há indícios nas Escrituras de que ele tenha sido curado. Mas há de seus serviços em prol do Evangelho.

Fala-se muito sobre a Igreja Gloriosa (Efésios 5:27). Mas, em meio a tal clamor, não podemos esquecer de que Ela é composta por pessoas que O adoram em espírito e em verdade (Evangelho segundo João 4:24) e em toda e qualquer circunstância (Habacuque 3:17-18, Filipenses 4:12-13). É impossível não se lembrar do episódio de Paulo e Silas em Filipos (Atos 16:6-38). Após orarem para que um espírito imundo libertasse uma jovem escrava que praticava adivinhações, foram convidados pelos senhores da jovem a passarem a noite em um hotel cinco estrelas. Antes, porém, participaram de uma sessão de massagens dorsais. Não foi isso? Não, não foi. Ambos foram açoitados (39 chicotadas nas costas, cujos chicotes eram feitos de couro animal e de dentes de animais que dilaceravam a pele açoitada) e depois jogados em uma prisão.

Com feridas abertas nas costas e mãos e pés atados em correntes, ambos adoravam a Deus (Atos 16:25). Esta é a adoração peculiar da Igreja Gloriosa. Estes eram os sofrimentos que Paulo, ao escrever sua carta aos cristãos em Filipos, relata que eram instrumentos da propagação do Evangelho. Eusébio de Cesareia, historiador cristão do quarto século, disse em seu livro História Eclesiástica que o Édito de Milão, promulgado pelo imperador romano Constantino que colocou fim à perseguição aos cristãos; bem como o primeiro Concílio da Igreja – Niceia, em 325 - foram acontecimentos gloriosos. Pois foi possível ver a reunião de vários cristãos mutilados em nome da fé adorando Jesus, a quem serviam.

Não podemos nos esquecer do leproso que se aproximou de Jesus e, vendo-Lhe, O adorou (Evangelho segundo Mateus 8:2). Este leproso reconheceu o Senhorio de Cristo a tal ponto que Lhe rendeu o verdadeiro culto racional: “Senhor, se quiseres, podes purificar-me!”. (Evangelho segundo Mateus 8:3). Ele demonstrou o culto racional que deve acontecer e que acontecerá, onde Jesus é o soberano alvo de adoração, e consequentemente Sua vontade tem a total primazia (Apocalipse 5:12-14).

Algo completamente destoante da teologia da prosperidade que ensina, ignorando alguns textos bíblicos como Mateus 6:10 e deturpando outros como João 17:21, Filipenses 4:13 e Tiago 4:3, por exemplo; transforma Deus em servo. Já ouvi, infelizmente, vários pregadores dizendo que, por causa do sacrifício de Cristo, temos o direito de exigir de Deus todas as bênçãos celestiais que estão ao nosso dispor. Isso mesmo, a vontade do ser humano tem a primazia em relação à vontade de Deus. Uma completa inversão de valores. Ou seja, precisamos de uma genuína e completa conversão.

Leia também: Um leproso

terça-feira, 28 de abril de 2015

O supremo ministério

Matheus Viana

“Se alguém não cuida de seus parentes, e especialmente dos de sua própria família, negou a fé e é pior que um incrédulo.” (I Timóteo 5:8).

Esta foi uma advertência fundamental e norteadora para o ministério de Timóteo proferida pelo apóstolo Paulo. Mas ela, atualmente, não tem sido devidamente observada. Por isso muitas famílias são “sacrificadas em prol do Reino de Deus”. Contudo, pensemos: É sensato dizer que o Reino de Deus veio “sacrificar” algo tão precioso para o próprio Deus? Claro que não. Tal filosofia é apenas mais uma das várias distorções que o Evangelho tem sofrido. E como tem sofrido...

O valor da família vem sendo sucumbido em detrimento do “êxito ministerial” (leia-se crescimento numérico), principalmente nos sistemas eclesiásticos que enfatizam a “conversão dos incrédulos” em detrimento da proclamação do Evangelho. Embora afirmem: “família é a célula principal”, a realidade é bem distante de tal verdade. Contudo, conforme o apóstolo Paulo exorta, não adianta uma pessoa se esforçar por arrebanhar uma “multidão de convertidos” (algo possível somente pela obra do Espírito Santo através da proclamação do verdadeiro Evangelho, e não do “sucesso” de estratégias de evangelismo, importante enfatizar este ponto) e deixar perecer sua família.

Não adianta um homem estar à frente de um ministério pastoral e não exercer o sacerdócio no lar. Lembrando que um dos principais atributos de um líder na casa de Deus (pastor, bispo, presbíteros e diáconos) é “governar bem sua própria família.” (I Timóteo 3:4). Pois de que adianta você ser um “bom pastor” e seu cônjuge carecer de necessidades básicas como carinho, atenção e afeto? Nada!

Não podemos, segundo a Bíblia, afirmar que um ministério deste caráter é uma expressão do “Reino de Deus”. O Reino de Deus (genuíno) abarca a família. Conforme bradou Josué: “Eu e a minha casa serviremos ao Senhor.” (Josué 24:15). Neste mesmo mote, o apóstolo Paulo declarou ao proclamar o Evangelho ao carcereiro: “Creia no Senhor Jesus e serão salvos você e os de sua casa.” (Atos 16:32).

Pastores que se prezem não podem permitir que líderes de suas congregações estejam liderando ministérios enquanto seus familiares padecem em alguma área de suas vidas. Pois qual a autoridade destes líderes em serem ministros de Deus para famílias se eles não têm exercido o sacerdócio em seus próprios lares (tanto na questão conjugal como nas questões de paternidade e de filiação)? Onde fica o ideal: “família, célula principal? Apenas como objeto de decoração em uma das paredes de seus respectivos templos. Esta é a questão que Paulo trata com Timóteo: não é possível ser um sacerdote na igreja sem antes ser um sacerdote no lar.

Outra coisa que deve ser observada é que ministério não é “lugar de refúgio” para pessoas que enfrentam problemas em suas famílias. Ministério não isenta o indivíduo de seus deveres como sacerdote de seu lar. No âmbito do Reino de Deus, não existe êxito ministerial dissociado de êxito familiar. E sabemos bem que não existe família perfeita. Todos nós temos problemas, pois somos indivíduos imperfeitos. Por isso Deus, baseado no pleno e perfeito sacerdócio de Jesus Cristo, instituiu o marido como sacerdote do lar. Baseado em tal atributo, o apóstolo Paulo preconiza: “Mulheres, sujeite-se cada uma a seu marido, como ao Senhor, pois o marido é o cabeça da mulher, como também Cristo é o cabeça da igreja, que é o seu corpo, do qual Ele é o Salvador. (...) Maridos, ame cada um a sua mulher, assim como Cristo amou a igreja e se entregou por ela.” (Efésios 5:22-25).

O êxito de Jesus, demonstrado em Seu bradar: “Está consumado.” (Evangelho segundo João 19:30) se deu em virtude de Sua entrega plena à nós, Sua Igreja. O que isto significa? Que seremos verdadeiramente exitosos, de acordo com a perspectiva divina, em nossos ministérios na medida em que amarmos as nossas esposas da mesma forma que Cristo nos amou ao ponto de dar sua vida por nós. Pois Seu modo de agir não é apenas o modelo, mas o alicerce de nosso ministério. Qualquer “alicerce” diferente deste não é Evangelho.

Sendo assim, qualquer devoção a um trabalho ministerial sem a devoção conjugal é vã e, digo mais: está completamente separada do padrão do Reino de Deus, manifesto na entrega de Jesus Cristo por Sua amada noiva chamada Igreja. Este é o grande mistério elucidado pelo apóstolo Paulo: “Este é um mistério profundo; refiro-me, porém, a Cristo e à Igreja. Portanto, cada um de vocês também ame a sua mulher como a si mesmo, e a mulher trate o marido com todo o respeito.” (Efésios 5:32-33).

Pastores, ajam como tais e não permitam que pessoas se esforcem em seus respectivos ministérios eclesiásticos sem exercerem, de maneira devida e bíblica, o sacerdócio do lar! Estejam atentos às condições conjugais de seus membros desprovidos de toda conveniência e ambição “evangelical” (leia-se, repito, crescimento demográfico de suas congregações)!

Pois é sobre a família que repousa a primeira profecia estabelecida sobre o patriarca (este sim, um legítimo) Abraão: “Se tu uma benção. Abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem. Em ti serão benditas todas as FAMÍLIAS da terra.” (Gênesis 12:2-3, ênfase acrescentada). Sem famílias restauradas não há manifestação do Reino de Deus. Portanto, cuidemos bem das nossas! Pois elas são o nosso Supremo ministério.