quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Ensaios sobre a felicidade

Parte I - A ética da felicidade

Matheus Viana

Aristóteles afirmou em seu livro Ética a Nicômaco que todas as ações humanas, provenientes de suas escolhas, visam um bem. Por isso, para ele, o sentido da vida está no conhecimento e alcance deste bem. Esta dedução o levou a indagar: “Não terá o conhecimento deste bem, então, grande influência sobre a nossa vida?”1. Diante disso, surge a questão: que bem é este?

É consenso que, independente dos propósitos primários de nossas escolhas e ações, visamos, através deles, alcançar a felicidade, seja no presente ou no futuro. Portanto, não há como negar: este bem é a felicidade. Aristóteles chegou a esta conclusão: “... pois tanto o vulgo como os homens de cultura superior dizem que esse bem supremo é a felicidade e consideram que o bem viver e o bem agir equivalem a ser feliz; porém, divergem a respeito do que é a felicidade.” 2.

Conclusão seguida de uma questão: o que é felicidade? Aristóteles elucida: “A maioria das pessoas pensa que se trata de alguma coisa simples e óbvia, como o prazer, a riqueza ou as honras, embora também discordem entre si; e muitas vezes o mesmo homem a identifica com diferentes coisas, dependendo das circunstâncias: com a saúde quando está doente e com a riqueza quando está pobre. Cônscios, porém, da própria ignorância, admiram aqueles que propõem algum ideal grandioso e inacessível à sua compreensão.”3.

Por mais que tentemos, não conseguiremos chegar numa definição única e consensual. Felicidade, na perspectiva humana, é determinada pelas circunstâncias que vivemos ou que projetamos como ideal. Nem as Escrituras definem o que é a felicidade. Definem apenas a ética que o ser humano deve seguir para ser verdadeiramente feliz. Vemos, por exemplo, Davi declarando: “Feliz a nação cujo Deus é o Senhor.” (Salmos 33:12). Por sua vez, Salomão também elucida: “Feliz o homem que confia no Senhor.” (Provérbios 16:20). Jesus, em seu Sermão da Montanha, falou sobre esta ética. Agostinho, em seu livro Confissões, registrou: “Quando te procuro, ó Deus, estou à procura da felicidade”.4.

Já no primeiro salmo, encontramos o que podemos chamar de ética da felicidade: “Feliz (ou bem-aventurado) o homem que não anda no conselho dos ímpios, não imita a conduta dos pecadores nem se assenta na roda dos escarnecedores. Ao contrário, sua satisfação está na Lei do Senhor, e nessa Lei medita de dia e de noite.” (Salmos 1:1-2 – Nova Versão Internacional).

Antes de analisarmos este versículo de forma pormenorizada, reflitamos sobre a diferença – ou seria semelhança? – entre satisfação e felicidade. Satisfação é o suprimento de uma necessidade. Por exemplo, quando sentimos fome, nos alimentamos até que fiquemos satisfeitos, ou seja, até que a fome – ou necessidade de alimento – deixe de existir. Mas isso não quer dizer que uma pessoa que tenha sua fome saciada seja feliz. Pois, ainda que ela não sinta mais fome, pode estar acometida de outras necessidades.

Podemos, então, dizer que felicidade é o pleno suprimento de todas as nossas necessidades. Seria uma resposta lógica, mas que não reflete a realidade. Conforme afirmei no texto Cobiça x necessidade, a alma humana, degradada, ingrata e enganosa (Jeremias 17:9), tem o poder de transformar cobiça em necessidade. Por isso, o ser humano nunca se satisfaz com o que possui. Conclui-se, todavia, que não há felicidade sem satisfação. Pois a insatisfação é sintoma de que ainda estamos à procura da felicidade.

A expressão que aparece em Salmo 1:2, que é traduzida como satisfação, no original hebraico é CHEFËTSO (חֶפְצוֹ). Esta expressão refere-se aos verbos querer, desejar e gostar. Por isso é traduzida também como prazer: “Antes tem o seu prazer na lei do SENHOR, e na sua lei medita de dia e de noite”. (João Ferreira de Almeida – Ênfase acrescentada).

Contudo, prazer é um sentimento momentâneo e circunstancial. Aristóteles classifica a vida em três tipos: agradável (prazer), política (honra e virtude) e contemplativa. Concentremos apenas no primeiro tipo para que o texto não fique exaustivo. Assim, vemos que prazer para o filósofo é levar uma vida agradável. Neste mote, o salmista adverte: “Agrada-te do Senhor, e ele satisfará os desejos de seu coração.” (Salmos 37:4). Em outras traduções aparece a expressão alegra-te no lugar de agrada-te. Mas o que é ter uma vida agradável ou alegre?

Com certeza, muitos diriam que é uma vida sem problemas. Este é um quesito que o cristianismo não atende. Pois o próprio Jesus afirmou: “No mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo” (Evangelho segundo João 16:33). Mas o apóstolo Paulo, um homem que sofreu todo tipo de tribulação por amor à Cristo e ao Seu Evangelho, classificou a vontade de Deus como “boa, perfeita e... agradável” (Romanos 12:2). Mas como pode ser agradável uma vida repleta de aflições? Paulo dá a receita: ter uma mente renovada.

Mas no que consiste ter uma mente renovada? Em adquirir a consciência de que a vontade de Deus, por mais que pareça adversa, redundará no melhor para nós. Pois, conforme Salomão elucidou: “Há caminhos que ao homem parecem direito, mas no fim são caminhos de morte.” (Provérbios 16:25). Ou seja, é um engano pensar que a plena submissão aos nossos desejos nos conduzirá à plena felicidade. Lembre-se, nosso coração é enganoso. Todavia, conforme Davi elucida, nossa satisfação – que nos conduzirá à felicidade - está em meditar na Lei de Deus, que representa Sua vontade. Ou melhor, Sua ética.

Notas e referências bibliográficas:

1 - ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco; tradução Torrieri Guimarães. – São Paulo: Editora Martin Claret, 2001. Pg. 10.

2 – Idem 1, pg. 11.

3 – Idem 1, pg. 11 e 12.

4 - AGOSTINHO, Santo. Confissões; tradução Frederico Ozanam Pessoa de Barros – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012 – Saraiva de Bolso. Pg. 297.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

O alicerce do renovo

Matheus Viana

Temos necessidade do renovo de Deus sobre as nossas vidas. Jesus ensinou a seguinte oração: “O pão nosso de cada dia dá-nos hoje” (Evangelho segundo Mateus 6:11). Clamor que reflete nossas necessidades natural (alimento para o corpo) e espiritual (a ação do Espírito Santo em nós e o entendimento de Sua Palavra). Jesus disse que é o pão vivo que desceu do céu (Evangelho segundo João 6:51) ao fazer alusão sobre o suprimento do maná aos hebreus no deserto. Mas Jesus subiu aos céus e enviou o Espírito para continuar em nós, e através de nós, Sua obra (João 14:26, Mateus 28:19). Assim como o maná era renovado diariamente – exceto no sábado, o dia do descanso – (Êxodo 16:4), o Espírito Santo se renova sobre nós (II Coríntios 3:18) a fim de completar Sua obra até atingirmos a estatura do varão perfeito (Efésios 4:11) e refletirmos Sua imagem (Romanos 8:29).

No entanto, este renovo está sujeito a um padrão imutável. O apóstolo Paulo diz que este renovo, que se refere ao fato de sermos edificados como edifício de Deus, que se refere à Igreja Gloriosa de Efésios 5:27, está alicerçado “no fundamento dos apóstolos e dos profetas, tendo Jesus como a Pedra Angular” (Efésios 2:20-21).

Infelizmente temos visto que esta necessidade de renovo tem levado boa parte da Igreja e se sujeitar há vários movimentos. A advertência do apóstolo Paulo aos efésios: “O propósito é que não sejamos mais como crianças, levados de um lado para outro pelas ondas, nem jogados para cá e para lá por todo vento de doutrina e pela astúcia e esperteza de homens que induzem ao erro” (Efésios 4:14), neste contexto, torna-se bastante atual.

Há os que dizem ter recebido de Deus a incumbência de restaurar o ministério apostólico, por exemplo. Contudo, ignoram o fato de que os apóstolos foram levantados por Deus, através de Jesus, como base da Igreja, assim como os profetas do Antigo Testamento que profetizaram até o advento da vinda de Cristo.

Conforme relatei no texto Os cristãos e os absolutos de Deus: “A maneira de ser, pensar e agir de um cristão deve estar pautada nos absolutos de Deus. Veja que Paulo se refere aos apóstolos, que continuaram a difundir o legado de Cristo, aos profetas, que se referem à Lei dada por Deus ao Seu povo através de Moisés e às promessas que apontavam para a vinda de Jesus, o Deus que se fez homem (Evangelho segundo João 1:14, Colossenses 1:15) contidas no Antigo Testamento. E, claro, todos esses fundamentos convergem no próprio Jesus que é o Caminho, a Verdade e a Vida (Evangelho segundo João 14:6).

Ou seja, os profetas nos deram o Antigo Testamento e os apóstolos, com exceção de Marcos, Lucas, Tiago e Judas, nos deram o Novo Testamento. Ambos convergem em Cristo, a Pedra Angular, o supremo alicerce aos quais somos edificados. E Jesus é o mesmo ontem, hoje e será eternamente (Hebreus 13:8). Não há, portanto, lugar para reforma ou restauração no sentido de acrescentar algo a ele, como a renovação apostólica vigente, entre outros, pretende. A própria Reforma Protestante do Século XVI proclamou o retorno a este Alicerce ao bradar Sola Scriptura.

Mas há muitos outros movimentos que, ao analisarmos, encontramos muitos princípios e conceitos conflitantes com as Escrituras. O que faz surgirem, em contrapartida, movimentos que se colocam como vanguardistas da fé e se portam como se fossem os únicos defensores e portadores da Igreja Gloriosa. Sim, a apologética faz parte do exercício do cristianismo. O apóstolo Pedro exorta: “Estejam sempre preparados para responder a qualquer pessoa que lhes pedir a razão da esperança que há em vocês.”. O apóstolo Paulo, ao dialogar com estóicos e epicureus, faz apologia sobre a fé no Deus Único, Criador dos céus e da terra (Atos 17:22-30). Contudo, é preciso saber que não há ninguém que tenha pleno conhecimento da verdade. Uma coisa é saber que a Verdade existe e quem ela é. Outra bem diferente é conhecê-la plenamente. A obra do Espírito que, conforme Jesus advertiu, nos guia à Verdade e ao conhecimento dela, é paulatina (Evangelho segundo João 16:13). Por isso, não somos independentes. Mas precisamos uns dos outros como membros diferentes de um único corpo (I Coríntios 12:12-30).

Resumindo: o renovo do Espírito possui um fundamento imutável. Não há lugar para neo-doutrinas, tampouco para restaurações ministeriais que foram estabelecidas por Deus na História da Igreja em tempos e propósitos específicos. Uma das causas principais para o surgimento de movimentos assim é a necessidade de renovo. Todavia, esta necessidade, dada pelo próprio Deus ao ser humano, não pode acrescentar algo a este alicerce ou “restaurar” algo que já está concluído. Nossa função é examinarmos as Escrituras (o Maná espiritual de Deus a nós) a fim de conhecermos a Verdade, sermos por ela transformados para nos tornarmos agentes de transformação (Evangelho segundo João 5:39) e praticá-la (Tiago 1:22). O desejo por exercemos tal função continuamente é que precisa ser renovado a cada dia.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Ação equilibrada

Matheus Viana

“Porque pela graça que me é dada, digo a cada um dentre vós que não pense de si mesmo além do que convém; antes, pense com moderação, conforme a medida da fé que Deus repartiu a cada um. (Apóstolo Paulo, Romanos 12:3).

Não se trata de filosofia holística. É fato: todo indivíduo em sã consciência busca o equilíbrio entre os extremos em muitas áreas de sua vida. Ouso dizer em todas.  Aristóteles, em seu livro Ética a Nicômaco, reflete sobre algumas virtudes como sendo o meio-termo entre o excesso e a escassez, lembrando que seu principal objetivo é refletir sobre a ação humana.

Diz, por exemplo, que a virtude da liberalidade é o meio-termo entre a avareza e o ser pródigo. A própria experiência humana mostra que todo extremo, seja na escassez ou no excesso, é nocivo. Até algo bom como o amor, quando praticado em excesso, é nocivo. Aliás, o verdadeiro amor é, conforme o apóstolo Paulo preconiza em sua carta aos coríntios, equilibrado. Mas ouvimos sobre muitos casos de pessoas que mataram “por amor” e de pais que escravizaram filhas “por amor”. Sim, a origem de casos mórbidos como estes não é amor, mas patologias que enganam a psique do indivíduo. Contudo, podemos dizer que tais patologias são exatamente desdobramentos do amor em sua forma extremada. Sobre a falta de amor, bem, desnecessário gastar linhas para demonstrar o quanto é nociva...

Há quem diga que o nosso amor a Deus deve ser extravagante, extremado. Será? O amor a Deus deve obedecer o bom senso. Sim, romper os limites da sabedoria humana, mas ser submisso à coerência de Deus. A obra da cruz é loucura para os que perecem, mas para os que creem é o poder de Deus (I Coríntios 1:18). O amor de Jesus por nós demonstrado na cruz foi extravagante. Mas tal “extravagância” obedeceu a coerência da Lei (Galátas 3:13) e da justiça de Deus (Romanos 3:21). Ou seja, foi feito sob a tutela da razão de Deus, e não um ato incoerente ou inconsequente, fruto de um impulso qualquer.

Jesus sabia exatamente o que estava fazendo, o que evidencia que Ele em nenhum momento abandonou Sua razão (Evangelho segundo Mateus 26:39). Pois era, desde antes da formação do mundo (Apocalipse 13:8), o cordeiro que tira (o verbo no presente é proposital) o pecado do mundo (Evangelho segundo João 1:29). E não podemos nos esquecer que nenhuma “extravagância” que façamos se equipara ao que Jesus realizou por nós.

Repito, ainda que seja extremado em relação ao bom senso humano, foi a demonstração do amor de Deus em sua justa medida que é “recalcada, sacudida e transbordante.” (Evangelho segundo Lucas 6:38). Em suma, amor extravagante é aquele que é exercido de acordo com a sobriedade das Escrituras, que devem ser compreendidas em virtude da inseparável parceria entre o Espírito de Deus (I Coríntios 2:10-11, Evangelho segundo João 16:8-13) e a razão humana (Evangelho segundo Mateus 22:29, Evangelho segundo João 5:39, Romanos 12:1-2).

Assim como o amor, o desejo pela santidade, quando é excessivo, também é nocivo. Há pessoas que, no desejo de serem santas, se esquecem de que são pecadoras (I João 1:8-10) e de que, por isso, são dependentes da misericórdia de Deus que se renova a cada manhã e é a causa de não sermos consumidos (Lamentações 3:22). Sim, como extensão de nosso amor a Deus, que obedece Sua coerência, o desejo de viver como Cristo viveu é parte do pacote (Romanos 8:29, Efésios 4:13). No entanto, o excesso abre precedente para um misticismo perigoso e, consequentemente, a segregação.

A devoção extremada resultou em barbáries como as Cruzadas - cujo bradar era “morte aos inimigos de Deus” -, a Inquisição - na ânsia de exercer a “santidade” de matar os hereges -, o extermínio dos cátaros e anabatistas, como também o radicalismo proveniente do protestantismo luterano que queimou igrejas e assassinou “os hereges presos em tradições humanas”. Isso falando apenas da vertente cristã. Se estendermos aos exemplos do fundamentalismo islâmico, alicerçado pela guerra santa (Jihad), o texto ficará exaustivo. Nestes casos, vemos que a devoção extrema gerou a escassez do amor ao próximo. Questão de causa e efeito.

Um equilíbrio que quero tratar, no entanto, é entre o legalismo e a permissividade que conduz ao pecado em relação à conduta cristã. Com o desejo de não errarmos, muitas vezes nos tornamos legalistas. E, quando percebemos nosso legalismo, temos a tendência de partir rumo à permissividade. Como alcançar o equilíbrio? Não tenho a resposta para tal questão. Apenas fui ousado, confesso, de salientar a reflexão bastante comum. Falaremos sobre ela em textos futuros. Até lá!

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Ensaios sobre a euforia

Matheus Viana

Euforia é a falsa alegria. Sensação inebriante, porém momentânea. Que vem como um “fogo que arde sem se ver”, parafraseando Camões, ao descrever a paixão. Mas, de súbito, desaparece dando lugar a um lúgubre sentimento de culpa e frustração.

A euforia embriaga nossos desejos reduzindo-os à escravidão. Ouso dizer que foi euforia que Eva e Adão sentiram antes de pecarem. Ávidos por obterem algo ilícito, abandonaram a razão e se esqueceram da advertência que Deus havia emitido: “Não coma da árvore do conhecimento do bem e do mal, pois no dia em que dela comer, certamente morrerás” (Gênesis 2:17).  O fato de notarem que estavam nus foi mero desdobramento da consciência de que cometeram um equívoco. Ou seja, culpa e frustração por sucumbirem à euforia. É ela que sentimos quando nos deparamos com o desejo pelo ilícito. Ela é resultado de nossa cobiça e o combustível para o ato do pecado.

Euforia é uma palavra grega que significa “poder de perseverar”. Com isso, podemos ver que euforia, além do conceito de senso comum de alegria e entusiasmo, é a capacidade humana de perseverarmos em nossos instintos e desejos, fazendo tudo o mais ser reduzido à irrelevância. Não é em vão que o termo em questão é usado para denominar o sentimento que um dependente (viciado) possui em relação ao objeto de sua dependência (seu vício). Um dependente-químico, por exemplo, fica eufórico antes (desejo, cobiça) e, principalmente, depois (prazer) do uso da substância desejada (ou necessitada). Os sintomas da insatisfação, também conhecida como crise de abstinência, surgem logo depois. O termo também é usado para descrever um dos sentimentos que os deficientes mentais possuem, pois a euforia compromete a razão.

Euforia é completamente oposta à “alegria” elucidada por C. S. Lewis, quando dissertou em seu livro Surpreendido pela alegria sobre o sentimento que lhe acometeu quando teve uma experiência com Deus, em sua infância. É também diferente da alegria do homem quando viu a mulher que Deus formara de uma de suas costelas, que o levou a exclamar: “Carne da minha carne, ossos dos meus ossos.” (Gênesis 2:23).

Alegria traz satisfação, a euforia não. Por isso o salmista declara: “Alegra-te do Senhor, e ele satisfará os desejos do teu coração.” (Salmo 37:4). Por sua vez, a euforia traz remorso. Ela é fruto da vontade humana, por isso é ansiosa e inconsequente. A alegria é resultado de nossa submissão à vontade de Deus, ainda que seja antecipada pela tristeza e pela dor. Foi isso que Isaías descreveu a respeito do Messias que, como fruto de seu sofrimento, “verá o fruto de seu penoso trabalho e ficará satisfeito” (Isaías 53:11). Alegria é o sentimento que acomete uma mãe quando, após passar pelo doloroso processo do parto, recebe o filho em seus braços.

Assim como a desobediência traz culpa, a obediência gera alegria. Por isso o salmista testifica: “Como é feliz aquele que não segue o conselho dos ímpios, não imita a conduta dos pecadores, nem se assenta na roda dos zombadores. Ao contrário, sua satisfação está na Lei (vontade) do Senhor, e nela medita de dia e de noite”. (Salmo 1:1-2). O seguinte salmo complementa: “Dirige-me pelo caminho dos teus mandamentos, pois nele encontro satisfação”. (Salmo 119:35). Mas a obediência à vontade de Deus é dolorosa, pois exige a “dor” da renúncia às nossas vontades e, sim, à ela mesma: euforia.

Apesar da dor que sinto em meu corpo por conta da deformidade óssea que o acomete, sou alegre pelo fato de que Deus tem, mesmo sem eu merecer, me concedido vida. Acredite, sou satisfeito com a vida que levo. É verdade que desejo ser curado. E tenho fé de que serei. Mas, independente de ser curado ou não, a alegria de estar vivo é permanente. Após 20 anos, compreendi a mensagem do salmo 37.

“Entra no gozo do seu Senhor” é o comando de Jesus aos fiéis, elucidado em algumas de Suas parábolas. No entanto, ser fiel não é algo prazeroso. Sim, o salmista proclamou: “Tenho prazer em sua lei” (Salmo 119:70). Este prazer não é propriamente em observar a Lei, mas o pleno exercício de consciência de que a Lei de Deus é benéfica para o ser humano. A partir disso, o fato de passarmos pela tensão de renunciar nossa vontade para fazer a vontade de Deus se torna prazeroso na medida em que adquirimos tal consciência. É por isso que o apóstolo Paulo preconizou: “Transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, perfeita e agradável vontade de Deus.”. (Romanos 12:2). Este é o nosso “culto racional” (Romanos 12:1). 

A questão é que o conceito de alegria disseminado pelo senso comum está ligado ao exercício da vontade humana e, consequentemente, ao prazer dela oriundo. Schopenhauer afirmou que a essência humana é vontade, e vontade de viver. Na esteira, Nietzsche definiu moral como nobre e escrava, onde diz que a “nobre” está pautada no egoísmo, ou seja, na vontade pessoal que Rousseau, em seu livro Contrato Social, definiu como vontade comum (a vontade do indivíduo), acima das demais coisas. A alegria – que conduz à satisfação - passou a ser definida como vontade de poder. No entanto, este deslocamento de conceito teve seu início na queda dos primeiros seres humanos. Questão de causa e efeito. 

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Os cristãos e os absolutos de Deus

Matheus Viana

Toda construção precisa de um fundamento. O ser humano é o resultado de leis físicas e biológicas que funcionam em harmonia. Quando há carência desta necessária harmonia, surgem as anomalias. Portanto, esta harmonia entre as leis é um absoluto.

Tente, por exemplo, relativizar a lei da gravidade e pule do parapeito do 15º andar de um edifício sem nenhum instrumento que amorteça sua queda. Talvez você não sobreviva para testificar que absolutos existem. Certa vez em uma aula em que eu falava sobre a existência de absolutos, perguntei para a classe: “Alguém aqui acredita que absolutos não existem, que tudo é relativo?”. Um garoto respondeu prontamente, sem pestanejar: “Eu acredito que tudo é relativo.”. Perguntei em seguida: “Você tem certeza disso?”. “Absoluta”, ele respondeu. Depois começou a rir de sua própria incoerência.

Os cristãos (verdadeiros, não apenas nominais) estão pautados em alguns absolutos. O apóstolo Paulo, um dos principais personagens do cristianismo, disse: “edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, tendo Jesus como a pedra angular...” (Efésios 2:20). A maneira de ser, pensar e agir de um cristão deve estar pautada nos absolutos de Deus. Veja que Paulo se refere aos apóstolos, que continuaram a difundir o legado de Cristo, aos profetas, que se referem à Lei dada por Deus ao Seu povo através de Moisés e às promessas que apontavam para a vinda de Jesus, o Deus que se fez homem (Evangelho segundo João 1:14, Colossenses 1:15) contidas no Antigo Testamento. E, claro, todos esses fundamentos convergem no próprio Jesus que é o Caminho, a Verdade e a Vida (Evangelho segundo João 14:6).

Infelizmente, não é o que acontece. Vemos pessoas que afirmam ser cristãs defendendo condutas que contrariam os absolutos de Deus. Um exemplo, e o que quero tratar especificamente neste breve texto, é o aborto. Sim, acredite, há quem afirme ser cristão e, ao mesmo tempo, é favorável ao aborto.

Considerando o absoluto de Deus no tocante à vida, não há discussão. Vamos partir da Lei do Antigo Testamento até a aplicação feita por Jesus. Há quem diga que os mandamentos do Antigo Testamento não servem para nós atualmente, pois a era da Lei já passou e a da Graça foi inaugurada com Cristo (Romanos 6:14). Sim, isto é uma verdade. Contudo, não é completa.

Vivemos pela Graça manifesta por Cristo, mas outro princípio complementar é o de que a Lei mosaica contém três atributos: o sacrificial (ou cerimonial, que também abarca o simbólico), o civil (específico para os hebreus) e o moral. O primeiro foi cumprido em Jesus. O próprio Jesus disse, em seu sermão da montanha, que não veio abolir a Lei, mas cumpri-la (Evangelho segundo Mateus 5:17). E Ele a cumpriu plenamente ao ponto de bradar: “Está consumado.” (Evangelho segundo João 19:30). Por isso o escritor da carta aos hebreus disse: “E Ele (Jesus) o fez uma vez por todas quando a si mesmo se ofereceu.” (Hebreus 7:27).

O aspecto moral permanece. O apóstolo Paulo adverte: “Deus ‘retribuirá a cada um conforme o seu procedimento’. Ele dará vida eterna aos que, persistindo em fazer o bem, buscam glória, honra e imortalidade. Mas haverá ira, indignação para os que são egoístas, que rejeitam a verdade e seguem a injustiça.” (Romanos 2:7-8). Quando João preconiza: “Aquele que diz permanecer nele (Jesus), cuide para andar como Ele andou.” (I João 2:6), estava falando sobre exercer a mesma conduta moral, pautada nos absolutos de Deus, que Jesus exerceu como homem.

A prática do aborto, além de ser o exercício do egoísmo, fere o mandamento: “Não matarás.” (Êxodo 20:13). E isso não deve ser tratado como algo que ficou no passado do Antigo Testamento bíblico. Pois Jesus falou de sua contemporaneidade (aplicação em nossos dias) quando disse: “Vocês ouviram o que foi dito aos seus antepassados: ‘Não matarás’, e quem matar estará sujeito a julgamento. Mas eu lhes digo que qualquer um que irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento.” (Evangelho segundo Mateus 5:21). Ou seja, a Graça de Jesus não anula a Lei, mas a renova e aperfeiçoa com o caráter de amor, e não de obrigatoriedade.

O direito a vida é, conforme vimos, um absoluto dado por Deus. Por isso apenas Ele tem a autoridade e o poder de tirá-lo de nós. Sim, a morte é consequência do pecado (Gênesis 2:17, Romanos 6:23). No entanto, o pecado é produto do desejo e da escolha humana que Deus permite. Assim, Ele é soberano sobre a vida e sobre a morte. Baseado nesta autoridade Jesus afirmou: “Toda autoridade me foi dada nos céus e na terra.” (Evangelho segundo Mateus 28:18). Ele morreu e ressuscitou. Tal fato é a demonstração de que Ele, sendo Deus, é Senhor sobre a vida e sobre a morte. Somente Ele.

Muito se fala sobre a prática do aborto como o “direito” da mulher ao seu corpo. No entanto, este direito, lícito, termina onde começa outra vida, ainda que em seu ventre e em pleno desenvolvimento. O feto, embora dependente e sem consciência de sua própria existência, não é extensão do corpo da mulher. Tal verdade é clara na afirmação de Davi: “Tu criaste o íntimo do meu ser e me teceste no ventre de minha mãe. Eu te louvo porque me fizeste de modo especial e admirável. Tuas obras são maravilhosas! Digo isso com convicção (...) Os teus olhos viram o meu embrião...” (Salmo 139:13-16 – Ênfases acrescentadas).

Quando uma mulher aborta, ela está interferindo no desenvolvimento de outra vida que, embora dependente dela, repito, é um ser particular e considerado por Deus no momento em que é fecundado. Em outras palavras, está infringindo o “não matarás” sem a permissão dAquele que tem toda a autoridade sobre a vida e sobre a morte.

Alguns favoráveis ao aborto argumentam o fato de que milhares de mulheres morrem em clínicas clandestinas. Tais mortes, embora indesejadas, uma vez que Deus se entristece com a morte dos ímpios (Ezequiel 19:23); são consequências das escolhas que elas fizeram. É o desdobramento do que Deus disse no início ao ser humano: “mas não coma da árvore do conhecimento do bem e do mal, pois no dia em que dela comeres, certamente morrerás.” (Gênesis 2:17). É o que tem acontecido, literalmente.

O aborto é consequência também do que o apóstolo Paulo afirmou: “Trocaram a verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram a coisas e seres criados em lugar do Criador. Por isso Deus os entregou a uma disposição mental reprovável, para praticarem o que não deviam.” (Romanos 1:25-26). É fato. A maioria dos casos de abortos é proveniente de relações sexuais ilícitas, fruto do hedonismo que escraviza sexualmente as pessoas e deturpa a forma de pensarem e agirem. O discurso de Paulo é bastante atual.

Se seguirmos o mesmo raciocínio demonstrado no argumento acima, será que então Deus teria que “legalizar” o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal para que o ser humano não sofresse a terrível consequência da morte? Claro que não! Pois Deus é amoroso, bondoso, misericordioso e justo. Mas é um Deus moral. E moral, como qualquer pessoa sabe, é a existência e o senso de certo e errado, claro, com suas consequências.

O feto, por sua vez, não tem escolha, não tem defesa, não tem nada. Ele sofre a consequência da escolha da mulher, que, em alguns casos, também morre. Lutar pela legalização do aborto é o mesmo que pleitear para que Deus mude o absoluto de que o salário do pecado é a morte e o dom gratuito de Deus é a vida eterna. Portanto, saiba que Deus não é homem para que minta, nem filho do homem para que se arrependa (Números 23:19). Ele não mudará Seus absolutos, por isso Ele é o mesmo ontem, hoje e será eternamente (Hebreus 13:8).

Resumindo, Jesus é a favor da vida. Logo, expressamente contra o aborto. Isso é absoluto para um cristão. Não há quem lute, no caso do aborto, pelo feto. Por isso o próprio Deus luta. Sendo assim, prefiro observar o que Jesus disse certa vez: “Quem comigo não ajunta, espalha.” (Evangelho segundo Mateus 12:30). Em outras palavras, não há como ser cristão e ignorar o absoluto de que Deus é contra o aborto por ser a favor da vida, principalmente dos indefesos e dos que não têm capacidade de exercer a escolha de viver.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Ensaios sobre o mal - Parte III

Matheus Viana

Mas há os que questionam: “E o mal que assola pessoas inocentes? E quando pessoas boas sofrem de câncer, por exemplo? E uma criança que nasce debaixo do veredicto de uma enfermidade?”. Para indagações como estas há apenas uma resposta: Não há ninguém que seja inocente. O apóstolo Paulo elucida que todos pecaram (Romanos 3:23) e que, por isso, não há um justo sequer (Romanos 3:10). Jesus certa vez afirmou ao jovem rico que o abordara: “Não há ninguém que seja bom, a não ser somente Deus.” (Evangelho segundo Lucas 18:19).

Analise o comportamento de uma criança qualquer! Desde a tenra idade, mesmo sem a consciência plena de sua existência e da vida de forma geral, ela age de forma egoísta. Ou seja, pratica – ainda que de forma instintiva – o mal. Pois todo ser humano já nasce debaixo da regência do pecado. O salmista preconiza: “Em iniquidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe.” (Salmos 51:5).

O ser humano pratica o mal no exato momento em que abandona o Bem supremo, que é Deus e, portanto, pode vir apenas dEle. Na teologia judaico-cristã, quando estudamos os atributos de Deus, os comunicáveis e os incomunicáveis, vemos dois tipos de santidade: kadesh e kadosh. A que Deus comunica ao ser humano, e consequentemente deseja que ele viva, é Kadesh. Já a santidade que pertence somente a Deus, que significa a plena ausência do mal, é Kadosh.

Os apóstolos, ao chamarem os crentes de “santos”, estavam falando do primeiro tipo (kadesh) e em seu primeiro estágio: separados. Ou seja, separados de toda ação e padrão ético provenientes dos pensamentos contrários à Palavra de Deus (Romanos 12:2, II Coríntios 4:4) para começarmos a nos santificar até atingirmos a estatura do varão perfeito (Efésios 4:13). O apóstolo Tiago afirmou ao ensinar sobre o ciclo do mal: “Quando alguém for tentado, jamais deverá dizer: ‘Estou sendo tentado por Deus’. Pois Deus não pode ser tentado pelo mal e a ninguém tenta.” (Tiago 1:13). Deus não pode ser tentado pelo mal porque nEle não há mal algum.

O mal, no entanto, não é algo criado. Conforme elucidou Agostinho em seu livro O livre-arbítrio, ele não possui existência própria (ontológica). Nada mais é do que a corrupção (deterioração) do bem. O ser humano se afastou do Bem maior quando abandonou a verdade de Deus e aceitou uma proposta contrária (Gênesis 3:5-8). Sua mente foi contaminada por ouvir um argumento ardiloso.

Com a mente contaminada, seu coração foi corrompido. Consequentemente, suas ações também foram. Por isso o apóstolo Paulo adverte: “O que receio, e quero evitar, é que assim como a serpente enganou Eva com astúcia, a mente de vocês seja corrompida e se desvie da sincera e pura devoção a Cristo.” (II Coríntios 11:3).

O registro de Gênesis diz: “O Senhor viu que a perversidade do homem tinha aumentado na terra e toda inclinação dos pensamentos de seu coração era sempre e somente para o mal.” (Gênesis 3:6). Tal fato foi desdobramento do ser humano ter se apartado do Bem Supremo devido ao uso indevido da liberdade que lhe foi concedida.

O veredicto que recebeu como consequência de sua escolha foi completo, ou seja, não atingiu apenas o ser humano, mas toda a natureza: “Visto que você deu ouvidos à sua mulher e comeu do fruto da árvore da qual ordenara que não comesse, maldita é a terra por sua causa.” (Gênesis 3:17). O universo entrou em colapso. Desastres naturais como terremotos e tsunamis, por exemplo, são desdobramentos deste fato.

Contudo, assim como o ser humano é responsável pelo mal que existe no mundo (Romanos 5:12), é também de nossa inteira responsabilidade aplacarmos o mal que seja possível. O filósofo britânico Edmund Burke preconizou: “para que o mal vença, basta que o bem não faça nada”. O apóstolo Tiago, no entanto, milênios antes, advertiu: “Aquele que sabe fazer o bem e não o faz, nisso peca.” (Tiago 4:17). Tal advertência é baseada nos ensinamentos de Jesus: “Assim, em tudo, façam aos outros o que vocês querem que eles lhes façam.” (Evangelho segundo Mateus 7:12).

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Ensaios sobre o mal - Parte II

Tradução: Chuck Norris pode dividir por zero. Não, nem "ele" pode.
Matheus Viana

Analisemos mais alguns problemas lógicos no argumento de Epicuro (citado na primeira parte deste ensaio), principalmente na questão sobre a onipotência de Deus. O fato de Deus ser onipotente não significa que Ele não siga alguns princípios absolutos. Aliás, o ser humano só tem a noção ética e moral por conta do padrão ético que recebeu de Deus. Todo ser humano tem necessidade de pautar sua vida sobre princípios absolutos. O próprio relativismo é um absoluto. Discordas? Então pergunte para um relativista se ele tem certeza de que tudo é relativo. Se responder que sim... Bingo! Ele considera sua “verdade” absoluta. Se responder que não, apenas confessou sua incoerência lógica.

Ou então diga para um relativista que o seu ponto de vista está errado! Você não terminará de contar até dois para ele dizer que você é que está errado. Isso mesmo! Ele considera, ainda que inconscientemente – o que é pior -, o relativismo como um absoluto. Falaremos sobre isto posteriormente.

Eis alguns absolutos em relação a Deus: Ele não pode mentir: “Deus não é homem (humano) para que minta.” (Números 23:19). Ele não pode ser tentado pelo mal nem tentar a ninguém: “... Deus não pode ser tentado pelo mal, e a ninguém tenta.” (Tiago 1:13). Ele não pode ir contra Seus princípios: “Você viu bem, pois estou vigiando para que a minha palavra se cumpra.” (Jeremias 1:12 - Leia também Isaías 55:11). Ele não pode impedir o ser humano de provar as consequências de suas escolhas. Paradoxal para com Sua onipotência? Claro que é! Explico.

Um Juiz (meritíssimo) é soberano em um julgamento. Ele tem o poder de condenar ou absolver um réu, de declará-lo culpado ou inocente. Contudo, ele não pode deixar de seguir a ética jurídica. Ele não pode, por exemplo, mentir ou ser parcial e faltar com a retidão e equidade a fim de favorecer ou prejudicar o réu. Resumindo, ele não pode, de forma alguma, ser injusto. Portanto, posso usar o que um juiz não pode (não deve) fazer como base para afirmar que ele não é soberano em um julgamento? Claro que não! Isso seria uma falácia, ou melhor, uma picaretagem lógica. O argumento de Epicuro faz exatamente isso. Apesar de ser onipotente, Deus não irá revogar as consequências provenientes das escolhas e dos atos dos seres humanos. E o mal está incluso nelas.

Há quem diga, pelo fato de Deus dizer em sua Palavra que os maus serão condenados, que Ele não pode ser considerado bom. Sim, Ele é bom. E um dos atributos de Sua bondade é a justiça. Deus é justo ao ponto de entregar o Seu próprio Filho para cumprir em nosso lugar a justiça e a condenação – a penalidade - de nossos pecados: o sofrimento e a morte. Conforme o próprio Jesus elucidou: “Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida pelas ovelhas.” (Evangelho segundo João 10:11).

É sobre exatamente isso que o apóstolo João afirma: “Nisto consiste o amor de Deus: não que nós temos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou seu filho como propiciação pelos nossos pecados.” (I João 4:10). Sobre isso, o apóstolo Paulo afirmou: “Deus o ofereceu (Jesus) como sacrifício para propiciação mediante a fé, pelo seu sangue, demonstrando a sua justiça.” (Romanos 3:25). E também: “Mas Deus demonstra seu amor por nós: Cristo morreu em nosso favor quando ainda éramos pecadores.” (Romanos 5:8). Jesus é, ao mesmo tempo, o cumprimento das plenas justiça e bondade de Deus ao ser humano. Não há bondade maior do que sofrer e morrer por alguém mesmo sem merecer.

Assim, Jesus foi a obra suprema para acabar com o mal que assola a humanidade. Contudo, ela ainda desfruta de liberdade que Deus a concedeu. Mas é preciso reiterar que, pelo fato de os primeiros seres humanos terem feito uso indevido desta liberdade, a humanidade está debaixo da escravidão do pecado. Consequentemente, tem sofrido toda sorte de mal. Em outras palavras: o ser humano escolheu o mal e agora tem arcado com suas terríveis consequências.

Deus pode acabar com o mal. Sua “arma” foi o sofrimento e morte de seu Filho em nosso lugar. Foi isso que Isaías declarou ao dizer: “O castigo que nos traz a paz estava sobre ele.” (Isaías 53:5). O sacrifício passado de Jesus nos traz paz no presente, e trará no futuro (Evangelho segundo João 14:27). A “escolha”, portanto, é nossa de retornarmos, por intermédio da cruz, ao Bem Supremo. Ele já fez a Sua parte, o Seu ato soberano de bondade.

Sobre o fato do ser humano arcar com as consequências de suas escolhas e atos, há quem diga que Deus pode reverter a penalidade do ser humano, por isso concede, através de Jesus, a vida eterna ao pecador. Contudo, a vida eterna, apesar de não ser meritória - mas absolutamente pela Graça - é fruto da escolha humana de se arrepender de seus pecados, receber a justificação oriunda da morte de Jesus e recebe-Lo, pela fé, como Senhor e salvador (Efésios 2:8).

Conforme Paulo preconiza, o salário (consequência) por escolher e cometer o pecado (mal) é a morte, mas o dom gratuito de Deus (consequência) para aqueles que se arrependem – escolhem ser justificados em Cristo – é a vida eterna (Romanos 6:23). Esta escolha, no entanto, é fruto da ação do Espírito Santo de Deus (chamado de Graça precedente por uns e Graça irresistível por outros) no interior do ser humano, conforme Jesus advertiu: “Quando ele (O Espírito Santo) vier, convencerá o mundo (kosmon/cosmon - cosmos) do pecado, da justiça e do juízo.” (Evangelho segundo João 16:8).

O apóstolo Paulo elucida: “Irmãos, você foram chamados para a liberdade. Mas não usem a liberdade para dar ocasião à vontade da carne; ao contrário, sirvam uns aos outros mediante o amor.” (Gálatas 5:13). Paulo aqui nos adverte sobre o bom uso de nossa capacidade de escolha. Que possamos reconhecer o quanto somos maus, por conta de nossa natureza corrompida que nos torna escravos do mal (Romanos 3:12) a fim de que, por intermédio do Espírito Santo, busquemos o Bem Supremo.

Continua...