quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Os cristãos e os absolutos de Deus

Matheus Viana

Toda construção precisa de um fundamento. O ser humano é o resultado de leis físicas e biológicas que funcionam em harmonia. Quando há carência desta necessária harmonia, surgem as anomalias. Portanto, esta harmonia entre as leis é um absoluto.

Tente, por exemplo, relativizar a lei da gravidade e pule do parapeito do 15º andar de um edifício sem nenhum instrumento que amorteça sua queda. Talvez você não sobreviva para testificar que absolutos existem. Certa vez em uma aula em que eu falava sobre a existência de absolutos, perguntei para a classe: “Alguém aqui acredita que absolutos não existem, que tudo é relativo?”. Um garoto respondeu prontamente, sem pestanejar: “Eu acredito que tudo é relativo.”. Perguntei em seguida: “Você tem certeza disso?”. “Absoluta”, ele respondeu. Depois começou a rir de sua própria incoerência.

Os cristãos (verdadeiros, não apenas nominais) estão pautados em alguns absolutos. O apóstolo Paulo, um dos principais personagens do cristianismo, disse: “edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, tendo Jesus como a pedra angular...” (Efésios 2:20). A maneira de ser, pensar e agir de um cristão deve estar pautada nos absolutos de Deus. Veja que Paulo se refere aos apóstolos, que continuaram a difundir o legado de Cristo, aos profetas, que se referem à Lei dada por Deus ao Seu povo através de Moisés e às promessas que apontavam para a vinda de Jesus, o Deus que se fez homem (Evangelho segundo João 1:14, Colossenses 1:15) contidas no Antigo Testamento. E, claro, todos esses fundamentos convergem no próprio Jesus que é o Caminho, a Verdade e a Vida (Evangelho segundo João 14:6).

Infelizmente, não é o que acontece. Vemos pessoas que afirmam ser cristãs defendendo condutas que contrariam os absolutos de Deus. Um exemplo, e o que quero tratar especificamente neste breve texto, é o aborto. Sim, acredite, há quem afirme ser cristão e, ao mesmo tempo, é favorável ao aborto.

Considerando o absoluto de Deus no tocante à vida, não há discussão. Vamos partir da Lei do Antigo Testamento até a aplicação feita por Jesus. Há quem diga que os mandamentos do Antigo Testamento não servem para nós atualmente, pois a era da Lei já passou e a da Graça foi inaugurada com Cristo (Romanos 6:14). Sim, isto é uma verdade. Contudo, não é completa.

Vivemos pela Graça manifesta por Cristo, mas outro princípio complementar é o de que a Lei mosaica contém três atributos: o sacrificial (ou cerimonial, que também abarca o simbólico), o civil (específico para os hebreus) e o moral. O primeiro foi cumprido em Jesus. O próprio Jesus disse, em seu sermão da montanha, que não veio abolir a Lei, mas cumpri-la (Evangelho segundo Mateus 5:17). E Ele a cumpriu plenamente ao ponto de bradar: “Está consumado.” (Evangelho segundo João 19:30). Por isso o escritor da carta aos hebreus disse: “E Ele (Jesus) o fez uma vez por todas quando a si mesmo se ofereceu.” (Hebreus 7:27).

O aspecto moral permanece. O apóstolo Paulo adverte: “Deus ‘retribuirá a cada um conforme o seu procedimento’. Ele dará vida eterna aos que, persistindo em fazer o bem, buscam glória, honra e imortalidade. Mas haverá ira, indignação para os que são egoístas, que rejeitam a verdade e seguem a injustiça.” (Romanos 2:7-8). Quando João preconiza: “Aquele que diz permanecer nele (Jesus), cuide para andar como Ele andou.” (I João 2:6), estava falando sobre exercer a mesma conduta moral, pautada nos absolutos de Deus, que Jesus exerceu como homem.

A prática do aborto, além de ser o exercício do egoísmo, fere o mandamento: “Não matarás.” (Êxodo 20:13). E isso não deve ser tratado como algo que ficou no passado do Antigo Testamento bíblico. Pois Jesus falou de sua contemporaneidade (aplicação em nossos dias) quando disse: “Vocês ouviram o que foi dito aos seus antepassados: ‘Não matarás’, e quem matar estará sujeito a julgamento. Mas eu lhes digo que qualquer um que irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento.” (Evangelho segundo Mateus 5:21). Ou seja, a Graça de Jesus não anula a Lei, mas a renova e aperfeiçoa com o caráter de amor, e não de obrigatoriedade.

O direito a vida é, conforme vimos, um absoluto dado por Deus. Por isso apenas Ele tem a autoridade e o poder de tirá-lo de nós. Sim, a morte é consequência do pecado (Gênesis 2:17, Romanos 6:23). No entanto, o pecado é produto do desejo e da escolha humana que Deus permite. Assim, Ele é soberano sobre a vida e sobre a morte. Baseado nesta autoridade Jesus afirmou: “Toda autoridade me foi dada nos céus e na terra.” (Evangelho segundo Mateus 28:18). Ele morreu e ressuscitou. Tal fato é a demonstração de que Ele, sendo Deus, é Senhor sobre a vida e sobre a morte. Somente Ele.

Muito se fala sobre a prática do aborto como o “direito” da mulher ao seu corpo. No entanto, este direito, lícito, termina onde começa outra vida, ainda que em seu ventre e em pleno desenvolvimento. O feto, embora dependente e sem consciência de sua própria existência, não é extensão do corpo da mulher. Tal verdade é clara na afirmação de Davi: “Tu criaste o íntimo do meu ser e me teceste no ventre de minha mãe. Eu te louvo porque me fizeste de modo especial e admirável. Tuas obras são maravilhosas! Digo isso com convicção (...) Os teus olhos viram o meu embrião...” (Salmo 139:13-16 – Ênfases acrescentadas).

Quando uma mulher aborta, ela está interferindo no desenvolvimento de outra vida que, embora dependente dela, repito, é um ser particular e considerado por Deus no momento em que é fecundado. Em outras palavras, está infringindo o “não matarás” sem a permissão dAquele que tem toda a autoridade sobre a vida e sobre a morte.

Alguns favoráveis ao aborto argumentam o fato de que milhares de mulheres morrem em clínicas clandestinas. Tais mortes, embora indesejadas, uma vez que Deus se entristece com a morte dos ímpios (Ezequiel 19:23); são consequências das escolhas que elas fizeram. É o desdobramento do que Deus disse no início ao ser humano: “mas não coma da árvore do conhecimento do bem e do mal, pois no dia em que dela comeres, certamente morrerás.” (Gênesis 2:17). É o que tem acontecido, literalmente.

O aborto é consequência também do que o apóstolo Paulo afirmou: “Trocaram a verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram a coisas e seres criados em lugar do Criador. Por isso Deus os entregou a uma disposição mental reprovável, para praticarem o que não deviam.” (Romanos 1:25-26). É fato. A maioria dos casos de abortos é proveniente de relações sexuais ilícitas, fruto do hedonismo que escraviza sexualmente as pessoas e deturpa a forma de pensarem e agirem. O discurso de Paulo é bastante atual.

Se seguirmos o mesmo raciocínio demonstrado no argumento acima, será que então Deus teria que “legalizar” o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal para que o ser humano não sofresse a terrível consequência da morte? Claro que não! Pois Deus é amoroso, bondoso, misericordioso e justo. Mas é um Deus moral. E moral, como qualquer pessoa sabe, é a existência e o senso de certo e errado, claro, com suas consequências.

O feto, por sua vez, não tem escolha, não tem defesa, não tem nada. Ele sofre a consequência da escolha da mulher, que, em alguns casos, também morre. Lutar pela legalização do aborto é o mesmo que pleitear para que Deus mude o absoluto de que o salário do pecado é a morte e o dom gratuito de Deus é a vida eterna. Portanto, saiba que Deus não é homem para que minta, nem filho do homem para que se arrependa (Números 23:19). Ele não mudará Seus absolutos, por isso Ele é o mesmo ontem, hoje e será eternamente (Hebreus 13:8).

Resumindo, Jesus é a favor da vida. Logo, expressamente contra o aborto. Isso é absoluto para um cristão. Não há quem lute, no caso do aborto, pelo feto. Por isso o próprio Deus luta. Sendo assim, prefiro observar o que Jesus disse certa vez: “Quem comigo não ajunta, espalha.” (Evangelho segundo Mateus 12:30). Em outras palavras, não há como ser cristão e ignorar o absoluto de que Deus é contra o aborto por ser a favor da vida, principalmente dos indefesos e dos que não têm capacidade de exercer a escolha de viver.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Ensaios sobre o mal - Parte III

Matheus Viana

Mas há os que questionam: “E o mal que assola pessoas inocentes? E quando pessoas boas sofrem de câncer, por exemplo? E uma criança que nasce debaixo do veredicto de uma enfermidade?”. Para indagações como estas há apenas uma resposta: Não há ninguém que seja inocente. O apóstolo Paulo elucida que todos pecaram (Romanos 3:23) e que, por isso, não há um justo sequer (Romanos 3:10). Jesus certa vez afirmou ao jovem rico que o abordara: “Não há ninguém que seja bom, a não ser somente Deus.” (Evangelho segundo Lucas 18:19).

Analise o comportamento de uma criança qualquer! Desde a tenra idade, mesmo sem a consciência plena de sua existência e da vida de forma geral, ela age de forma egoísta. Ou seja, pratica – ainda que de forma instintiva – o mal. Pois todo ser humano já nasce debaixo da regência do pecado. O salmista preconiza: “Em iniquidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe.” (Salmos 51:5).

O ser humano pratica o mal no exato momento em que abandona o Bem supremo, que é Deus e, portanto, pode vir apenas dEle. Na teologia judaico-cristã, quando estudamos os atributos de Deus, os comunicáveis e os incomunicáveis, vemos dois tipos de santidade: kadesh e kadosh. A que Deus comunica ao ser humano, e consequentemente deseja que ele viva, é Kadesh. Já a santidade que pertence somente a Deus, que significa a plena ausência do mal, é Kadosh.

Os apóstolos, ao chamarem os crentes de “santos”, estavam falando do primeiro tipo (kadesh) e em seu primeiro estágio: separados. Ou seja, separados de toda ação e padrão ético provenientes dos pensamentos contrários à Palavra de Deus (Romanos 12:2, II Coríntios 4:4) para começarmos a nos santificar até atingirmos a estatura do varão perfeito (Efésios 4:13). O apóstolo Tiago afirmou ao ensinar sobre o ciclo do mal: “Quando alguém for tentado, jamais deverá dizer: ‘Estou sendo tentado por Deus’. Pois Deus não pode ser tentado pelo mal e a ninguém tenta.” (Tiago 1:13). Deus não pode ser tentado pelo mal porque nEle não há mal algum.

O mal, no entanto, não é algo criado. Conforme elucidou Agostinho em seu livro O livre-arbítrio, ele não possui existência própria (ontológica). Nada mais é do que a corrupção (deterioração) do bem. O ser humano se afastou do Bem maior quando abandonou a verdade de Deus e aceitou uma proposta contrária (Gênesis 3:5-8). Sua mente foi contaminada por ouvir um argumento ardiloso.

Com a mente contaminada, seu coração foi corrompido. Consequentemente, suas ações também foram. Por isso o apóstolo Paulo adverte: “O que receio, e quero evitar, é que assim como a serpente enganou Eva com astúcia, a mente de vocês seja corrompida e se desvie da sincera e pura devoção a Cristo.” (II Coríntios 11:3).

O registro de Gênesis diz: “O Senhor viu que a perversidade do homem tinha aumentado na terra e toda inclinação dos pensamentos de seu coração era sempre e somente para o mal.” (Gênesis 3:6). Tal fato foi desdobramento do ser humano ter se apartado do Bem Supremo devido ao uso indevido da liberdade que lhe foi concedida.

O veredicto que recebeu como consequência de sua escolha foi completo, ou seja, não atingiu apenas o ser humano, mas toda a natureza: “Visto que você deu ouvidos à sua mulher e comeu do fruto da árvore da qual ordenara que não comesse, maldita é a terra por sua causa.” (Gênesis 3:17). O universo entrou em colapso. Desastres naturais como terremotos e tsunamis, por exemplo, são desdobramentos deste fato.

Contudo, assim como o ser humano é responsável pelo mal que existe no mundo (Romanos 5:12), é também de nossa inteira responsabilidade aplacarmos o mal que seja possível. O filósofo britânico Edmund Burke preconizou: “para que o mal vença, basta que o bem não faça nada”. O apóstolo Tiago, no entanto, milênios antes, advertiu: “Aquele que sabe fazer o bem e não o faz, nisso peca.” (Tiago 4:17). Tal advertência é baseada nos ensinamentos de Jesus: “Assim, em tudo, façam aos outros o que vocês querem que eles lhes façam.” (Evangelho segundo Mateus 7:12).

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Ensaios sobre o mal - Parte II

Tradução: Chuck Norris pode dividir por zero. Não, nem "ele" pode.
Matheus Viana

Analisemos mais alguns problemas lógicos no argumento de Epicuro (citado na primeira parte deste ensaio), principalmente na questão sobre a onipotência de Deus. O fato de Deus ser onipotente não significa que Ele não siga alguns princípios absolutos. Aliás, o ser humano só tem a noção ética e moral por conta do padrão ético que recebeu de Deus. Todo ser humano tem necessidade de pautar sua vida sobre princípios absolutos. O próprio relativismo é um absoluto. Discordas? Então pergunte para um relativista se ele tem certeza de que tudo é relativo. Se responder que sim... Bingo! Ele considera sua “verdade” absoluta. Se responder que não, apenas confessou sua incoerência lógica.

Ou então diga para um relativista que o seu ponto de vista está errado! Você não terminará de contar até dois para ele dizer que você é que está errado. Isso mesmo! Ele considera, ainda que inconscientemente – o que é pior -, o relativismo como um absoluto. Falaremos sobre isto posteriormente.

Eis alguns absolutos em relação a Deus: Ele não pode mentir: “Deus não é homem (humano) para que minta.” (Números 23:19). Ele não pode ser tentado pelo mal nem tentar a ninguém: “... Deus não pode ser tentado pelo mal, e a ninguém tenta.” (Tiago 1:13). Ele não pode ir contra Seus princípios: “Você viu bem, pois estou vigiando para que a minha palavra se cumpra.” (Jeremias 1:12 - Leia também Isaías 55:11). Ele não pode impedir o ser humano de provar as consequências de suas escolhas. Paradoxal para com Sua onipotência? Claro que é! Explico.

Um Juiz (meritíssimo) é soberano em um julgamento. Ele tem o poder de condenar ou absolver um réu, de declará-lo culpado ou inocente. Contudo, ele não pode deixar de seguir a ética jurídica. Ele não pode, por exemplo, mentir ou ser parcial e faltar com a retidão e equidade a fim de favorecer ou prejudicar o réu. Resumindo, ele não pode, de forma alguma, ser injusto. Portanto, posso usar o que um juiz não pode (não deve) fazer como base para afirmar que ele não é soberano em um julgamento? Claro que não! Isso seria uma falácia, ou melhor, uma picaretagem lógica. O argumento de Epicuro faz exatamente isso. Apesar de ser onipotente, Deus não irá revogar as consequências provenientes das escolhas e dos atos dos seres humanos. E o mal está incluso nelas.

Há quem diga, pelo fato de Deus dizer em sua Palavra que os maus serão condenados, que Ele não pode ser considerado bom. Sim, Ele é bom. E um dos atributos de Sua bondade é a justiça. Deus é justo ao ponto de entregar o Seu próprio Filho para cumprir em nosso lugar a justiça e a condenação – a penalidade - de nossos pecados: o sofrimento e a morte. Conforme o próprio Jesus elucidou: “Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida pelas ovelhas.” (Evangelho segundo João 10:11).

É sobre exatamente isso que o apóstolo João afirma: “Nisto consiste o amor de Deus: não que nós temos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou seu filho como propiciação pelos nossos pecados.” (I João 4:10). Sobre isso, o apóstolo Paulo afirmou: “Deus o ofereceu (Jesus) como sacrifício para propiciação mediante a fé, pelo seu sangue, demonstrando a sua justiça.” (Romanos 3:25). E também: “Mas Deus demonstra seu amor por nós: Cristo morreu em nosso favor quando ainda éramos pecadores.” (Romanos 5:8). Jesus é, ao mesmo tempo, o cumprimento das plenas justiça e bondade de Deus ao ser humano. Não há bondade maior do que sofrer e morrer por alguém mesmo sem merecer.

Assim, Jesus foi a obra suprema para acabar com o mal que assola a humanidade. Contudo, ela ainda desfruta de liberdade que Deus a concedeu. Mas é preciso reiterar que, pelo fato de os primeiros seres humanos terem feito uso indevido desta liberdade, a humanidade está debaixo da escravidão do pecado. Consequentemente, tem sofrido toda sorte de mal. Em outras palavras: o ser humano escolheu o mal e agora tem arcado com suas terríveis consequências.

Deus pode acabar com o mal. Sua “arma” foi o sofrimento e morte de seu Filho em nosso lugar. Foi isso que Isaías declarou ao dizer: “O castigo que nos traz a paz estava sobre ele.” (Isaías 53:5). O sacrifício passado de Jesus nos traz paz no presente, e trará no futuro (Evangelho segundo João 14:27). A “escolha”, portanto, é nossa de retornarmos, por intermédio da cruz, ao Bem Supremo. Ele já fez a Sua parte, o Seu ato soberano de bondade.

Sobre o fato do ser humano arcar com as consequências de suas escolhas e atos, há quem diga que Deus pode reverter a penalidade do ser humano, por isso concede, através de Jesus, a vida eterna ao pecador. Contudo, a vida eterna, apesar de não ser meritória - mas absolutamente pela Graça - é fruto da escolha humana de se arrepender de seus pecados, receber a justificação oriunda da morte de Jesus e recebe-Lo, pela fé, como Senhor e salvador (Efésios 2:8).

Conforme Paulo preconiza, o salário (consequência) por escolher e cometer o pecado (mal) é a morte, mas o dom gratuito de Deus (consequência) para aqueles que se arrependem – escolhem ser justificados em Cristo – é a vida eterna (Romanos 6:23). Esta escolha, no entanto, é fruto da ação do Espírito Santo de Deus (chamado de Graça precedente por uns e Graça irresistível por outros) no interior do ser humano, conforme Jesus advertiu: “Quando ele (O Espírito Santo) vier, convencerá o mundo (kosmon/cosmon - cosmos) do pecado, da justiça e do juízo.” (Evangelho segundo João 16:8).

O apóstolo Paulo elucida: “Irmãos, você foram chamados para a liberdade. Mas não usem a liberdade para dar ocasião à vontade da carne; ao contrário, sirvam uns aos outros mediante o amor.” (Gálatas 5:13). Paulo aqui nos adverte sobre o bom uso de nossa capacidade de escolha. Que possamos reconhecer o quanto somos maus, por conta de nossa natureza corrompida que nos torna escravos do mal (Romanos 3:12) a fim de que, por intermédio do Espírito Santo, busquemos o Bem Supremo.

Continua...

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Ensaios sobre o mal - Parte I

Matheus Viana

O mal possui várias faces. Muitas delas estão estampadas na realidade que nos cerca, seja de perto ou de longe. Mediante este drama, é comum surgir a questão: “Como pode existir um Deus bom diante de tanto mau?”. Esta é uma das principais indagações feitas pelos ateus, mas não é “patrimônio” deles.

Epicuro (341-270 a. C) elaborou o seguinte argumento: “Ou Deus quer abolir o mal, e não pode; ou ele pode, mas não quer; ou ele não pode e não quer. Se ele quer, mas não pode, ele é impotente. Se ele pode, e não quer, ele é cruel. Mas se Deus tanto pode quanto quer abolir o mal, como pode haver maldade no mundo?”.

Este argumento está recheado de problemas lógicos. Os que pensam exatamente assim ou de forma semelhante acreditam que a razão é o único fator em exercício. Mas não é! A indagação tem sua origem na razão, já a indignação tem na emoção. Ou seja, por mais que pareçam racionais, questionamentos desta espécie têm caráter sentimental.

Por isso, quanto mais usamos a razão, dissipando toda a neblina da ideologia pré-concebida e do sentimentalismo, vemos que as próprias questões são inconsistentes, assim como toda e qualquer tentativa de transformar a existência do mal em evidência para a não-existência de Deus ou em colocar em descrédito Suas atribuições consideradas pelos teístas.

Jesus certa vez contou uma parábola sobre certo jovem, a qual podemos tirar algumas lições sobre o tema aqui abordado. Caminhando para o clímax da parábola, Ele disse: “Ele desejava encher o estômago com as vagens de alfarrobeira que os porcos comiam, mas ninguém lhe dava nada.” (Evangelho segundo Lucas 15:16). Se lermos este versículo isolado de todo seu contexto, podemos ficar indignados: “Como pode uma pessoa chegar a tamanha desolação?”.

Se lermos o versículo seguinte da mesma forma, – “Caindo em si, ele disse: ‘Quantos empregados do meu pai têm comida de sobra e eu aqui, morrendo de fome!’” - esta indignação se intensifica: “Como pode o pai deste jovem permitir isto?”. É assim que agimos quando nos deparamos com o mal. Trocamos apenas os personagens Pai por Deus. Contudo, ignoramos o início da parábola. O jovem protagonista escolheu abandonar o pai e viver de maneira DISTANTE e INDEPENDENTE. A degradação a qual alcançou foi mera consequência de sua escolha. O pai não teve culpa alguma.

Há quem refute tal afirmação indagando: “Mas se o pai não tivesse dado a parte da herança nem permitido que ele saísse de casa, o mal não teria acontecido”. Todavia, tal atitude seria pautada na falta de liberdade, algo que o ser humano tanto deseja e anseia. Rousseau dizia que o homem nasce livre e, por isso, a liberdade não é apenas uma benesse natural, mas um direito irrevogável.

De acordo com a antropologia judaico-cristã, o ser humano foi formado por Deus em plena liberdade, pois fora feito à imagem e conforme a semelhança de um Ser Supremo que é livre (Gênesis 1:27). É neste mote que Jesus declara: “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” (Evangelho segundo João 8:32). Ou seja, o ser humano é, em sua essência original, livre. E liberdade implica em capacidade de escolher. C.S Lewis elucida: “Uma vez mais, a liberdade de uma criatura deve significar liberdade de escolha e esta implica a existência de coisas entre as quais escolher.”1.

Assim como o pai do jovem protagonista da parábola, mesmo se entristecendo, permitiu que o filho seguisse suas escolhas, Deus também permitiu. Conforme Agostinho preconizou em seu livro Livre-arbítrio, o mal existe como consequência do mau uso que o ser humano fez do livre-arbítrio que Deus o concedeu. Mas há quem diga: “Por que Deus, então, permitiu que o ser humano escolhesse?”. Porque Deus queria que o ser humano tivesse uma comunhão com Ele baseada na escolha, na liberdade de amá-Lo, e não como resultado de ser a única possibilidade.

Conforme elucida Agostinho ao seu discípulo Evódio: “... se o homem carecesse do livre-arbítrio da vontade, como poderia existir esse bem, que consiste em manifestar a justiça, condenando os pecados e premiando as boas ações? Visto que a conduta desse homem não seria pecado nem boa ação, caso não fosse voluntária. Igualmente o castigo, como a recompensa, seria injusto, se o homem não fosse dotado de vontade livre.”2.

Sobre o exercício da escolha, João Calvino diz no livro I de suas Institutas: Portanto, Deus proveu a alma do homem com a mente, mediante a qual pudesse distinguir o bem do mal, o justo do injusto, e, assistindo-a a luz da razão, percebesse o que se deve seguir ou evitar. Razão porque os filósofos chamaram a esta parte diretiva to hégemonikon (o dirigente). A esta mente Deus associa a vontade, em cuja alçada está a escolha.”3.

Nossas atitudes são classificadas como “boas” quando destoam das “más”. Portanto, se não existisse a possibilidade de o ser humano fazer o mal, ele também não faria o bem. Pois o bem existe por ser diferente do que é mal. Se não houvesse o que é mal, não faríamos o bem, mas somente o que fosse possível para nós. O bem é considerado bem por ser precedido por uma escolha. Jesus disse em Mateus 7:10-11: “Se vocês, apesar de serem maus, sabem dar coisas boas aos filhos, quanto mais o Pai de vocês, que estás nos céus, dará coisas boas aos que lhe pedirem!” (Evangelho segundo Mateus 7:10-11).

Apesar de sermos maus, escolhemos e fazemos coisas boas a quem estimamos, mesmo sendo capazes de escolher e fazer o que é mal, por sermos movidos pelo amor. Se existisse apenas o bem, o ser humano seria escravo dele. Logo, nossas atitudes não poderiam ser classificadas como boas, mas apenas como ordinárias. Agostinho elucida ao seu discípulo Evódio: “Pois do mesmo modo que um cavalo que se extravia é melhor do que uma pedra que não pode se extraviar, ficando sempre em seu lugar próprio, por faltar-lhe o movimento e sensibilidade, assim uma criatura que peca por sua vontade livre é melhor do que aquela outra que é incapaz de pecar por carecer dessa mesma vontade livre.” 4.

Continua...

Notas:

1 - LEWIS. C. S. O problema do sofrimento; tradução Alípio de França Neto. – São Paulo: Editora Vida, 2009. Pg. 36.

2 - AGOSTINHO, Santo. O livre-arbítrio; tradução, organização, introdução e notas de Nair de Assis Oliveira – São Paulo: Paulus, 1995 – Patrística. Pg. 75.

3 - CALVINO, João. As Institutas; ou Tratado da Religião Cristã. Capítulo XV. Pg. 195.

4 – Idem 2, pg. 166.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Um menino de oito dias

O oitavo dia é o dia em que renunciamos toda liturgia religiosa para recebermos a circuncisão que não é na carne, mas no coração (Romanos 2:29). E, a partir de então, recebermos, um dia após o outro, a identidade que Ele estabeleceu a nós.

Matheus Viana

Imagine o drama! Uma aglomeração de vizinhos e parentes dos pais de um menino que nascera há oito dias. Prestes a ser circuncidado, conforme preconiza a cultura judaica, os presentes queriam batizar-lhe com o nome do pai, Zacarias. (Evangelho segundo Lucas 1:58).

“Nada disso!”, vociferou Isabel, a mãe do bebê. “Ele deve ser chamado de João”. (Evangelho segundo Lucas 1:60). No entanto, aquela pequena multidão foi rápida no gatilho: “Não há ninguém na tua parentela com este nome.”, alguém argumentou. Mas Zacarias, impossibilitado de falar, pegou uma tábua e emitiu o veredicto: “João é o seu nome”.

Embora pareça um fato meramente cotidiano, ele carrega em seu bojo uma verdade poderosa. Não era em vão que os pais do menino queriam lhe dar o nome de João. Mas sim por obedecer a profecia previamente proclamada: “Disse-lhe, porém, o anjo: Zacarias, não temas, porque a sua oração foi ouvida; e Isabel, tua mulher, te dará à luz um filho a quem darás o nome de João”. (Evangelho segundo Lucas 1:13).

O nome João carregava sobre si um chamado, uma peculiaridade fundamental para o estabelecimento da vontade divina sobre a Terra. “E irá adiante dele no espírito e poder de Elias, para converter os corações dos pais aos filhos e dos filhos aos pais, converter os desobedientes à prudência dos justos...”. (Evangelho segundo Lucas 1:17).

Mas para que tal profecia fosse cumprida, algo deveria acontecer. O fato daquele menino de oito dias não receber o nome de batismo de seus antecessores simboliza o surgimento de um novo sacerdócio que deve romper com a tradição religiosa, não se limitar ao templo e renunciar a liturgia sacerdotal para ser a voz do que clama em meio ao deserto da desolação humana (Evangelho segundo Lucas 3:4).

Este menino de oito dias era descendente de Arão por parte de pai e mãe. Mas só poderia cumprir a plenitude da profecia que pairava sobre sua vida se rompesse com todo tipo de tradição. Seu nascimento se deu após 400 anos de silêncio profético, o que fez, entre outros fatos, o sacerdócio se corromper.

Deus estava enojado da corrupção político-religiosa que os sumo-sacerdotes compartilhavam com o império romano. Enquanto alimentavam suas cobiças e volúpias, o povo vivia num verdadeiro deserto existencial, na expectativa do surgimento do Messias.

Por isso, assim como Jesus se desfez de Sua glória e se tornou homem a fim de comunicar o Evangelho do Reino (Filipenses 2:6-9), João, o menino de oito dias, precisou abandonar o ritualismo sacerdotal e fazer a voz de Deus, restrita ao templo, ser ouvida no deserto. O fato de muitos se dirigirem ao deserto para ouvir e serem batizados por João é a suma demonstração da realidade interior que os assolava.

É exatamente por isso que Deus estabelece o seguinte chamado ao menino de oito dias, antes mesmo de seu nascimento: “Voz do que clama do deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas. Todo vale será aterrado, e nivelado todos os montes e outeiros; os caminhos tortuosos serão retificados, e os escabrosos, aplainados”.

O chamado que repousava sobre os seus ombros era o de restituir os padrões morais em linear processo de degradação, estabelecer a justiça em todos os níveis e trazer a necessária restauração familiar. Tudo isso, claro, desdobramentos do arrependimento e da submissão ao Evangelho do Reino dos Céus.

Vivemos em um contexto semelhante. Deus, em pleno século XXI, ainda clama deste deserto. Ele espera que este novo sacerdócio (Evangelho segundo Mateus 17:11, I Pedro 2:9, Apocalipse 1:6) continue o ministério exercido por João, o Batista, até sua prisão e consequente morte pelo rei Herodes. Mas, para isso, devemos renunciar toda e qualquer tradição obsoleta da religião (como por exemplo, rudimentos judaicos, e não as bases históricas do Cristianismo) e recebermos a renovação que Deus deseja, todos os dias, estabelecer sobre nós. Não é a toa que Jesus nos adverte que somente odres novos recebem vinho novo (Evangelho segundo Mateus 9:17).

Um menino de oito dias. Oito. Deus criou o mundo e tudo o que nele há em seis dias, descansou no sétimo e no oitavo... A Bíblia não diz. O oitavo dia é o dia do renovo de Deus. É o dia em que renunciamos toda tradição da Lei para recebermos a circuncisão que não é na carne, mas no coração (Romanos 2:29). E, a partir de então, recebermos, um dia após o outro, a identidade que Ele deseja estabelecer em nós (Romanos 8:29).

Viva o seu “oitavo dia” todo dia!

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Quem é mais importante?

Matheus Viana

Quem é mais importante: Jesus ou a tradição religiosa? Há quem diga "nenhum dos dois". Mas os que confessam serem cristãos responderão, com um ar de obviedade, que Jesus é o mais importante. No entanto, muitos deles são traídos – ou desmentidos – por suas atitudes.

Em certa ocasião, Jesus estava reunido com Seus discípulos, onde comiam sem lavar as mãos (Evangelho segundo Marcos 7:8). O ato de lavar as mãos antes de comer não era mera demonstração de higiene, mas observação de um rito de purificação. A Bíblia diz: “(os fariseus e todos os judeus não comem sem lavar as mãos cerimonialmente, apegando-se, assim, à tradição dos líderes religiosos)”. (Evangelho segundo Marcos 7:3 – Nova Versão Internacional).

Vendo que os discípulos de Jesus comiam sem lavar as mãos, os fariseus e mestres da lei questionaram: “Por que os seus discípulos não vivem de acordo com a tradição dos líderes religiosos, em vez de comerem o alimento com as mãos ‘impuras’?” (Versículo 5). Antes de refletirmos sobre a resposta de Jesus, reflitamos sobre o questionamento que Lhe foi dirigido. 

O ato de lavar as mãos era uma demonstração da ênfase que a religião judaica dava ao ritual. Jesus já havia alertado: “Onde está o seu tesouro, ali está o seu coração.” (Evangelho segundo Mateus 6:21). Seus corações estavam na observância da lei. Eram devotos a ela e consequentemente a todos os rituais que dela emanava. Por isso, não se atentaram ao fato de que estavam diante do próprio Deus encarnado, ou seja, diante dAquele que pode purificar o interior do ser humano (Evangelho segundo João 15:3), já que a lei pode "purificar" apenas seu exterior.

Tais atitudes não são diferentes das que encontramos atualmente. As doutrinas elaboradas por homens, ainda que baseadas em facetas ou particularidades do Evangelho de Cristo, possuem importância maior do que o próprio Cristo revelado através das Escrituras (Evangelho segundo João 5:39). É triste, mas vejo cristãos devotos a algumas destas doutrinas – que no atual contexto recebem nomes como visão, modelo entre outros – de modo a ignorar os que não as seguem. E ainda se apropriam, de forma ilícita e deturpada, das Palavras de Cristo: “Quem comigo não ajunta, espalha.” (Evangelho segundo Mateus 12:30). Pois é, acreditem: a Palavra de Cristo tem sido usada como combustível para alimentar o ufanismo humano. Sim, trata-se de um absurdo. Mas é a realidade...

Diante deste quadro – deplorável, diga-se de passagem – Jesus disse: “Bem profetizou Isaías acerca de vocês, hipócritas, como está escrito: ‘Este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. Em vão me adoram, seus ensinamentos não passam de regras ensinadas por homens.”.

Que admoestação atual! Jesus queria mostrar para eles que o reconhecimento e as consequentes obediência e devoção ao Seu Senhorio sobre suas vidas são mais importantes do que a observação da lei. Jesus deixou de observar vários rituais, como por exemplo, guardar o sábado, não por ser um revolucionário desobediente, mas para nos mostrar o que, de fato, é importante e preponderante para um verdadeiro relacionamento com Deus: Ele. Por isso afirmou: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida, ninguém vem ao Pai senão por mim.” (Evangelho segundo João 14:6).

A Igreja atual acha que está se relacionando com Jesus pelo fato de obedecer, à risca, doutrinas de homens. Todavia, Jesus deixou bem claro em Seu Evangelho que, por mais que queira, não está. Pelo contrário, como Ele mesmo afirmou: “Vocês negligenciam os mandamentos de Deus e se apegam às tradições dos homens.” (Evangelho segundo Marcos 7:8).

Não confundamos tradição com padrão. Jesus é o padrão usado na formação do ser humano (Gênesis 1:27, Colossenses 1:15). Portanto, Ele é o padrão ao qual devemos seguir (Romanos 8:29, Efésios 4:13). Não há lugar para pluralismos. Contudo, pegar este padrão e usá-lo para elaborar métodos, sistemas e “visões” não é segui-lo, mas criar subterfúgios, ainda que sejam bíblicos, para angariar adeptos junto ao aprisco (leia-se denominação) de modo a alimentar o triunfalismo latente.

Negligência. Este é o nome que Jesus dá ao fato de nos submetermos às doutrinas humanas (repito, ainda que baseada em preceitos bíblicos, como é comum) com o intento de servirmos a Deus. Pois estamos deixando de lado o verdadeiro e pleno Evangelho: Jesus Cristo. Isto é engano. É, de acordo com o próprio Jesus, adoração vã (Evangelho segundo Marcos 7:7).

Conforme o apóstolo Paulo preconiza, a verdadeira adoração passa pelo exercício da consciência e pela renovação de mente (Romanos 12:1-2). Não foi em vão que Lutero, lutando contra as doutrinas papais contidas nas encíclicas que deturpavam o relacionamento entre Deus e o ser humano na chamada Dieta de Worms, evocou as palavras do apóstolo Paulo: “Levo cativo todo pensamento, para torna-lo obediente a Cristo.” (II Coríntios 10:5). Que nossa plena obediência seja a Cristo, o Logos que se fez humano (Evangelho segundo João 1:14), e não de doutrinas humanas derivadas dEle. O original e completo é sempre melhor. Portanto, não nos contentemos com menos do que Jesus, o Cristo, pois Ele não é apenas o mais importante, é essencial.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Elementos complementares

Matheus Viana

Conhecemos a diferença entre gratidão e satisfação (contentamento)... Na teoria. Na prática, a realidade é bem diferente. Por vezes, assaltado pela insônia ou pela dificuldade de respirar, fico vagando pela minha casa durante a madrugada, contemplando minha esposa e o meu filho dormindo. Com isso, sou acometido por um turbilhão de pensamentos.

O sentimento de gratidão, no entanto, se destaca. Lembro-me do Salmo 100:4: “Entrai pelas portas do louvor com ações de graças.”. Ações de graças. Quando recebemos algo de alguém, somos acometidos, de súbito, pelo sentimento de gratidão que se manifesta, na maioria das vezes, em três passos. O primeiro é o pedido verbalizado de “obrigado”. O segundo é o senso de dívida, ou seja, o desejo – e também a necessidade – de retribuirmos o que graciosamente recebemos. O terceiro é a prática desta retribuição. Por isso, a gratidão a Deus que sinto me leva a pensar que o desejo de ter meu corpo plenamente restaurado é, na verdade, um sintoma de ingratidão. Complexo? Claro que é.

Como posso desejar tal melhora se desfruto da companhia de uma esposa que me ama e me trata tão bem? Como posso nutrir um desejo como este se tenho um filho lindo, saudável, inteligente (sim, a “corujisse” paterna é evidente) e que não mede esforços em ter o meu afago? Além das inúmeras outras benesses as quais desfruto. Apesar disto, sim, tenho problemas. Quem não tem? Jesus nos advertiu no tocante a esta mórbida realidade (Cf. Evangelho segundo João 16:33).

É neste ponto que reside o “x” da questão. O desejo de progredirmos, em todo e qualquer aspecto de nossa vida, não anula a nossa gratidão. Mas confesso que ainda penso diferente disto. Como posso desejar viver com um corpo normal ao me deparar com casos bizarros muito piores que o meu? Como nutrir tal desejo ao me deparar com a vida de Nick Vujicic, por exemplo? “Sou um ingrato.”, atesto para mim mesmo. Contudo, não foi isso que Jesus nos ensinou.

Em determinada ocasião, Jesus questionou um homem cego: “O que queres que eu te faça?” (Evangelho segundo Marcos 10:51). É óbvio que Jesus sabia qual seria a resposta? Porém, Ele queria que o homem acometido pela cegueira expressasse seu desejo de ser curado. Quando um leproso chega a Jesus, ele não pede, no primeiro momento, para ser curado. Mas O adora. Seu clamor é mais do que interessante. “Senhor, se quiseres, podes purificar-me.”. Jesus responde: “Quero, fica limpo!” (Evangelho segundo Mateus 8:3).

Aquele leproso demonstrou sua gratidão ao se prostrar diante de Jesus e seu contentamento ao chama-lo de “Senhor”. Para nós, ocidentais, este termo é somente um pronome de tratamento. Mas para um judeu é muito mais do que isto. O termo  Adonai (Kyrios, no grego) era e ainda é usado somente para se referir a Deus, ou seja, a Yahweh. É neste mesmo pensamento que Davi, milênios antes, escreveu: “Alegra-te do Senhor, e Ele satisfará o desejo de seu coração”. (Salmo 37:5) Mesmo assim, o leproso expressa seu desejo de ser curado. Portanto, gratidão e desejar a cura são elementos complementares, não excludentes.


Mas e se a cura não se manifestar como e quando desejamos? E se ela não acontecer? Deus não deixa de ser Deus por isso. O fato de estarmos vivos, apesar de nossas deficiências, já é, por si só, motivo para expressarmos a Ele nossa gratidão.