sábado, 30 de novembro de 2013

Discernindo a voz do Bom Pastor

Matheus Viana

Ao lermos as narrativas sobre a incredulidade dos fariseus em relação ao ministério de Jesus, precisamos confessar: somos rápidos em proferir juízo. No entanto, algo que atenua esta má conduta farisaica é o fato de que, nos dias de Jesus, houve vários homens que declaravam ser o Messias.

Gamaliel, mestre fariseu de renome e um dos principais membros do Sinédrio (além de ter sido o mestre de Paulo), citou, em seu parecer sobre o que a cúpula judaica faria com Pedro e João por pregarem sobre Jesus, dois destes homens: Teudas e Judas, o Galileu (Atos 5:36-37). À semelhança deste fato, temos visto ribombando pela Igreja, em todo o mundo, pessoas que se declaram profetas e apóstolos do Messias. Não, não são “falsos profetas”. Apenas pleiteiam o exercício de uma autoridade além da que lhes é lícita. Por isso, exigem que seus ensinos e discursos sejam recebidos como se fosse o próprio Jesus falando, o que gera grandes equívocos e problemas contundentes.

Na tangente desta triste realidade, temos a advertência de Jesus de que Suas ovelhas conhecem Sua voz (Evangelho segundo João 10:2-4). Não foi a toa que, falando sobre os falsos profetas, – agora sim - Jesus disse que eles enganariam a muitos e, se fosse possível, até os salvos (Evangelho segundo Mateus 24:4-5). Ou seja, as ovelhas do Bom Pastor discernirão Sua voz por conhecê-la e, de forma alguma, seguirão uma voz estranha (Evangelho segundo João 10:5).

Um dos aspectos usados para discernirmos a voz do Bom Pastor é o Seu aprisco (Igreja). Conforme Jesus disse, apenas Suas ovelhas reconhecem Sua voz em meio a tantas outras. Suas ovelhas, no entanto, são aquelas que habitam em Seu aprisco. Um dos motivos que levou os judeus a se tornarem “vasos para desonra”, conforme o apóstolo Paulo elucida em Romanos 9, é o fato de que eles não quiseram se juntar a tal aprisco, ou seja, ao cajado do Messias, Jesus. Embora, na ocasião, Jesus tenha usado a figura metafórica da galinha com seus pintinhos, e não do pastor com suas ovelhas (Evangelho segundo Mateus 24:37-39). Mas a mensagem é a mesma.

O fundamento da Igreja é Cristo (Evangelho segundo Mateus 16:18, Efésios 2:20-22). Verdade irrefutável. Uma característica significativa que Jesus aponta é a de que apenas o Pastor entra pela porta deste aprisco. Não há como não evocar o salmo davídico: “Levantai ó portas, as vossas cabeças, para que entre o Rei da Glória.” (Salmo 24:7-10). Há também a advertência de Jesus à Igreja em Laodiceia: “Eis que estou à porta e bato. Se alguém abrir a porta, eu entrarei e cearei com ele.” (Apocalipse 3:20). Neste contexto, esta “porta” refere-se ao nosso coração. 

Mas esta porta também se refere à nossa mente (modo de pensar). Não é em vão que Davi diz que nós, as portas, devemos levantar as “nossas cabeças”. É neste mote que o apóstolo Paulo elucida sobre a necessária renovação de nossa mente para que possamos experimentar a salvação, ou seja, a boa, perfeita e agradável vontade de Deus (Romanos 12:2). O termo “mente” no original é nous (inteligência/intelectualidade). Isso explica o Shemá (Deuteronômio 6:4-5), citado, em parte, por Jesus em seu debate com os saduceus: “Amarás o Senhor vosso Deus de todo coração, de toda alma e com todo entendimento.” (Evangelho segundo Mateus 22:37). Sendo assim, somente reconhecerá a voz do Bom Pastor aquele que abrir a porta (coração e mente) de sua vida para que apenas – e mais nada, nem ninguém – Jesus entre por ela. Algo que implica em pensarmos, sentirmos e agirmos como Ele. Ou seja, em Seu pleno senhorio sobre nós, lembrando que a soberania de Deus nada tem haver com tirania.

A partir do momento em que o Bom Pastor - que é a própria porta (Evangelho segundo João 10:7) - entra pela porta do aprisco, ele – o aprisco - passa a refletir Sua imagem, ou melhor, Suas características. Uma delas é a humildade. Humildade não é pobreza. Há pobres arrogantes e ricos humildes, é verdade. Mas um fato inquestionável é que ostentação e humildade são indissociáveis. Não é possível um “aprisco” ser ostentador e querer, contra a lógica, exercer a humildade. Sim, a teologia da prosperidade é completamente contrária à humildade de Cristo. Tenho ouvido com tristeza, ao longo de mais de uma década, pessoas se esforçando para possuírem bens e riquezas com o “louvável” intuito de “dar testemunho da ação de Deus em sua vida”, ignorando desta forma as advertências de João (I João 2:15), de Paulo (Efésios 6:9-11) e do próprio Jesus (Evangelho segundo Mateus 6:24, Evangelho segundo Lucas 18:22-23 e 25).

Jesus preconiza: “Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração.” (Evangelho segundo Mateus 11:29). Na carta aos filipenses, Paulo elucida a humildade incorporada e exercida por Jesus (Filipenses 2:6-9). Ele se tornou um doulos, ou seja, um escravo. Isso mesmo! O Rei do Universo tornou-se escravo em prol de pecadores. Não é de hoje que vejo um triunfalismo ufanista – o pleonasmo é proposital – na boca de cristãos que usam textos bíblicos para o fundamentar. O trecho das Escrituras mais utilizado, lamentavelmente, é: “Não te colocarei como cauda, mas como cabeça.” (Deuteronômio 28:13), e se esquecem de que o caráter neotestamentário, inaugurado no advento da encarnação de Jesus Cristo, o Bom Pastor, é pavimentado no serviço. Não se trata de “radicalismo” ou “legalismo”, adjetivos que frequentemente são relacionados à minha pessoa. Mas no ensinamento do próprio Jesus (Evangelho segundo Mateus 20:26-28).

Outra característica do aprisco do Bom Pastor é que ele é composto por ovelhas comissionadas a agir fora de seus limites. Por isso Jesus adverte: “As ovelhas reconhecem a sua voz quando ele as chama pelo nome, e ele as leva para fora do curral.” (Evangelho segundo João 10:3). O diálogo e ação da Igreja no mundo, visando influenciá-lo, não são alternativos, mas fazem parte do Ide (Evangelho segundo Marcos 16:15) e da ordem de fazer discípulos (Evangelho segundo Mateus 28:19). Qual tem sido a relevância social da Igreja? A resposta é mais que sabida.

Algo importante de se atentar é que o Bom Pastor coloca as ovelhas para fora, mas estas O seguem. A ação da Igreja no mundo ao qual está situada (Evangelho segundo João 17) não pode tirar o foco do autor e consumador da fé (Hebreus 12:2). Não é em vão que o apóstolo Paulo declara: “Prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus.” (Filipenses 3:14). Este seguir a Jesus possui várias implicações. O primeiro é o padrão ético. O segundo é seu discipulado que consiste em cruz.

Para finalizar, a principal maneira de ouvir a voz do Pastor é através de Sua Palavra. Falando aos fariseus, Jesus diz: “Examinais as escrituras, pois elas de mim testificam.” (Evangelho segundo João 5:39). Eraynate tas graphas é a frase no original. A palavra eraynate é traduzida como "estudar" e também como "perscrutar". Podemos ver nesta expressão, portanto, a importância da coesão entre o natural e o espiritual; o uso da razão humana e a ação do Espírito Santo na vida do ser humano. Em relação ao uso da razão, conforme vimos anteriormente, o apóstolo Paulo nos alerta sobre isso quando nos adverte sobre a transformação na nossa maneira de pensar (Romanos 12:1-2). E em relação à ação do Espírito em nós, o mesmo apóstolo elucida que ninguém pode perscrutar a mente de Deus a não o Seu próprio Espírito que nos revela (I Coríntios 2:11-12). Jesus sintetiza este fato dizendo: “Mas o Consolador, o Espírito Santo, virá em meu nome, vos ajudará, vos ensinará, e vos fará lembrar de tudo o que  tenho dito.” (Evangelho segundo João 14:26).

Ouçamos e sigamos a voz do Bom Pastor, somente a dEle.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

O pensamento dialético

Matheus Viana

Desde o advento do pecado, quando o ser humano preteriu a verdade de Deus à sua vida para se apegar ao discurso ardiloso da serpente, nossa maneira de pensar e agir está diante de duas éticas. No Éden, Eva se viu entre a ética divina e a que a serpente lhe propôs. A segunda, portanto, levou vantagem.

O desejo do ser humano em buscar a verdade a respeito de sua vida e do mundo em que vive tem origem neste fatídico episódio. Desde então, este desejo gravita entre duas éticas: a que Deus estabeleceu ao ser humano no momento de sua criação e a que o ser humano tenta construir para si na tentativa de se apegar a um padrão de conduta.

No ofício de capelão, me deparo com muitos jovens ávidos por construir uma verdade para pavimentar suas vidas e, com isso, encontrar um sentido para elas. Questão de causa e efeito. Não há sentido na vida humana quando esta se encontra apartada da verdade de Deus a ela. Sem sentido, o ser humano não tem outra opção a não ser procurar outras “verdades”, melhores chamadas de padrões éticos/morais ou religiosos.

Este pensamento dialético é claramente demonstrado em Deuteronômio 28: a bênção e a maldição. Posso ouvir o esbravejar de alguns: “Mas foi Deus quem colocou estas éticas diante dos hebreus.”. Não, não foi. A maldição veio ao mundo por conta do pecado do ser humano (Romanos 5:12), fato que Agostinho atribui ao “mau uso do livre-arbítrio”. Já a bênção é o resultado de andarmos segundo a plenitude ética de Deus a nós, ainda que seja composta de lutas e sofrimentos (Evangelho segundo João 16:33).

Durante todo o Antigo Testamento, principalmente o período dos profetas, vemos Deus usando pessoas para alertar Seu povo que estava diante de duas éticas: a de Deus, dada através de Moisés, e a dos povos estrangeiros. Vemos isto claramente no discurso de Elias diante de seu desafio com os sacerdotes baalins: “Até quando coxeareis entre dois pensamentos? Se Iavé é Deus, adore-o. Mas se Baal é Deus, adore-o.” (I Reis 18:31).

Jesus disse: Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus.” (Evangelho segundo Mateus 5:20). Aqui, Jesus estava alertando seus ouvintes sobre uma realidade dialética: a de Deus e a dos fariseus que, mesmo fundamentada na Lei divina, dada através de Moisés (Evangelho segundo Mateus 23:1-2), estava permeada pelo jugo humano. Por isso Jesus adverte: “Porque o meu fardo é leve.” (Evangelho segundo Mateus 11:30).

Os apóstolos da Igreja Primitiva se depararam com a abordagem de duas éticas: a dos judaizantes, na avidez de fazerem prosélitos, e os ensinamentos de Jesus, o Cristo. Esta realidade é claramente demonstrada no concílio de Jerusalém (Atos 15). O apóstolo Paulo, em suas cartas, alerta os leitores sobre a realidade dialética que os enreda, em certo período entre o cristianismo e o judaísmo, e outro entre o cristianismo e o gnosticismo. Na carta aos romanos, no capítulo 8, vemos Paulo retratando a realidade dialética que se dá entre a vida na carne – ações oriundas de nossa natureza caída e corrompida pelo pecado - e a vida no Espírito – ação do Espírito Santo de Deus em nós através de Sua Palavra. No capítulo anterior, no entanto, Paulo advertiu, usando sua própria vida como testemunho, da dialética entre o bem que deseja fazer, mas não consegue, e o mal que não deseja, mas realiza (Romanos 7:18-19). Eis o nosso drama.

O mundo atual também é influenciado pelo pensamento dialético. Várias religiões, incluindo o cristianismo durante o período da patrística, são influenciadas, em grande parte, pela dialética platônica que consiste no movimento da alma humana entre o mundo inteligível (metafísico) e o sensitivo (natural). Já o pós-modernismo vigente é influenciado pela dialética hegeliana – criada por Georg Hegel – que consiste na síntese entre éticas contrárias, chamadas de “tese” e “antítese”. Esta dialética pavimentou a dialética histórico/materialista de Karl Marx que analisa a ação humana mediante o seu ser social, ou seja, sua consciência e essência – quem o indivíduo, de fato, é – resumem-se apenas à ação que a matéria – contexto político (Estado), econômico (Capital) e social (Status quo) – exerce sobre sua vida.

Contudo, à margem da dialética que nos enreda, está a tentativa do ser humano de derrubá-la. O ateísmo é um exemplo significativo, pois deseja estabelecer apenas a realidade natural (material), extinguindo desta forma a metafísica e, consequentemente, Deus. A Igreja atual, infelizmente, também é repleta de pessoas que tentam dissuadir o ser humano em sua capacidade – e necessidade – de pensar de forma dialética e, por que não dizer, antitética. Muitos pastores, dizendo serem “porta-voz” de Deus, emitem ensinamentos completamente contraditórios aos do Mestre. No entanto, o próprio Jesus disse que Suas ovelhas reconhecem a Sua voz (Evangelho segundo João 10:4). O ouvir de Sua voz faz Suas ovelhas reconhecerem que a voz que emite uma ética contrária à Palavra, ainda que seja a de um “porta-voz” de Deus, não é a voz do Bom Pastor. Tal fato as faz compará-la ao Evangelho que Jesus emite através das Sagradas Escrituras. Este é o exercício do pensamento dialético.

O primeiro e principal sintoma das chamadas ‘massas de manobras’, comuns em meio à Igreja atual, é a destituição de todo e qualquer pensamento dialético. Desprovidos desta capacidade, as pessoas receberão, como a mais pura e genuína verdade divina, os ensinamentos que são contrários à ética (não me refiro à "ética" no mesmo sentido do liberalismo teológico, que reduziu o cristianismo apenas ao nível racional) cristã, mas emitidos por um “porta-voz” de Deus. Jesus reconheceu a autoridade dos fariseus, mas alertou Seus ouvintes a, acima de tudo, exercerem o pensamento dialético (Evangelho segundo Mateus 23:1-23). 

O apóstolo Paulo elogiou os cristãos em Bereia por exercerem este pensamento, pois compararam seus ensinamentos com os descritos nas Escrituras (Atos 17:11). Conosco não pode ser diferente. Conforme disse Lutero na dieta de Worms: "Meu pensamento está cativo à verdade de Cristo.".

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Disparate

Matheus Viana

Um disparate. Ouço, fartamente, sobre pessoas que usam as Sagradas Escrituras para justificar seus pecados. Confesso que não sei sé é apenas exegese ruim ou picaretagem pura e simples. Por isso, Jesus nos adverte a não julgarmos (Evangelho segundo Mateus 7:1-2). Simultaneamente, vejo Nick Vujicic, com todas suas limitações, dando testemunho e pregando o Evangelho de Cristo. Como isso pode ser possível? 

Mesmo sem conhecê-lo pessoalmente, confesso que, ao ver Vujicic pregando, me envergonho de mim mesmo. Sim, também sou portador de uma deficiência física. A deformidade óssea que acomete o meu corpo também é severa. Mas, apesar de tudo, tenho braços e pernas normais e saudáveis, apesar de meus ossos porosos.


A Bíblia diz que há coisas que estão além de nossa capacidade de compreensão (Deuteronômio 29:29). Tomás de Aquino, com toda sua destreza intelectual, também reconheceu tal fato. Como que pessoas que fisicamente têm condições de viver para o Reino de Deus preferem moldar o Evangelho aos seus próprios prazeres? A carência de renúncia e de obediência a Deus é tão latente que elas não apenas desobedecem, mas buscam moldar a vontade de Deus, que é boa, perfeita e agradável (Romanos 12:2), às suas.


Por outro lado, Vujicic, que – pelo menos do ponto de vista humano - tem várias razões para profanar o nome de Deus, rompe o limite da vergonha e muitos, muitos outros limites, para proclamar, não apenas com palavras, mas com a própria vida, a Glória de Cristo. O que causa tamanha discrepância?

A resposta é... Graça. Vujicic a reconheceu. Ele sabe que não pode nada por ele mesmo. Nada. Paulo reconheceu isso após, por três vezes, orar para Deus lhe tirar o que ele chamou de “espinho na carne”. Apesar de todas suas proezas, diante do “mensageiro de Satanás” que o esbofeteava e lhe colocava em um intenso quadro de degradação, afirmava: “Quando sou fraco, ai que sou forte”.

O interessante é que Paulo descobriu isso, além do “esbofeteador de Satanás”, após ouvir a verdade inquestionável da parte de Deus: “Minha graça te basta, pois o meu poder se aperfeiçoa na sua fraqueza.” (II Coríntios 12:9). Não há veredicto após uma experiência neste nível diferente deste: “Portanto, eu me gloriarei ainda mais alegremente em minhas fraquezas, para que o poder de Cristo repouse em mim”. (II Coríntios 12:10).

Renúncia é o maior sinal de fraqueza. Pois vontade é a uma das forças vitais do homem. Não me refiro apenas ao desejo, mas à força que o move a realiza-lo. Toda realização conta com a vontade de alguém. Não é a toa que Schopenhauer dizia que o ser humano é, em essência, vontade de viver. Por isso, Jesus adverte aos verdadeiros discípulos: “Aquele que quiser me seguir, negue-se a si mesmo, toma a tua cruz e siga-me.” (Evangelho segundo Mateus 16:24). Pegando carona no pensamento de Schopenhauer, renunciar nossa vontade é renunciar a nossa força, a nossa vida, tudo que temos e o que somos.

Por isso, Paulo não tinha mais o que perder e dizia: “para mim, o viver é Cristo e o morrer é lucro. Caso continue vivendo no corpo, terei fruto do meu trabalho.” (Filipenses 1:21-22). Creio que Vujicic também. Vendo-o pregar com tanta Graça – literalmente – e felicidade o Evangelho, tenho a impressão de que ele, como Paulo, também não tem mais nada a perder. O lamento, a lamúria e outras coisas nocivas que podem brotar em seu coração por conta de seu físico anormal não têm sentido. Ele vive para Cristo e.

Confesso que, mesmo deficiente, estou longe desta realidade. Como ainda percebo a força da minha vontade (desejo de pecar e viver para mim mesmo) lutando contra a vontade de Deus que é fruto de Sua Graça. Faço coro à afirmação de Paulo: “Miserável homem que sou.” (Romanos 7:24).

Veja vídeo de testemunho de Vujicic na íntegra clicando aqui.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Senhor meu e Deus meu

Matheus Viana

“Disse-lhe Tomé: ‘Senhor meu e Deus meu’". (Evangelho segundo João 20:28).

Lendo esta afirmação, percebo, ainda que tenha certo impacto por se referir a Cristo, o quanto ele é ínfimo perto do significado e caráter contidos na ocasião em que foi feita. Devemos levar em consideração o fato de um judeu fazer tal afirmação para alguém que, três dias antes, fora crucificado pela “blasfêmia” de dizer ser Filho de Deus.

Vemos na narrativa bíblica que os discípulos, incluso Tomé, estavam reunidos às portas fechadas por medo dos judeus (Evangelho segundo João 20:26). Medo de quê? De terem destinos semelhantes ao de Jesus por serem considerados Seus seguidores, o que de fato eram. Pedro chegou a negá-Lo três vezes. Será que também, naquelas circunstâncias, não negaríamos? Em outras palavras, estavam protegendo suas vidas de uma perseguição.

A palavra “Senhor” usada no texto original é Kyrios, versão grega de Adonai, no hebraico. Quando um judeu declara Adonai ou Kyrios, refere-se ao Criador de todas as coisas, o Ser soberano de nome impronunciável (representado pelo tetragrama hebraico YHWH) por ser Santíssimo, o Grande Eu Sou. Esta expressão, pronunciada por um judeu, possui uma reverência que nós ocidentais – principalmente os cristãos pós-modernos, adeptos de teologias bizarras como a da prosperidade – não temos a mínima noção.

O que Tomé fez, de acordo com a cúpula do judaísmo, foi blasfemar contra Deus. Não foi uma blasfêmia qualquer. Ele usou uma nomenclatura sagrada para se referir a alguém cuja blasfêmia, de tão absurda – segundo os judeus -, O levou a ser condenado à morte. Mas qual o motivo de tal afirmação?

Tomé era seguidor de Jesus. Não apenas isso, era contado entre os doze mais próximos Dele. Mas seu nome aparece apenas em quatro ocasiões, algumas relatadas mais de uma vez por diferentes escritores: a primeira quando Jesus escolheu os doze e os enviou para pregar o Evangelho (Evangelho Mateus 10:3), a segunda no relato aqui analisado, a terceira na pesca maravilhosa (Evangelho segundo João 21:2) , e a quarta na ascensão de Jesus e posterior assembleia de oração que culminou na escolha de Matias para ocupar o lugar de Judas (Atos 1:13).

Tomé passou três anos seguindo Jesus. Embora seu nome não apareça no relato, estava presente quando Pedro fez a sublime confissão de que Ele era o Filho do Deus vivo (Evangelho segundo Mateus 16:18). Sim, esta afirmação também era considerada blasfema para a cúpula judaica. Mas Tomé foi além. Não afirmou “apenas” que Jesus é o Filho de Deus, mas que era Kyrios dele e Deus (Theos) dele. É importante analisarmos o que o levou a isso.

É notório que Tomé teve uma ‘experiência religiosa’. A expressão ‘religiosa’ aqui não contém a conotação degradada aplicada em nossos dias e também no exercício dos fariseus que levou Jesus a adverti-los severamente. ‘Religiosa’ aqui fala da experiência profunda com Deus que ultrapassa o nível natural.

Antes de tal afirmação, Tomé viu, assim como os outros, Jesus juntando-se a eles, mesmo as portas estando trancadas. Lendo o texto fazendo uso da dedução lógica, devemos concluir que Jesus atravessou uma das portas ou as paredes. Você decide. Imagine-se nesta situação: os presentes respirando ameaças de morte. O jugo da perseguição pairava no ar deixando-o denso. Respirações aceleradas, o que os deixa ofegantes. De súbito, alguém entra no lugar onde se escondem, mesmo as portas estando trancadas. É óbvio que ficariam espantados com este fato sobrenatural.

Mas isto não foi suficiente para Tomé. Ao ouvir, anteriormente, sobre a ressurreição de Jesus, foi enfático: “Se eu não vir as marcas dos pregos nas suas mãos, não colocar o meu dedo onde estavam os pregos e não puser a minha mão no seu lado, não crerei”. (João 20:25). É impossível ler este relato sem associa-lo com a afirmação do apóstolo Paulo: “Levo em meu corpo as marcas de Cristo.” (Gálatas 6:17). Tomé tocou as feridas de Jesus, por isso creu. Era, de fato, O Jesus ressuscitado. E sua fé o levou a fazer a sublime declaração. Em outras palavras, Tomé obteve um conhecimento naquele momento maior do que os três anos em que passara com o Mestre. Ele saltou da experiência racional para a empírica.

Passaremos por experiência semelhante quando nos aproximarmos Dele. Para isso, como o próprio Jesus nos diz, devemos tomar, a cada dia, a nossa cruz (Evangelho segundo Mateus 16:24). Pois é esta a aplicação prática que fazemos em relação às nossas vidas para “ver a marca dos pregos em Suas mãos, colocar o dedo nelas e colocar também a mão em Seu lado perfurado”.

Outro aspecto importante e evidente da afirmação de Tomé: um Senhor pessoal. Isso também era algo inadmissível para um judeu. Pois como um homem comum, um simples carpinteiro, afirmava que não apenas falava o que Deus queria que Ele falasse; mas que fazia tudo o que via o Pai fazer (João 5:19), e que era um com Ele (João 17:21)? Para um judeu, a grandeza de Deus O impossibilita de um relacionamento pessoal. E essa foi exatamente a proposta de Jesus. Diminuir Deus? Claro que não. Apenas propiciar o caminho de acesso do homem a Deus (João 14:6, I Timóteo 2:5).

Na contramão de Tomé, muitos não obtêm a revelação do Senhorio de Cristo por não estarem dispostos a “colocar as mãos nas marcas de Cristo”. Pois isso implica tomar a cruz, o que redunda em renúncia. Por sua vez, renúncia é incômoda. O que destoa do caráter do cristianismo em voga (Leia-se pseudo-cristianismo). Ele foi elucidado por A. W Tozer em seu artigo A velha e a nova cruz:

“Uma nova filosofia brotou desta nova cruz com respeito à vida cristã, e desta nova filosofia surgiu uma nova técnica evangélica – um novo tipo de reunião e uma nova espécie de pregação. Este novo evangelismo emprega a mesma linguagem que o velho, mas o seu conteúdo não é o mesmo e sua ênfase difere da anterior. (...)

O evangelismo que traça paralelos amigáveis entre os caminhos de Deus e os do homem é falso em relação à Bíblia e cruel para a alma de seus ouvintes. A fé manifestada por Cristo não tem paralelo humano, ela divide o mundo. Ao nos aproximarmos de Cristo não elevamos nossa vida a um plano mais alto; mas a deixamos na cruz. A semente de trigo deve cair no solo e morrer.”.

Síntese de precisão cirúrgica. Peculiar de Tozer. Dizer mais o quê depois disto

terça-feira, 10 de setembro de 2013

O caráter do Logos divino

Matheus Viana

Estima-se que o Evangelho segundo João tenha sido escrito entre os anos 80 e 95 d. C. Sim, a data é incerta. Assim como são incertos – sei que a expressão é forte – o caráter e significado da afirmação de que Jesus é a Palavra – Verbo, em outras traduções – de Deus. Jesus é a Logos de Deus. Para termos uma pequena noção do impacto de tal afirmação, precisamos fazer uma análise, ainda que breve, dos contextos social, religioso e intelectual vigentes na época em que foi escrita.

Jerusalém, assim como toda a Judeia, estava sob o jugo do império romano que, por sua vez, era culturalmente influenciado pela filosofia clássica grega (helenística). Contudo, o judaísmo, religião oriunda da Lei mosaica, também difundia sua grande parcela de devoção. Por isso, a Igreja Primitiva era alvo de uma verdadeira miscelânea religiosa. Ao lermos as cartas, principalmente as paulinas, vemos a apologia dos apóstolos frente ao judaísmo, ao gnosticismo dentre outras seitas que surgiram nos primeiros séculos do Cristianismo.

No entanto, não podemos desconsiderar o peso do judaísmo no desenvolvimento do Cristianismo nos primeiros séculos. Os apóstolos foram formados no berço do judaísmo. Paulo, um dos principais representantes e fomentadores do Cristianismo, foi um fariseu ortodoxo. Mas, em nossa análise, precisamos levar em conta os dois tipos de judaísmos existentes na ocasião: o da Palestina e o da Alexandria.

O da Palestina foi o que Jesus enfrentou, exercido pelos fariseus, cuja ênfase, por conta de seu caráter nacionalista, dava-se na observância dos ritos e das leis mosaicas. Além disso, considerava as hipóstases (atributos da substância) divinas. Um caso hipostático, por exemplo, é a Sabedoria. Mesmo não sendo considerada como Deus, – o que transformaria o monoteísmo em politeísmo -, a Sabedoria foi algo criado por Deus e usado por Ele para formar o universo e tudo o que nele há. Baseado neste entendimento, Salomão, referindo-se a ela em primeira pessoa, afirmou: “O Senhor me possuiu no princípio de seus caminhos e antes de suas obras mais antigas. Desde a eternidade fui ungida. Desde o princípio, antes do começo da terra.” (Provérbios 8:22-23).

Já o judaísmo praticado na Alexandria, por conta da produção da Septuaginta (tradução do Antigo Testamento em grego), tinha forte influência helenística, o que colaborou para a intelectualização da religião. O principal representante do judaísmo alexandrino foi Filo (30 a. C – 45 A.D). Judeu devoto e erudito, Filo desenvolveu uma definição de Logos completamente preponderante na época em que o Evangelho segundo João foi produzido. Considerando-se discípulo de Platão, definia Deus como um ser plenamente transcendente e inacessível. Um ser sem qualidades, pois Sua transcendência não permitia qualquer tentativa humana de usar adjetivos naturais e racionais para defini-Lo. Consequentemente, afirmava que Deus não possuía nenhum tipo de relação com o universo natural.

Contudo, tal afirmação era contrária ao pensamento platônico que considerava a formação e o governo divino - a quem chamava de Demiurgo - sobre o universo. Por isso, Filo dizia que a Logos era o mediador entre Deus e o universo. Ou seja, era o ser usado por Deus no mundo inteligível – que Platão definia como mundo das ideias/metafísico – para agir no mundo natural – que Platão definia como sensitivo. Esta ação de Deus que Filo teorizou, no entanto, não é tão simples como parece.

Para Ele, a Logos é a síntese entre o pensamento racional de Deus, a elaboração de Seu projeto e propósito no “mundo inteligível” e a verbalização para a existência (estabelecimento) no “mundo sensitivo" (natural). É o que comumente definimos como trazer a realidade espiritual para ser manifesta no natural. Deus criou o universo pelo “Haja”. Mas essa verbalização foi antes pensada, planejada e projetada. Todo este processo, de acordo com Filo, foi feito pelo Logos. No entanto, ele não obteve a revelação de quem é este Logos. O que o levou a defini-Lo, com todo seu arsenal intelectual helenístico, como uma espécie de desdobramento do próprio Deus. Pois, conforme vimos, afirmava que a transcendência de Deus não Lhe permitia agir no universo. Por isso, “criou” a Logos para este fim.

Mas João conheceu este Logos. Andou com Ele durante três anos. E afirmou: “E o Logos se fez carne, e habitou entre nós e vimos a glória do unigênito do Pai.” (Evangelho segundo João 1:14). Por isso tinha autoridade para dizer que o Logos não era apenas um desdobramento hipostático do próprio Deus. Ele era e é o próprio Deus. Baseado neste fato, e também na revelação que teve do Cristo ressurreto em sua dramática viagem à Damasco, Paulo elucida: “Jesus é a sabedoria (gnose) e o poder (dinamus) de Deus.” (I Coríntios 1:24).

Referência bibliográfica

Kelly, J.N.D. Patrística, origem e desenvolvimento das doutrinas centrais da fé cristã – São Paulo: Vida Nova, 1994.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Corpo de Cristo x corporativismo cristão

Matheus Viana

“Não apenas ministério, nem somente empresa. Somos um ministério organizado como empresa cumprindo uma missão.”.

Esta é a filosofia relacionada a uma instituição que, segundo se define e age, não sei se é religiosa, corporativa ou uma síntese de ambas. Mas analisando o comportamento e os modelos organizacionais usados por várias denominações e instituições evangélicas, vemos que a filosofia acima é a que as fundamenta. A questão que surge é: Este é o padrão bíblico? Depende de qual seja a bíblia. De acordo com a Bíblia cristã canônica, que descreve o perfil e a organização da Comunidade Cristã, também conhecida como Igreja primitiva, não é. Veremos por quê.

Comecemos com a concepção da Igreja. Jesus disse a Pedro: “Te digo que tu és Pedro (petrus, pequena pedra), e nesta pedra (petra, rocha), edificarei a minha igreja...”. (Evangelho segundo Mateus 16:18). Jesus é o fundamento da Igreja. Sim, isso é obvio. Sendo assim, somos sua extensão como representantes na terra. Sobre a sua organização, Paulo, o autor que mais elucidou sobre este aspecto, a descreve como um corpo. 

Um corpo é algo organizado. Nossos movimentos motores são determinados pelas sinapses cerebrais em sinergia com os batimentos cardíacos e orquestrados com os dinamismos neurais, musculares e com toda a complexidade da qual somos constituídos. Paulo elucida sobre a vasta e plural organização da Igreja, personificada no corpo de Cristo, no capítulo 12 de sua carta aos coríntios.

Além disto, vemos a organização da Igreja primitiva no livro de Atos dos apóstolos. Logo no primeiro capítulo, vemos a instituição de Matias para assumir o ofício de apóstolo no lugar de Judas. O presbitério formava o governo da Igreja, modelo utilizado por Cristo no exercício do discipulado. Após este episódio, todavia, não vemos nas Escrituras a continuação de instituir doze pessoas como organização eclesiástica. Não vemos, por exemplo, quem eram os “doze” discípulos de Pedro, de João ou de qualquer um dos apóstolos.

Contudo, a Igreja primitiva era meticulosamente organizada. Verdade evidente no livro de Atos. Lucas relata tal fato: “Naqueles dias, crescendo o número de discípulos de fala grega entre eles, queixaram-se dos judeus de fala hebraica, porque suas viúvas estavam sendo esquecidas na distribuição diária de alimento. Por isso os doze reuniram todos os discípulos e disseram: ‘Não é certo negligenciarmos o ministério da palavra de Deus, a fim de servir às mesas. Irmãos, escolham entre vocês sete homens (e não doze) de bom testemunho, cheios do Espírito de sabedoria. Passaremos a eles esta tarefa e nos dedicaremos á oração e ao ministério da palavra’”. (Atos 6:1-4).

Vejamos! Na Igreja primitiva havia atividades diferentes e específicas. Os doze apóstolos foram separados para os ofícios espirituais (oração e ensino da Palavra). Já os sete diáconos, escolhidos pelos membros, foram separados para o serviço social. O padrão da verdadeira Igreja de Cristo não faz distinção entre os evangelismos espiritual e social. Considera-os como dois lados de uma mesma “moeda”. Apesar de tal coesão, no entanto, cada membro exerce sua função conforme o dom que recebeu do Espírito Santo (I Coríntios 12:4-7). Organização não anula a pluralidade. Verdade fundamental esquecida pela Igreja atual.

Esta organização, todavia, não tem caráter corporativo. Pois a base é Cristo. Logo, não extrai o dinamismo da vida humana. Temos visto a derrocada do evangelho atual que, a cada dia que passa, se conforma aos moldes corporativos (empresariais). Modelos eclesiásticos se rendem às configurações do marketing no intuito de arrebanhar mais membros não como resultado de uma conversão genuína (experiência religiosa), mas por tocar as necessidades criadas por uma sociedade consumista e cada vez mais pautada no materialismo e no ideal da autoajuda. Ou seja, a necessidade de arrependimento e de salvação tem sido preterida pela “necessidade” de riquezas materiais e satisfações emocionais. Estamos longe do culto racional elucidado por Paulo em sua carta aos romanos (Romanos 12:1-2).

Por isso, ministérios foram transformados em empresas. Há, acredite, quem veja esta metamorfose como algo normal. Como consequência, pastores têm usado da influência e do carisma – sim, me refiro à caris (Graça) divina – que possuem para arrebanhar adeptos para a sua rede do cada vez mais comum marketing multinível. Há quem diga que esta atividade é paralela ao ministério. Mas os fatos evidenciam uma realidade bem diferente.

Como consequência, temos visto o crescimento do chamado evangelho modo-de-produção. O cristão passa a ter seu convívio social na denominação onde frequenta condicionado à sua produtividade. Sim, há metas e todos os atributos contidos nos pacotes corporativos de empresas famosas. Consultores de empresas como John Maxwell, Myles Monroe, entre outros ganham ares de teólogos. Em contrapartida, gigantes teológicos como John Stott, Alister McGrath, John Piper, Augustus Nicodemus entre outros são preteridos como radicais. Em qual destas “alas” Jesus estaria? Você ainda têm dúvida?

Jesus, em sua época, encontrou uma religião configurada nos moldes “corporativos” romanos. Consequentemente, foi rejeitado e desprezado. Por esse mesmo motivo, Deus enviou João Batista, sacerdote por direito e herança por parte de pai e mãe, a exercer seu ofício sacerdotal no deserto a fim de ser a “voz do que clama no deserto”. Segundo a Bíblia, ministério (corpo de Cristo) e empresa (corporativismo cristão) são incompatíveis. São insolúveis como a água e o óleo. Basta analisarmos o modelo organizacional da Igreja primitiva para detectarmos, com certa obviedade, tal verdade.

Certa vez, quando era editor da revista Profecia, um pastor questionou dois membros da revista sobre ela ser um mero “ganha pão” e, por isso, não se tratava de um ministério. Quão grande equívoco! A revista se enquadrava exatamente no modelo que Jesus estabeleceu: “Porque a minha comida (ganha pão) consiste em fazer a vontade daquele que me enviou a fazer a boa obra.” (Evangelho segundo João 4:34). Pregávamos o Evangelho através da revista e, ao mesmo tempo em que recebíamos (muito pouco, quando recebíamos), também pagávamos um alto preço por isso. Quem participou deste processo sabe o que estou dizendo... 

Jesus estabeleceu a Igreja para ser Seu corpo na terra. Ou seja, que sua organização e ação sejam resultados de sentirmos (Filipenses 2:5), pensarmos (I Coríntios 2:16) e agirmos como Ele (I Coríntios 11:1). Esta “tríade” é impossível em uma organização estática como a empresarial. A organização da Igreja de Cristo é baseada em Sua Palavra que é “Espírito e vida” (Evangelho segundo João 6:63), e não em sistemas e métodos pragmáticos.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Níveis de conhecimento - Parte II

Matheus Viana

Sabemos que Deus não quer que O conheçamos apenas no nível da opinião, mas que possamos atingir o conhecimento oriundo da experiência. No entanto, no que ela consiste? Esta é a questão fundamental. O primeiro aspecto a ser analisado são os dois pontos nela envolvidos: o sujeito (o ser humano que busca o conhecimento) e o objeto (Deus, o ente a ser conhecido).

A experiência do ser humano com algo natural, chamada de fenômeno, pode ser descrita e explicada de acordo com a área em que ela ocorreu. Por exemplo, se é um fenômeno no corpo, ele é estudado a partir das premissas fenomenológicas das ciências que lidam com o corpo humano como biologia, ortopedia entre outras. Caso seja um fenômeno mental, será estudado a partir da neurociência, da psiquiatria e da psicologia. É neste mote, por exemplo, que August Comte teorizou a sociologia, também conhecida como ciências sociais, onde propôs a fenomenologia dos fatos sociais.

Contudo, conforme preconizou Edmund Husserl, considerado o pai da fenomenologia moderna, estas especificidades não são independentes, mas interdependentes. Ou seja, outros ramos da ciência são utilizados não apenas para descrever o fenômeno (o quê ocorreu), mas também para entendê-lo (por quê ocorreu). Um exemplo são as chamadas doenças psicossomáticas. Nestes casos, torna-se necessária uma fenomenologia que contemple os diferentes aspectos envolvidos no processo que desencadeou a enfermidade (fenômeno a ser estudado).

Mas sabemos que a obtenção da verdade – e também da descrição e explicação do fenômeno - apenas pelo método científico trata-se de um reducionismo. O Pe. Ednilson Turozi de Oliveira, doutor em Ciência e Filosofia da Religião, em seu livro Ensino Religioso: fundamentos epistemológicos (Intersaberes – 2012); cita uma breve síntese do pensamento dos especialistas em História e Ciência da religião, Giovanni Filoramo e Carlo Prandi, contido no livro As ciências das religiões. Elucidando sobre a chamada “autonomia do objeto”, Ednilson Oliveira afirma: “Para eles (Filoramo e Prandi), existe uma autonomia da experiência religiosa que escapa do campo da investigação empírica”.

Esta autonomia, a qual também podemos batizar de peculiaridade, dá-se pelo fato de que a experiência religiosa, cientificamente chamada de númeno, é uma relação do natural (sujeito) com o sobrenatural (objeto). Por isso, o critério fenomenológico da experiência religiosa abarca o ser humano integralmente pelo fato de ela compreender e considerar todas as áreas de sua vida. É por isso que Jesus, citando o Shemá (Deuteronômio 6:5), preconizou: “Amarás o Senhor teu Deus, de todo o coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento.” (Evangelho segundo Mateus 22:37).

Apenas ouvir sobre Deus não é o suficiente. Longe disso. Contudo, este fato não pode nos levar a desprezarmos a importância de ouvirmos. Ele é o ponto de partida, mas não o de chegada. Neste mote, o apóstolo Tiago adverte: “Não sejais apenas ouvintes, mas sim praticantes.” (Tiago 1:22). A prática da Palavra é produto de uma experiência com ela.

Conforme vimos no texto O processo de crescimento, a prática é o terceiro passo do processo da sabedoria. O primeiro é a informação (ouvir a Palavra) e o segundo é adquirir o conhecimento, ato que consiste em digerir a informação com a mente.  No caso do cristão, é renovar seu entendimento (Romanos 12:2) através da ação do Espírito Santo (Evangelho segundo João 14:26) que nos revela os pensamentos de Deus (I Coríntios 2:11-16).

A maioria dos estudiosos de ciência da religião não faz separação entre sujeito e objeto, mas considera que ambos são coesos e interligados. Isto talvez seja pelo fato de que Husserl, em sua fenomenologia científica, também não faça. Ele chega a afirmar que o sujeito doa sua consciência e inteligibilidade ao objeto. Na teoria da percepção religiosa, feita por William Alston, a experiência religiosa é condicionada por perspectivas históricas, religiosas e culturais. E, por isso, a descrição e a explicação da experiência levam em conta a interpretação pessoal do sujeito. Exemplo: a mesma experiência vivida por dois sujeitos diferentes, um cristão e outro budista, será por eles descrita e explicada de acordo com seus pressupostos.

É aqui que entra em cena a importância de “ouvirmos a Palavra de Deus”, ou melhor, do ensino teológico como base de nossos pressupostos históricos, culturais e religiosos. A teologia cristã, em sua amplitude, estuda quem o sujeito é e também quem o objeto é. É por isso que Calvino afirma em sua primeira instituta: "O verdadeiro conhecimento do ser humano é completamente dependente do verdadeiro conhecimento de Deus". E, a partir destes conhecimentos, podemos analisar, de forma completa, a experiência religiosa (nosso relacionamento com Deus). Por isso a ação de Deus no ser humano – através do Espírito Santo – é determinada pela Sua Palavra – escrita ou falada (Evangelho segundo João 14:26).

Salomão alertou: “Ensina a criança o caminho em que deve andar...” (Provérbios 22:6) e Esdras afirmou: “Guardo no meu coração as tuas palavras ...” (Salmos 119:11). Pois uma experiência religiosa fora da Palavra de Deus nos conduzirá para longe Dele e, consequentemente, para longe do conhecimento que Ele deseja que alcancemos. Em outras palavras: o objeto da experiência religiosa não será Deus.

Diferente de Husserl, David Hume, além de separar sujeito de objeto, divide o objeto em duas partes: o ser e a aparência do ser. No campo da religião, Wayne Proudfoot usa a dicotomia entre sujeito e objeto e foca sua fenomenologia no sujeito, levando em consideração a explicação histórica, cultural e religiosa que o levou a ter tal experiência. Em contrapartida, na tentativa de encontrar algo em comum que fundamente as diferentes experiências religiosas, Willian James, Walter Stace e Caroline Franks Davis afirmam, consensualmente, que existe um núcleo comum entre elas. Contudo, ele extrapola os pressupostos religiosos, históricos e culturais, que podem ser diferentes. 

Sim, este núcleo existe. Podemos afirmar que se refere à necessidade que o ser humano possui de conhecer algo além de si mesmo (Não deixe de ler o texto Perscrutando o imperscrutável). Ou melhor, de conhecer sua origem e também do mundo em que viveSendo assim, este núcleo comum é a necessidade de conhecer Aquele de onde tudo se originou. Você O conhece?

Referência bibliográfica

OLIVEIRA, Ednilson, Turozi de. Ensino Religioso - Fundamentos epistemológicos: Porto Alegre: Intersaberes, 2012.