quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Senhor meu e Deus meu

Matheus Viana

“Disse-lhe Tomé: ‘Senhor meu e Deus meu’". (Evangelho segundo João 20:28).

Lendo esta afirmação, percebo, ainda que tenha certo impacto por se referir a Cristo, o quanto ele é ínfimo perto do significado e caráter contidos na ocasião em que foi feita. Devemos levar em consideração o fato de um judeu fazer tal afirmação para alguém que, três dias antes, fora crucificado pela “blasfêmia” de dizer ser Filho de Deus.

Vemos na narrativa bíblica que os discípulos, incluso Tomé, estavam reunidos às portas fechadas por medo dos judeus (Evangelho segundo João 20:26). Medo de quê? De terem destinos semelhantes ao de Jesus por serem considerados Seus seguidores, o que de fato eram. Pedro chegou a negá-Lo três vezes. Será que também, naquelas circunstâncias, não negaríamos? Em outras palavras, estavam protegendo suas vidas de uma perseguição.

A palavra “Senhor” usada no texto original é Kyrios, versão grega de Adonai, no hebraico. Quando um judeu declara Adonai ou Kyrios, refere-se ao Criador de todas as coisas, o Ser soberano de nome impronunciável (representado pelo tetragrama hebraico YHWH) por ser Santíssimo, o Grande Eu Sou. Esta expressão, pronunciada por um judeu, possui uma reverência que nós ocidentais – principalmente os cristãos pós-modernos, adeptos de teologias bizarras como a da prosperidade – não temos a mínima noção.

O que Tomé fez, de acordo com a cúpula do judaísmo, foi blasfemar contra Deus. Não foi uma blasfêmia qualquer. Ele usou uma nomenclatura sagrada para se referir a alguém cuja blasfêmia, de tão absurda – segundo os judeus -, O levou a ser condenado à morte. Mas qual o motivo de tal afirmação?

Tomé era seguidor de Jesus. Não apenas isso, era contado entre os doze mais próximos Dele. Mas seu nome aparece apenas em quatro ocasiões, algumas relatadas mais de uma vez por diferentes escritores: a primeira quando Jesus escolheu os doze e os enviou para pregar o Evangelho (Evangelho Mateus 10:3), a segunda no relato aqui analisado, a terceira na pesca maravilhosa (Evangelho segundo João 21:2) , e a quarta na ascensão de Jesus e posterior assembleia de oração que culminou na escolha de Matias para ocupar o lugar de Judas (Atos 1:13).

Tomé passou três anos seguindo Jesus. Embora seu nome não apareça no relato, estava presente quando Pedro fez a sublime confissão de que Ele era o Filho do Deus vivo (Evangelho segundo Mateus 16:18). Sim, esta afirmação também era considerada blasfema para a cúpula judaica. Mas Tomé foi além. Não afirmou “apenas” que Jesus é o Filho de Deus, mas que era Kyrios dele e Deus (Theos) dele. É importante analisarmos o que o levou a isso.

É notório que Tomé teve uma ‘experiência religiosa’. A expressão ‘religiosa’ aqui não contém a conotação degradada aplicada em nossos dias e também no exercício dos fariseus que levou Jesus a adverti-los severamente. ‘Religiosa’ aqui fala da experiência profunda com Deus que ultrapassa o nível natural.

Antes de tal afirmação, Tomé viu, assim como os outros, Jesus juntando-se a eles, mesmo as portas estando trancadas. Lendo o texto fazendo uso da dedução lógica, devemos concluir que Jesus atravessou uma das portas ou as paredes. Você decide. Imagine-se nesta situação: os presentes respirando ameaças de morte. O jugo da perseguição pairava no ar deixando-o denso. Respirações aceleradas, o que os deixa ofegantes. De súbito, alguém entra no lugar onde se escondem, mesmo as portas estando trancadas. É óbvio que ficariam espantados com este fato sobrenatural.

Mas isto não foi suficiente para Tomé. Ao ouvir, anteriormente, sobre a ressurreição de Jesus, foi enfático: “Se eu não vir as marcas dos pregos nas suas mãos, não colocar o meu dedo onde estavam os pregos e não puser a minha mão no seu lado, não crerei”. (João 20:25). É impossível ler este relato sem associa-lo com a afirmação do apóstolo Paulo: “Levo em meu corpo as marcas de Cristo.” (Gálatas 6:17). Tomé tocou as feridas de Jesus, por isso creu. Era, de fato, O Jesus ressuscitado. E sua fé o levou a fazer a sublime declaração. Em outras palavras, Tomé obteve um conhecimento naquele momento maior do que os três anos em que passara com o Mestre. Ele saltou da experiência racional para a empírica.

Passaremos por experiência semelhante quando nos aproximarmos Dele. Para isso, como o próprio Jesus nos diz, devemos tomar, a cada dia, a nossa cruz (Evangelho segundo Mateus 16:24). Pois é esta a aplicação prática que fazemos em relação às nossas vidas para “ver a marca dos pregos em Suas mãos, colocar o dedo nelas e colocar também a mão em Seu lado perfurado”.

Outro aspecto importante e evidente da afirmação de Tomé: um Senhor pessoal. Isso também era algo inadmissível para um judeu. Pois como um homem comum, um simples carpinteiro, afirmava que não apenas falava o que Deus queria que Ele falasse; mas que fazia tudo o que via o Pai fazer (João 5:19), e que era um com Ele (João 17:21)? Para um judeu, a grandeza de Deus O impossibilita de um relacionamento pessoal. E essa foi exatamente a proposta de Jesus. Diminuir Deus? Claro que não. Apenas propiciar o caminho de acesso do homem a Deus (João 14:6, I Timóteo 2:5).

Na contramão de Tomé, muitos não obtêm a revelação do Senhorio de Cristo por não estarem dispostos a “colocar as mãos nas marcas de Cristo”. Pois isso implica tomar a cruz, o que redunda em renúncia. Por sua vez, renúncia é incômoda. O que destoa do caráter do cristianismo em voga (Leia-se pseudo-cristianismo). Ele foi elucidado por A. W Tozer em seu artigo A velha e a nova cruz:

“Uma nova filosofia brotou desta nova cruz com respeito à vida cristã, e desta nova filosofia surgiu uma nova técnica evangélica – um novo tipo de reunião e uma nova espécie de pregação. Este novo evangelismo emprega a mesma linguagem que o velho, mas o seu conteúdo não é o mesmo e sua ênfase difere da anterior. (...)

O evangelismo que traça paralelos amigáveis entre os caminhos de Deus e os do homem é falso em relação à Bíblia e cruel para a alma de seus ouvintes. A fé manifestada por Cristo não tem paralelo humano, ela divide o mundo. Ao nos aproximarmos de Cristo não elevamos nossa vida a um plano mais alto; mas a deixamos na cruz. A semente de trigo deve cair no solo e morrer.”.

Síntese de precisão cirúrgica. Peculiar de Tozer. Dizer mais o quê depois disto

terça-feira, 10 de setembro de 2013

O caráter do Logos divino

Matheus Viana

Estima-se que o Evangelho segundo João tenha sido escrito entre os anos 80 e 95 d. C. Sim, a data é incerta. Assim como são incertos – sei que a expressão é forte – o caráter e significado da afirmação de que Jesus é a Palavra – Verbo, em outras traduções – de Deus. Jesus é a Logos de Deus. Para termos uma pequena noção do impacto de tal afirmação, precisamos fazer uma análise, ainda que breve, dos contextos social, religioso e intelectual vigentes na época em que foi escrita.

Jerusalém, assim como toda a Judeia, estava sob o jugo do império romano que, por sua vez, era culturalmente influenciado pela filosofia clássica grega (helenística). Contudo, o judaísmo, religião oriunda da Lei mosaica, também difundia sua grande parcela de devoção. Por isso, a Igreja Primitiva era alvo de uma verdadeira miscelânea religiosa. Ao lermos as cartas, principalmente as paulinas, vemos a apologia dos apóstolos frente ao judaísmo, ao gnosticismo dentre outras seitas que surgiram nos primeiros séculos do Cristianismo.

No entanto, não podemos desconsiderar o peso do judaísmo no desenvolvimento do Cristianismo nos primeiros séculos. Os apóstolos foram formados no berço do judaísmo. Paulo, um dos principais representantes e fomentadores do Cristianismo, foi um fariseu ortodoxo. Mas, em nossa análise, precisamos levar em conta os dois tipos de judaísmos existentes na ocasião: o da Palestina e o da Alexandria.

O da Palestina foi o que Jesus enfrentou, exercido pelos fariseus, cuja ênfase, por conta de seu caráter nacionalista, dava-se na observância dos ritos e das leis mosaicas. Além disso, considerava as hipóstases (atributos da substância) divinas. Um caso hipostático, por exemplo, é a Sabedoria. Mesmo não sendo considerada como Deus, – o que transformaria o monoteísmo em politeísmo -, a Sabedoria foi algo criado por Deus e usado por Ele para formar o universo e tudo o que nele há. Baseado neste entendimento, Salomão, referindo-se a ela em primeira pessoa, afirmou: “O Senhor me possuiu no princípio de seus caminhos e antes de suas obras mais antigas. Desde a eternidade fui ungida. Desde o princípio, antes do começo da terra.” (Provérbios 8:22-23).

Já o judaísmo praticado na Alexandria, por conta da produção da Septuaginta (tradução do Antigo Testamento em grego), tinha forte influência helenística, o que colaborou para a intelectualização da religião. O principal representante do judaísmo alexandrino foi Filo (30 a. C – 45 A.D). Judeu devoto e erudito, Filo desenvolveu uma definição de Logos completamente preponderante na época em que o Evangelho segundo João foi produzido. Considerando-se discípulo de Platão, definia Deus como um ser plenamente transcendente e inacessível. Um ser sem qualidades, pois Sua transcendência não permitia qualquer tentativa humana de usar adjetivos naturais e racionais para defini-Lo. Consequentemente, afirmava que Deus não possuía nenhum tipo de relação com o universo natural.

Contudo, tal afirmação era contrária ao pensamento platônico que considerava a formação e o governo divino - a quem chamava de Demiurgo - sobre o universo. Por isso, Filo dizia que a Logos era o mediador entre Deus e o universo. Ou seja, era o ser usado por Deus no mundo inteligível – que Platão definia como mundo das ideias/metafísico – para agir no mundo natural – que Platão definia como sensitivo. Esta ação de Deus que Filo teorizou, no entanto, não é tão simples como parece.

Para Ele, a Logos é a síntese entre o pensamento racional de Deus, a elaboração de Seu projeto e propósito no “mundo inteligível” e a verbalização para a existência (estabelecimento) no “mundo sensitivo" (natural). É o que comumente definimos como trazer a realidade espiritual para ser manifesta no natural. Deus criou o universo pelo “Haja”. Mas essa verbalização foi antes pensada, planejada e projetada. Todo este processo, de acordo com Filo, foi feito pelo Logos. No entanto, ele não obteve a revelação de quem é este Logos. O que o levou a defini-Lo, com todo seu arsenal intelectual helenístico, como uma espécie de desdobramento do próprio Deus. Pois, conforme vimos, afirmava que a transcendência de Deus não Lhe permitia agir no universo. Por isso, “criou” a Logos para este fim.

Mas João conheceu este Logos. Andou com Ele durante três anos. E afirmou: “E o Logos se fez carne, e habitou entre nós e vimos a glória do unigênito do Pai.” (Evangelho segundo João 1:14). Por isso tinha autoridade para dizer que o Logos não era apenas um desdobramento hipostático do próprio Deus. Ele era e é o próprio Deus. Baseado neste fato, e também na revelação que teve do Cristo ressurreto em sua dramática viagem à Damasco, Paulo elucida: “Jesus é a sabedoria (gnose) e o poder (dinamus) de Deus.” (I Coríntios 1:24).

Referência bibliográfica

Kelly, J.N.D. Patrística, origem e desenvolvimento das doutrinas centrais da fé cristã – São Paulo: Vida Nova, 1994.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Corpo de Cristo x corporativismo cristão

Matheus Viana

“Não apenas ministério, nem somente empresa. Somos um ministério organizado como empresa cumprindo uma missão.”.

Esta é a filosofia relacionada a uma instituição que, segundo se define e age, não sei se é religiosa, corporativa ou uma síntese de ambas. Mas analisando o comportamento e os modelos organizacionais usados por várias denominações e instituições evangélicas, vemos que a filosofia acima é a que as fundamenta. A questão que surge é: Este é o padrão bíblico? Depende de qual seja a bíblia. De acordo com a Bíblia cristã canônica, que descreve o perfil e a organização da Comunidade Cristã, também conhecida como Igreja primitiva, não é. Veremos por quê.

Comecemos com a concepção da Igreja. Jesus disse a Pedro: “Te digo que tu és Pedro (petrus, pequena pedra), e nesta pedra (petra, rocha), edificarei a minha igreja...”. (Evangelho segundo Mateus 16:18). Jesus é o fundamento da Igreja. Sim, isso é obvio. Sendo assim, somos sua extensão como representantes na terra. Sobre a sua organização, Paulo, o autor que mais elucidou sobre este aspecto, a descreve como um corpo. 

Um corpo é algo organizado. Nossos movimentos motores são determinados pelas sinapses cerebrais em sinergia com os batimentos cardíacos e orquestrados com os dinamismos neurais, musculares e com toda a complexidade da qual somos constituídos. Paulo elucida sobre a vasta e plural organização da Igreja, personificada no corpo de Cristo, no capítulo 12 de sua carta aos coríntios.

Além disto, vemos a organização da Igreja primitiva no livro de Atos dos apóstolos. Logo no primeiro capítulo, vemos a instituição de Matias para assumir o ofício de apóstolo no lugar de Judas. O presbitério formava o governo da Igreja, modelo utilizado por Cristo no exercício do discipulado. Após este episódio, todavia, não vemos nas Escrituras a continuação de instituir doze pessoas como organização eclesiástica. Não vemos, por exemplo, quem eram os “doze” discípulos de Pedro, de João ou de qualquer um dos apóstolos.

Contudo, a Igreja primitiva era meticulosamente organizada. Verdade evidente no livro de Atos. Lucas relata tal fato: “Naqueles dias, crescendo o número de discípulos de fala grega entre eles, queixaram-se dos judeus de fala hebraica, porque suas viúvas estavam sendo esquecidas na distribuição diária de alimento. Por isso os doze reuniram todos os discípulos e disseram: ‘Não é certo negligenciarmos o ministério da palavra de Deus, a fim de servir às mesas. Irmãos, escolham entre vocês sete homens (e não doze) de bom testemunho, cheios do Espírito de sabedoria. Passaremos a eles esta tarefa e nos dedicaremos á oração e ao ministério da palavra’”. (Atos 6:1-4).

Vejamos! Na Igreja primitiva havia atividades diferentes e específicas. Os doze apóstolos foram separados para os ofícios espirituais (oração e ensino da Palavra). Já os sete diáconos, escolhidos pelos membros, foram separados para o serviço social. O padrão da verdadeira Igreja de Cristo não faz distinção entre os evangelismos espiritual e social. Considera-os como dois lados de uma mesma “moeda”. Apesar de tal coesão, no entanto, cada membro exerce sua função conforme o dom que recebeu do Espírito Santo (I Coríntios 12:4-7). Organização não anula a pluralidade. Verdade fundamental esquecida pela Igreja atual.

Esta organização, todavia, não tem caráter corporativo. Pois a base é Cristo. Logo, não extrai o dinamismo da vida humana. Temos visto a derrocada do evangelho atual que, a cada dia que passa, se conforma aos moldes corporativos (empresariais). Modelos eclesiásticos se rendem às configurações do marketing no intuito de arrebanhar mais membros não como resultado de uma conversão genuína (experiência religiosa), mas por tocar as necessidades criadas por uma sociedade consumista e cada vez mais pautada no materialismo e no ideal da autoajuda. Ou seja, a necessidade de arrependimento e de salvação tem sido preterida pela “necessidade” de riquezas materiais e satisfações emocionais. Estamos longe do culto racional elucidado por Paulo em sua carta aos romanos (Romanos 12:1-2).

Por isso, ministérios foram transformados em empresas. Há, acredite, quem veja esta metamorfose como algo normal. Como consequência, pastores têm usado da influência e do carisma – sim, me refiro à caris (Graça) divina – que possuem para arrebanhar adeptos para a sua rede do cada vez mais comum marketing multinível. Há quem diga que esta atividade é paralela ao ministério. Mas os fatos evidenciam uma realidade bem diferente.

Como consequência, temos visto o crescimento do chamado evangelho modo-de-produção. O cristão passa a ter seu convívio social na denominação onde frequenta condicionado à sua produtividade. Sim, há metas e todos os atributos contidos nos pacotes corporativos de empresas famosas. Consultores de empresas como John Maxwell, Myles Monroe, entre outros ganham ares de teólogos. Em contrapartida, gigantes teológicos como John Stott, Alister McGrath, John Piper, Augustus Nicodemus entre outros são preteridos como radicais. Em qual destas “alas” Jesus estaria? Você ainda têm dúvida?

Jesus, em sua época, encontrou uma religião configurada nos moldes “corporativos” romanos. Consequentemente, foi rejeitado e desprezado. Por esse mesmo motivo, Deus enviou João Batista, sacerdote por direito e herança por parte de pai e mãe, a exercer seu ofício sacerdotal no deserto a fim de ser a “voz do que clama no deserto”. Segundo a Bíblia, ministério (corpo de Cristo) e empresa (corporativismo cristão) são incompatíveis. São insolúveis como a água e o óleo. Basta analisarmos o modelo organizacional da Igreja primitiva para detectarmos, com certa obviedade, tal verdade.

Certa vez, quando era editor da revista Profecia, um pastor questionou dois membros da revista sobre ela ser um mero “ganha pão” e, por isso, não se tratava de um ministério. Quão grande equívoco! A revista se enquadrava exatamente no modelo que Jesus estabeleceu: “Porque a minha comida (ganha pão) consiste em fazer a vontade daquele que me enviou a fazer a boa obra.” (Evangelho segundo João 4:34). Pregávamos o Evangelho através da revista e, ao mesmo tempo em que recebíamos (muito pouco, quando recebíamos), também pagávamos um alto preço por isso. Quem participou deste processo sabe o que estou dizendo... 

Jesus estabeleceu a Igreja para ser Seu corpo na terra. Ou seja, que sua organização e ação sejam resultados de sentirmos (Filipenses 2:5), pensarmos (I Coríntios 2:16) e agirmos como Ele (I Coríntios 11:1). Esta “tríade” é impossível em uma organização estática como a empresarial. A organização da Igreja de Cristo é baseada em Sua Palavra que é “Espírito e vida” (Evangelho segundo João 6:63), e não em sistemas e métodos pragmáticos.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Níveis de conhecimento - Parte II

Matheus Viana

Sabemos que Deus não quer que O conheçamos apenas no nível da opinião, mas que possamos atingir o conhecimento oriundo da experiência. No entanto, no que ela consiste? Esta é a questão fundamental. O primeiro aspecto a ser analisado são os dois pontos nela envolvidos: o sujeito (o ser humano que busca o conhecimento) e o objeto (Deus, o ente a ser conhecido).

A experiência do ser humano com algo natural, chamada de fenômeno, pode ser descrita e explicada de acordo com a área em que ela ocorreu. Por exemplo, se é um fenômeno no corpo, ele é estudado a partir das premissas fenomenológicas das ciências que lidam com o corpo humano como biologia, ortopedia entre outras. Caso seja um fenômeno mental, será estudado a partir da neurociência, da psiquiatria e da psicologia. É neste mote, por exemplo, que August Comte teorizou a sociologia, também conhecida como ciências sociais, onde propôs a fenomenologia dos fatos sociais.

Contudo, conforme preconizou Edmund Husserl, considerado o pai da fenomenologia moderna, estas especificidades não são independentes, mas interdependentes. Ou seja, outros ramos da ciência são utilizados não apenas para descrever o fenômeno (o quê ocorreu), mas também para entendê-lo (por quê ocorreu). Um exemplo são as chamadas doenças psicossomáticas. Nestes casos, torna-se necessária uma fenomenologia que contemple os diferentes aspectos envolvidos no processo que desencadeou a enfermidade (fenômeno a ser estudado).

Mas sabemos que a obtenção da verdade – e também da descrição e explicação do fenômeno - apenas pelo método científico trata-se de um reducionismo. O Pe. Ednilson Turozi de Oliveira, doutor em Ciência e Filosofia da Religião, em seu livro Ensino Religioso: fundamentos epistemológicos (Intersaberes – 2012); cita uma breve síntese do pensamento dos especialistas em História e Ciência da religião, Giovanni Filoramo e Carlo Prandi, contido no livro As ciências das religiões. Elucidando sobre a chamada “autonomia do objeto”, Ednilson Oliveira afirma: “Para eles (Filoramo e Prandi), existe uma autonomia da experiência religiosa que escapa do campo da investigação empírica”.

Esta autonomia, a qual também podemos batizar de peculiaridade, dá-se pelo fato de que a experiência religiosa, cientificamente chamada de númeno, é uma relação do natural (sujeito) com o sobrenatural (objeto). Por isso, o critério fenomenológico da experiência religiosa abarca o ser humano integralmente pelo fato de ela compreender e considerar todas as áreas de sua vida. É por isso que Jesus, citando o Shemá (Deuteronômio 6:5), preconizou: “Amarás o Senhor teu Deus, de todo o coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento.” (Evangelho segundo Mateus 22:37).

Apenas ouvir sobre Deus não é o suficiente. Longe disso. Contudo, este fato não pode nos levar a desprezarmos a importância de ouvirmos. Ele é o ponto de partida, mas não o de chegada. Neste mote, o apóstolo Tiago adverte: “Não sejais apenas ouvintes, mas sim praticantes.” (Tiago 1:22). A prática da Palavra é produto de uma experiência com ela.

Conforme vimos no texto O processo de crescimento, a prática é o terceiro passo do processo da sabedoria. O primeiro é a informação (ouvir a Palavra) e o segundo é adquirir o conhecimento, ato que consiste em digerir a informação com a mente.  No caso do cristão, é renovar seu entendimento (Romanos 12:2) através da ação do Espírito Santo (Evangelho segundo João 14:26) que nos revela os pensamentos de Deus (I Coríntios 2:11-16).

A maioria dos estudiosos de ciência da religião não faz separação entre sujeito e objeto, mas considera que ambos são coesos e interligados. Isto talvez seja pelo fato de que Husserl, em sua fenomenologia científica, também não faça. Ele chega a afirmar que o sujeito doa sua consciência e inteligibilidade ao objeto. Na teoria da percepção religiosa, feita por William Alston, a experiência religiosa é condicionada por perspectivas históricas, religiosas e culturais. E, por isso, a descrição e a explicação da experiência levam em conta a interpretação pessoal do sujeito. Exemplo: a mesma experiência vivida por dois sujeitos diferentes, um cristão e outro budista, será por eles descrita e explicada de acordo com seus pressupostos.

É aqui que entra em cena a importância de “ouvirmos a Palavra de Deus”, ou melhor, do ensino teológico como base de nossos pressupostos históricos, culturais e religiosos. A teologia cristã, em sua amplitude, estuda quem o sujeito é e também quem o objeto é. É por isso que Calvino afirma em sua primeira instituta: "O verdadeiro conhecimento do ser humano é completamente dependente do verdadeiro conhecimento de Deus". E, a partir destes conhecimentos, podemos analisar, de forma completa, a experiência religiosa (nosso relacionamento com Deus). Por isso a ação de Deus no ser humano – através do Espírito Santo – é determinada pela Sua Palavra – escrita ou falada (Evangelho segundo João 14:26).

Salomão alertou: “Ensina a criança o caminho em que deve andar...” (Provérbios 22:6) e Esdras afirmou: “Guardo no meu coração as tuas palavras ...” (Salmos 119:11). Pois uma experiência religiosa fora da Palavra de Deus nos conduzirá para longe Dele e, consequentemente, para longe do conhecimento que Ele deseja que alcancemos. Em outras palavras: o objeto da experiência religiosa não será Deus.

Diferente de Husserl, David Hume, além de separar sujeito de objeto, divide o objeto em duas partes: o ser e a aparência do ser. No campo da religião, Wayne Proudfoot usa a dicotomia entre sujeito e objeto e foca sua fenomenologia no sujeito, levando em consideração a explicação histórica, cultural e religiosa que o levou a ter tal experiência. Em contrapartida, na tentativa de encontrar algo em comum que fundamente as diferentes experiências religiosas, Willian James, Walter Stace e Caroline Franks Davis afirmam, consensualmente, que existe um núcleo comum entre elas. Contudo, ele extrapola os pressupostos religiosos, históricos e culturais, que podem ser diferentes. 

Sim, este núcleo existe. Podemos afirmar que se refere à necessidade que o ser humano possui de conhecer algo além de si mesmo (Não deixe de ler o texto Perscrutando o imperscrutável). Ou melhor, de conhecer sua origem e também do mundo em que viveSendo assim, este núcleo comum é a necessidade de conhecer Aquele de onde tudo se originou. Você O conhece?

Referência bibliográfica

OLIVEIRA, Ednilson, Turozi de. Ensino Religioso - Fundamentos epistemológicos: Porto Alegre: Intersaberes, 2012.

Níveis de conhecimento - Parte I

Matheus Viana

Jó certa vez afirmou sobre sua relação com Deus: “Te conhecia de ouvir falar, mas agora meus olhos te vêem.” (Jó 42:5). Obviamente esta afirmação, ao ser lida, é classificada como uma experiência religiosa. E é sobre isso que quero me ater. Para isso, precisamos falar em fenomenologia. Calma! A palavra é extensa, mas o conceito não é difícil. Para entendermos, temos que evocar sua origem.

No auge do Iluminismo, no século XVIII, também conhecido como século das luzes por combater o obscurantismo da Igreja Católica que se posicionou frontalmente contra os avanços científicos que eclodiram nos séculos XVI e principalmente no XVII que minaram, de certa forma, sua autoridade; Immanuel Kant dividiu o conhecimento em duas partes: Cognoscível (fenômeno) e Incognoscível (númeno).

De acordo com esta divisão, os eventos que podem ser observados pelos sentidos e conhecidos pela mente humana (fenômenos/naturais) seriam alvos de estudo da ciência. Em contrapartida, tudo o que fosse relacionado a Deus (númeno/sobrenatural) deveria ser descartado. Ou seja, não deveria ser alvo de estudo, mas apenas objeto de fé para quem a possuísse.

Ao criar tal dicotomia, Kant ignorou o fato – óbvio, diga-se de passagem – de que toda fé possui um objeto. E que é crucial para o fiel conhecer o objeto onde deposita a sua fé. Não é em vão que Agostinho, um dos principais personagens da patrística, usava os atributos da filosofia para estudar os dogmas teológicos da Igreja. E desta conduta criou-se a máxima: “A razão (filosofia) é serva da fé (teologia dogmática)". O escritor da carta aos Hebreus elucida: “Tendo os olhos fitos em Jesus, autor e consumador da nossa fé.” (Hebreus 12:2). O alvo da fé de um cristão é Jesus, o Cristo. Logo, a fé de um cristão só adquire sentido na medida em que O conhece.

Mas aqui temos um paradoxo. Neste trecho da carta, o escritor adverte sobre colocarmos os olhos no objeto de nossa fé. Contudo, em trechos anteriores, ele elucida sobre o conceito de fé: “Ora, a fé é a certeza daquilo que esperamos e a prova das coisas que não vemos.” (Hebreus 11:1). Como podemos colocar os olhos no objeto de nossa fé se a definição de fé é justamente a certeza no que não podemos enxergar? Com tal afirmação, o escritor advertiu sobre o fato de que a experiência religiosa extrapola as razões pensante e empírica. Ou seja, não pode ser estudada apenas pelo método conhecido como científico, como um fenômeno natural pode.

Mas, apesar disto, a experiência religiosa, que redunda na fé, não anula a razão. Veja que o primeiro conceito que o escritor da carta aos hebreus aplica ao tema ‘fé’ é “certeza daquilo que esperamos”. Sim, nossa esperança está em Cristo, o objeto de nossa fé. Contudo, podemos enxergá-lo? Claro que não! Pelo fato de não podemos vê-lo, não é possível termos fé Nele? Sim, é possível. Pois, ainda que não O vejamos, podemos conhecê-Lo. Como? O próprio Jesus nos deu a resposta: “Examinai as Escrituras, pois elas de mim testificam.” (Evangelho segundo João 5:39). Este “examinai” envolve o exercício da razão, acredite você ou não.

Mas não apenas isso. Na afirmação de Jó, podemos ver dois níveis de conhecimento: o de “ouvir falar” e o da experiência empírica; “mas agora meus olhos te vêem.” Platão, em seu livro A república, elucidou sobre estes dois conhecimentos, os quais chamou de doxa e epísteme. Doxa é o conhecimento baseado na mera opinião, no ouvir falar. Já o Epísteme é o conhecimento científico, mas não segundo o conceito que conhecemos hoje, onde o conhecimento filosófico (subjetivo) e o científico (objetivo) são separados desde a revolução científica do século XVII. E sim no conhecimento profundo e completo que, de acordo com Platão, era adquirido apenas pelo indivíduo que se submetesse ao estudo filosófico oferecido pela Academia.

Portanto, vemos que Jó possuia sobre Deus apenas o conhecimento de “ouvir falar”. Ou seja, era mera opinião. Através do profeta Oséias, Deus expressa o desejo de que o nosso conhecimento sobre Ele extrapole este nível: “Conheçamos e prossigamos em conhecer ao Senhor...” (Oséias 6:3). Qual tem sido o seu conhecimento sobre Deus: opinião ou experiência? Reflita! Em breve analisaremos este tema sobre outra perspectiva.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Sinergia entre fé e razão


Matheus Viana

Me expresso constantemente sobre a relação entre fé e razão. Mesmo assim, quero refletir sobre um episódio vivido por Jesus. “O profeta não tem honra em sua própria casa.”, proferiu em determinada ocasião. Passado certo tempo, Ele voltou à Galileia. Aproveitando o ensejo, visitou a cidade de Caná, local onde transformara água em vinho. Quando ali chegou, foi, de súbito, abordado pelo oficial de um rei, cujo filho estava gravemente adoecido em Cafarnaum (Evangelho segundo João 4:46).

O oficial suplicou-lhe: “Senhor, vem, antes que meu filho morra!”. Jesus, porém, não foi. O quê? Ele não atendeu tal súplica? Ele que pregava sobre amor e compaixão? Isso mesmo. Ao invés de ir com o oficial, fez algo prático e eficaz. Disse-lhe: “Pode ir. Seu filho continuará vivo.” (Evangelho segundo João 4:50).

O primeiro aspecto evidente é o fato de que o oficial reconheceu Jesus como o Messias, por isso chamou-lhe de Senhor. Ele sabia que Jesus poderia reverter a drástica e dramática situação de seu filho. O segundo aspecto é o modo como Jesus agiu: simplesmente... falou.

Palavras. Elas podem mais do que imaginamos. Pela palavra Deus criou todas as coisas que o ser humano não é capaz de criar, Jesus venceu a tentação no deserto... Enfim, poderíamos discorrer sobre os muitos exemplos descritos nas Escrituras falando da importância e da crucialidade da palavra em suas diversas formas.

No entanto, há quem ainda a menospreze. Vociferam: - “A Bíblia diz que a palavra mata, mas o Espírito vivifica”. Tal argumento apenas evidencia a precariedade da exegese aplicada. Pois Paulo afirmou: “A palavra, por si só, mata, mas o Espírito vivifica.” (II Coríntios 3:6 – Ênfase acrescentada). São muitos os argumentos que refutam quem diz que a razão é inimiga da fé. No entanto, o propósito deste texto não é “dar tiro de calibre doze” em pernilongo.

O conhecimento que temos de Jesus, conforme Ele mesmo preconizou, dá-se através das Escrituras (Evangelho segundo João 5:39). Ou seja, da mensagem sobre o que Ele foi, é e será, seja através da palavra escrita ou falada. De acordo com o próprio Jesus, o Espírito Santo age de acordo com as Escrituras: “Mas o Consolador, o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, vos ajudará, vos ensinará, e vos fará lembrar de tudo o que tenho dito.” (Evangelho segundo João 14:26 – Ênfase acrescentada).

Jesus apenas falou. Atitude mais do que suficiente. Além do fato de, como Deus, ser a Logos divina, conhecia, como homem, a Lei e os Profetas. Ele tinha permissão de ensinar nas sinagogas porque era um Rabi (mestre da Lei). Mas era muito mais do que um mero erudito. Ele era – e é – a Palavra que é Espírito e vida (Evangelho segundo João 6:63). Jesus é a plena convergência do natural (razão, sabedoria) com o sobrenatural (fé, poder). Este caráter é elucidado pelo apóstolo Paulo em sua carta aos coríntios: “Jesus é a sabedoria e o poder de Deus.” (I Coríntios 1:24).

Mas algo que chama a minha atenção neste episódio é o fator tempo. No exato momento em que Jesus emitiu uma palavra ao oficial, seu filho foi curado da enfermidade que o assolava. Simples assim. Não houve esperneio. Não houve tremor. Nada. Esta cura foi resultado do encontro sobrenatural entre o kairós (tempo de Deus, eternidade) e o chronos (tempo terreno). Toda palavra, cuja essência seja o Espírito Santo, tem esta capacidade.

Em sinergia com a palavra de Jesus, vemos o florescer da fé do oficial. Fatores determinantes que desencadearam a cura de seu filho. Uma não anda sem a outra. Conforme preconizou Agostinho, a razão é serva da fé. O fundamento da fé é a palavra. Por isso o apóstolo Paulo elucida: “A fé vem pelo ouvir, e o ouvir vem pela palavra.” (Romanos 10:17). No nosso caso, que cremos em Jesus, que é Deus, a nossa fé é pavimentada pela Palavra (logos) de Deus (Theos), que forma a sentença no grego Theologos, de onde deriva o termo teologia. Entendeu onde quero chegar? Sim, a teologia é aliada da fé. Jesus, no episódio aqui analisado, demonstrou e testificou tal verdade. 

“Assim também ocorre com a palavra que sai da minha boca: ela não voltará para mim vazia, mas fará o que desejo e atingirá o propósito para o qual a enviei.” (Isaías 55:11). Jesus conhecia tal sentença.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Andando na verdade

“Não tenho alegria maior do que ouvir que meus filhos estão andando na verdade.” (3 João 4).

Matheus Viana

Podemos evocar, baseados no relato acima, a necessidade que o ser humano possui de ter sua vida pautada em um padrão ético. Mesmo os relativistas ou anarquistas têm esta necessidade. Do contrário, não estipulariam tais alternativas como padrões de conduta para suas vidas. No entanto, a primeira questão que precisamos responder é o que é, de fato, esta “verdade”. Para um cristão, é Jesus, pois Ele mesmo afirmou: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida, ninguém vem ao Pai senão por mim.” (Evangelho segundo João 14:6).

Sendo assim, para os cristãos, Jesus é o padrão ético de Deus ao ser humano (Romanos 8:29). Alguns podem achar que, com tal afirmação, estou reduzindo a pessoa de Cristo. Ledo engano. O conceito de ética é que está deturpado. No século XIX, na esteira do iluminismo, a teologia liberal, na pessoa de Albert Ritschl (1822-1889), afirmava que o cristianismo é, em essência, a ética do amor. Ou seja, por Jesus ser, na visão liberal, o homem que mais manifestou amor ao próximo (incluindo seus inimigos), o verdadeiro cristão deve amar como Ele amou. Apesar de ser verdade, o problema é que para Ritschl o cristianismo consistia apenas nisso.

O padrão ético que Jesus representa para os cristãos é muito mais do que amar ao próximo, embora este seja um ponto crucial. O apóstolo Paulo diz: “Sede meus imitadores como eu sou de Cristo.” (I Coríntios 11:1). Este “imitar” não se trata simplesmente de repetir uma ação ou atitude. Posso imitar alguém que, voluntariamente, ergueu seu braço direito ao erguer meu braço direito. Mas tal atitude não é resultado de eu pensar, sentir e muito menos ser como ela.

Em contrapartida, quando o apóstolo Paulo nos adverte a imitarmos a Jesus, tal atitude é resultante de pensarmos (I Coríntios 2:16) e sentirmos (Filipenses 2:5) como Ele. O agir é “mera” consequência. Este é o grande desafio. Aqui emana a questão pertinente e crucial: Por que Jesus é o padrão ético de Deus ao homem?

O apóstolo Paulo elucida: “Aos que escolheu, também os predestinou para serem conformes à imagem de Seu Filho, a fim de que Ele seja o primogênito entre muitos irmãos.” (Romanos 8:29). Este propósito foi estabelecido antes mesmo de formar o ser humano. Por isso o criou à Sua imagem (essência) e conforme a Sua semelhança (comportamento). A partir disto, podemos definir o que chamo de trinomia humana. Antes do pecado, a trinomia humana consistia em ser-pensar-agir e, depois do pecado, em pensar-ser-agir.

Antes do pecado, o ser humano era à imagem de Deus. Ato que consistia no habitar do Espírito de Deus (fôlego de vida/ruach) em seu interior e Sua influência sobre ele. Por isso e também por não conhecer outra “verdade” contrária à divina, pensava como Deus e, consequentemente, agia como Ele por se comportar segundo Sua Palavra (vontade e preceitos). Mas o processo que desencadeou no ato do pecado alterou esta trinomia.

Ao ouvir a ardilosa proposta da serpente e suas conseqüências, completamente contrárias à verdade de Deus, o modo de pensar (razão) do ser humano foi deturpado. Não é em vão que o apóstolo Paulo preconiza: “O deus deste século cegou o entendimento das pessoas para não lhes resplandecer a luz do evangelho.” (II Coríntios 4:4). E também: “Transformai-vos pela renovação da vossa mente para que experimenteis qual seja a boa, perfeita e agradável vontade de Deus.” (Romanos 12:2). Este modo de pensar equivocado levou o ser humano a desejar o ilícito. O ato da desobediência foi mera consequência. Para entendermos melhor este círculo vicioso, usaremos o princípio aristotélico do ato/potência.

Segundo este princípio, tudo o que existe na natureza é o ato daquilo que era em potência. Exemplo: uma árvore é o ato da potência que havia na semente. Aplicando-o à conduta humana, o ser humano teve sua razão corrompida, cujo modo de pensar o levou a desejar o ilícito. E o “simples” desejar come-lo fez dele um desobediente em potencial, cuja potência desencadeou no ato da desobediência. É por isso que o apóstolo Tiago adverte: “Cada um é tentado pela sua própria cobiça, sendo por este arrastado e seduzido. Então este desejo, tendo concebido, dá à luz ao pecado, e o pecado, após ter consumado, gera a morte.” (Tiago 1:14-15).

O primeiro passo do processo degradante que enredou o ser humano, no entanto, foi ele se apartar do padrão ético de Deus – Jesus, o Logos divino – e se apegar em uma “verdade” contrária, que nada mais é do que mentira. Desde então, nos deparamos com outras “verdades” que pautam o comportamento humano, sejam elas de cunho religioso, filosófico ou “científico”. Talvez você ache estranho o fato de eu colocar o termo científico entre aspas. Foi proposital, pois os argumentos científicos sempre são utilizados com uma cosmovisão definida que funciona como fundamento. Na maioria das vezes é o ateísmo com suas diversas variantes. Por isso devemos refletir sobre como obteremos o conhecimento desta Verdade para que possamos nela andar...