terça-feira, 26 de março de 2013

Quem é o corrupto?


Matheus Viana

Jean-Jaques Rousseau preconizou: “o homem é corrompido pelo meio em que vive”. Ou seja, para o filósofo, o ser humano nasce bom, mas é corrompido pela realidade a qual está inserido. No campo da religião, Pelágio também afirmava que o ser humano nasce bom por ter sido criado à imagem e semelhança de Deus. E que esta bondade não foi totalmente corrompida pelo pecado original. Há ainda quem acredite desta forma.

Na contramão, o apóstolo Paulo elucida: “Por um homem entrou o pecado, e pelo pecado a morte, e a morte passou a todos os homens”. (Romanos 5:12). Que homem é este? Ele mesmo: Adão. E que morte é esta? Há duas expressões traduzidas para “morte” no grego: nekros e thanatos. Nekros é usada para descrever a morte física. É desta expressão que se origina os termos necropsia e necrotério, por exemplo. Já thanatos é usada para descrever a morte de forma geral, mas principalmente a espiritual.

A palavra que aparece no trecho bíblico citado anteriormente e traduzida como morte para o português é thanatos. A thanatos que Paulo se refere é a ausência do Espírito de Deus, o fôlego de vida soprado por Ele nas narinas do homem no momento em que o formou (Gênesis 2:7). A nekros passou a ser, em detrimento do pecado, a consequência da thanatos, uma vez que a thanatos implicou também na perda da infinitude que o ser humano desfrutava até então.

Davi, milênios antes de Paulo, afirmou: “Em iniquidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe.” (Salmo 51:5). O profeta Jeremias é ainda mais contundente: “O coração do homem é enganoso, desesperadamente corrupto, quem o conhecerá? (Jeremias 17:9). Indagação retórica. Coração aqui representa o centro de nossa existência, o nosso eu. Por isso, o sábio Salomão adverte: “De todas as coisas que deves guardar, guardas o coração, pois dele procedem as fontes da vida. (Provérbios 4:23).  Assim, por conta do pecado original, o centro de nossa existência foi corrompido. O que implica no fato de que, conforme Davi afirmou, já nascemos pecadores. Em outras palavras, somos corruptos por natureza. É por isso que o apóstolo Paulo exorta: “Fazei morrer a vossa natureza terrena.” (Colossenses 3:5).

Surge então um círculo vicioso: O ser humano, corrupto por natureza, corrompe o meio em que vive. Por sua vez, esta realidade degradante corrompe ainda mais o ser humano. Jesus se tornou humano para quebrar este círculo. Apesar de sua origem ser divina, – pois não nasceu da semente humana – tomou sobre si a forma humana (Filipenses 2:7-8), degradada e inclinada para a corrupção. Mas não se corrompeu. Como homem, foi tentado em tudo, de todas as formas, mas não pecou em nenhum momento (I Pedro 2:22, Hebreus 4:15). Ou seja, venceu a corrupção que o tentou seduzir por várias vezes provando da mesma humanidade corrupta. Pois Deus não pode ser tentado (Tiago 1:13).


Uma pessoa enferma só se submete ao tratamento quando adquire a consciência de tal situação. Há milênios tenta-se combater a corrupção com a nobre finalidade de vivermos em um mundo mais justo. No entanto, o sistema corrupto, em sua completude, não será vencido enquanto a corrupção humana não for extinta. O apóstolo João diz: “Para isso se manifestou o Filho de Deus, para destruir as obras do maligno” (I João 3:8). Que “obras do maligno” são estas? A corrupção instalada no interior do ser humano. E este objetivo não será alcançado com nenhuma ideologia ou atitude revolucionária ou fundamentalista. Mas com amor e de forma inteligente. 



Inteligência em reconhecermos que somos corruptos e vencermos esta corrupção com a paz que excede todo o entendimento, fundamentados no amor manifesto por Jesus quando tomou sobre si toda a nossa corrupção (Isaías 53:5) e se submeteu à morte de cruz. Por isso Ele afirmou: “Eu não vim para os sãos, mas para os doentes.” (Evangelho segundo Marcos 2:17 – contextualizado). Em outras palavras: para os corruptos. Quem não é? 

sábado, 16 de março de 2013

Pretensão prorrogada

Matheus Viana

Jesus quer curar os enfermos. Mais do que descrição de um desejo, trata-se da plenitude de Sua obra. Conforme o anjo disse à Maria, Jesus veio para salvar o povo de seus pecados (Evangelho segundo Mateus 1:21). 

Salvar. Verbo pouco compreendido. Ser Salvo, de acordo com a teologia cristã, não é somente ter o acesso ao Reino dos Céus assegurado. Consiste também em termos vida abundante aqui na terra (Evangelho João 10:10) apesar das lutas pelas quais passamos e passaremos (Evangelho segundo João 16:33). Lembre-se, Jesus afirmou que o Reino dos Céus está em nosso meio (Evangelho segundo Lucas 17:21). Por isso o apóstolo Paulo preconiza que em tudo somos mais do que vencedores (Romanos 8:37).

Há duas expressões no grego usadas para traduzir a palavra “salvação”: soterios e sozo. Soterios tem o sentido de redenção, ou seja, nossa libertação da maldição do pecado e a consequente vida eterna. Já sozo tem o sentido de restauração. Mas que restauração é essa? Ela é ampla. Um dos seus pontos consiste em sermos restaurados das enfermidades que nos acometem.

Conforme Paulo ensina, a salvação, em toda sua completude, é pela Graça (Efésios 2:8). O que isso significa? Que quando lemos nos Evangelhos Jesus curando toda sorte de doenças e enfermidades, Ele não tinha – e não tem - a mínima obrigação de fazer. Mas fez e faz por compaixão, por um amor inexplicável que O levou a se submeter à horrenda e dolorosa morte de cruz a fim de que pelas Suas pisaduras fôssemos sarados (Isaías 53:5).

Baseados nestas verdades, é interessante analisarmos o episódio em que um leproso chega a Jesus e Lhe suplica se deseja curá-lo (Não deixe de ler o texto Um leproso). Jesus lhe responde sem pestanejar: “Quero. Seja purificado”. Não se trata apenas de desejo, mas de manifestação de poder.

Por ser deficiente físico e querer muito ser curado, desfrutar de uma vida normal a fim de poder atender minhas responsabilidades, confesso que às vezes minha fé é abalada por contundentes questionamentos sobre o fato se Deus quer me curar ou me deixar enfermo como sou. Após 14 anos, sou tentado a acreditar que Deus quer me deixar enfermo. O que contraria o desejo de cura encontrado em Jesus de forma evidente nas Escrituras. Um Jesus diferente do descrito nas Escrituras? Mas Jesus nunca muda. Ele é o mesmo ontem, hoje e será eternamente (Hebreus 13:8). Quem está com a razão?

Quanto mais leio as Escrituras – não sou um leitor tão assíduo assim -, vejo, com clareza, que Jesus deseja me curar. Não apenas eu, mas todos os que padecem de algum tipo de enfermidade. Alguns deles eu vejo pelas ruas. Ele morreu por isso. Sua salvação a nós consiste no fato de sermos curados. Por isso, não é prudente exigirmos a cura. Seria uma afronta a um Deus tão bondoso e misericordioso.

Mas existe a pergunta que não cala: “Se Deus é tão bondoso, por que existem tantas doenças no mundo?”. A resposta é uma só: por causa da escolha do ser humano de andar em um caminho diferente e independente de Deus. Seu ato de rebelião atraiu sobre a humanidade o mal e a morte (Romanos 5:12). Todo ato tem sua consequência. Efeito colateral de liberdade em todos os seus âmbitos. O ser humano escolheu andar a revelia de Seu Criador, agora tem que arcar com as terríveis consequências de tal equívoco.

Mas o caráter de Jesus é misericordioso. Vemos isso, por exemplo, quando estava pregado na cruz, em nosso lugar, sofrendo todo tipo de escárnio e orava: “Pai, perdoa-os, pois não sabem o que fazem” (Evangelho segundo Lucas 23:34). Lógico que sabiam! Era a mesma multidão que, dias antes, O saudava quanto entrava em Jerusalém montado em um jumento. Eles escolheram escarnecer Dele. 

Mas Jesus está, e sempre estará, pronto a perdoar. E a cura é consequência deste perdão. Ou seja, mesmo merecendo a enfermidade que me acomete e mesmo Jesus não tendo obrigação nenhuma de me curar - pois as enfermidades que nos acometem são resultados de nosso mau uso da liberdade que Ele concedeu ao ser humano -, Ele deseja me curar. Nossa parte é apenas crer e se submeter ao processo desta cura. Um processo que não é realizado em nosso tempo, tampouco na nossa maneira. Evoquemos as palavras de Deus através do profeta Isaías: “Os meus caminhos não são os vossos caminhos, nem os meus pensamentos são os vossos pensamentos”. (Isaías 55:8).

sábado, 2 de março de 2013

Amável pequenez


Matheus Viana

O salmista declara: “Que é o homem para que dele te lembres?”. (Salmo 8:4). Sempre entendi este texto como se Davi estivesse fazendo uma espécie de comparação entre Deus, em Sua magnitude, e o homem, o que revela a pequenez humana. Mas tive um entendimento diferente, e por que não dizer complementar, ao passar por uma experiência inebriante: o nascimento do meu filho, Samuel.

Nove meses – 38 semanas e 6 dias, para ser mais exato – que demoraram uma eternidade. Cada semana que se passava e cada ultrassom que minha esposa se submetia faziam aumentar uma sufocante expectativa. Queria ver como o Samuel era de fato. Queria pegá-lo em meus braços, acariciá-lo... Enfim, queria tê-lo conosco.

Então, o tão esperado dia chegou. O coração palpitante, um leve tremor no corpo e o “frio na barriga” demonstravam minha ansiedade. Ao ver os médicos tirarem meu filho do ventre materno, todas as minhas expectativas tomaram forma. O sentimento é indescritível. Somente quem passou por isso pode comprovar. Após algumas horas, ainda sob o efeito “entorpecente” da paternidade recente, fiquei contemplando meu filho dormindo no berço da maternidade. Aquele ser tão lindo, tão pequeno, tão frágil era alvo de toda a minha atenção, do meu amor, do meu afeto. A importância que Samuel tem para mim é plena. E o mais interessante é que ele ainda não possui a mínima consciência disto.

O que Samuel fez para ser alvo do meu amor, claro, com todos os seus desdobramentos? Ser meu filho, algo que não depende dele. Ou seja, ele não fez nada. Fomos criados pelo mesmo Deus que criou o universo imensurável com suas milhões de galáxias. Que criou a Terra, que é cerca de 45 vezes menor do que o sol que, apesar de ser a maior estrela de nosso sistema solar, é uma das menores existentes em todo o universo até então estudado pela mente humana.


A questão abordada no salmo não é a magnitude de Deus, cuja imensidão do universo cabe nas palmas de suas mãos. Mas a pequenez e fragilidade do ser humano. Mesmo assim, Ele nos ama. Simples? Nem tanto. Mas incompreensível. Somos alvos de Seu amor, mesmo que não façamos nada para merecê-lo, assim como meu filho é alvo do meu amor. Se alguém me pedir para explicar o amor que sinto pelo Samuel, não serei capaz de atender tal solicitação. Explicar o amor e a “lembrança” de Deus pelo ser humano? Muito menos.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Auto-engano


Matheus Viana

Os saduceus estavam enganados pela racionalidade desprovida de experiência com o genuíno Evangelho que é o poder de Deus (I Coríntios 1:18). Um romance é muito mais prazeroso de ler (uso da razão) quando o experimentamos pelas vias da nossa imaginação e das nossas emoções, não é verdade? As Escrituras são muito mais do que um mero romance.

É consenso que a mensagem das Sagradas Escrituras foi, de certa forma, comprometida nos processos de preservação e tradução. Para os entendermos, é necessário um amplo arcabouço histórico, o que eu não tenho. Por isso, minha singela e despretensiosa proposta é analisar, de forma breve, o nível deste comprometimento.

Para isso, farei uso do texto descrito no Evangelho segundo Mateus 22:29 traduzido, em algumas versões para a língua portuguesa, como: “Errais por não conhecerem as escrituras, nem o poder de Deus”. Sim, este é o conhecido episódio em que Jesus discute com os saduceus a respeito da ressurreição.

Contudo, quando lemos a forma original, escrita no grego koiné, temos: Apokritheis dé ó (respondendo-lhes) Iesous (Jesus) eipen (disse) autóis (si mesmos) planasthe (enganados) me (não) eidotes (idéias, entendimento) tas (das) graphás (escrituras) mede tén (nem o) dúnamis (poder) tou (de) Theou (Deus)”.* (*A forma original é escrita com o alfabeto grego). Traduzido literalmente, lemos: “Respondendo-lhes Jesus, disse: Enganam-se a si mesmos não entendendo as escrituras nem o poder de Deus.

Platão aplicava à expressão eidos (que se lê “idos” e cujo plural é eidotes) o significado de ideia. É justamente de eidos que surge a expressão latina idea que, por usa vez, origina o termo português ideia. O que isso quer dizer? Platão conceituava eidos como a obtenção do conhecimento, que dividia em duas partes: Doxa, opinião; e epísteme, o científico. Na república que idealizou chamada Callípolis, apenas o cidadão que possuía o conhecimento epistêmico da política, que era obtido pela filosofia, poderia exercer o governo político.

No entanto, este conhecimento passava pela relação dialética entre mundo sensitivo (uso dos sentidos) e mundo inteligível (uso da razão) que Platão herdou de Parmênides. Ou seja, o conhecimento era, em primeiro plano, experimentado através dos sentidos. E esta experiência – chamada mais tarde por John Locke de “empírica” – passava pelo crivo da razão.

Jesus estava dizendo aos saduceus que eles não tinham a eidos das Escrituras. Pois a experiência ao qual passaram era apenas racional. Por serem a parte intelectual da cúpula religiosa judaica, a Lei e os Profetas não transmitiam, para eles, a ardente expectativa para o cumprimento das profecias e do surgimento do tão esperado Messias. Eram apenas letras.

Mas veja que Jesus não apenas lhes diz que, por isso, erravam. Ele foi mais fundo. Tocou o cerne do problema. Com certeza se lembrou do trecho em que o profeta Oséias descreve o clamor e a tristeza de Deus em relação ao Seu povo: “Meu povo se perde por falta de conhecimento”. (Oséias 4:6). Falta de eidos, do conhecimento que é fruto da experiência e da razão. Em outras palavras, os saduceus não experimentaram as Escrituras como elas, conforme Jesus afirmou, são: “Espírito e vida.” (Evangelho segundo João 6:63). Mais do que isso: Elas revelam o próprio Cristo (Evangelho segundo João 5:39).

Os saduceus estavam enganados pela racionalidade desprovida de experiência com o genuíno Evangelho que é o poder de Deus (I Coríntios 1:18). Um romance é muito mais prazeroso de ler (uso da razão) quando o experimentamos pelas vias da nossa imaginação e das nossas emoções, não é verdade? As Escrituras são muito mais do que um mero romance. São o legado do Deus que se fez homem e habitou entre nós (João 1:14, Filipenses 2:6-8). Que morreu a nossa morte para que vivamos Sua vida (I João 4:10, Evangelho segundo João 10:6-10). Não é em vão que o apóstolo Paulo, além de nos alertar sobre sermos transformados em nossa forma de pensar (Romanos 12:2, I Coríntios 2:16), nos exorta a termos o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus (Filipenses 2:5).

É deste sentimento, em parceria com a razão, que surge o eidos que não nos deixa ser enganados. Este eidos somente o Espírito Santo pode nos conceder (Evangelho segundo João 16:13). Um processo que envolve Sua ação em nossa alma por completo: emoções e intelecto. Por isso Jesus disse: “Mas o consolador, o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, vos ajudará, vos ensinará, e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito”. (Evangelho segundo João 14:26).

Não se engane com um processo diferente deste!

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Alimento de Graça


Matheus Viana

Nos textos A prática da Graça e Ações de Graças, refletimos sobre o fato de que nossa gratidão a Deus consiste em atitudes. Elas possuem uma origem e um objetivo. A origem é a Graça de Deus a nós, manifesta no sacrifício de Jesus na cruz (I João 4:10). O objetivo é o mesmo que levou Jesus a agradecer ao Pai pelos cinco pães e dois peixes que portava em suas mãos: saciar a fome da multidão que O seguia (Evangelho segundo Marcos 6:41).

Somos famintos. Vivemos em uma humanidade faminta. O apóstolo Paulo elucidou esta fome afirmando: “A ardente expectativa da criação aguarda pela manifestação dos filhos de Deus”. (Romanos 8:19). É por isso que a esmagadora maioria aceita todo tipo de “alimento” nocivo que o mundo – sistema de pensar e agir – oferece. É por isso que o programa televisivo Big Brother Brasil, entre outras futilidades imbecilizantes do gênero, conta com a exorbitante audiência de milhões de expectadores.

Nossos filhos e alunos são famintos. Por isso têm aceitado todo tipo de “alimento” que lhes são oferecidos. Jesus, como homem, foi tentado. A primeira proposta que lhe foi feita foi a de transformar pedra em pão. Ou seja, transformar os princípios eternos e imutáveis de Deus ao ser humano em um alimento momentâneo. Por quê? Porque Jesus, após jejuar 40 dias e 40 noites, teve fome. Isso mesmo! A proposta veio de encontro com sua necessidade. Não é diferente conosco. Tampouco com nossos filhos e alunos.

Infelizmente, muitas garotas, em tenra idade, têm transformado a pedra chamada virgindade em um pão nocivo chamado fornicação. A indigestão da tristeza, da depressão, da auto-desvalorização e da gravidez precoce, em alguns casos, é inevitável. Muitos garotos têm transformado a pedra chamada pureza sexual e moral em pães da cobiça da carne e da concupiscência dos olhos, onde contemplam toda sorte de imoralidade e pornografia na televisão e na internet. Transformam a pedra da honra e da obediência no pão da desobediência.

O único alimento capaz de saciar, por completo, a fome da humanidade é o pão do qual Jesus falou: “Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Se alguém comer deste pão, viverá para sempre.” (Evangelho segundo João 6:51). No entanto, conforme Jesus disse aos Seus discípulos em relação à multidão presente: “Dêem-lhes vocês algo para comer”. (Evangelho segundo Marcos 6:37). Ou seja, nós é que devemos distribuir este Pão aos famintos.

Esta distribuição, todavia, começa com a nossa atitude de gratidão. A mesma que Jesus realizou: “Tomando os cinco pães e dois peixes e, olhando para o céu, deu graças e partiu os pães. Em seguida, entregou aos seus discípulos para que os servissem ao povo”. (Evangelho segundo Marcos 6:41). A ação de graça que alimenta. Que distribui aos famintos o verdadeiro “Alimento de Graça”.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Meros adendos


Matheus Viana

O sábio Salomão advertiu: “Meu filho, guarde consigo a sensatez e o equilíbrio, nunca os perca de vista”. (Provérbios 3:21 – Nova Versão Internacional). Equilíbrio e sensatez. Embora sejam alvos de todo ser humano em condição salutar, suas carências em nós têm descaracterizado, consequentemente, a Igreja de Jesus. A tentativa de alcançá-los é a causa dos extremos.

Na busca pela santidade, muitos se tornam legalistas. Mas a nova onda da “liberdade em Cristo”, em muitas nuances, produz o extremo da libertinagem. Esta “modalidade da fé” preconiza que a Graça e o amor de Deus – demonstrados de forma radical na Cruz do Calvário –, apesar de alcançarem o pecador em seu estado deplorável, não confrontam seus pecados e não exigem dele mudanças de mente e de comportamento. Ou seja, arrependimento.

Ignoram o fato de que Jesus, contrariando a lógica, exercia sua santidade radical com equilíbrio e sensatez. Embora estabeleceu misericórdia e não fez distinção entre santos e pecadores, como homem tocou o ponto fulcral das pessoas com as quais se deparou de modo que se arrependessem e abandonassem suas más condutas. Veja, por exemplo, os episódios da mulher samaritana (Evangelho segundo João 4:16-18) e da mulher pega em flagrante adultério (Evangelho segundo João 8:11).

Existem os tradicionais que impedem a renovação do Espírito Santo. Na contramão, estão os que buscam abandonar as “tradições da religiosidade frívola” e acabam caindo na insensatez de criar, conforme o apóstolo Paulo elucida, “ventos de doutrinas” (Efésios 4:14) e são, como barcos a vela, guiados por eles.

Uma espécie de numerologia “bíblica” adquire caráter profético. Patuás e adereços tornam-se utensílios e objetos de fé. A lista é longa: rosa ungida, vassoura do descarrego, pulseira da aliança, arca da prosperidade, cajado de Moisés... Rudimentos que a Cruz de Cristo substituiu e os anulou por completo. O discurso de Lutero contra a “sacralidade” das relíquias da Igreja no Século XVI é atual e encontra pouso, pasmem, no meio protestante.

Diante de tudo isso, questionemos e reflitamos: Por que este descalabro? Por que a Igreja se tornou tão descaracterizada? Paulo sintetizou suas características: “... gloriosa, sem mácula nem ruga, santa e inculpável”. (Efésios 5:27). Gloriosa: que reflete o caráter de Jesus, a plena personificação da Glória de Deus aos homens (Evangelho segundo João 1:14, Colossenses 1:15).

Sem mácula: sem pecado, imaculada. Que ama o pecador, mas que dissemina e viabiliza a ele o arrependimento genuíno (Evangelho segundo Mateus 3:8). Sem ruga: renovada pela ação do Espírito Santo, mas sem abandonar os princípios imutáveis das Escrituras. Invenções e entretenimentos humanos, oriundos de interpretações bíblicas equivocadas, cujo intento é o alcance de objetivos pessoais, devem ser descartados.

Santa: separada das coisas do mundo – sistema de ser, pensar e agir – que o apóstolo Paulo orientou a não nos conformarmos (Romanos 12:2), observando a oração sacerdotal de Jesus de que não sejamos tirados dele (Evangelho segundo João 17:15) a fim de sermos sal e luz (Evangelho segundo Mateus 5:13-14).

Inculpável: fundamentada na Graça de Deus que nos justifica (Romanos 8:1) e nos santifica. Que possui e nutre a consciência de que apenas Ela – que abarca nossa resposta a Ela (Leia os textos: A prática da Graça e Ações de Graças) – é que fará com que se conforme às características salientadas explicitamente nas Escrituras. Seu alicerce é Jesus (Efésios 2:21) - Verdade óbvia, porém esquecida. E não a busca pelo sucesso em sua conotação secular. Jesus disse: “E nesta pedra, eu edificarei a minha igreja...”. (Evangelho segundo Mateus 16:18). Pedro, neste contexto, simboliza o fato de que somos meros adendos. Pequenas pedras colocadas sobre a Rocha principal. Portanto, sigamos o Seu modelo, não o nosso.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Disposição infantil


Matheus Viana

Jesus certa vez disse: “Eu lhes asseguro que, a não ser que vocês se convertam e se tornem como crianças, jamais entrarão no Reino dos Céus”. (Evangelho segundo Mateus 18:3 – Nova Versão Internacional).

Afirmação que exige reflexão. Já ouvi várias interpretações sobre ela. A que mais me satisfez foi a de Brennan Manning em seu livro O Evangelho Maltrapilho. Ele aborda a questão bastante explorada de sermos inocentes como uma criança e também a de adquirirmos o senso de dependência que ela possui. Mas vai além. Ele nos lembra de que crianças, nos tempos de Jesus, não eram contadas como cidadãs. Assim como as mulheres, “pecadores” – os que não cumpriam toda a Lei, como se alguém a cumprisse em sua plenitude -, publicanos e leprosos, faziam parte do “segundo escalão”.

Sim, Jesus veio para os pobres de espírito, os aflitos, os rejeitados, os marginalizados... Enfim, para aqueles que não possuem valor social. Mesmo assim, Sua mensagem é mais ampla. Quando resolvi ler este texto bíblico novamente, veio à minha mente o fato de que uma criança está sempre disposta a aprender.

Apesar de “inocentes”, crianças já nascem pecadoras (Salmo 51:5), ou seja, propensas para o mal. Por isso, não é apenas a “inocência” infantil que Jesus quis abordar. Penso que, ao fazer tal afirmação, se referiu à necessidade e desejo de aprendizado que a criança possui. Não é a toa que na fase posterior, a da adolescência, o ser humano é acometido pela síndrome do “sabe-tudo”, mesmo não sabendo.

Como professor, detecto facilmente esta discrepância. É comum em minhas aulas no ensino médio eu explicar o conteúdo e, ao fazer a questão: “Alguém tem alguma dúvida?”, todos dizerem “não”. Os resultados das provas, no entanto, revelam exatamente o contrário. O desinteresse em aprender é, podemos dizer, bastante comum nesta fase.

Ao analisarmos o texto, vemos que a conversão – mudança de mente (arrependimento), de comportamento e de conduta – não é suficiente para herdarmos o Reino dos Céus. É preciso também ser como uma criança. Estar sempre disposto a aprender. Por isso Jesus, antes da afirmação aqui analisada, disse: “Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração”. (Evangelho segundo Mateus 11:29). Entretanto, só aprende quem está disposto a se submeter ao Seu ensino. Jesus confrontou severamente a cúpula religiosa de Sua época por se julgar sábia pelo fato de conhecer a Lei mosaica. E, por isso, não estava disposta a aprender de Seu Evangelho.

Cabe aqui um contraste. Devemos nos lembrar de que o fato de sermos “crianças” não anula a necessidade de amadurecermos a fim de que alcancemos a “estatura do varão perfeito”. (Efésios 4:13). O próprio Jesus cresceu em sabedoria, estatura e graça diante de Deus e dos homens (Evangelho segundo Lucas 2:52). Em outras palavras, adquiriu como homem plena maturidade.

Amadurecer não extingue a nossa necessidade de aprender. O sábio Salomão adverte: “Confie no Senhor de todo o seu coração e não se apóie em seu próprio entendimento; reconheça o Senhor em todos os seus caminhos, e ele endireitará as suas veredas. Não seja sábio aos seus próprios olhos; tema o Senhor e evite o mal”. (Provérbios 3:5-7).

Conhecer a Deus equivale a aprender Seus ensinamentos. Foi por isso que o próprio Jesus afirmou: “Examinai as Escrituras, pois elas de mim testificam”. (Evangelho segundo João 5:39). Foi por isso que, milênios antes desta afirmação, o profeta Oséias advertiu: “Conheçamos o Senhor, esforcemo-nos por conhecê-lo”. (Oséias 6:3).

Reconhecermos que não sabemos o suficiente e nos dispormos a aprender são atitudes oriundas de mentes e corações sábios. Não é a toa que Sócrates, considerado o maior de todos os filósofos clássicos, afirmava: “Sei que nada sei”. Que tenhamos esta disposição infantil.