terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Alimento de Graça


Matheus Viana

Nos textos A prática da Graça e Ações de Graças, refletimos sobre o fato de que nossa gratidão a Deus consiste em atitudes. Elas possuem uma origem e um objetivo. A origem é a Graça de Deus a nós, manifesta no sacrifício de Jesus na cruz (I João 4:10). O objetivo é o mesmo que levou Jesus a agradecer ao Pai pelos cinco pães e dois peixes que portava em suas mãos: saciar a fome da multidão que O seguia (Evangelho segundo Marcos 6:41).

Somos famintos. Vivemos em uma humanidade faminta. O apóstolo Paulo elucidou esta fome afirmando: “A ardente expectativa da criação aguarda pela manifestação dos filhos de Deus”. (Romanos 8:19). É por isso que a esmagadora maioria aceita todo tipo de “alimento” nocivo que o mundo – sistema de pensar e agir – oferece. É por isso que o programa televisivo Big Brother Brasil, entre outras futilidades imbecilizantes do gênero, conta com a exorbitante audiência de milhões de expectadores.

Nossos filhos e alunos são famintos. Por isso têm aceitado todo tipo de “alimento” que lhes são oferecidos. Jesus, como homem, foi tentado. A primeira proposta que lhe foi feita foi a de transformar pedra em pão. Ou seja, transformar os princípios eternos e imutáveis de Deus ao ser humano em um alimento momentâneo. Por quê? Porque Jesus, após jejuar 40 dias e 40 noites, teve fome. Isso mesmo! A proposta veio de encontro com sua necessidade. Não é diferente conosco. Tampouco com nossos filhos e alunos.

Infelizmente, muitas garotas, em tenra idade, têm transformado a pedra chamada virgindade em um pão nocivo chamado fornicação. A indigestão da tristeza, da depressão, da auto-desvalorização e da gravidez precoce, em alguns casos, é inevitável. Muitos garotos têm transformado a pedra chamada pureza sexual e moral em pães da cobiça da carne e da concupiscência dos olhos, onde contemplam toda sorte de imoralidade e pornografia na televisão e na internet. Transformam a pedra da honra e da obediência no pão da desobediência.

O único alimento capaz de saciar, por completo, a fome da humanidade é o pão do qual Jesus falou: “Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Se alguém comer deste pão, viverá para sempre.” (Evangelho segundo João 6:51). No entanto, conforme Jesus disse aos Seus discípulos em relação à multidão presente: “Dêem-lhes vocês algo para comer”. (Evangelho segundo Marcos 6:37). Ou seja, nós é que devemos distribuir este Pão aos famintos.

Esta distribuição, todavia, começa com a nossa atitude de gratidão. A mesma que Jesus realizou: “Tomando os cinco pães e dois peixes e, olhando para o céu, deu graças e partiu os pães. Em seguida, entregou aos seus discípulos para que os servissem ao povo”. (Evangelho segundo Marcos 6:41). A ação de graça que alimenta. Que distribui aos famintos o verdadeiro “Alimento de Graça”.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Meros adendos


Matheus Viana

O sábio Salomão advertiu: “Meu filho, guarde consigo a sensatez e o equilíbrio, nunca os perca de vista”. (Provérbios 3:21 – Nova Versão Internacional). Equilíbrio e sensatez. Embora sejam alvos de todo ser humano em condição salutar, suas carências em nós têm descaracterizado, consequentemente, a Igreja de Jesus. A tentativa de alcançá-los é a causa dos extremos.

Na busca pela santidade, muitos se tornam legalistas. Mas a nova onda da “liberdade em Cristo”, em muitas nuances, produz o extremo da libertinagem. Esta “modalidade da fé” preconiza que a Graça e o amor de Deus – demonstrados de forma radical na Cruz do Calvário –, apesar de alcançarem o pecador em seu estado deplorável, não confrontam seus pecados e não exigem dele mudanças de mente e de comportamento. Ou seja, arrependimento.

Ignoram o fato de que Jesus, contrariando a lógica, exercia sua santidade radical com equilíbrio e sensatez. Embora estabeleceu misericórdia e não fez distinção entre santos e pecadores, como homem tocou o ponto fulcral das pessoas com as quais se deparou de modo que se arrependessem e abandonassem suas más condutas. Veja, por exemplo, os episódios da mulher samaritana (Evangelho segundo João 4:16-18) e da mulher pega em flagrante adultério (Evangelho segundo João 8:11).

Existem os tradicionais que impedem a renovação do Espírito Santo. Na contramão, estão os que buscam abandonar as “tradições da religiosidade frívola” e acabam caindo na insensatez de criar, conforme o apóstolo Paulo elucida, “ventos de doutrinas” (Efésios 4:14) e são, como barcos a vela, guiados por eles.

Uma espécie de numerologia “bíblica” adquire caráter profético. Patuás e adereços tornam-se utensílios e objetos de fé. A lista é longa: rosa ungida, vassoura do descarrego, pulseira da aliança, arca da prosperidade, cajado de Moisés... Rudimentos que a Cruz de Cristo substituiu e os anulou por completo. O discurso de Lutero contra a “sacralidade” das relíquias da Igreja no Século XVI é atual e encontra pouso, pasmem, no meio protestante.

Diante de tudo isso, questionemos e reflitamos: Por que este descalabro? Por que a Igreja se tornou tão descaracterizada? Paulo sintetizou suas características: “... gloriosa, sem mácula nem ruga, santa e inculpável”. (Efésios 5:27). Gloriosa: que reflete o caráter de Jesus, a plena personificação da Glória de Deus aos homens (Evangelho segundo João 1:14, Colossenses 1:15).

Sem mácula: sem pecado, imaculada. Que ama o pecador, mas que dissemina e viabiliza a ele o arrependimento genuíno (Evangelho segundo Mateus 3:8). Sem ruga: renovada pela ação do Espírito Santo, mas sem abandonar os princípios imutáveis das Escrituras. Invenções e entretenimentos humanos, oriundos de interpretações bíblicas equivocadas, cujo intento é o alcance de objetivos pessoais, devem ser descartados.

Santa: separada das coisas do mundo – sistema de ser, pensar e agir – que o apóstolo Paulo orientou a não nos conformarmos (Romanos 12:2), observando a oração sacerdotal de Jesus de que não sejamos tirados dele (Evangelho segundo João 17:15) a fim de sermos sal e luz (Evangelho segundo Mateus 5:13-14).

Inculpável: fundamentada na Graça de Deus que nos justifica (Romanos 8:1) e nos santifica. Que possui e nutre a consciência de que apenas Ela – que abarca nossa resposta a Ela (Leia os textos: A prática da Graça e Ações de Graças) – é que fará com que se conforme às características salientadas explicitamente nas Escrituras. Seu alicerce é Jesus (Efésios 2:21) - Verdade óbvia, porém esquecida. E não a busca pelo sucesso em sua conotação secular. Jesus disse: “E nesta pedra, eu edificarei a minha igreja...”. (Evangelho segundo Mateus 16:18). Pedro, neste contexto, simboliza o fato de que somos meros adendos. Pequenas pedras colocadas sobre a Rocha principal. Portanto, sigamos o Seu modelo, não o nosso.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Disposição infantil


Matheus Viana

Jesus certa vez disse: “Eu lhes asseguro que, a não ser que vocês se convertam e se tornem como crianças, jamais entrarão no Reino dos Céus”. (Evangelho segundo Mateus 18:3 – Nova Versão Internacional).

Afirmação que exige reflexão. Já ouvi várias interpretações sobre ela. A que mais me satisfez foi a de Brennan Manning em seu livro O Evangelho Maltrapilho. Ele aborda a questão bastante explorada de sermos inocentes como uma criança e também a de adquirirmos o senso de dependência que ela possui. Mas vai além. Ele nos lembra de que crianças, nos tempos de Jesus, não eram contadas como cidadãs. Assim como as mulheres, “pecadores” – os que não cumpriam toda a Lei, como se alguém a cumprisse em sua plenitude -, publicanos e leprosos, faziam parte do “segundo escalão”.

Sim, Jesus veio para os pobres de espírito, os aflitos, os rejeitados, os marginalizados... Enfim, para aqueles que não possuem valor social. Mesmo assim, Sua mensagem é mais ampla. Quando resolvi ler este texto bíblico novamente, veio à minha mente o fato de que uma criança está sempre disposta a aprender.

Apesar de “inocentes”, crianças já nascem pecadoras (Salmo 51:5), ou seja, propensas para o mal. Por isso, não é apenas a “inocência” infantil que Jesus quis abordar. Penso que, ao fazer tal afirmação, se referiu à necessidade e desejo de aprendizado que a criança possui. Não é a toa que na fase posterior, a da adolescência, o ser humano é acometido pela síndrome do “sabe-tudo”, mesmo não sabendo.

Como professor, detecto facilmente esta discrepância. É comum em minhas aulas no ensino médio eu explicar o conteúdo e, ao fazer a questão: “Alguém tem alguma dúvida?”, todos dizerem “não”. Os resultados das provas, no entanto, revelam exatamente o contrário. O desinteresse em aprender é, podemos dizer, bastante comum nesta fase.

Ao analisarmos o texto, vemos que a conversão – mudança de mente (arrependimento), de comportamento e de conduta – não é suficiente para herdarmos o Reino dos Céus. É preciso também ser como uma criança. Estar sempre disposto a aprender. Por isso Jesus, antes da afirmação aqui analisada, disse: “Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração”. (Evangelho segundo Mateus 11:29). Entretanto, só aprende quem está disposto a se submeter ao Seu ensino. Jesus confrontou severamente a cúpula religiosa de Sua época por se julgar sábia pelo fato de conhecer a Lei mosaica. E, por isso, não estava disposta a aprender de Seu Evangelho.

Cabe aqui um contraste. Devemos nos lembrar de que o fato de sermos “crianças” não anula a necessidade de amadurecermos a fim de que alcancemos a “estatura do varão perfeito”. (Efésios 4:13). O próprio Jesus cresceu em sabedoria, estatura e graça diante de Deus e dos homens (Evangelho segundo Lucas 2:52). Em outras palavras, adquiriu como homem plena maturidade.

Amadurecer não extingue a nossa necessidade de aprender. O sábio Salomão adverte: “Confie no Senhor de todo o seu coração e não se apóie em seu próprio entendimento; reconheça o Senhor em todos os seus caminhos, e ele endireitará as suas veredas. Não seja sábio aos seus próprios olhos; tema o Senhor e evite o mal”. (Provérbios 3:5-7).

Conhecer a Deus equivale a aprender Seus ensinamentos. Foi por isso que o próprio Jesus afirmou: “Examinai as Escrituras, pois elas de mim testificam”. (Evangelho segundo João 5:39). Foi por isso que, milênios antes desta afirmação, o profeta Oséias advertiu: “Conheçamos o Senhor, esforcemo-nos por conhecê-lo”. (Oséias 6:3).

Reconhecermos que não sabemos o suficiente e nos dispormos a aprender são atitudes oriundas de mentes e corações sábios. Não é a toa que Sócrates, considerado o maior de todos os filósofos clássicos, afirmava: “Sei que nada sei”. Que tenhamos esta disposição infantil.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Santificação favorável


Outra vez a mesma “ladainha”: sucumbi diante do pecado da imoralidade. Meus olhos contemplaram o ilícito. Jesus denomina tal ação de adultério (Evangelho segundo Mateus 5:28).

A tristeza foi súbita. Prostrei-me em arrependimento e supliquei o perdão de Deus. Às 03h40min do dia 22/12/12 – isso mesmo, o mundo não acabou – procuro descrever o sentimento que brotou em minha mente e em meu coração enquanto tentava – em vão – dormir após meu pedido de perdão.

Lembrei-me do seguinte trecho da oração sacerdotal de Jesus: “Em favor deles (discípulos) eu me santifico, para que também eles sejam santificados pela verdade”. (Evangelho segundo João 17:19). Em sequência, veio à minha mente o sermão que compartilhei no culto de Ação de Graças do IAVEC, no dia 12/12/12 (Não, não acredito em nenhuma espécie de numerologia em relação a esta data): nossa obediência a Deus, síntese de nossa ação de graças, consiste em sermos “puros e irrepreensíveis, filhos de Deus em meio de uma geração perversa”. (Filipenses 2:15).

Note que nesta elucidação do apóstolo Paulo está implícito o fato de sermos referenciais para outros, à semelhança da advertência do próprio Paulo aos cristãos em coríntios: “Sede meus imitadores como eu sou de Cristo Jesus” (I Coríntios 11:1).

Responsabilidade dobrada. A ordem de ser e fazer discípulos é completa por si só (Evangelho segundo Mateus 28:19). Seu cumprimento pleno, no entanto, consiste em um processo árduo e paulatino. O “fruto” colhido “verde” é amargo. Já a sua maturação leva tempo. Não entreguemos “frutos” amargos – sem se submeterem a todo o processo de um discipulado duradouro e eficaz – como oferta a Deus. (Não deixe de ler o texto: Fruto ou folha).

Amo ser professor de ensino religioso e capelão escolar. A oportunidade de ensinar a Palavra de Deus aos alunos, de modo que eles sejam formados no caráter de Cristo, é formidável. Mas o único método que culminará no pleno êxito é o do Fazer e ensinar. Sendo assim, a minha conduta fora das salas de aula e de aconselhamento conta, e muito.

Por isso, a observação ao trecho da oração de Jesus que é objeto de nossa reflexão é imprescindível. Quando a tentação vem contra nós, – e ela é insistente e perseverante, ou melhor, teimosa, acredite! – devemos nos lembrar, sempre, de nos santificarmos por aqueles que Deus nos confiou: filhos, alunos e discípulos. Para quê? Conforme Jesus preconizou: “... para que também eles sejam santificados pela verdade”.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

"Psicose" necessária


Matheus Viana

“Jesus, porém, ouvindo, disse-lhes: Não necessitam de médico os sãos, mas, sim os doentes.” (Evangelho segundo Mateus 9:12).

Afirmação um tanto óbvia. Mas, acredite: ela também é alvo de relativização. Explico. O fato de um indivíduo crer e servir a Deus, desde o advento do iluminismo, é considerado uma espécie de patologia intelectual ou emocional. Sigmund Freud, embora não escondesse sua admiração pelo apóstolo Paulo, classificava toda experiência religiosa – como a que Paulo tivera a caminho de Damasco (representada na imagem acima) – como “psicose alucinógena”.

Este mesmo diagnóstico é considerado, ainda hoje, por psicanalistas. Intrigante. Pois são muitos os casos de infratores da lei que foram “vítimas de psicose alucinógena” e deixaram de cometer crimes, fazendo as pazes com a justiça. São muitos os casos de maridos agressores que, após “sofrerem” desta “psicose”, tornaram-se verdadeiros cavalheiros para com suas respectivas esposas. Outros que abandonaram as drogas, o sexo ilícito, entre outras condutas. Enfim, pessoas que faziam todo tipo de mal e passaram, após se tornarem “psicóticos” de acordo com a psicanálise freudiana, a fazer o bem oposto. Sou testemunha de casos assim.

Imaginemos o planeta Terra tomado por “psicóticos” que, conforme Jesus preconizou, amam os seus inimigos, consideram o próximo ao invés de si mesmos, socorrem os pobres, os órfãos e as viúvas; pais que amam e cuidam de seus filhos e filhos que amam e honram seus pais; maridos que amam e respeitam suas esposas e vice-versa.

Sim, a história é repleta de barbáries cometidas por insanos que usaram o nome de Deus e o poder das religiões para satisfazer seus próprios interesses. O que dizer das Cruzadas? Muito sangue foi derramado em favor de Papas e do enriquecimento da Igreja Católica Apostólica Romana. Milhares morreram e, ainda hoje, morrem no conflito étnico-religioso deflagrado no Oriente Médio entre israelenses e palestinos. Não nos esqueçamos do fundamentalismo muçulmano com todo seu arsenal de terror, tampouco do charlatanismo “evangélico” e de seu mercado da fé.

Tais fatos não são provenientes de uma genuína “experiência religiosa”, mas do uso indevido do fundamentalismo religioso institucional como escudo ideológico em prol de cobiças escusas. Não é esta, definitivamente, a experiência que Jesus propôs à humanidade. Quando fez a afirmação citada como epígrafe deste texto, Jesus estava na casa de um publicano chamado Mateus, comendo junto a pecadores.

Publicanos eram considerados traidores. E os pecadores, impuros para a cúpula religiosa judaica, fonte de segregação social. Mas, como disse, a proposta “psicótica” de Jesus é diferente. Ela visa alcançar todo tipo de pessoa para transformá-la, a fim de que toda sua realidade seja mudada, e para melhor. Claro que tal mudança não implica na ausência de dificuldades. Porém, a vitória sobre cada uma delas é certa. Não é a toa que o “pensador psicótico”, Paulo de Tarso, preconizou: “Em tudo somos mais do que vencedores, por meio daquele que nos amou”. (Romanos 8:37). E o próprio Jesus declara: “No mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, pois eu venci o mundo”. (Evangelho segundo João 16:33).

Finalizo esta breve reflexão com outra afirmação do apóstolo Paulo: "Pois a mensagem da cruz é loucura (psicose) para os que perecem, mas para os que são salvos, o poder de Deus". (I Coríntios 1:18). Qual lado você escolhe? Eu já escolhi: o dos "psicóticos".

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Ações de graças

O Salmo 100:4 nos propõe: “Entrai pelas portas do Senhor com ações de graças”. Ao ouvirmos a expressão ações de graças, de maneira óbvia pensamos em gratidão. No entanto, com um caráter passivo, cuja síntese se expressa no pedido de obrigado. Depois, surge em nossa alma o senso de dívida de gratidão, um sentimento de retribuirmos o favor recebido.

Mas as ações de graças que o salmista nos propõe vão além de um mero pedido de obrigado e também da responsabilidade da dívida, embora ambos sejam válidos e consideráveis. Sim, Deus espera que de nossos lábios fluam a nossa gratidão a Ele, desde que seja fruto de um coração verdadeiramente grato. Pois, conforme Jesus preconiza: “A boca fala do que está cheio o coração” (Evangelho segundo Mateus 12:34, 15:18). O apóstolo Paulo, em sua carta aos romanos, disse que era devedor para com os judeus, aos gentios e aos bárbaros (Romanos 1:14).

Contudo, em que, afinal, consistem estas ações de graças? O primeiro passo para a resposta é compreendermos a magnitude da Graça que Deus nos concedeu. Pois ações de graças nada mais são do que nossa resposta a Ela. Portanto, como o próprio nome já diz, nossa gratidão a Deus consiste em atitudes, ações.

Temos muito para agradecer. Jeremias sintetiza a Graça de Deus ao ser humano quando diz: “As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos”. (Lamentações 3:22). O fato de acordarmos todas as manhãs é, por si só, motivo de gratidão. Há muitos motivos para serem citados, mas não quero parecer piegas. Todas elas são desdobramentos do fato de que Jesus tomou sobre si a pena de morte que deveria ser aplicada a nós em detrimento de nossos pecados. Por isso o apóstolo Paulo elucida: “Onde abundou o pecado, superabundou a graça”. (Romanos 5:20). Mas antes alertou os “desavisados”: “Todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus”. (Romanos 3:23).

Quando nossa razão é tomada pela consciência de gratidão à Graça de Deus, começamos a compreender que um pedido de obrigado e um sentimento de dívida – a qual nunca conseguiremos, por maior que sejam nossos esforços, retribuir - são pobres diante dela. Vemos então que a manifestação da Graça de Deus possui algumas implicações na vida do agraciado. Todas elas, entretanto, convergem no elemento obediência.

O sentido bíblico de pecado, em suma, é errar o alvo. Que alvo, no entanto, é este? O proposto ao ser humano desde a gênese de sua criação. Podemos concluir então que as nossas ações de graças a Deus consistem em voltarmos a trilhar rumo a este alvo e nele permanecer conforme o apóstolo Paulo adverte: “Prossigo o alvo para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus”. (Filipenses 3:14). O escritor aos Hebreus também alerta: “E todos nós, rodeados por tão grande nuvem de testemunhas, livrando-nos de todo desembaraço e do pecado que tenazmente nos assedia, corramos com perseverança a carreira que nos está proposta”. (Hebreus 12:1).

Esta obediência que caracteriza as nossas ações de graças a Deus, no entanto, não possui um caráter de obrigatoriedade, tampouco de temor à penalidade da transgressão. Mas na gratidão pavimentada pelo amor, assim como a Graça de Deus foi fruto de Seu amor por nós. Amor que o apóstolo João elucidou: “Nisto consiste o amor de Deus, não que o tenhamos amado, mas ele nos amou e deu seu filho como propiciação pelos nossos pecados”. (I João 4:10).

Era isso que o apóstolo Paulo quis dizer quando afirmou que não vivemos mais debaixo do jugo da Lei, mas na Graça de Deus (Romanos 6:14). O conceito de amor no A.T possui o caráter de mandamento, e não propriamente de sentimento. Em Deuteronômio 6:4-5, o trecho conhecido como Shemá, Moisés declara: “Ouve, ó Israel, o que o Senhor vosso Deus vos fala. Amarás o Senhor teu Deus de todo o coração, de toda alma e com todo entendimento”. Mandamento que Jesus cita em sua discussão com os saduceus registrada no Evangelho segundo Mateus 22:37.

Um dos alvos propostos por Deus a nós é descrito pelo apóstolo Paulo: “Para que sejais irrepreensíveis e puros, filhos de Deus inculpáveis, no meio de uma geração corrompida e perversa, entre a qual resplandeceis como estrelas no mundo”. (Filipenses 2:15). Ou seja, sermos irrepreensíveis e puros e neste mesmo mote fazermos com que as pessoas que Deus coloca em nossas mãos, sejam filhos, alunos ou discípulos, também sejam. Conforme o apóstolo Paulo afirma: “A ardente expectativa da criação aguarda pela manifestação dos filhos de Deus”. (Romanos 8:19). Para exercermos esta obediência há um método infalível deixado a nós como legado pelo próprio Jesus: o fazer e ensinar. Isto é ações de graças.


Não deixe de ler: Fazer e ensinar

Sermão ministrado no culto de ação de graças do IAVEC no dia 12/12/12



segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Razão decapitada


Matheus Viana

João, o Batista, estava preso. O motivo? Confrontou Herodes em relação ao seu adultério com Herodias, mulher de Filipe, seu irmão. Na primeira oportunidade que teve, Herodias, através de sua filha, pediu e teve o que queria: a cabeça de João Batista (Evangelho segundo Mateus 14:8). Uma morte específica: decapitação. Algo expressivo e simbólico.

O apóstolo João afirmou: “Para isso se manifestou o Filho de Deus, para destruir as obras do maligno”. (I João 3:8). Lucas relatou em seus livros todas as coisas que Jesus começou a fazer e a ensinar (Atos 1:1). A continuação desta obra, todavia, se dará, até a consumação dos tempos e do propósito de Deus, através de Sua Igreja (Evangelho segundo Mateus 16:18).

Ou seja, estamos no mundo para destruirmos as obras do maligno, o governante desta era (I Pedro 5:8). O que consiste em deflagramos e lutarmos - lembrando de que nossa luta não é contra carne ou sangue - contra as ilicitudes existentes em todos os âmbitos com amor e misericórdia, mas também com firmeza, seriedade e santidade.

Por isso, a cabeça de um discípulo de Cristo, assim como a de João Batista, está a prêmio. Mas a conotação atual é diferente. O “deus” deste mundo quer decapitar a nossa razão. Platão, na tentativa de definir a essência do ser humano, o dividiu em três partes: razão, a cabeça, que, através do cérebro, comanda todo o corpo; coragem, região do tórax; e desejo, região do baixo ventre.

Usando esta tripartição, vemos de forma mais clara que o “deus” deste mundo quer a nossa “cabeça” (razão) com o intuito de exercer total controle sobre nós. Em outras palavras, tornar-nos alienados no tocante à nossa essência e o propósito de nossa existência. Atributos que apenas nos serão plenamente revelados na medida em que estudarmos as Escrituras. Jesus advertiu: “Examinais as Escrituras, pois elas de mim testificam”. (Evangelho segundo João 5:39). Sendo assim, quando conhecermos quem Jesus foi – e é –, saberemos quem, de fato, somos, pois fomos formados à Sua imagem e semelhança.

O apóstolo Paulo declara: “O deus deste mundo cegou o entendimento das pessoas para não lhes resplandecer a luz do evangelho”. (II Coríntios 4:4). Exatamente. Com o nosso entendimento (intelecto/razão) decapitado, não compreenderemos as Escrituras. Ou seja, não seremos iluminados pela luz a qual o salmista Davi declara: “Lâmpada para os meus pés (conduta) e luz para os meus caminhos (propósitos) é a Sua Palavra, ó Deus”. (Salmos 119:105). Este sim é o “iluminismo” salutar.

Lembre-se da advertência do profeta: “O meu povo se perde por falta de conhecimento” (Oséias 4:6). Diante de tudo isso, reflitamos: com o que temos ocupado o nosso intelecto? Nossa razão tem sido estimulada ou atrofiada? A futilidade se dissemina de maneira incontrolável. E ela tem “decapitado” a muitos, pois tem tomado a primazia das Escrituras e de Seus preceitos em seus corações e intelectos.

A filosofia atualmente em voga é o existencialismo, também chamado de anti-filosofia por não considerar o uso da razão e cujo lema principal é “a existência precede a essência”. Grosso modo, o existencialismo preconiza que o ser humano passou a existir por acaso, que sua origem é incerta. Diz também que o ser humano não é capaz de prover ou projetar o futuro, já que não tem certeza se existirá. Sua vida se resume inteiramente no presente. Portanto, deve vivê-lo intensamente. Aproveitar, da melhor maneira possível, os breves momentos da existência humana através de seus impulsos.

Esta filosofia é amplamente disseminada através dos vários meios de comunicação e na cultura de forma geral. Foi a pedra angular do movimento “sexo, drogas e rock´n roll”, também conhecido como “contracultura” em 1968, na França - através dos escritos de Albert Camus, Jean-Paul Sartre e de sua companheira, Simone De Beauvoir - que depois ribombou por todo o mundo.

Sorrateiramente, ainda determina a conduta da maioria. E, acredite, os cristãos não estão imunes desta influência. Desde Soren Kierkegaard (1813-1855), considerado o pai do existencialismo cristão, a razão tem sido colocada em segundo plano e, muitas vezes, demonizada por ser considerada inimiga e empecilho da fé. O resultado? A prática de um pseudo-evangelho, desprovido de segmentação e fundamentos bíblicos, repleto de superstições, autoajuda e apelos emocionais. Sobre isso falaremos em breve.