quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Pentecostalismo x intelectualismo


Intelecto sem a ação do Espírito é intelectualismo (II Coríntios 3:6). Mas Espírito sem intelecto é pentecostalismo. Deus é Espírito (Evangelho segundo João 4:24). Contudo, Ele deseja que o adoremos em Espírito e em verdade. Ou seja, a ação do Espírito não pode anular o exercício do intelecto e vice-versa.

Matheus Viana

“E não vos conformeis com este mundo, mas sejam transformados pela renovação da vossa mente para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus.”. (Epístola do apóstolo Paulo aos romanos 12:2).

Mente. Apontada como sede da razão. O exercício intelectual é, de certa forma, rechaçado em meio aos cristãos. Razão e fé. Para muitos, elementos incompatíveis. Distintos e insolúveis como a água e o óleo. Em outras palavras, o intelecto é visto como algoz da fé. (Não deixe de ler o texto ‘A razão sobrenatural’).

Será? Ao meditarmos nas Sagradas Escrituras percebemos que não é assim. A advertência de Paulo, citada acima, testifica tal fato. Mas ela não é a única. Jesus, citando um mandamento da Lei de Moisés, nos exorta a amarmos a Deus de todo o coração, de toda alma e de todo o entendimento (Evangelho segundo Mateus 22:37). Ou seja, o intelecto é peça fundamental deste mosaico por ser parte integrante de nosso ser. Não há como fugir disto.

Em sua epístola aos cristãos na cidade de Corinto, o apóstolo Paulo salienta: “Porque o deus deste século cegou o entendimento das pessoas para não lhes resplandecer a luz do evangelho.” (II Coríntios 4:4). A serpente abordou Eva com o intento primário de deturpar seu entendimento (Gênesis 3:1-4). Ou seja, sua forma de pensar até então pavimentada pela vontade de Deus. Com o intelecto contaminado, ela fez com que sua cobiça viesse à tona. A desobediência e o surgimento da maldição chamada ‘pecado’ foram inevitáveis. 

A estratégia não mudou. Enquanto rechaçamos, equivocadamente, o exercício intelectual – e tudo que seja oriundo dele – de nossa prática de fé, Satanás o alveja. E, como com Eva no Éden, tem logrado êxito conosco. Pois a maneira de pensarmos determina o nosso comportamento. Descartes dizia: “Penso, logo existo”. Sim, ele preconizava que o ato de pensar é a prova cabal de nossa existência. No entanto, vemos claramente que o pensar não comprova apenas a nossa existência, mas determina quem, de fato, somos. Em outras palavras, o intelecto determina nossa identidade e, consequentemente, nossas ações. (Não deixe de ler o texto ‘O ser determina o fazer’).

Tomaremos a Cruz que Cristo nos comissiona (Evangelho segundo Mateus 16:24), por exemplo, quando nos conscientizarmos, pelo Espírito (Evangelho segundo João 16:8), da necessidade que temos de sermos justificados por Ela. Por isso o intento de Deus, evidente em toda a Escritura, é alcançar o nosso coração, nossa alma e nosso intelecto.

Coração simboliza os nossos sentimentos. O apóstolo Paulo orienta: “Tende em vós o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus.” (Filipenses 2:5). Alma fala da capacidade que possuímos de desejar e escolher. Vemos no relato de Gênesis que Deus, ao soprar sobre as narinas do homem de Seu próprio fôlego de vida, faz dele ‘alma vivente’ (Gênesis 2:7). Um ser capaz de desejar e escolher cuja conduta de vida seria pautada por tal atributo. No entanto, o segundo Adão, conforme Paulo ensina, não veio como ‘alma vivente’, mas como ‘Espírito vivificante’ (I Coríntios 15:45). Sua conduta não foi pautada pelos seus desejos e escolhas, mas pelos desejos e escolhas do Espírito Santo de Deus sobre sua vida. Contudo, isso é pauta para uma análise futura.

No capítulo 2 de sua carta aos coríntios, Paulo elucida sobre o fato de recebermos a sabedoria de Deus por intermédio de Seu Espírito. Pois a mente humana não é capaz de compreendê-la (Não deixe de ler o texto 'Perscrutando o imperscrutável'). Por isso iremos rechaçá-la? Claro que não! O próprio Paulo nos emite a resposta: “Porque, quem conheceu a mente do SENHOR, para que possa instruí-lo? Mas nós temos a mente de Cristo”. (I Corintios 2:16). Ou seja, submetermos a razão humana à razão divina.

Mente. Entendimento. Intelecto. Várias expressões. Significado único: capacidade de pensar. Por que as Sagradas Escrituras são tão enfáticas nelas. Por que temos que passar por uma renovação de mente para experimentarmos a boa, perfeita e agradável vontade de Deus? Por que o deus deste século cega o entendimento das pessoas? Por que Paulo nos adverte a termos a mente de Cristo? Por que Lucas evidenciou o fato de que Jesus cresceu em sabedoria (alma/mente), estatura (corpo) e graça (Espírito) diante de Deus e dos homens (Evangelho segundo Lucas 2:52)?

Aquele que, segundo a profecia de Jesus, fora enviado para nos ajudar, para nos ensinar, e nos fazer lembrar todas as coisas que Ele disse (Evangelho segundo João 14:26) nos emitirá, por meio das Escrituras, as respostas para cada indagação. Veja que interessante: o Espírito Santo nos ensina e nos faz lembrar. Atitudes ligadas à... Isso mesmo: atividade intelectual.

A resposta de Jesus aos saduceus: “Errais por não conhecerem as escrituras nem o poder de Deus.” (Evangelho segundo Mateus 22:29) é completa. Apesar de serem peritos na Lei, eles não tinham a capacidade de pensar segundo a mente de Cristo. Ou seja, seus intelectos não agiam de acordo com a chamada razão sobrenatural. Por isso, não reconheceram o próprio Deus a quem diziam servir envolto em um simples judeu. Para piorar, também não conheciam o poder de Deus. Ou seja, a mesma ação do Espírito Santo que chancelava, por exemplo, a pregação e o ministério de Paulo (I Coríntios 2:4-5).

Intelecto sem Espírito é intelectualismo (II Coríntios 3:6). Mas Espírito sem intelecto é pentecostalismo - misticismo desprovido de caráter bíblico. Comum, infelizmente, em nossos dias. Deus é Espírito (Evangelho segundo João 4:24). Contudo, Ele deseja que o adoremos em Espírito e em verdade. A ação do Espírito não pode anular o exercício do intelecto e vice-versa.

Que aprendamos a lição!

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Quem dera!


Faça coro à expectativa de Moisés! A profecia de Jesus é clara e urgente: “Mas o Elias virá e restaurará todas as coisas.” (Evangelho segundo Mateus 17:11). Ou seja, profetas que sejam cheios do Espírito Santo como João Batista foi desde o ventre materno. Não percamos tempo com “picuinhas”.

Matheus Viana

O texto narrado no livro de Números 11:24-29 pode ser considerado icônico, principalmente em relação ao nosso contexto atual. O primeiro fato que podemos – e devemos – destacar é o de que Moisés saiu e contou à comunidade de Israel “o que o Senhor tinha dito”. (Vs 24). Isto faz toda a diferença. Mas, infelizmente, alguns insistem em fazer diferente. Lamentável.

Outro fato digno de nota é o de que Moisés reuniu ‘setenta’ autoridades. O quê? Não foram doze? De acordo com o relato das Escrituras, não. É importante salientarmos que, semelhantemente, Jesus convocou ‘setenta’ - após convocar seus doze discípulos - para pregarem o Evangelho do Reino dos céus (Evangelho segundo Lucas 9:1-5, 10:1-5).

Vemos, então, que não se trata de doutrinas, mas de estratégias. Qual, portanto, é a correta? A visão dos doze? O grupo dos setenta? As duas, desde que sejam usadas como meras estratégias. Nenhuma, quando são tratadas como doutrinas que causam sectarismo em meio ao corpo de Cristo. O que, consequentemente, compromete a unidade que Ele deseja a nós (Evangelho segundo João 17:21).

Depois de separados, os setenta receberam do mesmo Espírito que estava sobre Moisés. Não houve qualquer distinção entre eles. Todos passaram a profetizar. Todos mesmo. Inclusive dois deles que ficaram no acampamento: Eldade e Medade (Vs 26). Sim, parece nome de dupla sertaneja.

Porém, um jovem correu e contou a Moisés o ocorrido: “Eldade e Medade estão profetizando no acampamento. (...) Moisés, proíba-os”. (Vs. 27 e 28). Diante de tal relato – para não dizer, fofoca – Moisés respondeu, como também foi a resposta de Jesus aos seus discípulos em um episódio semelhante (não deixe de ler o texto ‘Não o impeçam’), de forma espetacular: “Você está com ciúmes por mim? Quem dera todo o povo do Senhor fosse profeta e que o Senhor pusesse o Seu Espírito sobre eles”. (Vs 29).

Quem dera! Faço coro à expectativa de Moisés. A profecia de Jesus é clara e urgente: “Mas o Elias virá e restaurará todas as coisas.” (Evangelho segundo Mateus 17:11). Ou seja, profetas que sejam cheios do Espírito Santo como João Batista foi desde o ventre materno.

Entretanto, nos deparamos com mais um lamentável relato em que a posição tornou-se mais importante do que a necessária obra de Deus ao homem de profetizar. Conforme preconiza o apóstolo Paulo: “Procurai com zelo os melhores dons, mas principalmente que profetizeis.” (I Coríntios 14:1). O sábio Salomão alerta: “Não havendo profecia, o povo se corrompe.” (Provérbios 29:18).

Concentremos-nos, portanto, menos na posição (seja ela hierárquica, eclesiástica ou geográfica) e mais no fato de sermos cheios do Espírito Santo a fim de profetizarmos. Isso sim é o que interessa. Como vemos ao longo de toda a Bíblia, o clamor de Moisés relatado no trecho analisado nada mais é do que o ecoar do clamor de Deus à humanidade. Quem dera se não perdêssemos tempo com “picuinhas”!

sábado, 4 de fevereiro de 2012

O medo e sua origem


Matheus Viana

Medo. Um tema pertinente ao contexto de uma sociedade conturbada. Um sentimento comum em relação à degradação comportamental com a qual temos convivido, direta ou indiretamente.

Certo dia assisti ao programa exibido pela TV Cultura, Café Filosófico. O palestrante foi o filósofo e articulista do jornal Folha de S. Paulo, Luiz Felipe Pondé. Utilizando metáforas e algumas teorias de vários filósofos como Platão e Pascal, Pondé elucidou o fato de o medo fazer parte do ser humano. Embora não tenha sido seu objetivo, formulou questionamentos que somente a Bíblia pode responder. Ou seja, de maneira inconsciente, traçou o norte rumo ao horizonte que apenas as Sagradas Escrituras podem conduzir.

Uma delas foi a afirmação de que o medo é oriundo do fato de que o ser humano é um náufrago. Por isso, está perdido em um mundo totalmente estranho. Todavia, não precisa - graças a Deus e nada contra os que são - ser filósofo para constatar tal verdade. Basta recorrermos à suprema Palavra de Deus que evidencia esta triste realidade de maneira clara, sóbria e concreta.

Um verdadeiro paraíso chamado Éden - lugar de delícias - foi criado exclusivamente para a vida e existência do ser humano (Gênesis 2:8). Nele, não havia o que temer. Desfrutava de plena paz com toda a criação e de plena harmonia com o Criador. No entanto, o ato insano de dar ouvidos à outra voz que não fosse a do Criador e por isso desejar um conhecimento que não lhe era lícito o fez ser expulso do Éden. A partir de então passou a viver em um macroambiente onde toda a criação, incluindo a essência humana, fora corrompida.

O fato de saber que estava nu e procurar folhas para se vestir denunciou a degradação que se instalou em seu âmago naquele instante. O pecado veio à tona e com ele a morte e o consequente medo em todas as suas nuances. Mediante a narrativa descrita nas Escrituras, podemos afirmar que o medo é fruto do pecado. Ou seja, da transgressão do ser humano para com Deus. Antes do pecado, ele não existia. No entanto, passou a fazer parte de nossa natureza terrena, conforme afirma o apóstolo Paulo em sua carta aos colossenses (Colossenses 3:5). E hoje “desfrutamos” deste efeito colateral.

O pecado habita em nossa carne (Romanos 7:18-19) e por isso, o medo reside em nossa essência. Ainda que em alguns momentos o medo seja um poderoso instrumento de proteção e preservação da vida, ele não é, de maneira nenhuma, de origem divina. Sei que alguns podem argumentar: “Mas o próprio Jesus, no jardim do Getsêmani, temeu a morte ao ponto de transpirar sangue e pedir a Deus que afastasse dele tal cálice”.

Concordo plenamente com tal indagação. No entanto, não podemos ignorar o fato crucial de que Jesus enfrentou o drama do sofrimento e da morte como homem (Filipenses 2:6-9). Portanto, evidenciou o medo contido no âmago do ser humano de sofrer e morrer. O que nos mostra o sublime caminho que, apesar do medo contido em nossa essência, somos nEle capazes de vencê-lo a fim de tomarmos sobre nós de Sua Cruz (Evangelho segundo Mateus 16:24) e vivermos a vida abundante que ela nos oferece (Evangelho segundo João 10:10). Que não consiste apenas em bênçãos ou na ausência de intempéries e momentos de sofrimentos, mas sim de vitória sobre todas as situações. Pois sobre nós, independente do medo que sintamos, repousa a profecia messiânica que diz: “No mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, pois eu venci o mundo”. (Evangelho segundo João 14:33).


*Publicado anteriormente na edição 004 da revista Profecia.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

O ser determina o fazer - Parte II


Quem diz não ter propósitos é porque não os conhece. E quem não os conhece é porque não conhece a si mesmo. E quem não conhece a si mesmo é porque não conhece a Jesus. Pois a nossa essência – a ser restaurada – é sermos e vivermos conforme a Sua imagem.

Matheus Viana

Sim, o pecado surgiu e deturpou a personalidade humana outorgada por Deus (Romanos 5:12). De santos passamos a ser pecadores. De imortais para mortais. O que frustrou, momentaneamente, o plano de Deus. Mas Ele nunca perde. Por isso o segundo Adão (I Coríntios 15:45), o cordeiro morto antes da fundação do mundo (Apocalipse 13:8), veio para restaurar, a fim de levar a cabo Sua soberana vontade através de nós, a essência divina por meio de algo chamado ‘Evangelho’.

O Evangelho de Cristo. Sim. Evangelho significa ‘boas novas’. Mas que ‘boas novas’ são essas? Muito mais do que meras notícias, é a prática da vida abundante que Jesus veio nos oferecer (Evangelho Segundo João 10:10).

É por isso que o apóstolo Paulo preconiza: “Aquele que está em Cristo nova criatura é. As coisas velhas passaram e eis que tudo se fez novo”. (II Coríntios 5:17). Esta novidade de vida, no entanto, não é um fato súbito e instantâneo. E sim um longo processo.

Para o entendermos melhor, vejamos o que Paulo ensina na mesma carta aos coríntios: “Mas todos nós, com o rosto desvendado, refletindo como um espelho a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória na mesma imagem, como pelo Senhor, o Espírito.” (II Corintios 3:18).

Não precisa ser teólogo nem perito em hermenêutica bíblica para saber que a expressão “rosto desvendado” é uma simbologia da obra realizada por Jesus quando expirou na cruz do Calvário. E eis que o véu do templo se rasgou em dois, de alto a baixo; e tremeu a terra, e fenderam-se as pedras.” (Evangelho segundo Mateus 27:51). Ou seja, temos acesso à Sua presença conforme elucida o escritor da carta aos hebreus.

Esse é o início da novidade de vida. É a parte de Deus no processo. A nossa, todavia, é contemplarmos Sua Glória a fim de sermos por ela transformados. Segundo o relato de João, Jesus é a plena verbalização da Glória de Deus (Evangelho segundo João 1:14). Por isso, conforme o próprio Jesus nos adverte, contemplamos Sua Glória – Ele mesmo – quando examinamos – sendo ouvintes e praticantes (Tiago 1:22) - as Escrituras (Evangelho segundo João 5:39).

Mas antes de trilharmos esta fascinante e árdua jornada, devemos nos lembrar de sua essência. Lembre-se, temos o “rosto desvendado”, condição para vivermos esta novidade de vida, por causa da cruz de Cristo. O que define o caráter deste Evangelho. Como o próprio Jesus denominou: o Evangelho do Reino.

Um Reino é representado por um Rei. E este Rei tem como propósito estabelecer Seu Reino (Evangelho segundo Mateus 6:10). Mas, para que isso aconteça, conta com seus súditos. Estes súditos possuem um caráter. O apóstolo Paulo relata: “Aos que de antemão escolheu, também os predestinou para que sejam conforme a imagem de Seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos”. (Romanos 8:19). Mais do que meros súditos, somos, conforme afirma o apóstolo Pedro, “sacerdócio real”. (I Pedro 2:9).

O apóstolo Paulo ensina que fomos predestinados com um padrão: sermos e vivermos conforme a imagem de Jesus Cristo. Nada mais, nada menos. E isso carrega em si um propósito. Por isso, se você não tem feito nada em prol deste Reino é porque acredita não possuir um propósito. Quem diz não ter propósitos é porque não os conhece. E quem não os conhece é porque não conhece a si mesmo. E quem não conhece a si mesmo é porque não conhece a Jesus. Pois fomos formados à imagem e semelhança dEle. E a premissa para estabelecermos este Reino sobre a terra é nos submetermos ao Evangelho de Cristo a fim de sermos restaurados à Sua imagem (Efésios 4:13). Mas só conseguiremos quando tivermos a consciência de quem verdadeiramente somos.

Não é em vão que o apóstolo Paulo nos orienta: “Transformai-vos pela renovação da vossa mente (quem, de fato, somos) para que experimenteis a boa, perfeita e agradável vontade de Deus”. (Romanos 12:2).

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

O ser determina o fazer

Cada coisa que existe age de acordo com aquilo que é. O sol, por exemplo, ilumina e aquece a manhã porque é um astro composto de luz e calor. Não há essência sem propósito.



Matheus Viana

O primeiro aspecto que Satanás visa deturpar em nós é a personalidade. Pois é ciente de que a autovisão que nutrimos determina os nossos feitos. Os exemplos são evidentes. Se uma pessoa é convencida de que é cantora, ainda que não seja reconhecida como tal nem tampouco tenha as habilidades necessárias, fará de tudo para cantar. Por isso é de suma importância descobrirmos quem, de fato, somos a fim de que façamos as coisas certas.

O próprio Satanás é um exemplo. Outrora Lúcifer (Anjo de Luz), foi criado para ser um Querubim. Tal personalidade carregava em si um propósito: reger os anjos em adoração ao Soberano Deus. Mas não se contentou com o que era. Desejou ser o que não era (Isaías 14:12-15). Usurpou o trono de Deus e se rebelou contra Ele. Foi expulso dos Céus e levou consigo 1/3 dos anjos. Visão deturpada que gerou uma atitude equivocada.

Conforme o salmista preconiza, todos os nossos dias foram predestinados pelo Criador (Salmos 139:16). Porém, somos livres para trilharmos rotas diferentes. Sem, entretanto, nos esquecermos de suas consequências (Provérbios 14:12). Em meio a esta predestinação está o nosso comissionamento. Mas, antes dele, está o estabelecimento de quem somos. Não há personalidade sem propósito.

Descartes dizia: “Penso, logo existo”. Tal frase explicita o fato de que só é capaz de pensar quem existe. Porém, apesar de verdadeira, ela é incompleta. Poderíamos acrescentar a ela: “Sou, logo faço”. Tudo o que existe é munido de uma essência, seja ela concreta ou abstrata. E cada coisa que existe age de acordo com aquilo que é. O sol, por exemplo, ilumina e aquece a manhã porque é um astro composto de luz e calor. Por isso não faz nada além do que sua composição permite. 

Ao lermos Gênesis 1, vemos que este princípio é a tônica de tal narrativa. Na criação do homem, lemos primeiramente os traços de sua personalidade, e só depois suas ações. Antes de dominar sobre toda a terra, teria que ser criado à imagem e conforme a semelhança do Criador (Gênesis 1:26). A partir do momento em que estes atributos são subvertidos, deixa de fazer o que fora criado para fazer. Sua identidade foi mudada. O que alterou suas ações.

Já Jesus, o segundo Adão (I Coríntios 15:45), cumpriu plenamente sua missão ao ponto de bradar: “Está consumado”. (Evangelho segundo João 19:30). Mas um dos principais motivos de seu êxito foi manter a convicção de quem era. O anjo havia ordenado à Maria: “E dará à luz um filho e chamarás o seu nome JESUS; porque ele salvará o seu povo dos seus pecados”. (Evangelho segundo Mateus 1:21).

Na Bíblia, o nome do indivíduo revela seu caráter, já que fazia parte da cultura nomear crianças segundo as circunstâncias que as enredava ou o propósito que havia sobre elas. O nome Jesus é a versão grega de Josué (Yehoshua) que significa ‘Iavé Salva’. Depois de revelar à Maria quem era o feto que estava em seu ventre, revelou o propósito de Seu nascimento. Ou seja, Jesus veio para salvar a humanidade por ser, desde a eternidade (Apocalipse 13:8), o salvador da humanidade. Suas ações eram meros efeitos de quem Ele era.

Astuto, quando Jesus estava no deserto, a primeira coisa que Satanás fez foi tentar colocar a identidade de Jesus em xeque: “Se tu és o Filho de Deus...”. Jesus venceu as tentações e todos os outros desafios que culminaram na realização plena da vontade de Deus. Sigamos Seus passos. Que tenhamos a revelação plena através do Espírito Santo de quem somos a fim de fazermos apenas o que nos compete...

Continua...

sábado, 7 de janeiro de 2012

Santificação mútua


Quando Jesus, após falar de Seu cálice e de Seu batismo, fala de servir ao próximo, refere-se também à nossa santificação em favor de outros para que sejamos referências dEle. Pois Ele em nós é a esperança da glória (Colossenses 1:27).

Matheus Viana

Noite difícil. Um calor sufocante que fazia meu corpo transpirar e que secou minha garganta. Inquietante. Não conseguia dormir. Para piorar, fui acometido por uma vontade avassaladora de ir para a sala, ligar a televisão e procurar algum filme erótico. A luta para não cair em tentação foi árdua. O que colaborou ainda mais para a minha insônia.

Levantei do meu leito e fui para a cozinha saciar a minha sede física. Depois, fui para a sala saciar minha sede espiritual. Já a minha vontade foi reduzida à inanição. Foi algo muito difícil. Ajoelhei-me no chão, coloquei meus braços e minha cabeça no sofá e me rendi em oração. Pois, se dependesse de mim, a televisão já estaria ligada. E o conteúdo exibido não seria nada edificante.

Comecei a me lembrar do governo de Deus sobre a minha vida. De como José conseguiu vencer seus hormônios pululantes e não ceder à insinuação da mulher de Potifar. No decreto preconizado pelo apóstolo Paulo de que em tudo somos mais do que vencedores por meio dAquele que nos amou (Romanos 8:37). No conselho de Salomão que diz se o pecado tentar nos seduzir basta dizermos não (Provérbios 1:10). No ensino de Jesus de que se olharmos para uma mulher com intenção impura, em nosso coração cometemos adultério (Evangelho segundo Mateus 5:28). Por isso não teria, para vencer esta tentação, outra alternativa a não ser me render em oração.

Enquanto orava, meu espírito foi cheio do seguinte sentimento: santificação em favor do meu próximo. Veio-me à mente as pessoas que, de alguma forma, têm sido tocadas por Deus através da minha vida. Um canal do poder de Deus, ainda que mui falho e fraco como eu, não pode viver maculado pelo pecado. Era isso. A santificação contínua não é apenas em meu favor, mas também em favor do meu próximo. Isso é morte – de nossas vontades – que gera vida – a vida de Deus nos outros. (Leia II Coríntios 4:10-12).

O sacrifício redentor de Jesus por nós culminou na cruz. Mas passou por sua santificação em nosso favor. Por isso afirmou em sua oração sacerdotal: “E por eles me santifico a mim mesmo, para que também eles sejam santificados na verdade.” (Evangelho segundo João 17:19). Pois como homem – e por isso, sujeito ao pecado – em tudo foi tentado, mas em nada – absolutamente nada – pecou (Hebreus 4:15, I Pedro 2:22).

É essa santificação contínua que Ele evoca quando questiona a Tiago e João: “Não sabeis o que pedis; podeis vós beber o cálice que eu bebo, e ser batizados com o batismo com que eu sou batizado?” (Evangelho segundo Marcos 10:38). Pesa sobre nós a responsabilidade de sermos (Evangelho segundo Mateus 16:24) e fazermos (Evangelho segundo Mateus 28:19) discípulos de Cristo. O que consiste em servirmos de referenciais de Cristo para o nosso próximo (Romanos 8:29). É por este motivo que o apóstolo Paulo exorta: “Sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo”. (I Corintios 11:1).

Cristo era evidente na vida de Paulo. Realidade explicitada em sua carta aos gálatas: “Não sou mais eu quem vivo, mas Cristo vive em mim”. (Gálatas 2:20). Quando Jesus, após falar de Seu cálice (Salmos 116:13-14, Evangelho segundo Mateus 26:39) e de Seu batismo, fala de servir ao próximo, refere-se também à nossa santificação em favor de outros para que sejamos referências dEle. Pois Ele em nós é a esperança da glória (Colossenses 1:27).

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Não o impeçam


Um homem estava realizando algo nobre e maravilhoso. Mas não era um dos doze. Portanto, na opinião dos doze discípulos, não estava gabaritado para tal obra. Por isso tentaram impedi-lo. Quanto engano! Mas a ordem de Jesus foi direta e completamente na contramão: “Não o impeçam”.

Matheus Viana

Você por acaso teve a experiência de ler um texto bíblico que já tenha lido por várias vezes e ele te impactar de uma forma inédita? Eu já. Coisa estranha! Mas tremenda.

O caso mais recente foi com o texto registrado no Evangelho segundo Marcos 9:38-39: “”Mestre”, disse João, “vimos um homem expulsando demônios em teu nome e procuramos impedi-lo, porque ele não era um dos nossos”. “Não o impeçam!”, disse Jesus”.

Fantástico! Mas ao mesmo tempo, devemos confessar, polêmico. Não consegui conter o ímpeto de alegria que senti ao me deparar com estas palavras de Jesus. Ele realmente é incrível. Foi impossível também não traçar um paralelo entre o contexto vivido pelos seus discípulos com o atual.

Há muitos na Igreja do Senhor, munidos de boas intenções, que procuram impedir pessoas que têm feito a obra de Deus de forma diferente e também por não pertencerem à visão doutrinária ou estratégica ao qual são devotos. Observe atentamente a queixa dos discípulos: viram um homem expulsando demônios de uma pessoa no nome de Jesus.

Não é maravilhoso vermos pessoas libertas de toda e qualquer opressão maligna pelo poder da Palavra de Deus? Claro que sim! Mas esta satisfação não foi párea para a importância que os discípulos deram ao cargo de ser um dos doze de Jesus. Sim, este homem estava realizando algo nobre e maravilhoso. Mas não era um dos doze. Portanto, na opinião dos doze discípulos, não estava gabaritado para tal obra. Por isso tentaram impedi-lo. Quanto engano!

Mas a ordem de Jesus foi direta e completamente na contramão: “Não o impeçam”. Escrevo este texto exultante. Não há sabedoria como a de Jesus. Sim, Jesus escolheu doze homens para andar perto dele. Mas também escolheu setenta para andar de dois em dois, e três - Pedro, Tiago e João - para um discipulado ainda mais pessoal em situações específicas como a transfiguração e a vigília no Getsêmani antes da crucificação. Modelos doutrinários baseados nos doze, nos setenta, nos três, entre tantos outros existentes em todo o mundo possuem suas parcelas de importância. Mas não são, de forma alguma, autorizações soberanas, como infelizmente apregoam alguns, para realizar a maravilhosa - repito este adjetivo quantas vezes forem necessárias - obra de libertar pessoas da opressão maligna.

Ao lermos a expressão “expulsando demônios”, não podemos cometer o erro de relacioná-la apenas ao exorcismo. Libertação, ao contrário do que muitos acreditam, não consiste somente em libertar uma pessoa possessa por espíritos malignos. O apóstolo Paulo preconiza: “Porque o deus deste século cegou o entendimento das pessoas para não lhes resplandecer a luz do evangelho”. (II Coríntios 4:4). Há muitos presos nas densas trevas do humanismo, do materialismo, do consumismo – acredite, também em meio à Igreja do Senhor – que os impedem de receberem e viverem o Evangelho pleno. E a única luz capaz de dissipá-las, a fim de trazer libertação, é a Palavra de Deus (Salmos 119:105).

É o que através da revista Profecia, do livro ‘A parábola de um deficiente’ e dos escritos contidos no meu blog tenho feito. Não, não faço parte de nenhum grupo de doze (apesar de ser membro de uma congregação que adotou este modelo), de setenta, de três ou de qualquer outro. Não critico, de forma alguma, quem seja adepto de algum. Pois são bastante válidos desde que o intento seja ver o conhecimento de Deus enchendo a Terra como as águas cobram o mar (Isaías 11:9).


Mas tal fato não os autoriza a impedir quem não esteja inserido em qualquer um deles de trazer libertação aos oprimidos. Tenho recebido, por e-mail ou ao vivo, relatos de pessoas que foram tocadas pelo poder de Deus e provaram da liberdade que somente Ele pode oferecer em algumas áreas de suas vidas através dos meus escritos. É claro que eles são meros instrumentos. Mas levam o fator fundamental: o poderoso nome de Jesus, claro, acompanhado de um testemunho (conduta) concernente. E isto basta!