segunda-feira, 9 de outubro de 2017

O limbo do silêncio

Matheus Viana    

“Ai de vós, mestres da lei e fariseus, hipócritas!” (Evangelho segundo Mateus 23:13). Tais palavras saíram dos lábios de Jesus. E conforme Ele mesmo preconizou: “A boca fala do que está cheio o coração” (Evangelho segundo Mateus 12:34). O coração de Jesus estava farto da devoção incoerente que, afirmando – e acreditando – obedecerem a Deus, os alvos de Sua severa repreensão exerciam e, com isso, desviavam os homens cada vez mais Dele.
    
Na esteira desta narrativa, proponho-lhe: Imagine qual seria a realidade dos judeus se Jesus não proferisse tais palavras, mas ficasse em silêncio! Imagine se Ele agisse conforme muitos dizem: “Jesus, fique na sua, cuidando de sua vida e ensinando Seus discípulos! Deixe os fariseus e os mestres da Lei com os seus erros para lá!”. Em outras palavras: “Permaneça no limbo do silêncio!”.
    
Imagine se os apóstolos – os primeiros discípulos de Jesus Cristo - fizessem silêncio frente às seitas que ameaçaram a Igreja cristã, que se espraiava por todo o império romano, como os judaizantes, os gnósticos, os libertinos e os nicolaítas! Imagine se Justino - o mártir -, Orígenes, Irineu entre outros se calassem diante do escárnio que a fé cristã sofreu! Imagine se Atanásio permanecesse em silêncio diante da heresia ariana que pervertia a Pessoa de Jesus Cristo durante o concílio de Niceia!
    
Imagine se Jan Huss, em Praga, e John Wycliff, na Inglaterra, permanecessem em silêncio em relação ao abandono das Escrituras por parte da igreja romana! Imagine se Lutero permanecesse em silêncio em relação às indulgências e a tantos outros erros e abusos cometidos pela mesma instituição religiosa durante o papado de Leão X!
    
Jesus foi chamado de blasfemo (Evangelho segundo Mateus 26:65). Os apóstolos foram considerados apóstatas e pertencentes de uma seita chamada Caminho. Em outras palavras: hereges. Jan Huss foi queimado como um... herege. Lutero, até hoje, assim como os protestantes, independente da vertente ao qual pertençam, são considerados pelos católicos romanos como traidores e hereges.
    
Qualquer semelhança não é mera coincidência. “Se você quiser viver o Evangelho, viva-O de forma particular e deixe a gente viver o nosso evangelho”. Este é limbo do silêncio atual proferido, como um mantra, por muitas denominações evangélicas e direcionado às vozes que analisam as condutas do cristianismo vigente com a ortodoxia descrita nas Escrituras. Jesus veio para cumprir a plenitude da Lei de Deus (Evangelho segundo Mateus 5:17). Por isso foi enfático e direto (Evangelho segundo João 6:25-29). Foi público, abrangente e sem rodeios (Mateus 23:1-38). Tal firmeza O levou a se lamentar sobre Jerusalém. Pois a exposição do Evangelho, embora firme, sempre é feita em amor. Os apóstolos, por terem recebido este ensino, também.
    
Vejam a orientação do apóstolo Paulo aos filipenses: “Pois, como já lhes disse repetidas vezes, e agora repito com lágrimas, há muitos que vivem como inimigos da cruz de Cristo” (Filipenses 3:18). Como sabemos, estas cartas corriam as igrejas de várias cidades e eram lidas aos fiéis durante o culto público e coletivo. Ao seu discípulo Timóteo, advertiu: “Evite as conversas inúteis e profanas, pois os que se dão a isso prosseguem cada vez mais para a impiedade. O ensino deles alastra-se como câncer; entre eles estão Himeneu e Fileto. Estes se desviaram da verdade, dizendo que a ressurreição já aconteceu, e assim a alguns pervertem a fé” (II Timóteo 2:17).

João, o apóstolo do amor, não agiu diferente no tocante à manutenção da ortodoxia cristã. Falando sobre os anticristos de sua época, afirmou: “Eles saíram do nosso meio, mas na realidade não eram dos nossos, pois, se fossem dos nossos, teriam permanecido conosco; o fato de terem saído mostra que nenhum deles era dos nossos. (...) Quem é mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo?” (I João 2:19-20 e 22). Há várias outras citações. Mas não quero deixar o texto exaustivo.
    
O argumento usado para arrefecer as vozes dissonantes é o do “Não se levante contra uma autoridade instituída por Deus!”. Sendo assim, não devemos nos levantar contra os abusos do governo, em qualquer uma de suas esferas; o impeachment da Dilma foi “coisa do cão”; e não devemos nos levantar contra o Ministério da Educação (MEC), por exemplo, no tocante à imposição da ideologia de gênero, entre vários outros artifícios que visam o estabelecimento de uma sociedade anticristã. Pois o Sr. Ministro da educação é uma autoridade. E toda autoridade é instituída por Deus, e por isso devemos obedecê-las, não é verdade? Não completamente, de acordo com Atos 5:19. Como é possível se levantar contra estas autoridades e, ao mesmo tempo, sustentar o discurso do “não se levante contra as autoridades”? O nome disto foi dito por Jesus: hipocrisia.
    
Jesus afirmou que Ele possui toda a autoridade nos céus e na terra (Evangelho segundo Mateus 28:18). Assim, só é munido de autoridade quem permanece Nele. Como permanecer Nele? Vivendo, de forma íntegra, segundo o Seu Evangelho. Quem não estiver de acordo com Ele, ainda que não tenha deixado de ser pecador (Cf. I João 1:8), o que é completamente diferente de não abandonar a vida de pecado, não possui autoridade diante de Deus, ainda que a tenha diante dos homens.
    
A cúpula religiosa que Jesus enfrentou estava munida de autoridade diante dos homens, mas não diante de Deus (Evangelho segundo Marcos 7:6-9). A da época dos apóstolos, idem. A igreja romana que classificou de hereges Huss, Wycliff e Lutero, não estava munida da autoridade de Deus, por mais que o Papa falasse ex-cathedra por ser o “vigário de Deus na terra”, pois havia abandonado o Evangelho de Cristo.
    
Posso imaginar Lutero, diante de alguns representantes da cúria romana, na dieta de Worms em 17 de abril de 1521. Após ser forçado a renunciar seus escritos, sermões e as 95 teses que fixara quatro anos antes na Catedral de Wittemberg, sob a ameaça de morte, disse: “Levo minha consciência cativa à obediência de Cristo”. Nesta mesma ocasião, propôs que aqueles representantes da cúria dissessem a ele onde seus escritos, sermões e teses estavam contra as Escrituras. Não havia nada errado.
    
Esta é a mesma proposta, guardadas as devidas proporções, que faço aos meus detratores. Chamar-me de herege por expor as Escrituras é direito deles. Mas meu dever é continuar a expor as Escrituras como base para refutar, em amor, mas com seriedade, o falso evangelho que desviam pessoas da fé, apesar de minhas imperfeições. Uma coisa não anula a outra. Excetuando Jesus, todos os demais citados nas linhas acima eram pecadores. João chegou a afirmar que aquele que diz não ter pecado é mentiroso, ou seja, pecador (I João 1:8). Paulo declarou: “Miserável homem que sou” (Romanos 7:24). Mesmo assim, não titubearam em expor o Evangelho e as práticas erradas de pessoas que pervertiam a fé. Por que eu, embora pecador, agiria diferente?

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Parábolas ou mistérios do Reino de Deus? - Parte II

Matheus Viana

Conforme Jesus afirmou, Seu propósito em contar a parábola não foi um artifício lúdico para facilitar o entendimento da multidão de ouvintes, como afirmam alguns. Foi, pelo contrário, de que não compreendesse: “Por esta razão eu lhes falo por parábolas: ‘Porque vendo, eles não veem e, ouvindo, não ouvem nem entendem’” (Evangelho segundo Mateus 13:13). Jesus, por sua vez, não falou de Si mesmo, ainda que possuísse (e possui) toda a autoridade para falar (Evangelho segundo Mateus 28:18). Mas evocou a profecia feita por Isaías: “Neles se cumpre a profecia de Isaías: ‘Ainda que estejam sempre ouvindo, vocês nunca entenderão; ainda que estejam sempre vendo, jamais perceberão. Pois o coração deste povo tornou-se insensível; de má vontade ouviram com os seus ouvidos e fecharam os seus olhos...’” (Vs. 14).
    
A percepção plena da realidade, em todos os seus âmbitos, bem como o entendimento dela são desdobramentos do reconhecimento e exercício do pleno Senhorio de Jesus Cristo sobre tudo e todos. A multidão - assim como a cúpula religiosa judaica, cujos membros faziam parte dela - não reconhecia Jesus como soberano e único SENHOR, conforme afirma o Shemá. A maneira como aquelas pessoas pensavam, sentiam e agiam denunciava tal carência. Sem o conhecimento de quem Cristo é, não é possível conhecer quem somos e como é a realidade a qual estamos inseridos, em todos os seus níveis. Pois eles são fundamentados nos absolutos que Ele estabeleceu na criação (Colossenses 1:15-17).
    
Assim, o empirismo científico não é suficiente, bem como o racionalismo naturalista também não é. O subjetivismo pós-moderno, por sua vez, não apenas é insuficiente para interpretá-la, como cria uma realidade paralela e reduzida. Antes de elucidar sobre a semente que germinou e produziu bons frutos, Jesus descreveu três situações distintas. A primeira é a que chamo de periférica, de caráter sensitivo (empírico). A segunda é a superficial, de caráter sentimental (emocional). A terceira é a materialista, de caráter secular (racionalista). Embora distintos, estão relacionados de forma coesa.
    
O fato de Jesus usar a linguagem da semente na terra é alicerçado no princípio do culto racional, que consiste na tríade cultivo-culto-cultura. O ser humano foi formado do pó da terra e recebeu do fôlego de vida de Deus (Gênesis 2:7). Somos, portanto, o cultivo de Deus. Seu propósito para nós consiste em, através do nosso cultivo, cultuarmos a Ele e desenvolvermos Sua cultura sobre toda a criação (Isaías 11:9). Processo chamado de mordomia, conforme elucidado por mim no livro Culto racional. Devemos compreender criação como a realidade que nos permeia em todos os seus âmbitos. Assim, somos a primeira terra que deve receber o cultivo da semente do Evangelho do Reino, mas não a única.
    
Toda a criação sofreu um intenso processo de degradação por conta da depravação oriunda do pecado original (Gênesis 3:17). Tal fato fez com que vários obstáculos surgissem, impedindo o florescer desta preciosa e soberana semente. A primeira situação elucidada por Jesus foi a parte da semente que caiu à beira do caminho. Aqui surgem algumas indagações: À beira de qual caminho? Em qual caminho temos trilhado? Os fatos falam por si. É nítida, na abordagem de Jesus, a existência de dois caminhos: um trilhado pela multidão e outro pelos discípulos. O trilhado pela multidão é o que conduz às bênçãos que Jesus pode oferecer. O outro conduz ao próprio Cristo. Quando Jesus afirmou ser O Caminho (Evangelho segundo João 14:6), não se referiu meramente a uma rota – externa a Ele - que iria mostrar. Mas afirmou que Ele é o próprio Caminho.
     
O salmo 18:30 diz: “O caminho de Deus é perfeito”. O texto hebraico, transliterado, afirma: “HaEl tamiyn darko (derekh) imerat”. A tradução literal deste texto é “O Deus caminho perfeito é”. Para que ele tenha sentido ao leitor de língua portuguesa, os tradutores utilizaram das seguintes formas: “O caminho de Deus é perfeito” e “Deus, cujo caminho é perfeito”. Mas, para os judeus, não é necessário o acréscimo de nenhum artifício para dar sentido a esta afirmação. O sentido para eles é claro e definitivo: O Deus é o caminho perfeito. Jesus, ao fazer tal afirmação, estava declarando que Ele é a plena personificação do derekh tamiyn. Por isso Seus discípulos ficaram conhecidos como a seita do Caminho. E não há outra forma de se achegar a Ele sem a obra do Espírito Santo em nós (Evangelho segundo João 16:8). E esta, por sua vez, é resultado de nos submetermos à Sua cruz. Pois, para que o Espírito Santo viesse sobre os discípulos, era necessário que Jesus primeiramente fosse crucificado (Cf. Evangelho segundo João 15:26).
    
Assim, seguir e viver um evangelho desprovido de cruz é estar à beira do caminho. Considerar, equivocadamente, a dicotomia vida secular/vida espiritual é estar à beira do caminho. Interpretar o Evangelho pelas lentes do secularismo, em suas várias nuanças, é estar à beira do caminho. Por isso Jesus afirmou, ao explicar a mensagem íntegra de seu ensinamento: “Quando alguém ouve a mensagem do Reino e não a entende, o Maligno vem e arranca o que foi semeado...” (Evangelho segundo Mateus 13:18 – Ênfases acrescentadas).
    

Ouvir e não entender. Conforme vimos anteriormente, não entenderemos a mensagem do Reino, de forma íntegra, sem submetermos nosso modo de pensar a Ele (II Coríntios 10:5). Ou seja, não devemos submeter a Ele apenas o nosso aspecto sensitivo, mas também o racional (Tiago 1:22). Isso, claro, como desdobramento de nosso comprometimento espiritual (coração). Eis o ‘x’ da questão. Qual é a epistemologia que fundamenta o pensamento do evangelicalismo moderno?

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Parábola ou mistérios do Reino de Deus? - Parte I

Matheus Viana

A parábola do semeador, contada por Jesus há milênios, é a descrição da realidade vocacional dos cristãos. De acordo com Ele, somos chamados a cultivar a semente do Evangelho do Reino de Deus. No entanto, esta não é uma tarefa simples. Há sobre ela alguns elementos os quais precisamos conhecer para seu êxito.
    
O primeiro é o fato de Jesus ter utilizado duas formas para emitir Sua mensagem. Cada uma delas com um público específico como alvo. Para a grande multidão que O rodeava, Jesus contou uma parábola, método comum entre os mestres judeus, também chamados de rabinos. Jesus era um rabino. E como tal, tinha seguidores (discípulos), conhecidos como talmidim. Para eles, a forma utilizada foi a descrição integral da mensagem.
    
Durante Seu ministério terreno, Jesus foi seguido, por muitas vezes, pelas multidões. Contudo, uma característica marcante de Seu legado foi a busca por discípulos, pessoas que não apenas O seguiam pelo que pudesse oferecer, mas pelo que era (e É): O Messias, Filho de Deus, o Deus encarnado. Nesta passagem, tal distinção é notória. Mas algo que chama atenção é que os discípulos, diferentemente da multidão, não ficaram satisfeitos com a elucidação de Jesus, o que os levou a indagarem-Lhe: “Os discípulos aproximaram: ‘Por que fala ao povo por parábolas?’ (Evangelho segundo Mateus 13:10). A resposta de Jesus revelou o motivo, que escancarou a distinção: “Ele respondeu: ‘A vocês é dado o conhecimento dos mistérios do Reino dos céus, mas a eles não’” (Vs. 11).
    
Parábolas eram histórias fictícias usadas como metáforas pelos rabinos para descreverem traços da realidade. E os discípulos, por serem formados na matriz religiosa judaica, sabiam disso. Tal fato faz brotar a questão: O que é o Evangelho do Reino de Deus para você? A resposta revela quem, de fato, és em relação a Jesus.
    
Muitos que se denominam cristãos são devotos a um “evangelho” que contempla apenas a vitória de Cristo e as bênçãos dela provenientes. Um reducionismo que dá origem a uma “realidade” paralela. Sim, uma espécie de esquizofrenia. Pessoas estão entorpecidas pela perniciosa “teologia” da prosperidade. Fato que as alienam no tocante à cruz que o próprio Jesus estabeleceu como elemento fundamental para o exercício de Seu discipulado – leia-se cristianismo: “Aquele que quiser me seguir, negue-se a si mesmo, tome cada um a sua cruz e siga-me” (Evangelho segundo Mateus 16:24).
    
A realidade, portanto, é nua e crua: Não há cristianismo sem Cristo. Não há como viver de acordo com o Seu legado sem ser Seu discípulo. Não há discipulado cristão sem cruz, sem renúncia, sem resignação. O apóstolo Paulo sintetizou, de forma brilhante, todos estes pontos ao preconizar: “Eu prego Cristo, e este crucificado” (I Coríntios 2:2). Qualquer proposta contrária é... Parábola motivacional, comum em muitos púlpitos.
    
O motivo de tal disseminação é que seus ocupantes não querem formar discípulos de Jesus. Querem atrair multidões que encham seus templos para que este inchaço demográfico transforme sua denominação em algo lucrativo e, ao mesmo tempo, dê a ela visibilidade – leia-se fama. É errado uma denominação cristã ter muitos membros? Não, desde que sejam discípulos, e não mera multidão.
    
Como professor da faixa etária infanto-juvenil, lido com alguns alunos que, mesmo professando Jesus Cristo com seus lábios, demonstram pela forma como pensam, sentem e agem que a conduta de vida que levam é totalmente alienada ao Evangelho de Cristo. O veem apenas como um subterfúgio que alimenta e satisfaz a religiosidade ególatra que lhes é peculiar. Não estão dispostos a ultrapassar esta embriaguez subjetiva rumo à sobriedade objetiva do Evangelho Pleno a fim de conhecerem e viverem a realidade integral que Cristo propõe ao ser humano. Interpretam parábolas como se fossem a realidade total do Evangelho.
    
Consequentemente, a ortodoxia cristã está sendo conformada aos preceitos modernos, ainda que frontalmente contrários ao caráter e essência do Evangelho de Cristo. Uma “pequena” demonstração disto é o fato de que adereços da cultura pop – como “super-heróis”, dinossauros, picadeiros circenses, “cultos” chamados de “baladas gospel” - são transformados, à exaustão, em elementos de culto ao SENHOR. E tudo isso, na maioria das vezes, trata-se de manifestações sinceras de devoção, o que é pior e denuncia o nível do engano presente em muitos altares.
    
Além da profanação do culto, esta conduta transforma Jesus em um mero pop star, deturpando Sua imagem e reduzindo Sua identidade. Conforme diagnosticou o historiador e sociólogo Leandro Karnal, sobre o que chamou de customização da fé: “O Jesus criado pela sociedade atual não transforma as pessoas, apenas concede seus desejos”. O apóstolo Paulo falou sobre isso muito antes e com mais propriedade: “Pois virá o tempo em que não suportarão a sã doutrina; ao contrário, sentindo coceira nos ouvidos, juntarão mestres para si mesmos, segundo os seus próprios desejos” (II Timóteo 4:3). Esta sã doutrina é o mistério do Evangelho do Reino que apenas os discípulos de Jesus Cristo entendem.
     
O “Jesus” usado como metáfora para justificar e satisfazer os desejos humanos, criados por uma sociedade líquida, conforme afirmou Zygmund Baumam, é uma realidade completamente distorcida em relação ao que Ele verdadeiramente É. Ela satisfaz as multidões. Mas não os discípulos que, comparados à grande multidão, são poucos. Embora em menor número, não se conformam a esta parábola. Pois a eles são dados, conforme o próprio Jesus afirmou, a capacidade de conhecer os mistérios do Reino de Deus.
    
Discipulado começa com o SENHORIO – o maiúsculo é proposital – de Jesus Cristo. Para a multidão, que se satisfaz com a parábola, basta o “Jesus” milagreiro, o “Jesus” coaching, o “Jesus” psicólogo, o “Jesus” administrador, entre outros. O “Jesus” que mais se aproxima de SENHOR é o que é considerado como líder. Contudo, não se engane! Este é usado apenas como modelo de como devemos liderar as pessoas em um caráter e estruturas corporativistas. Pois o organograma utilizado é baseado na hierarquia vertical, e não na horizontal preconizada pelas Escrituras, tendo Jesus como O Cabeça.
    
O “Jesus” que a multidão cultua não é O Eterno e Soberano Criador dos céus e da terra (Evangelho segundo João 1:1-3, Colossenses 1:15-17), O Cristo, Filho de Deus Altíssimo (Evangelho segundo Mateus 16:18), Deus que se fez homem (Evangelho segundo João 1:14, 14:9) e É revelado pelas Escrituras (5:39); mas várias faces de um “Gezuis” imaginário que é conformado aos anseios das pessoas que formam a multidão.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Culto ao Deus desconhecido

Matheus Viana

Ao ler este título, os mais familiarizados com as Escrituras lembram-se, subitamente, da passagem registrada por Lucas quando Paulo pregou o Evangelho em Atenas (Atos 17:23). Para entendermos o teor desta mensagem, devemos conhecer o conceito bíblico de Reino de Deus.

Tal conhecimento demanda uma análise do pensamento que fundamentava e alimentava a expectativa dos judeus no tocante à Sua manifestação. O que não é possível sem uma prévia análise sobre a monarquia em Israel. Ela substituiu o modelo dos chamados juízes de Deus sobre o povo, que eram libertadores levantados por Ele para livrar Israel do opróbrio de seus inimigos (Juízes 2:16).
    
As Escrituras afirmam que a substituição dos juízes por um rei foi pedida pelo povo (I Samuel 8:6). Para a entendermos, convém analisarmos por que Deus instituiu juízes. O livro dos Juízes começa narrando a guerra de Israel contra os cananeus e demais povos que habitavam Canaã, a terra que Deus concedeu a Israel como cumprimento da profecia feita a Abraão. Contudo, algumas tribos não expulsaram todos os povos que deveriam expulsar. Na contramão, fizeram acordos para que eles continuassem habitando no meio deles. A maioria destes povos serviam as tribos de Israel como escravos.
    
Jesus - ainda não manifesto como homem e descrito na narrativa bíblica como O Anjo do SENHOR - apareceu ao povo e disse: “Tirei vocês do Egito e lhes trouxe à terra que prometi aos seus antepassados. Eu disse: Jamais quebrarei a minha aliança com vocês. E vocês não farão acordo com o povo desta terra, mas demolirão os seus altares. Por que vocês não me obedeceram? Portanto, agora lhes digo que não os expulsarei da presença de vocês; eles serão seus adversários; e os deuses deles serão uma armadilha para vocês.” (Juízes 2:1-3).
    
O primeiro ponto é a conivência e convivência com a idolatria. O mandamento de Deus era de destruir todos os altares a deuses estranhos e expulsar todos os povos que os cultuavam para que a terra fosse redimida e a cultura – em seu aspecto integral – de Deus fosse estabelecida através da Lei de Moisés. Mas não foi o que ocorreu. A cultura pagã destes povos tornou-se a cultura do povo de Israel, representado por suas tribos: “Abandonaram o SENHOR, o Deus de seus antepassados, que os havia tirado do Egito, e seguiram e adoraram vários deuses dos povos ao seu redor” (Juízes 2:12).
    
Realidade que nos enreda, guardadas as devidas proporções e observados os aspectos peculiares. Os traços e valores da cultura secular anticristã vigente são, consciente e inconscientemente, o fundamento do pensamento de muitos que se proclamam cristãos. Suas ações conflitantes com a Ética de Deus (Jesus Cristo revelado pelas Escrituras) ao homem são meras consequências. A apostasia vivida por Israel naquele contexto é completamente pertinente aos nossos dias: “Depois que aquela geração (de Josué) foi reunida aos seus antepassados, surgiu uma nova geração que não conhecia o SENHOR e o que ele havia feito com Israel. Então os israelitas fizeram o que o SENHOR reprova e prestaram culto aos baalins.” (Juízes 2:10-11 – Ênfase acrescentada).
    
Esta apostasia foi resultado de Josué e toda a geração que lhe foi contemporânea morrerem. Eles não ensinaram a geração posterior guardar os preceitos de Deus, a prestar-Lhe o culto racional. Na esteira do historiador eclesiástico cristão Eusébio de Cesareia, Josué foi, em seu tempo, uma tipificação de Jesus. No entanto, o fato de Jesus “ter morrido” não se refere à Sua morte redentora, seguida da gloriosa e triunfante ressurreição; mas ao fato de Ele não ocupar, no coração das pessoas, o lugar que Lhe é devido. Além de ser simplesmente esquecido por muitos, Seu Evangelho tem sido deturpado, o que corrobora na deturpação de Seu legado e de Sua identidade. O não reconhecimento de quem Ele É resulta na não entronização do Seu nome. Desta forma, a cultura padece.
    
Juntamente com a “morte de Jesus”, temos a “morte” da doutrina apostólica. Assim como a geração de Josué pereceu, os legados dos apóstolos e dos chamados pais da Igreja – ou pais apostólicos -, registrados por eles para a manutenção do cristianismo e seu ensino às gerações posteriores, não são considerados. O estudo da chamada História da Igreja foi reduzido ao patamar da “intelectualidade inútil” ou “teologismo frio”, bem como todo arcabouço teológico, oriundo dos profetas, dos apóstolos e dos pais que ajudou a construir a ortodoxia cristã, necessária para que a Igreja permanecesse vencedora nos seus primeiros séculos de existência.
    
É claro que devemos considerar a abordagem da teologia liberal que reduz Jesus a um mero personagem histórico por analisa-Lo segundo o método histórico/crítico, baseado na dialética hegeliana, mas com um caráter materialista. Na tentativa de eliminar este erro elementar, comete-se outro erro: o de ignorar o estudo dos contextos históricos que enredam as Escrituras. Desta forma, o Jesus histórico passa a ser um Jesus meramente místico, mágico. Semelhante a um gênio da lâmpada que existe apenas para cumprir os nossos desejos que, conforme advoga a perniciosa “teologia” da prosperidade, “temos direito de recebê-los através do Sangue de Cristo”. A afirmação “eu determino em nome de Jesus” surge a roldão. Assim, Seu nome Santo e Soberano é, consequentemente, reduzido ao patamar de elemento de um chavão pronunciado com intentos mágicos. “Em nome de Jesus” é declarado com o mesmo caráter da expressão “Abracadabra”. Heresia pura e simples. Tudo isso fruto do não conhecimento de quem Ele, de fato, é.
    
O resultado não poderia ser diferente. À semelhança do povo hebreu quando construiu o bezerro de ouro, por ser o modelo de culto que ele aprendeu no Egito em 400 anos de escravidão, há denominações chamadas evangélicas que usam como adereços de culto fantasias de super-heróis, de dinossauros entre outros. Demonstrações evidentes de que os aspectos culturais seculares, chamados de cultura pop ou pop arte, - não apenas na forma (estética e linguagem), mas também na essência - permeiam seus corações de modo a determinar seus pensamentos, sentimentos e atitudes. Não podemos dizer que a intenção seja equivocada. O motivo é que não conhecem Jesus Cristo. Pois o “Cristo” que eles conhecem é completamente moldado pela cultura vigente, idólatra em sua essência. Em outras palavras, o Cristo que eles cultuam é um criado à imagem e semelhança dos anseios humanos. O nome disto é? Idolatria.    

Os povos não expulsos da terra pelos israelitas tornaram-se seus inimigos, instrumentos de opróbrio. Quando não somos governados por Deus, somos governados pelos nossos maus desejos. Aquilo que transformamos em objeto de culto torna-se nosso dominador. O povo de Israel rejeitou a vontade de Deus, fruto de Seu governo, para se conformar às culturas das civilizações idólatras e, por isso, foi por elas dominado. O que governa o nosso coração? A resposta está em nossa forma de pensar, de sentir e de agir. Expressa em nossa forma de culto. Algumas denominações ditas evangélicas estão enredadas e dominadas pelas teias do Homem-Aranha, literalmente. Outras estão no cativeiro da história antiga, cujos “sacerdotes” são dinossauros. Quem ler, entenda! Que a verdadeira Igreja de Jesus seja despertada, a fim de que Cristo, Filho do Deus vivo, O Soberano SENHOR, seja cultuado!

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Lógica milagrosa

Matheus Viana

“Se a intelectualidade cristã não nos fazer voltar os olhos para a soberania de Deus no poder do Espírito, pela fé na graça de Cristo, ela será tão vã quanto qualquer outra filosofia materialista”.

Esta frase foi publicada, recentemente, em uma rede social. O autor acredita – pois o próprio ato de publicar atesta tal fato – que realizou uma apologética cristã, fruto de uma devoção de mesmo caráter. Mas esta frase não é uma apologética porque é desprovida de elementos lógicos básicos. Caso clássico de técnica do espantalho.

Uma “intelectualidade cristã” que não faça o que o referido autor citou não pode ser considerada cristã. Ela sequer existe. É questão ontológica pura e simples. Seria o mesmo que afirmar que uma porção de água que não seja composta de moléculas formadas por átomos de hidrogênio e de oxigênio não pode ser considerada uma porção de água. Sem tais moléculas, o elemento água simplesmente não existe.

Ao ler a afirmação aqui analisada, notei, de súbito, que estava diante de uma afirmação que apregoa e analisa o que não existe como se existisse. É o mesmo equívoco que fundamenta a mentalidade daqueles que acham possível viver um cristianismo sem Cristo. Toda crítica a um cristianismo sem Cristo não tem sentido por pretender criticar o que não existe. O que temos visto em atividade em muitas denominações é uma caricatura, simulacro, qualquer outra coisa, menos cristianismo.

Vemos aqui um caso semelhante ao que Jesus certa vez enfrentou (Evangelho segundo Marcos 7:1-7). Os fariseus tratavam a ética criada pelo movimento rabínico que interpretava a Lei mosaica ao seu modo como se fossem a Lei de Deus. Seguiam algo que não era como se fosse. A Lei de Deus, manipulada e deturpada por homens, deixa de ser de Deus. Foi o que Jesus disse (Evangelho segundo Marcos 7:6-7).

Um exemplo marcante é a expressão milagre. Alguns aplicam a ela um significado reduzido. Pois consideram milagre apenas a ocorrência de sinais e prodígios. Esquecem de que milagre, de acordo com o que as Escrituras ensinam, é toda e qualquer – o pleonasmo é proposital – ação de Deus sobre a criação.

Certa vez ouvi uma pessoa dizendo que milagre é Deus operando fora das leis naturais. Não, não é. Explico por quê. Todas as leis foram estabelecidas por Deus. O homem e mesmo o diabo não têm poder de criar leis. O máximo que eles podem é deturpar as Leis de Deus. Deturpar não é criar. Se todas as leis foram criadas e estabelecidas por Deus, mesmo as que foram corrompidas como consequência do pecado do homem (Cf. Gênesis 3:17), Lhe são naturais. Todavia, embora um milagre seja considerado um acontecimento sobrenatural, ele é completamente natural para Deus.

Assim, toda ação de Deus é um milagre. Logo, não existe ação de Deus que não seja milagrosa. A criação - incluindo eu e você – é resultado da ação de Deus. Jesus ensinava e realizava sinais e prodígios. Resumindo, fazia milagres. O ato de ensinar era tão milagroso quanto as outras obras espetaculares que Ele realizou. Em Marcos 2, quando curou um paralítico, Jesus realizou dois milagres: perdoou os pecados do homem e restaurou suas pernas. Não é o perdão de Deus sobre nossos pecados um milagre? Tanto é que os próprios fariseus consideravam tal fato como sendo de competência exclusiva de Deus (Evangelho segundo Marcos 2:8-11).

Mas alguns, por não entenderem este princípio elementar, cometem o erro primário de classificar as ações de Deus como milagrosas e não milagrosas. O fato de acordarmos todas as manhãs é tão milagroso quanto ver um morto ressuscitado ou alguém curado, instantaneamente, de uma enfermidade grave. A racionalidade que nos foi concedida para entendermos as Escrituras que testificam de Jesus (Evangelho segundo João 5:39), para que possamos conhecê-Lo e imitá-Lo, é tão milagroso quanto. Assim, há quem diga que a racionalidade humana não é um milagre. Eis o mesmo princípio. O fato de um ser humano, criado por Deus, pensar é um milagre. A questão é o que fazemos com ele.

A Igreja moderna, como consequência de não se atentar a este caráter da expressão milagre, valoriza apenas o “extraordinário”. Com isso, o ensino da doutrina cristã, visando uma conduta ortodoxa, é deixada de lado. São cada vez mais comuns cultos onde não há pregação da Palavra, mas apenas orações pelos milagres sobrenaturais. Isto não é cristianismo.

Há muito mais a ser dito. Mas paro por aqui, antes que eu seja acusado - ainda mais do que já sou – de “racionalista antimilagreiro”. Quem faz tal acusação, contudo, ignora o fato de ser um milagre o fato de eu ter escrito este texto. Na verdade, o simples fato de estar vivo é um... milagre. Se você leu e entendeu este texto, acredite, foi um milagre.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Ensaios sobre o Reino de Deus - Parte II

Matheus Viana

Em qual terra? No ser humano e, consequentemente, em toda a criação. Foi neste princípio que o apóstolo Paulo declarou: “A natureza criada aguarda, com grande expectativa, a manifestação dos Filhos de Deus” (Romanos 8:19). Antes de elaborar as questões aqui analisadas, Jesus elucidou: “O Reino de Deus é semelhante a um homem que lança a semente sobre a terra” (Evangelho segundo Marcos 4:26). Analogia perfeita. O Reino de Deus começa pequeno, pois começa nos seres humanos, cuja pequenez foi relatada poeticamente pelo salmista: “Que é o homem para que com ele te importes?”. (Salmo 8:4). Mas torna-se grande, conforme o próprio Jesus afirmou: “No entanto, uma vez plantado, cresce e se torna a maior de todas as hortaliças...” (Evangelho segundo Lucas 4:32).
    
Contudo, seu processo de crescimento e desenvolvimento possui um alicerce: “uma vez plantado...”. Por ser como uma semente, ele deve ser plantado/cultivado em nós. O culto racional não é meramente causa ou efeito. É as duas coisas ao mesmo tempo. Ele é o efeito do governo de Jesus Cristo sobre nós e é por meio dele (causa) que o Reino de Deus é disseminado e manifesto, conforme Jesus ordenou, a toda criatura (Evangelho segundo Marcos 16:15) e a todas as nações (Evangelho segundo Mateus 28:19), a fim de que toda terra seja cheia do conhecimento Dele (Isaías 11:9).
    
Eis um grave problema que a Igreja no ocidente enfrenta: Uma semente chamada entretenimento tem substituído a semente chamada Reino de Deus. Semelhantemente aos primeiros seres humanos, temos trocado a ética de Deus por uma ética contrária que vá de encontro aos nossos desejos por substituirmos o culto racional por um culto ególatra. A egolatria em si é indício de que o Reino de Deus não é operante no indivíduo. Descrição precisa da realidade humana atual.

Jesus não é mais apresentado como o único e soberano SENHOR, mas como uma espécie de “guru espiritual” que oferece soluções para os anseios humanos fúteis; como um “manager”, CEO ou “coaching” – confesso minha repulsa a estes termos presentes no contexto eclesiástico - cujos princípios são usados meramente para enriquecimento material; ou como um mero psicólogo consultado para resolver tensões emocionais e afetivas.
    
A grandeza do Reino de Deus nada tem haver com ufanismo, mas com universalidade – e não universalismo (o conceito de que todos, no final das contas, serão salvos). Ou seja, visa atingir pessoas de todas as nações, mas sempre de forma humilde, uma de suas características indeléveis. Este amplo alcance, portanto, não ignora as premissas preconizadas pelo próprio Jesus: “Entrem pela porta estreita, pois larga é a porta e amplo o caminho que leva à perdição, e são muitos os que entram por ela. Como é estreita a porta, e apertado o caminho que leva à vida! São poucos o que a encontram”. (Evangelho segundo Mateus 7:13-14).
    
Aqui é necessário um ajuste de termos. Grandeza não significa ufanismo, tampouco massificação do Evangelho. O fato de Jesus ter afirmado serem poucos os que entram no Reino de Deus, por sua vez, também não significa exclusivismo ou sectarismo. Dois extremos atualmente em voga. As multidões seguiam Jesus, mas Ele estava à procura de discípulos. E este mesmo princípio Ele passou aos Seus discípulos: “Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando a obedecer a tudo o que eu lhes ordenei” (Evangelho segundo Mateus 28:19-20).
    
Nesta advertência, Jesus falou sobre os dois pontos que integram o Reino de Deus ao afirmar: “... vão e façam discípulos de todas as nações”. O fato de fazer discípulos simboliza o plantio da semente do Reino de Deus no coração do ser humano. Por sua vez, o fato de serem discípulos de todas as nações simboliza o longo alcance do germinar desta semente.
    
Muitos em meio à Igreja têm desejado multidões, o que culmina na descaracterização do Evangelho do Reino de Deus e no comprometimento do discipulado. A premissa básica que demonstra o intento de disseminarmos o Evangelho do Reino de Deus é o discipulado, conforme Jesus preconizou. No entanto, não há discipulado sem cruz. Palavras do próprio Jesus: “Aquele que quiser me seguir, negue-se a si mesmo, tome a tua cruz e siga-me” (Evangelho segundo Mateus 16:24).
    
O Evangelho, que é a base do discipulado ordenado por Cristo, não é atrativo para as multidões. Por isso a alternativa para os que as buscam é tentar a insanidade de extirpar a cruz de Cristo de modo a tornar o Evangelho do Reino atrativo. Impossível. A verdadeira conversão, o primeiro passo do discipulado, é fruto da ação do Espírito Santo no ser humano (Evangelho segundo João 16:8). O registro de Marcos em relação ao centurião romano que participou da crucificação de Jesus Cristo é pertinente neste sentido: “Quando o centurião que estava em frente de Jesus ouviu o seu brado e viu como ele morreu, disse: ‘Realmente este homem era o Filho de Deus’” (Evangelho segundo Marcos 16:39). Este centurião teve uma experiência com o Cristo crucificado. O Cristo o qual Paulo pregou (I Coríntios 2:2). Não há como desvencilhar Evangelho do Reino da cruz de Cristo.
    
Mas, infelizmente, ele tem sido substituído por um pseudo-evangelho regado a baladas gospel entre outros entretenimentos que nada tem haver com a liturgia do culto racional elucidada pelos apóstolos, parte fundamental da ortodoxia cristã. O resultado: multidões entorpecidas pelo entretenimento eclesiástico, convencidas de que são devotas a um cristianismo sem cruz, – algo cuja existência é impossível – completamente conformado com o sistema secular (Cf. Romanos 12:2). Sem Evangelho do Reino, não há discipulado. Sem discípulos, não há Igreja. Sem Igreja, não há instrumento para a manifestação do Reino de Deus sobre a terra (Cf. Evangelho segundo Mateus 16:18). Apostasia na certa.
    
Todavia, a Igreja Gloriosa de Cristo, Seu corpo na terra, triunfará. O Reino de Deus está em seu processo de crescimento sobre ela, embora completamente na contramão do “cristianismo pós-moderno”. Você é um membro dela?

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Ensaios sobre o Reino de Deus - Parte I

Matheus Viana

“Com o que compararemos o Reino de Deus?” (Evangelho segundo Marcos 4:30). A resposta a esta indagação é crucial para entendermos todo o ensino de Jesus Cristo. Ele o iniciou falando exatamente sobre o Reino de Deus (Evangelho segundo Marcos 1:15). Não foi em vão que, ao ensinar Seus discípulos a orar ao Pai, declarou: “Venha a nós o Seu Reino, seja feita a Sua vontade, assim na terra como nos céus” (Evangelho segundo Mateus 6:10). Também pudera! Antes de Sua concepção em forma humana, o anjo disse à Maria: “Você ficará grávida e dará à luz um filho, e lhe porá o nome de Jesus (...) e ele reinará para sempre sobre o povo de Jacó; seu Reino jamais terá fim”. (Evangelho segundo Lucas 1:33).

Seu antecessor, João, o Batista, viveu pautado na mesma temática (Evangelho segundo Mateus 3:2). Os profetas que profetizaram a vinda de Jesus, como Isaías, por exemplo, declararam que Ele viria como o Rei que estabeleceria o Reino de Deus: “Então, em amor será firmado um trono; em fidelidade um homem se assentará nele na tenda de Davi: um juiz que busca a justiça e se apressa em defender o que é justo” (Isaías 16:5).

O fato de O Reino de Deus ser a essência da vida de Jesus levou Seus discípulos, após Sua ressurreição, Lhe perguntarem: “Senhor, é neste tempo que vais restaurar o reino em Israel?” (Atos 1:6). Ao estabelecer sobre eles a chamada grande comissão, lhes afirmou: “Foi-me dada toda a autoridade nos céus e na terra” (Evangelho segundo Mateus 28:18). Antes disso, portanto, lhes advertiu: “E este evangelho do Reino será pregado em todo o mundo...” (Evangelho segundo Mateus 24:14 – Ênfase acrescentada). É impossível dissociar Reino de Deus do Evangelho de Jesus Cristo, bem como de Sua pessoa.

A primeira vez que apareceu o termo evangelho nas Escrituras foi na carta do apóstolo Paulo aos romanos. Este era um termo de caráter governamental utilizado pelo império romano. Conforme ensina o professor Franklin Ferreira, quando uma nação era conquistada por Roma, era-lhe enviada uma comitiva de emissários para levar o evangelion. Isto era a mensagem de que aquela nação tornara-se propriedade do império e que o César estava a caminho de sua parousia: a ida do imperador para estabelecer nela seu governo.

Este termo, em seu sentido literal, significa estar presente. A doutrina apostólica cristã o utilizava para se referir à vinda definitiva de Jesus Cristo à terra para julgá-la e reinar plenamente sobre ela. Sendo assim, o evangelho é o Reino de Deus estabelecido sobre o ser humano, e consequentemente sobre toda a terra, para que o Rei, Jesus Cristo, venha (parousia) e reine de maneira soberana.
    
Ao utilizar o termo evangelho, Paulo quis afirmar que o verdadeiro governante não era César, mas Jesus Cristo. Por isso ele (Paulo) era um enviado do próprio Jesus Cristo para pregar o verdadeiro evangelho: O Reino de Jesus Cristo. E foi exatamente este evangelho do Reino sobre o qual Jesus elucidou, conforme registrou o evangelista Mateus, no versículo citado nas linhas acima. Isto, portanto, não foi mero elemento do advento messiânico de Sua encarnação, mas algo manifestado pelo Deus Trino desde a criação.

O governo que o ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus, exerceria sobre a terra (Gênesis 1:28) seria o reflexo do governo que Deus exerce nos céus e sobre o ser humano. Por isso, ribomba sobre nós a indagação feita por Jesus. Mas antes de tentar responde-la, precisamos responder outra que lhe está diretamente relacionada: O que é o Reino de Deus?
    
Jesus não respondeu esta questão de forma direta. Quanto mais estudamos as Escrituras, fica mais claro que a resposta começa com o que não é o Reino de Deus. Jesus disse que ele não é físico nem visível: “O Reino de Deus não vem de modo visível, nem se dirá: ‘Aqui está ele’, ou ‘Lá está’; porque o Reino de Deus está entre vocês”. (Evangelho segundo Lucas 17:20-21). Ele também disse que o governo que lhe é característico não é a tirania dos homens, mas consiste em servir (Evangelho segundo Mateus 20:25-28). O apóstolo Paulo afirmou que ele não é comida nem bebida, mas paz, justiça e alegria no Espírito Santo (Romanos 14:17).
    
Várias definições de Reino de Deus podem ser, como foram ao longo da história, construídas a partir das expectativas e anseios das pessoas. Os judeus, após milênios sofrendo sob diferentes cativeiros, aguardavam o Messias que estabeleceria um reino político e militar que restauraria o trono de Davi e os libertaria do jugo do império romano. Quando Jesus pergunta aos Seus ouvintes sobre com o que o Reino de Deus poderia ser comparado, um dos intentos era demonstrar que ele era na contramão do clamor popular. Esta pergunta é pertinente a nós. A definição de Reino de Deus é concernente às nossas expectativas e anseios?
    
Em meio a todas as características que mostram o que o Reino de Deus não é, há uma que ajuda a definir o que ele é: “... o Reino de Deus está entre vocês” (Evangelho segundo Lucas 17:21). Ele é uma pessoa: Jesus Cristo. Após indagar sobre com o que o Reino de Deus poderia ser comparado, Jesus questiona sobre como ele poderia ser descrito. Passa então, ao mesmo tempo, a compará-lo e a descrevê-lo como um grão de mostarda (Evangelho segundo Lucas 4:31). Por que grão de mostarda? Por que Jesus usou como metáfora algo pequeno para elucidar sobre algo magnífico? Um dos motivos é porque o grão de mostarda é a menor semente que se planta na terra.

Plantar na terra. Longe de ser mera característica, é fator essencial. Ele simboliza a encarnação de Deus em forma humana (Evangelho segundo João 1:14). A semente de Deus plantada/cultivada no ventre humano a fim de que o Deus Filho participasse da natureza humana para redimi-la. O ser humano, feito do pó-da-terra, foi receptáculo da vida (fôlego) de Deus (Gênesis 2:7) e, consequentemente, de Sua ética (Gênesis 1:28). Por isso, a maneira que Deus instituiu ao homem para cultuá-Lo foi cultivar a terra/solo do jardim onde habitava (Gênesis 2:15). O Reino de Deus começa com o plantio/cultivo na terra. Começa com culto racional.


Continua...