quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Interação por instrução

Matheus Viana

A primeira interação de Deus com o homem, após este ser constituído como ser vivente, foi a emissão de Sua bênção e, logo em seguida, uma instrução. A narrativa bíblica é concisa: “Deus os abençoou e lhes disse: ‘Sejam férteis e multipliquem-se! Encham e subjuguem a terra! Dominem sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre os animais que se movem pela terra.’” (Gênesis 1:28).

O que foi este abençoar? O soprar de Seu fôlego de vida (Gênesis 2:7). A partir do momento em que o homem recebe o fôlego divino, torna-se um ser consciente de sua existência. Mas tal consciência, por si só, não foi suficiente para a obtenção da consciência do propósito de sua existência. Algo que ocorre progressivamente e que evidencia a importância da instrução (ensino). É inevitável, diante deste quadro, o seguinte raciocínio: Sei que existo. Mas, por que e para que existo?

Este é o drama que o ser humano busca responder. Ele é a origem de todas as filosofias e ideologias. A instrução de Deus, que nada mais foi do que o revelar de Seu propósito ao homem, foi – e é – a resposta. Por isso o ensino é fundamental em nossa relação com Deus e, consequentemente, com o nosso próximo.

Há características fundamentais na instrução (ensino) de Deus ao homem. São elas: Autoridade e ordem. Tal instrução foi imperativa, e não meramente elucidativa como propõe a pedagogia “laica”. Como resultado da degradante relativização dos absolutos divinos, a autoridade tem sido reduzida a um construtivismo improdutivo, que faz a criança raciocinar apenas sobre suas experiências sensoriais e cognitivas, mesmo que ela não tenha a capacidade de aplicar sentido e significado a elas.

Conforme elucidei no livro Culto racional, a relação com a criação (natureza) é resultado da relação com o Criador. Antes de providenciar-lhe a experiência oriunda da relação com a criação, Deus fez com que o homem se relacionasse com o Criador. E este relacionamento é baseado em Espírito (fôlego de vida) e em verdade (instrução). Foi neste mote que Jesus instruiu a mulher samaritana sobre o culto racional (Evangelho segundo João 4:24). Toda racionalidade sã é resultado da relação do homem com a razão divina (sobrenatural).

Não há pedagogia sem ordem. Deus organizou a criação para colocar nela sua criatura principal. A instrução de Deus foi feita mediante ordens (imperativos) a fim de que o homem, ao recebê-las, as transmitisse a toda a criação. Antes de soprar Seu fôlego de vida sobre o homem, Deus fez seu corpo do pó da terra. Houve uma ordem criacional. E esta ordem, em todos os âmbitos, é oriunda de um imperativo: “Disse Deus: ‘Haja luz!’ E houve luz.” (Gênesis 1:3). A narrativa bíblica é clara. Deus colocou ordem no caos separando luz e trevas e também águas debaixo do firmamento das águas de cima dele (Gênesis 1:4-7).

Este princípio de ordem estava presente na instrução de Deus ao homem. Por sua vez, não existe ordem sem autoridade. Aqui é preciso diferenciar, para conceituarmos ordem, mandato e organização. Toda organização é resultante de um mandato (imperativo), seja ele de nós para nós mesmos ou de terceiros. Um mandato é emitido por alguém que exerce... autoridade. Logo, todo mandato tem como origem o de Deus à Sua criação, incluindo o homem.

A degradação atual, principalmente nos âmbitos social e moral, é consequência da degradação intelectual (considerando implicitamente a espiritual). E esta é resultado da abordagem pedagógica utilizada em nosso contexto. Pois toda autoridade, pelo fato da sociedade contemporânea agir sob a regência do materialismo histórico/dialético, é vista como opressora. Sem autoridade, não há ordem no processo do pensamento, que por sua vez leva ao conhecimento. A dificuldade da presente geração em organizar, de forma sistemática, seus raciocínios e consequentes aprendizagens é a suma demonstração deste caos.

O conhecido provérbio bíblico preconiza: “Ensina a criança o caminho em que deve andar.” (Provérbios 22:6). É notório o fato de que não é possível separar autoridade da atividade pedagógica. São aspectos coesos, implícitos um no outro. É desta autoridade que emana a ordem. Baseado nela, a criança, quando for adulta, não errará sua conduta.

A proposta da serpente ainda ressoa. Ela relativizou, perante Eva, a autoridade de Deus, primeiro transformando-a em autoritarismo; e depois transformando as verdades absolutas em mentiras e vice-versa. Transfiguração de conceitos e valores que o apóstolo Paulo denunciou em sua carta aos romanos (Romanos 1:23-25). A figura do professor em sala de aula está cada vez mais desprovida de autoridade, assim como a dos pais em suas casas.  

Esta autoridade não pode ser confundida com autoritarismo. Vemos que a autoridade de Deus sobre o homem, fundamento de Sua instrução a ele, tinha como intento prover sentido à sua existência a fim de que vivesse de maneira plena. Sem tal instrução, o homem estaria perdido em meio àquele vasto paraíso, pois não saberia o que fazer, muito menos o porquê de estar ali. Não é este o panorama da sociedade pós-moderna?

Sem sentido, o homem está perdido no labirinto de sua existência. Na tentativa de sair deste emaranhado, cria filosofias as mais diversas possíveis. Existencialismo e niilismo são apenas alguns exemplos. Mas não logra êxito em tal empreitada. Pois são filosofias baseadas em pressupostos que ignoram o aspecto principal do pensamento: autoridade de Deus, fonte de toda autoridade (Cf. Evangelho segundo Mateus 28:18-19).

Pensamos porque em nosso cérebro ocorre um complexo processo neural através das sinapses. Este processo obedece as leis e princípios eletroquímicos. Quando este processo “desobedece” estas leis, há desordem. E esta desordem causa males ao ser humano que a possui. O mesmo princípio aplica-se a todo o nosso corpo.

O Universo funciona através de leis físicas. A interação entre elas dá-se por uma ordem. Quando o ser humano pecou, esta ordem foi, de certa forma, comprometida (Gênesis 3:17). Mas a misericórdia de Deus, manifesta através da Graça comum, mantém a ordem no universo, apesar da degradação humana.

Nossa restauração ao padrão original de Deus ao homem inicia-se com o reconhecimento do Senhorio de Cristo sobre nós (autoridade), que a Bíblia chama de arrependimento. E desta autoridade o Espírito Santo tem liberdade para nos restaurar, conforme o apóstolo Paulo escreveu aos coríntios: “Mas todos nós com o rosto desvendado, contemplando como por espelho a glória do Senhor, somos transformados de Glória em Glória, conforme Sua imagem, como pelo Senhor, o Espírito.” (II Coríntios 3:18). Tal restauração é impossível sem instrução.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Senso perfeito

Matheus Viana

Não existe perfeição longe de Deus. A perfeição refletida na natureza se perdeu por conta do ser humano cometer a insanidade de buscá-la à revelia de Deus (Cf. Gênesis 3:17). A beleza que encontramos hoje na natureza, que é suficiente para nos deixar atônitos, é uma pálida demonstração da perfeição do Criador.

O ser humano cobiçou e comeu do fruto ilícito por querer obter o conhecimento que não lhe era devido e, consequentemente, ser como Deus. Isso mesmo: ele queria ser como somente Deus é: Perfeito. A partir de então, o desejo se transformou em necessidade. Por isso nos esforçamos para supri-la.

As academias estão cada vez mais lotadas de pessoas ávidas para alcançarem o “corpo perfeito”. Vemos tal necessidade se manifestar nas várias áreas da vida, como por exemplo, nas artes e nos esportes. Há os que dizem - principalmente os darwinistas, baseados em uma cosmovisão naturalista/materialista - que ela é uma construção social. Se for, em que momento da “evolução” ela começou a ser construída? Onde e quando a necessidade de tal construção se originou? A falta de resposta a tais questões evidencia que tal suposição é equivocada.

A expressão usada no Novo Testamento Bíblico, traduzida como perfeito, é teleion, que pode também ser traduzida como completo. Perfeito também significa ser completo. Mas isso não significa que ser perfeito é apenas estar completo. Perfeição é a beleza que não é apenas a maior entre todas, mas a que serve de parâmetro para algo que possua ou alguém que deseja possuir tal característica. Lembrando que perfeição não é apenas um elemento de cunho estético, mas também ético e, sobretudo, de essência.

Conforme afirmou Tomás de Aquino, a necessidade de alcançar tal ideal tem origem em um Ser perfeito, cuja existência é necessária para a existência da perfeição. Não há como não recorrer ao argumento de René Descartes, mesmo desconsiderando todo seu mecanicismo racionalista, de que uma mente que dúvida é imperfeita, pois se duvida é porque não possui todo o conhecimento. Mesmo assim, ela tem a ideia de que a perfeição existe. Baseado nisto, Descartes afirmou que esta ideia não pode ter origem em algo imperfeito, mas apenas em algo perfeito: Deus. Por isso, conforme afirmei no livro Culto racional, Deus indagou a Jó: “Quem deu sabedoria ao coração e entendimento à mente?” (Jó 38:36). Óbvio que Jó sabia a resposta, assim como você também sabe.

Certa vez Deus propôs a Abraão: “Anda na minha presença e seja perfeito.” (Gênesis 17:1). A expressão traduzida por perfeito é tamiym, que significa completo ou íntegro. Esta foi a expressão usada, por exemplo, em Gênesis 6:9: “Noé era um homem justo e íntegro (tamiym) em sua geração. Ele andava com Deus”.

Noé vivia, com sua família, em meio de uma humanidade severamente corrompida. Uma degradação tão intensa que causou a ira de Deus e O levou a sentenciar: “Por causa da perversidade do homem, meu Espírito não contenderá com ele para sempre.” (Gênesis 6:3). A narrativa é clara e detalhada: “O SENHOR viu que a perversidade do homem tinha aumentado na terra e que toda a inclinação dos pensamentos do seu coração era sempre e somente para o mal.” (Gênesis 6:5). Realidade semelhante à descrita por Paulo em sua carta aos romanos (Romanos 1:21-24) e também à nossa.

Noé foi achado íntegro porque, mesmo vivendo em meio de uma geração corrupta, “andava com Deus”. Esta foi a perfeição que Deus propôs a Abraão. Vemos em ambos os casos o princípio de que Presença de Deus e perfeição são indissociáveis. Uma não é possível sem a outra. Assim, temos que concluir que qualquer ideal de perfeição desprovido de Presença de Deus é, além de idolatria, uma ilusão. 

Atrelada à necessidade de alcançar a perfeição está a referência existencial, que é a necessidade de ter como referência algo ou alguém em que você molda sua existência, seja de forma inconsciente ou consciente. Um músico, por exemplo, busca a perfeição musical baseado na performance de outro músico que ele julga possuir tal característica. O mesmo princípio está presente em outras áreas.

O fato de Deus chamar Abraão para andar com Ele e ser íntegro demonstra a veracidade deste princípio. O homem foi formado à imagem e semelhança de Deus. Ele (Deus) foi – e É – o modelo usado na formação humana. Por isso o apóstolo Paulo revelou, em sua carta aos romanos, o propósito de Deus a nós de vivermos conforme a imagem e semelhança de Seu Filho Unigênito, ou seja, termos Ele como nossa referência existencial (Romanos 8:29). Ele é a imagem do Deus invisível (Colossenses 1:15). Assim, Ele é o Ser perfeito, a origem e modelo da perfeição. Por isso o apóstolo Paulo afirmou: “Prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus.” (Filipenses 3:14). Esta soberana vocação é ser perfeito em Cristo. Algo redundante.

Não há como separar a busca em ser perfeito do motivo que a pavimenta. Por que queremos ser perfeitos? O motivo é demonstrado pelo objeto que utilizamos como referência. Se é Jesus, o Deus encarnado, veremos que uma das características de perfeição é humildade. No entanto, ela não existe sem o reconhecimento do pleno Senhorio de Cristo sobre nós.

Como um erudito judeu, conhecedor destes princípios, o apóstolo Paulo preconizou: “Nós o proclamamos, advertindo e ensinando a cada um com toda a sabedoria, para que apresentemos todo homem perfeito (teleion) em Cristo.” (Colossenses 1:28). Nosso aperfeiçoamento se dá na medida em que conhecemos o Ser perfeito (Jesus) e nos submetemos a Ele. Tal conhecimento, no entanto, se dá através da advertência e do ensino de Sua Palavra (Evangelho segundo João 5:39). Entra em cena o culto racional. 

Uma vez comprometido o ensino sobre quem Jesus, o Ser perfeito, é; a obtenção do conhecimento da perfeição também se compromete, não indo além da consciência de sua existência. Por isso estamos muito longe de sermos perfeitos, a fim de que o mundo veja Jesus em nós, a esperança da Glória para um mundo corrompido como o que Noé viveu e que Paulo experimentou e relatou, e por isso advertiu: “A natureza criada aguarda, com grande expectativa, que os filhos de Deus sejam revelados, não pela sua própria escolha, mas por causa da vontade daquele que a sujeitou, na esperança de que a própria natureza criada será libertada da escravidão da decadência em que se encontra, recebendo a gloriosa liberdade dos filhos de Deus.” (Romanos 8:19-21).

Por isso, devemos atender a advertência de Jesus: “Sede perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste.” (Evangelho segundo Mateus 5:48).

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Cristianismo e política - Parte II

Matheus Viana

Obs: não deixe de ler a Parte I

Em primeiro lugar, existimos pela Graça de Deus, que Paulo chama de superabundante (Romanos 5:20). O cristianismo - bem como o culto racional que dele emana - começa com o fato de que, por sermos miseravelmente pecadores (Salmos 51:5, Romanos 5:12), fomos alcançados e salvos pela Graça e Misericórdia de Deus (Efésios 2:8-9). Sendo assim, nossa cidadania/política deve ser alicerçada neste ato. Devemos agir de maneira digna do Evangelho de Cristo não para sermos salvos, mas porque somos salvos. Portanto, não há mérito nenhum nisso.

A liberdade individual que o ideário de direita pleiteia é, em uma de suas variantes, desprovida de autoridade. Logo, não é liberdade. Conforme Montesquieu preconizou: “O homem é livre para fazer o que a lei o permite fazer”. Trata-se, como alguns mesmos afirmam, de libertarianismo. Nesta proposta não há nenhum elemento regulador. Qualquer tentativa de regulação que não seja o próprio exercício desta libertinagem é considerada como intervencionismo. Não podemos deixar de observar, contudo, a proposta ditatorial existente por trás da intervenção do Estado comunossocialista.

A liberdade que o cristão deve viver, por sua vez, é pautada na autoridade de um padrão ético. Por isso Jesus afirmou: “Conhecereis a verdade, e a verdade os libertará.” (Evangelho segundo João 8:32). Não há liberdade desprovida da Verdade, que é o próprio Cristo (Evangelho segundo João 14:6). Ser livre em Cristo é estar livre do domínio do pecado e de tudo que nos impede de realizar a vontade de Deus a nós sobre a terra a fim de que Seu nome seja glorificado e Seu Reino estabelecido (Evangelho segundo Mateus 16:18). Qualquer liberdade que não esteja nela pavimentada é escravidão ególatra.

O apóstolo Paulo advertiu: “Irmãos, vocês foram chamados para a liberdade. Mas não usem a liberdade para dar ocasião à vontade da carne; ao contrário, sirvam uns aos outros mediante o amor.” (Gálatas 5:3). O apóstolo Pedro reiterou: “Vivam como pessoas livres, mas não usem a liberdade como desculpa para fazer o mal; vivam como servos de Deus.” (I Pedro 2:16). E não podemos deixar de falar do individualismo monetário. Este ponto merece uma reflexão a parte que faremos em outro momento.

Já a esquerda... Seus prosélitos confundem justiça social com igualdade social, comunidade com comunismo, coletividade com coletivismo e individualidade com individualismo. Desconsideram o princípio de propriedade privada dado por Deus, atrelado à Sua mordomia, do exercício político do ser humano. Querem acabar com ela sob o pretexto de ser a causadora da desigualdade social e de todas as mazelas do mundo. O resultado é automático: agigantamento do Estado e a miséria da população a ele submetida. Cuba e Venezuela são exemplos. No marxismo, em suas diversas vertentes, além da religião ser considerada o ópio do povo, o pecado não é considerado. Culpa é algo que o ideário de esquerda não acalenta. Pois a culpa é sempre do sistema opressor. Mas quem é o opressor? Todo aquele que o contraria.

Quando Marx elaborou tal teoria, a burguesia (que classificou, em sua dialética materialista/histórico, como classe opressora do proletariado) era vista como a infraestrutura do Estado. A superestrutura era a Igreja cristã, ou melhor, o cristianismo. Assim, para acabar com as mazelas sociais vistas em seu tempo, Marx propôs, através do levante popular violento, que ele mesmo chamou de holocausto revolucionário, acabar com o cristianismo e fazer sucumbir a Igreja. Seria um efeito cascata. Ruindo a Igreja e a moral judaico-cristã, representada pelo cristianismo, não haveria mais pilar de sustentação do Estado, resultando na dissolução da ordem política e econômica da burguesia. Instalado o caos, estaria preparado o terreno para o estabelecimento da revolução comunista.

Qualquer semelhança com a atualidade não é mera coincidência. Não é em vão que a legislação, a educação e a cultura estatais atuais são frontal e claramente anticristãs. Atualmente, a revolução não se dá através do levante popular violento, como queria Marx. Mas através dos meios sociais, conforme propôs os representantes da escola de Frankfurt; através dos meios culturais, institucionais e políticos, conforme propôs Antonio Gramsci; através da educação pedagógica, conforme propôs Lev Vygotski, John Dewey e Jean Piaget; e através dos meios econômicos, conforme preconizou Lênin e Keynes.

Não há como exercer uma cidadania digna do Evangelho de Cristo coadunando com tais ideologias frontalmente contrárias à teonomia exercida por Cristo e pelos apóstolos.

terça-feira, 14 de junho de 2016

Cristianismo e política - Parte I

Matheus Viana

A oração sacerdotal feita por Jesus foi enfática: “Não rogo que os tires do mundo, mas que os protejas do maligno.” (Evangelho segundo João 17:15). Nela está inserida a relação entre o cristianismo e o que conhecemos como política.

Desde que o ser humano se apartou de Deus, ele se tornou, conforme preconizou Aristóteles, um ser político. O que isto significa? Que o homem passou a elaborar, por si mesmo, seu modus vivendi. Pois, conforme o próprio Deus estabeleceu a partir de Adão: “Do suor do teu rosto comerás.” (Gênesis 3:19). Antes do pecado, o homem obedecia a ética e o propósito de Deus sobre ele. E baseado nestes aspectos exercia cultura, ou melhor, realizava o culto racional.

Com o surgimento das diversas civilizações, Deus escolheu uma família: Abrão e Sarai, para, a partir dela, erguer para Si um povo exclusivo e Se revelar perante os demais povos (Gênesis 12:1-3). No processo de formação da sociedade hebraica, Deus estabeleceu leis e normas necessárias para tal finalidade. Elas eram a demonstração de um modelo de governo: o teocêntrico. Este também era o modelo que regia as demais sociedades pautadas em suas respectivas divindades, no caso das politeístas, e conjuntos de leis. Fato que demonstra a existência do que é chamado de senso religioso. Logo, não há como desvencilhar este senso do exercício da política. As premissas que constituem o estabelecimento de um Estado laico, conforme veremos posteriormente, são religiosas. Um paradoxo.

Cultura é a relação do homem com o ambiente em que vive. Ela não existe sem normas, que podem ser transformadas em leis. Rousseau disse que não é possível organizar uma sociedade sem o que chamou de contrato social. E não há contrato social sem leis. Esta organização e a consequente observação pelos membros de determinada sociedade são chamadas de política.

O cristianismo é teonômico. A política que rege o cristão é pautada na Lei (vontade e propósito) de Deus estabelecida no coração humano (Salmos 119:11, Jeremias 31:31, Gálatas 2:20). Ou seja, seus atos individuais e coletivos (sociais) são pautados pela Vontade de Deus revelada em Sua Palavra e plantada no interior do homem pelo Espírito Santo.

Paulo exortou os cristãos de Filipos dizendo: “Não importa o que aconteça, exerçam a sua cidadania de maneira digna do evangelho de Cristo.” (Filipenses 1:27). A expressão traduzida como cidadania é politeúeste, que tem origem na expressão polités, traduzida como cidadão. Dela também se derivam as expressões politiké/politikós, traduzidas como política. Sendo assim, cidadania e política são a mesma coisa. 

Paulo, então, nos exortou a exercemos a nossa cidadania, ou seja, fazermos política, e não nos omitirmos. Contudo, tal exercício não deve ser de acordo com o padrão dos homens, mas de acordo com a ética do Evangelho de Cristo que não é um conjunto de meros escritos, mas da Lei de Deus e do Legado do próprio Cristo (Evangelho segundo João 5:39, 6:63). Ou seja, viver como Ele viveu (Romanos 8:29), fazendo e ensinando o que Ele fez e ensinou (Atos 1:1). O fato de Jesus ser o pleno cumprimento da Lei de Deus (Romanos 10:4) não é em vão. Ele é a personificação desta convergência por ser a nossa teonomia. Nele deve estar baseada a nossa cidadania.

Sendo assim, nossa cidadania/política deve ser completamente desprovida de ideologias humanas. Sobre isso, o mesmo apóstolo reiterou: “Tenham cuidado para que ninguém os escravize a filosofias vãs e enganosas, que se fundamentam em tradições humanas e nos princípios elementares deste mundo, e não em Cristo.” (Colossenses 2:8).

O espectro político brasileiro – e em muitos países em todo o mundo - é polarizado, mesmo após a queda do muro de Berlim em 1989 e o fim do império soviético, entre as ideologias de direita e de esquerda, gravitando entre simpatizantes do que é conhecido como centro. Grosso modo, a ideologia de direita preza pela liberdade e a meritocracia individuais. Já a esquerda pleiteia a utopia da economia planificada através da supremacia estatal, tendo como intermediário o que Karl Marx chamou de ditadura do proletariado. O fato de que toda prática política é baseada no senso religioso fica evidente na construção de deuses como instrumentos para o alcance de determinados objetivos. Os de direita têm como deuses o mérito, a liberdade e o dinheiro. Já os de esquerda têm o Estado e o ideal revolucionário como entes a serem cultuados.

Ambas ideologias não coadunam com o Evangelho de Cristo. Veremos, em breve, alguns argumentos que fundamentam tal fato.

Continua...

terça-feira, 7 de junho de 2016

Frutos de arrependimento

Matheus Viana

A mensagem de João, o batista, era clara e sucinta: “Deem fruto que mostre o arrependimento.” (Evangelho segundo Mateus 3:8). Não há como dissocia-la do cristianismo. O apostolo Paulo, seguindo este mote, preconizou: “A tristeza segundo Deus não traz remorso, mas sim um arrependimento que leva à salvação...” (II Coríntios 7:10).

Não há conversão sem arrependimento. Pois um é causa (arrependimento) e o outro é o efeito (conversão). Mas embora seja causa, arrependimento também é um efeito. É a síntese de um processo que começa com a consciência (reconhecimento) do pecado, passa pela confissão (quebrantamento) e aflora na mudança de atitude. Sendo assim, arrependimento começa na mente, o primeiro elemento humano degradado pelo ardiloso argumento da serpente, a fim de atingir o coração (Provérbios 4:23) e ser demonstrada por ações (Tiago 1:22). Isto é culto racional.

Não foi em vão que os registros contidos no Evangelho segundo Mateus e nas cartas de Paulo trazem o termo metanoia para se referir ao arrependimento. Metanoia é mudança de mente. Mas mudança para melhor. A tradução literal do termo é além da mente. Assim sendo, arrependimento não é, em primeiro lugar, produto do racionalismo. A mente humana, por si só, não é capaz de produzi-lo. Arrependimento é o Espírito Santo agindo na mente humana, conforme Jesus advertiu, convencendo o homem de seu pecado e, consequentemente, da justiça e do juízo de Deus (Evangelho segundo João 16:8).

Metanoia é ter a nossa mente transformada para, a partir de então, ser submissa ao conhecimento de Cristo (II Coríntios 10:5). Ambos se dão através da análise, entendimento e conhecimento das Escrituras. Não foi em vão que Jesus afirmou: “Examinai as Escrituras, pois elas de mim testificam.” (Evangelho segundo João 5:39).

Presenciamos um evidente crescimento demográfico de cristãos. Mas, ao contrário de outros momentos da história, ele não tem gerado os efeitos esperados e devidos. Não temos feito diferença nas sociedades as quais a Igreja está inserida pelo fato de que grande parte do atual contingente cristão não passou por uma experiência de conversão. E tal fato se dá por não haver um verdadeiro processo de arrependimento. Este, por sua vez, não ocorre porque o Evangelho de Cristo não tem sido disseminado.

O que vemos atualmente são arremedos de um cristianismo travestido de autoajuda ou de uma filosofia conveniente aos ouvintes. Foi sobre esta realidade que o apóstolo Paulo elucidou: “Pois virá o tempo em que não suportarão a sã doutrina; ao contrário, sentindo coceira nos ouvidos, juntarão mestres para si mesmos, segundo seus próprios desejos. Eles se recusarão a dar ouvidos à verdade, voltando-se para os mitos” (II Timóteo 4:3-4). Este tempo chegou!

Os que se dirigiam até as margens do Jordão para ouvirem e serem batizados por João conheciam a Lei dada por Deus através de Moisés, mas não a praticavam de acordo com a vontade de Deus, como sinal de arrependimento. Logo, tal observância não passava de ritualismo frívolo. Foi então que Deus, através de João, declarou: “Quero que vocês demonstrem, com suas atitudes, o quanto estão arrependidos.” (Cf. Evangelho segundo Mateus 3:8). Deus não tolera justificativas e reivindicações, apenas arrependimento demonstrado por suas atitudes. Qualquer ação destoante deve ser rechaçada: “O machado já está posto à raiz das árvores, e toda árvore que não der bom fruto será cortada e lançada ao fogo.” (Evangelho segundo Mateus 3:10).

O discurso de Jesus tem o mesmo tom. Disse certa vez aos seus discípulos: “Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. Todo ramo que, estando em mim, não dá fruto, ele corta...” (Evangelho segundo João 15:3). Veja que Jesus afirma dois aspectos fundamentais: Ele é a videira e o Pai é o agricultor. Nossas ações devem ser resultantes de arrependimento. Apesar de fundamental, tal fato não é suficiente. É preciso que nossas ações sejam produtos do fato de nossa vida estar alicerçada em Cristo. Em linguagem aristotélica, nossos atos devem ter Jesus como potência. Traduzindo, devemos fazer e ensinar o que Jesus fez e ensinou como resultado de sentirmos (Filipenses 2:5, o que não é um mero sentimento) e pensarmos como Ele (I Coríntios 2:16).

Além disso, Deus – o Pai – deve ser o agricultor. É Ele quem efetua em nós o querer e o realizar (Filipenses 2:13). Nossas ações não devem ser frutos de nossos desejos próprios com suas devidas conveniências. A obra é Dele. A colheita é para Ele. Sendo assim, qualquer vanglória humana não tem lugar nem sentido.

Diante disto, reflita: Tens produzido frutos de arrependimento?