sábado, 18 de abril de 2015

Ensaios sobre ‘Influência’ e ‘relevância’ – Parte II

Matheus Viana

Obs: Caso não tenha feito, leia antes a parte I deste ensaio para melhor compreensão.

Sei que alguns serão rápidos em refutar a reflexão do texto anterior: “Mas o episódio de Pentecostes mostra que é possível conciliar multidões com o verdadeiro Evangelho.” É fundamental notarmos que o número de pessoas batizadas foi aproximadamente de três mil (Atos 2:41). No entanto, temos que evocar a estatística e empregá-la no número total de pessoas que ouviram o discurso de Pedro.

Por ser, na ocasião, a celebração de Pentecostes, estavam presentes cidadãos de várias nações (Atos 2:8-11). Ou seja, embora a narrativa de Lucas não detalhe, seguramente havia um número muito superior aos três mil que foram batizados. Sendo assim, será que podemos chamar de multidão estes três mil se este número for comparado a todos os presentes? Sim se reconhecermos o valor do indivíduo diante de Deus.

Há também os que dirão: “O sonho de Deus é o de ter muitos filhos semelhantes a Jesus, conforme está escrito em romanos 8:29.” Sim, Deus deseja com que muitos sejam salvos. Não advogo a causa de que apenas poucos serão salvos, embora também não defenda o universalismo. Por isso me acusar de sectário ou exclusivista é incoerente. O que abordo é que a prioridade do “alcance das multidões” não pode estar acima da propagação do Evangelho. Pois, repito, o segundo aspecto deve ser a causa e o primeiro o mero efeito, e não no sentido inverso como ocorre atualmente. Neste caso, a ordem dos fatores altera o resultado.

Lucas salienta o crescimento demográfico da Igreja: “Assim, a palavra de Deus se espalhava. Crescia rapidamente o número de discípulos em Jerusalém: também um grande número de sacerdotes obedecia a fé.” (Atos 6:7). Conforme vemos nos relatos anteriores, Pedro e os demais apóstolos estavam comprometidos com a propagação do verdadeiro Evangelho. Tal crescimento - que podemos chamar de vertiginoso -, no entanto, não era oriundo de um evangelho corrompido e contaminado por uma autoajuda ineficaz como o que vemos ser disseminado atualmente.

Tal crescimento também era resultado do valor que eles davam ao indivíduo (Atos 2:46-47). Vemos que no glorioso episódio de Pentecostes cada um dos presentes ouviu as maravilhas de Deus em Sua própria língua (Atos 2:7). Deus ama o mundo (Evangelho segundo João 3:16), mas dá ênfase ao indivíduo (Jeremias 1:5, Salmo 139:13). Jesus, como Deus, compreendia tal valor. Por isso não poupou esforços em consolar Pedro, abatido pela depressão, de chamá-lo para a suprema obra de apascentar Suas ovelhas (Evangelho segundo João 21:17). Não importou em mostrar suas feridas, já ressuscitado, ao incrédulo Tomé (Evangelho segundo João 20:27).

Jesus respeita a individualidade, algo que a Igreja, no afã de “conquistar multidões”, abandonou. O fiel tem que se moldar ao sistema eclesiástico vigente. Caso contrário, “atrapalha o processo de evangelismo e conversão”. Por muitos anos não consegui me encaixar na “engrenagem” de um destes sistemas. Por isso, permaneci “infrutífero”. Pela misericórdia de Deus, foi me dada uma oportunidade de servi-Lo segundo os dons que Ele me concedeu: escrita e ensino. Há alguns anos sou professor de ensino religioso e capelão escolar em uma escola cristã, e de teologia sistemática no seminário teológico da congregação onde frequento. Não pedi nenhum destes cargos. Apenas minha individualidade foi reconhecida. E isso me permitiu ser usado por Deus e, consequentemente, influenciar pessoas.

Não, não tenho uma “multidão” que me segue. Apenas poucos alunos que o Espírito Santo, também através de minhas aulas, fez com que tivessem um encontro com o Cristo das Escrituras que Paulo, ao elucidar sobre sua influência, adverte os cristãos a seguirem. Não importa a quantidade. O que importa é que estas pessoas estão seguindo a Cristo, e não propriamente a minha pessoa ou um sistema humano qualquer. Aliás, não há outro “sistema” além do preconizado por Paulo em sua carta aos efésios (Efésios 2:20-22).

Sim, sei da responsabilidade de meu testemunho. Vigio para que o fazer e ensinar de Jesus (Atos 1:1) seja vigente em minha vida (Tiago 1:22). E o fato de desejar que os meus alunos sigam Cristo me compele a ser Seu referencial para eles. Portanto, minha parte é apenas dar aulas e praticá-las com “temor e tremor” (Filipenses 2:12). O restante é papel do Espírito Santo (Evangelho segundo João 16:8-13).

Juntamente com influência, o termo relevância também tem sofrido uma séria distorção em seu conceito. Pois relevante, de acordo com o senso comum vigente no meio evangélico, é influenciar o maior número possível de pessoas. E influenciar é definido como fazer com que uma pessoa lhe siga. Por isso tentam mesclar o Evangelho com muitas estratégias corporativas.

O resultado? Uma teologia que ignora preceitos básicos da fé como renúncia e arrependimento. Afinal, “tudo posso naquele que me fortalece”, não é verdade? Não, não é. Pois não foi isso que Paulo quis dizer em sua carta aos filipenses. Mas ensiná-los que em todas as circunstâncias, tanto na abundância como na escassez, na alegria ou na tristeza, Cristo é a Suprema fonte. No entanto, este caráter evidente no ensino de Paulo é completamente destoante do teologismo neo-pentecostal, leia-se “teologia da prosperidade”.

Termino com a célebre influência de Judas, irmão de Tiago, líder da Igreja em Jerusalém: “senti que era necessário escrever-lhes insistindo que batalhassem pela fé de uma vez por todas confiadas aos santos.” (Judas 3).

Este também é o desejo do meu coração e o propósito que me levou a escrever estes ensaios.

Leia também:

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Ensaios sobre ‘Influência’ e ‘relevância’ – Parte I

Matheus Viana

Influência é algo prioritário para muitos. Por isso o sentido de suas vidas está intimamente ligado com o número de pessoas que influenciam. Assim, acreditam que tal fato lhes dá credibilidade e autoridade para fazerem, em alguns casos, as coisas mais bizarras e difundirem as ideias mais ilógicas que podemos imaginar. Nutrem um ufanismo travestido de “responsabilidade” e também de “guardião da coerência e do bom senso”. Não classificam suas ações apenas como importantes, mas como fundamentais.

O conceito de influência exercido e difundido atualmente, no entanto, é completamente diferente do encontrado nas Escrituras. Óbvio que não tenho a pretensão de emitir o significado pleno da expressão, tampouco esgotar a extensa reflexão que o tema exige. Mas basta analisarmos alguns trechos das Escrituras, analisando todo seu contexto e não de forma isolada, para vermos que tal fato é evidente.

O apóstolo Paulo advertiu os cristãos da cidade de Corinto: “Sede meus imitadores como eu sou de Cristo.” (I Coríntios 11:1). Aquela era uma Igreja problemática. Em sua carta, lemos Paulo fazendo severas exortações de ordem moral, social e espiritual. É notório que não estava preocupado em “arrebanhar uma multidão” de prosélitos, mas formar pessoas que, seguindo seu exemplo, imitassem a Cristo.

Tal imitar, por sua vez, não consiste, conforme afirmei em outras ocasiões, apenas em repetir movimentos meramente mecânicos. Mas em atitudes resultantes de pensarem e sentirem como Cristo. Por isso elucida tal fato em sua carta aos cristãos de Filipos: “Tede em vós a mesma atitude que houve em Cristo Jesus.” (Filipenses 2:5). Sendo assim, a influência que Paulo exerceu e buscou alcançar não consistiu na uniformidade de rígidos métodos religiosos - vide o concílio de Jerusalém - e eclesiásticos que, infelizmente, são comuns em muitas denominações evangélicas.

O conhecido clamor popular não quer calar: “Somos milhares de evangélicos, mas a sociedade não muda.”. Não se trata de afirmação sensacionalista nem de “fundamentalismo profético”, como alguns me acusam. E sim mera constatação de fatos. O livro Nossa cultura... ou o que restou dela, de Theodore Dalrymple, fala da degradação cultural do ocidente resultante do abandono dos valores contidos na moral judaico-cristã. O livro Calvinismo, de Abraham Kuyper, fala da superior diferença no desenvolvimento que se viu nos séculos XVII e XVIII nas nações protestantes em relação às outras. Desnecessário entrar nos pormenores de A ética protestante e o espírito do capitalismo de Max Weber. Contudo, esta realidade ruiu. Pois, conforme Dalrymple diagnosticou, a sociedade ocidental, que se julga “laica”, se distanciou do cristianismo. Por sua vez, o próprio cristianismo se distanciou de sua essência.

Este afastamento tem se tornado cada vez mais evidente desde o surgimento do movimento neo-pentecostal, onde o Evangelho foi substituído por estratégias de marketing sob o pretexto do “evangelismo de massa”. A ênfase deixou de ser a pregação e prática do Evangelho para ser a “conversão dos incrédulos”. Ou seja, as conversões não são mais o efeito da propagação do Evangelho, mas a causa. Isso em decorrência de deixarem de atribuir a verdadeira conversão à ação do Espírito Santo (Evangelho segundo João 16:8) para atribuir ao “sucesso de suas estratégias evangelísticas”. Com tal inversão de valores, o resultado foi a deturpação do Evangelho para um apelo emotivo carregado de autoajuda do começo ao fim.

Multidão e disseminação do Evangelho são compatíveis? Para responder tal questão, algumas ponderações devem ser consideradas. Jesus, conforme fazia costumeiramente, certa vez O pregou para uma grande multidão de ouvintes (Evangelho segundo João 6:22-25). Quando terminou Seu discurso, ouviu, de pronto, os discípulos dizendo: “Dura é essa palavra. Quem pode suportá-la?”. Mesmo assim, Ele não aliviou e continuou ensinando o verdadeiro caráter de Seu Evangelho (Evangelho segundo João 6:61-65). O resultado? “Daquela hora em diante, muitos dos seus discípulos voltaram atrás e deixaram de segui-lo.” (Vs. 66). Qual foi a atitude súbita de Jesus? “Jesus perguntou aos doze: “Vocês também não querem ir?”.

Jesus conhecia a plenitude do propósito do Pai, por ser Deus, que repousava sobre a escolha que fizera dos doze discípulos, inclusive o que O haveria de trair (Evangelho segundo João 6:70). Mas a mensagem que queria emitir é que o Evangelho, em nenhuma ocasião, deve ser mudado ou deturpado. Nosso compromisso deve ser em proclamá-lo na íntegra, custe o que custar. Mesmo que isso redunde no abandono de todos aqueles que nos rodeiam. Jesus é tão enfático em relação a isso que advertiu Seus discípulos: “Não pensem que vim trazer paz a terra: não vim trazer paz, mas espada. Pois eu vim para fazer que: ‘o homem fique contra seu pai, a filha contra a sua mãe, a nora contra sua sogra; os inimigos do homem serão os de sua própria família.’” (Evangelho segundo Mateus 10:34-26).

Jesus não estava pregando a dissolução familiar, e sim esclarecendo que a imutabilidade do Evangelho deve ser mantida a qualquer preço, mesmo que seja a causa de uma perseguição como era comum no contexto judaico que, por exemplo, fundamentou a perseguição do judaísmo aos cristãos no primeiro século da era cristã. Importante também notar que o Evangelho de Jesus não veio “trazer paz”. Posso ouvir o bradar contrariado de alguns: “Como assim?”. Jesus não veio trazer a paz que o mundo oferece (Evangelho segundo João 14:27). Contudo, a paz de Cristo, infelizmente, tem sido interpretada como conforto e também como uma contextualização evangélica que redunda na maior aglutinação de pessoas que seja possível. Isto não é Evangelho...

domingo, 5 de abril de 2015

Um diálogo intelectual sobre algo espiritual - Parte II

Matheus Viana

Atualmente muitos colocam os conceitos de Evangelho simples e o de Evangelho irracional no mesmo patamar. Pois afirmam que não podemos compreender a vontade de Deus. Mas as Escrituras nos mostram, de forma clara, que são conceitos completamente diferentes um do outro. 


Em primeiro lugar, o Evangelho se torna simples por conta da ação do Espírito Santo em nosso entendimento. Pois o próprio Jesus disse: “O Espírito Santo convencerá o homem do pecado, da justiça e do juízo.” (Evangelho segundo João 16:8). É o Espírito Santo que “simplifica” o Evangelho para nós por meio de Seu consolo (Evangelho segundo João 14:26). O apóstolo Paulo testifica tal fato quando diz aos cristãos em Corinto: “Delas também falamos, não com palavras ensinadas pela sabedoria humana, mas com palavras ensinadas pelo Espírito, interpretando verdades espirituais para os que são espirituais.” (I Coríntios 2:13 - Ênfase acrescentada).

O Evangelho é a pessoa de Jesus e Sua obra. Jesus é Deus (Evangelho segundo Lucas 14:9, Evangelho segundo João 1:14, Colossenses 1:15). E Deus não é algo simples para a razão humana (I Coríntios 2:11). O Evangelho se torna simples na medida em que nos relacionamos com Ele. Nos relacionamos com Ele na medida em que o buscamos. Para O buscarmos precisamos crer que Ele existe (Hebreus 11:6). Para crer que Ele existe devemos ter a consciência de Sua existência.

C.S Lewis certa vez dissertou sobre a origem do pensamento humano. Ele disse que o ato do pensamento é o produto de processos químicos e biológicos que ocorrem no cérebro. E estes processos seguem leis. E leis existem com um propósito. Neste caso, produzir o pensamento. Se o pensamento é pavimentado por um propósito é porque alguém o estabeleceu. Pois se o pensamento é fruto de processos aleatórios (leia-se “acaso evolucionista”), como podemos confiar em nossos pensamentos?

A questão é que Deus estabeleceu as leis, que determinam os processos que acontecem em nosso cérebro (aspecto objetivo/tangível) e mente, (aspecto subjetivo/intangível) para que possamos pensar. Por isso Ele indaga a Jó: “Quem foi que deu sabedoria ao coração e entendimento à mente?” (Jó 38:36). Conforme afirmei anteriormente, claramente esta indagação tinha como intento que Jó soubesse que a resposta era Aquele que formulou tal questionamento. Em decorrência disto, temos consciência da existência de Deus e de nossa existência. Por isso Calvino afirmou: “O verdadeiro conhecimento do homem é totalmente dependente do conhecimento de Deus.”.

O intelecto coletivo atual é pautado pelo modo de pensar iluminista, principalmente pela divisão kantiana de conhecimento. Immanuel Kant, ao formular seu criticismo no tocante à razão pura e à razão prática, divide o conhecimento em cognoscível e incognoscível. Conforme vimos anteriormente, os fenômenos naturais (ocorrências que podem ser compreendidas pela mente humana) são alvos de estudo através do método científico de Francis Bacon. Já o que não pode ser compreendido pela mente humana - e neste “pacote” ele colocou Deus e todas as coisas relacionadas a Ele - foi descartado.

Não entenderemos o Evangelho e o propósito de Deus nele contido apenas pelos esforços, por maiores que sejam, da mente humana (Romanos 12:2). E esta era a dificuldade de Nicodemos em entender o novo nascimento que Jesus lhe falou. Por isso devemos submeter nossa razão, e não anulá-la, à razão divina. Mas, para isso, devemos usar nossa razão para nos conscientizarmos do fato de que o Evangelho possui um propósito. E se possui um propósito é porque existe um Ser inteligente (racional) que o estabeleceu. Logo, o Evangelho não é irracional. Mas tem sua própria racionalidade, a qual chamo de racionalidade divina que nos é relevada pelo Seu Espírito através de Suas Escrituras. Portanto, repito: Evangelho simples não é Evangelho irracional. Irracional é quem diz que o contrário.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Um diálogo intelectual sobre algo espiritual - Parte I

Matheus Viana

Os fariseus eram conhecidos como eruditos – além de observadores radicais e praticantes do que conhecemos hoje como legalismo - da Lei de Moisés. Por isso apreciavam participar de discussões no tocante a ela. Nicodemos era um fariseu. Numa noite, foi fazer o que apreciava com um mestre que ensinava a Lei e os profetas de forma diferente. Mateus testifica sobre este Mestre ao relatar: E aconteceu que, concluindo Jesus este discurso (o sermão da montanha), a multidão se admirou da sua doutrina. Porquanto os ensinava como tendo autoridade, e não como os escribas. (Evangelho segundo Mateus 7:28-29).

Nicodemos reconheceu Jesus como Mestre. Fato que evidencia Seu aspecto intelectual. Por mais que muitos cristãos refutem, Jesus, como homem, era munido de um intelecto notável (Evangelho segundo Lucas 2:45). João narra: E havia entre os fariseus um homem, chamado Nicodemos, príncipe dos judeus. Este foi ter de noite com Jesus, e disse-lhe: Rabi, bem sabemos que és Mestre, vindo de Deus, porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não for com ele.” (Evangelho segundo João 3:1-2).


Nicodemos não reconheceu apenas a inteligência e erudição de Jesus, mas também a ação sobrenatural de Deus em Sua vida. Pois a sabedoria de Jesus, expressa em Seus sermões, era demonstrada, de forma prática, através de Seus sinais e milagres. Foi exatamente este o caráter que o apóstolo Paulo, durante seu ministério, evidenciou em sua carta aos coríntios: “Minha pregação não consistiu em linguagem persuasiva de sabedoria humana, mas em demonstração de Espírito e poder.” (I Coríntios 2:4-5). Diferente do que muitos cristãos professam e ensinam, principalmente nos círculos pentecostais e neopentecostais, a “demonstração de poder” não anula o discurso oral de sabedoria. Tal fato é claro quando analisamos as atitudes de Jesus e dos apóstolos nas Sagradas Escrituras.


Conforme vemos no evento de Pentecostes e também no ensino de Paulo sobre os dons do Espírito, por exemplo, a ação do Espírito deve ser algo acessível ao entendimento das pessoas, por isso deve ser pautada, seja antes ou depois, em um ensino oral fundamentado na “doutrina dos apóstolos e dos profetas, tendo Jesus como a Pedra Angular.” (Efésios 2:20-21). Por isso, elucidando sobre a pessoa de Jesus, Paulo diz: “Jesus é a sabedoria (gnose) e o poder (dunamis) de Deus.” (I Coríntios 1:24). Um atributo não pode ser destituído do outro.

O foco do diálogo foi o novo nascimento. O apóstolo Paulo elucida sobre ele: “Aquele que está em Cristo, nova criatura é. As coisas velhas passaram, eis que tudo se fez novo.” (II Coríntios 5:17). Vemos aqui que os elementos novo nascimento e novidade de vida são indissociáveis. Assim, o produto de um verdadeiro novo nascimento é a mudança total em nossa maneira de pensar, sentir e agir. Tal fato nos remete ao arrependimento.

Agimos de acordo com conceitos que formulamos como frutos de nossas experiências racionais e empíricas. E isto também inclui a experiência religiosa. Portanto, não há novo nascimento sem mudança de mente. O primeiro atributo que foi corrompido no ser humano foi sua forma de pensar. O apóstolo Paulo elucida tal fato: "O deus deste século cegou o entendimento das pessoas para não lhes resplandecer a luz do Evangelho." (II Coríntios 4:4). Eva ouviu uma proposta diferente da que Deus havia feito e isso a levou a desejar o ilícito. O desejo, entretanto, foi o efeito de uma causa primária: ouvir a proposta da serpente e pavimentar seu raciocínio nela. Por isso o apóstolo Paulo adverte: “O que receio, e quero evitar, é que assim como a serpente enganou Eva com astúcia, a mente de vocês seja corrompida e se desvie da sincera e pura devoção a Cristo.” (II Coríntios 11:3).

A mente de Nicodemos teria que ser mudada. Pois assim ele entenderia o novo nascimento e se submeteria a ele. Vemos aqui que Jesus lhe apresenta o culto racional. Pois ao propor o novo nascimento, Jesus fala da necessidade que ele tem de mudar de mente, ou seja, de se arrepender. O pecado afasta o homem de Deus e consequentemente de Seu Reino. Nicodemos conhecia a Escritura que foi estabelecida por meio do profeta Isaías: “Mas as suas iniquidades fazem separação entre vós e o vosso Deus, as suas transgressões esconderam de vocês o rosto dele.” (Isaías 59:2).

Nicodemos não poderia experimentar o novo nascimento se sua mente não fosse transformada. Por isso indaga a Jesus: Como pode um homem nascer, sendo velho? Pode, porventura, tornar a entrar no ventre de sua mãe, e nascer?” (Evangelho segundo João 3:4). Sua razão humana teria que se submeter à razão divina. E esta submissão consiste em pensar segundo ela.

Continua...

quarta-feira, 4 de março de 2015

Cabeça servente

Matheus Viana

“O Senhor fará de vocês a cabeça das nações, e não a cauda.” 
(Deuteronômio 28:13 – Nova Versão Internacional).

Esta sentença foi proferida por Moisés em meio às várias bênçãos prometidas por Deus aos hebreus em decorrência da obediência à Sua Lei. E em nossa realidade não tão recente ela tem sido entoada como uma espécie de “mantra” pelos cristãos. Revelando, desta forma, o pernicioso triunfalismo contido no coração humano (Jeremias 17:9, Tiago 4:3).

Assim como todo o Antigo Testamento, esta sentença deve passar pelo crivo do Evangelho de Jesus, cujo caráter é, de certa forma, descrito em Seu sermão da montanha. E ele começa da seguinte forma: “Bem-aventurados os pobres de espírito, pois deles é o Reino dos céus.” (Evangelho segundo Mateus 5:3). Interessante. No entanto, o que é um pobre de espírito? Grosso modo, é aquele que tem a plena consciência de que é dependente, em todas as esferas de sua existência, de Seu Criador. Conforme o apóstolo Paulo elucidou aos estóicos e epicureus em Atenas: “Pois nele vivemos, nos movemos e existimos, como disseram alguns poetas de vocês: ‘Também somos descendência dele.’” (Atos 17:28).

Isto traz à tona a necessidade que temos de arrependimento. Quando adquirimos a consciência de que estamos muito distantes do padrão de normalidade de Deus ao ser humano, – Jesus – isso causa a tristeza que nos conduz ao quebrantamento. E esta consciência Jesus nomeia de pobreza de espírito. Sobre tal tristeza, o apóstolo Paulo preconiza: “A tristeza segundo Deus não produz remorso, mas sim um arrependimento que leva à salvação, e a tristeza segundo o mundo gera a morte.” (II Coríntios 7:10).

A expressão usada por Paulo, traduzida como arrependimento, é metanoia. Meta não se refere a uma simples mudança, mas em um progresso, uma mudança para melhor, para além de uma realidade específica. Sim, este progresso ocorre na nous/noia, mente (entendimento) do indivíduo. O que remete ao fato de que o verdadeiro arrependimento começa em nosso pensar e, consequentemente, alcança nosso agir. Se nos arrependemos de fato, como fruto da ação do Espírito Santo em nós (Evangelho segundo João 16:8), nossas ações consistirão em servir, e não em buscar meios de sermos servidos. O verdadeiro arrependimento produz uma cabeça servente.

O caráter que a sentença, alvo de nossa análise e reflexão, possui é completamente contrária ao caráter do Evangelho de Jesus Cristo, Aquele ao qual foi lhe concedida toda autoridade nos céus e na terra (Evangelho segundo Mateus 28:18). O apóstolo Paulo, de forma brilhante, o revela em sua carta aos filipenses: “ ... embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se, mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens. E, sendo encontrado em forma humana, humilhou-se a si mesmo e foi obediente até a morte, e morte de cruz! Por isso Deus o exaltou à mais alta posição e lhe deu o nome que está acima de todo nome.” (Filipenses 2:6-9).

O próprio Jesus advertiu seus discípulos: “Vocês sabem que aqueles que são considerados governantes das nações as dominam, e as pessoas importantes exercem poder sobre elas. Não será assim entre vocês. Ao contrário, quem quiser tornar-se importante entre vocês deverá ser servo; e quem quiser ser o primeiro deverá ser escravo de todos. Pois nem mesmo o Filho do homem veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.” (Evangelho segundo Marcos 10:42-45).

Como assim? Ser servo? Servir pessoas? E o “papo” de sermos “cabeça e não cauda”? De sermos servidos pelas pessoas por estarmos em um “grau acima”? De sermos reconhecidos e aclamados? O Evangelho de Cristo, o Cabeça da Igreja (Seu corpo na terra), demonstrado por Suas atitudes, revela o contrário: as “cabeças” são as servas, aquelas que, de forma voluntária, tornam-se escravas da justiça de Deus (Romanos 6:18). Nós, como membros do corpo de Cristo, apenas obedecemos os comandos que vêm do Cabeça: servir.

Pedro foi o homem que, em detrimento de suas imperfeições e limitações, Deus escolheu como instrumento para o estabelecimento de Sua Igreja na terra (Evangelho segundo Mateus 16:18, Atos 2:38-40). E, antes do cumprimento desta gloriosa profecia sobre a terra, Jesus teria que estabelecer na vida de Pedro o caráter fundamental de servo.

Após ter negado Jesus, Pedro entrou em um degradante quadro de tristeza. Porém, sentiu a tristeza segundo o mundo, a qual comumente chamamos de depressão. Mas Jesus tinha o intento de restaurá-lo, pois os planos de Deus não podem ser frustrados. Não quero me ater às três vezes em que Jesus indaga Pedro sobre o amor que sente por ele. Mas na advertência consequente: “Cuide de minhas ovelhas.” (Evangelho segundo João 21:16).

A conjugação do verbo, traduzida para o português como cuide, usada por João é boske, cuja expressão é derivada de bosko. De acordo com o dicionário Strong, bosko significa alimentar, como também retrata o dever de um mestre cristão de promover, por todos os meios possíveis, o bem-estar espiritual dos membros da igreja. Conceitos complementares. Pois sabemos que o Evangelho de Cristo implica tanto nos serviços espiritual e social. Ortodoxia que é conhecida como missão integral. Contudo, acrescento o serviço intelectual. Intelectual? Sim. Por isso Pedro orienta: “Antes, santifiquem Cristo como Senhor em seu coração. Estejam sempre preparados para responder a qualquer pessoa que lhes pedir a razão da esperança que há em vocês. Contudo, façam isso com mansidão e respeito, conservando a boa consciência...” (I Pedro 3:15).

Resumindo, implica em servir. E foi exatamente isto que Jesus propôs a Pedro como desdobramento de seu amor por Ele. E esta mesma proposta, onde não cabe qualquer tipo de ufanismo, e guardadas as devidas proporções; repousa sobre nós.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Ensaios sobre a felicidade

Parte I - A ética da felicidade

Matheus Viana

Aristóteles afirmou em seu livro Ética a Nicômaco que todas as ações humanas, provenientes de suas escolhas, visam um bem. Por isso, para ele, o sentido da vida está no conhecimento e alcance deste bem. Esta dedução o levou a indagar: “Não terá o conhecimento deste bem, então, grande influência sobre a nossa vida?”1. Diante disso, surge a questão: que bem é este?

É consenso que, independente dos propósitos primários de nossas escolhas e ações, visamos, através deles, alcançar a felicidade, seja no presente ou no futuro. Portanto, não há como negar: este bem é a felicidade. Aristóteles chegou a esta conclusão: “... pois tanto o vulgo como os homens de cultura superior dizem que esse bem supremo é a felicidade e consideram que o bem viver e o bem agir equivalem a ser feliz; porém, divergem a respeito do que é a felicidade.” 2.

Conclusão seguida de uma questão: o que é felicidade? Aristóteles elucida: “A maioria das pessoas pensa que se trata de alguma coisa simples e óbvia, como o prazer, a riqueza ou as honras, embora também discordem entre si; e muitas vezes o mesmo homem a identifica com diferentes coisas, dependendo das circunstâncias: com a saúde quando está doente e com a riqueza quando está pobre. Cônscios, porém, da própria ignorância, admiram aqueles que propõem algum ideal grandioso e inacessível à sua compreensão.”3.

Por mais que tentemos, não conseguiremos chegar numa definição única e consensual. Felicidade, na perspectiva humana, é determinada pelas circunstâncias que vivemos ou que projetamos como ideal. Nem as Escrituras definem o que é a felicidade. Definem apenas a ética que o ser humano deve seguir para ser verdadeiramente feliz. Vemos, por exemplo, Davi declarando: “Feliz a nação cujo Deus é o Senhor.” (Salmos 33:12). Por sua vez, Salomão também elucida: “Feliz o homem que confia no Senhor.” (Provérbios 16:20). Jesus, em seu Sermão da Montanha, falou sobre esta ética. Agostinho, em seu livro Confissões, registrou: “Quando te procuro, ó Deus, estou à procura da felicidade”.4.

Já no primeiro salmo, encontramos o que podemos chamar de ética da felicidade: “Feliz (ou bem-aventurado) o homem que não anda no conselho dos ímpios, não imita a conduta dos pecadores nem se assenta na roda dos escarnecedores. Ao contrário, sua satisfação está na Lei do Senhor, e nessa Lei medita de dia e de noite.” (Salmos 1:1-2 – Nova Versão Internacional).

Antes de analisarmos este versículo de forma pormenorizada, reflitamos sobre a diferença – ou seria semelhança? – entre satisfação e felicidade. Satisfação é o suprimento de uma necessidade. Por exemplo, quando sentimos fome, nos alimentamos até que fiquemos satisfeitos, ou seja, até que a fome – ou necessidade de alimento – deixe de existir. Mas isso não quer dizer que uma pessoa que tenha sua fome saciada seja feliz. Pois, ainda que ela não sinta mais fome, pode estar acometida de outras necessidades.

Podemos, então, dizer que felicidade é o pleno suprimento de todas as nossas necessidades. Seria uma resposta lógica, mas que não reflete a realidade. Conforme afirmei no texto Cobiça x necessidade, a alma humana, degradada, ingrata e enganosa (Jeremias 17:9), tem o poder de transformar cobiça em necessidade. Por isso, o ser humano nunca se satisfaz com o que possui. Conclui-se, todavia, que não há felicidade sem satisfação. Pois a insatisfação é sintoma de que ainda estamos à procura da felicidade.

A expressão que aparece em Salmo 1:2, que é traduzida como satisfação, no original hebraico é CHEFËTSO (חֶפְצוֹ). Esta expressão refere-se aos verbos querer, desejar e gostar. Por isso é traduzida também como prazer: “Antes tem o seu prazer na lei do SENHOR, e na sua lei medita de dia e de noite”. (João Ferreira de Almeida – Ênfase acrescentada).

Contudo, prazer é um sentimento momentâneo e circunstancial. Aristóteles classifica a vida em três tipos: agradável (prazer), política (honra e virtude) e contemplativa. Concentremos apenas no primeiro tipo para que o texto não fique exaustivo. Assim, vemos que prazer para o filósofo é levar uma vida agradável. Neste mote, o salmista adverte: “Agrada-te do Senhor, e ele satisfará os desejos de seu coração.” (Salmos 37:4). Em outras traduções aparece a expressão alegra-te no lugar de agrada-te. Mas o que é ter uma vida agradável ou alegre?

Com certeza, muitos diriam que é uma vida sem problemas. Este é um quesito que o cristianismo não atende. Pois o próprio Jesus afirmou: “No mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo” (Evangelho segundo João 16:33). Mas o apóstolo Paulo, um homem que sofreu todo tipo de tribulação por amor à Cristo e ao Seu Evangelho, classificou a vontade de Deus como “boa, perfeita e... agradável” (Romanos 12:2). Mas como pode ser agradável uma vida repleta de aflições? Paulo dá a receita: ter uma mente renovada.

Mas no que consiste ter uma mente renovada? Em adquirir a consciência de que a vontade de Deus, por mais que pareça adversa, redundará no melhor para nós. Pois, conforme Salomão elucidou: “Há caminhos que ao homem parecem direito, mas no fim são caminhos de morte.” (Provérbios 16:25). Ou seja, é um engano pensar que a plena submissão aos nossos desejos nos conduzirá à plena felicidade. Lembre-se, nosso coração é enganoso. Todavia, conforme Davi elucida, nossa satisfação – que nos conduzirá à felicidade - está em meditar na Lei de Deus, que representa Sua vontade. Ou melhor, Sua ética.

Notas e referências bibliográficas:

1 - ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco; tradução Torrieri Guimarães. – São Paulo: Editora Martin Claret, 2001. Pg. 10.

2 – Idem 1, pg. 11.

3 – Idem 1, pg. 11 e 12.

4 - AGOSTINHO, Santo. Confissões; tradução Frederico Ozanam Pessoa de Barros – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012 – Saraiva de Bolso. Pg. 297.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

O alicerce do renovo

Matheus Viana

Temos necessidade do renovo de Deus sobre as nossas vidas. Jesus ensinou a seguinte oração: “O pão nosso de cada dia dá-nos hoje” (Evangelho segundo Mateus 6:11). Clamor que reflete nossas necessidades natural (alimento para o corpo) e espiritual (a ação do Espírito Santo em nós e o entendimento de Sua Palavra). Jesus disse que é o pão vivo que desceu do céu (Evangelho segundo João 6:51) ao fazer alusão sobre o suprimento do maná aos hebreus no deserto. Mas Jesus subiu aos céus e enviou o Espírito para continuar em nós, e através de nós, Sua obra (João 14:26, Mateus 28:19). Assim como o maná era renovado diariamente – exceto no sábado, o dia do descanso – (Êxodo 16:4), o Espírito Santo se renova sobre nós (II Coríntios 3:18) a fim de completar Sua obra até atingirmos a estatura do varão perfeito (Efésios 4:11) e refletirmos Sua imagem (Romanos 8:29).

No entanto, este renovo está sujeito a um padrão imutável. O apóstolo Paulo diz que este renovo, que se refere ao fato de sermos edificados como edifício de Deus, que se refere à Igreja Gloriosa de Efésios 5:27, está alicerçado “no fundamento dos apóstolos e dos profetas, tendo Jesus como a Pedra Angular” (Efésios 2:20-21).

Infelizmente temos visto que esta necessidade de renovo tem levado boa parte da Igreja e se sujeitar há vários movimentos. A advertência do apóstolo Paulo aos efésios: “O propósito é que não sejamos mais como crianças, levados de um lado para outro pelas ondas, nem jogados para cá e para lá por todo vento de doutrina e pela astúcia e esperteza de homens que induzem ao erro” (Efésios 4:14), neste contexto, torna-se bastante atual.

Há os que dizem ter recebido de Deus a incumbência de restaurar o ministério apostólico, por exemplo. Contudo, ignoram o fato de que os apóstolos foram levantados por Deus, através de Jesus, como base da Igreja, assim como os profetas do Antigo Testamento que profetizaram até o advento da vinda de Cristo.

Conforme relatei no texto Os cristãos e os absolutos de Deus: “A maneira de ser, pensar e agir de um cristão deve estar pautada nos absolutos de Deus. Veja que Paulo se refere aos apóstolos, que continuaram a difundir o legado de Cristo, aos profetas, que se referem à Lei dada por Deus ao Seu povo através de Moisés e às promessas que apontavam para a vinda de Jesus, o Deus que se fez homem (Evangelho segundo João 1:14, Colossenses 1:15) contidas no Antigo Testamento. E, claro, todos esses fundamentos convergem no próprio Jesus que é o Caminho, a Verdade e a Vida (Evangelho segundo João 14:6).

Ou seja, os profetas nos deram o Antigo Testamento e os apóstolos, com exceção de Marcos, Lucas, Tiago e Judas, nos deram o Novo Testamento. Ambos convergem em Cristo, a Pedra Angular, o supremo alicerce aos quais somos edificados. E Jesus é o mesmo ontem, hoje e será eternamente (Hebreus 13:8). Não há, portanto, lugar para reforma ou restauração no sentido de acrescentar algo a ele, como a renovação apostólica vigente, entre outros, pretende. A própria Reforma Protestante do Século XVI proclamou o retorno a este Alicerce ao bradar Sola Scriptura.

Mas há muitos outros movimentos que, ao analisarmos, encontramos muitos princípios e conceitos conflitantes com as Escrituras. O que faz surgirem, em contrapartida, movimentos que se colocam como vanguardistas da fé e se portam como se fossem os únicos defensores e portadores da Igreja Gloriosa. Sim, a apologética faz parte do exercício do cristianismo. O apóstolo Pedro exorta: “Estejam sempre preparados para responder a qualquer pessoa que lhes pedir a razão da esperança que há em vocês.”. O apóstolo Paulo, ao dialogar com estóicos e epicureus, faz apologia sobre a fé no Deus Único, Criador dos céus e da terra (Atos 17:22-30). Contudo, é preciso saber que não há ninguém que tenha pleno conhecimento da verdade. Uma coisa é saber que a Verdade existe e quem ela é. Outra bem diferente é conhecê-la plenamente. A obra do Espírito que, conforme Jesus advertiu, nos guia à Verdade e ao conhecimento dela, é paulatina (Evangelho segundo João 16:13). Por isso, não somos independentes. Mas precisamos uns dos outros como membros diferentes de um único corpo (I Coríntios 12:12-30).

Resumindo: o renovo do Espírito possui um fundamento imutável. Não há lugar para neo-doutrinas, tampouco para restaurações ministeriais que foram estabelecidas por Deus na História da Igreja em tempos e propósitos específicos. Uma das causas principais para o surgimento de movimentos assim é a necessidade de renovo. Todavia, esta necessidade, dada pelo próprio Deus ao ser humano, não pode acrescentar algo a este alicerce ou “restaurar” algo que já está concluído. Nossa função é examinarmos as Escrituras (o Maná espiritual de Deus a nós) a fim de conhecermos a Verdade, sermos por ela transformados para nos tornarmos agentes de transformação (Evangelho segundo João 5:39) e praticá-la (Tiago 1:22). O desejo por exercemos tal função continuamente é que precisa ser renovado a cada dia.