quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Ensaios sobre o mal - Parte II

Tradução: Chuck Norris pode dividir por zero. Não, nem "ele" pode.
Matheus Viana

Analisemos mais alguns problemas lógicos no argumento de Epicuro (citado na primeira parte deste ensaio), principalmente na questão sobre a onipotência de Deus. O fato de Deus ser onipotente não significa que Ele não siga alguns princípios absolutos. Aliás, o ser humano só tem a noção ética e moral por conta do padrão ético que recebeu de Deus. Todo ser humano tem necessidade de pautar sua vida sobre princípios absolutos. O próprio relativismo é um absoluto. Discordas? Então pergunte para um relativista se ele tem certeza de que tudo é relativo. Se responder que sim... Bingo! Ele considera sua “verdade” absoluta. Se responder que não, apenas confessou sua incoerência lógica.

Ou então diga para um relativista que o seu ponto de vista está errado! Você não terminará de contar até dois para ele dizer que você é que está errado. Isso mesmo! Ele considera, ainda que inconscientemente – o que é pior -, o relativismo como um absoluto. Falaremos sobre isto posteriormente.

Eis alguns absolutos em relação a Deus: Ele não pode mentir: “Deus não é homem (humano) para que minta.” (Números 23:19). Ele não pode ser tentado pelo mal nem tentar a ninguém: “... Deus não pode ser tentado pelo mal, e a ninguém tenta.” (Tiago 1:13). Ele não pode ir contra Seus princípios: “Você viu bem, pois estou vigiando para que a minha palavra se cumpra.” (Jeremias 1:12 - Leia também Isaías 55:11). Ele não pode impedir o ser humano de provar as consequências de suas escolhas. Paradoxal para com Sua onipotência? Claro que é! Explico.

Um Juiz (meritíssimo) é soberano em um julgamento. Ele tem o poder de condenar ou absolver um réu, de declará-lo culpado ou inocente. Contudo, ele não pode deixar de seguir a ética jurídica. Ele não pode, por exemplo, mentir ou ser parcial e faltar com a retidão e equidade a fim de favorecer ou prejudicar o réu. Resumindo, ele não pode, de forma alguma, ser injusto. Portanto, posso usar o que um juiz não pode (não deve) fazer como base para afirmar que ele não é soberano em um julgamento? Claro que não! Isso seria uma falácia, ou melhor, uma picaretagem lógica. O argumento de Epicuro faz exatamente isso. Apesar de ser onipotente, Deus não irá revogar as consequências provenientes das escolhas e dos atos dos seres humanos. E o mal está incluso nelas.

Há quem diga, pelo fato de Deus dizer em sua Palavra que os maus serão condenados, que Ele não pode ser considerado bom. Sim, Ele é bom. E um dos atributos de Sua bondade é a justiça. Deus é justo ao ponto de entregar o Seu próprio Filho para cumprir em nosso lugar a justiça e a condenação – a penalidade - de nossos pecados: o sofrimento e a morte. Conforme o próprio Jesus elucidou: “Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida pelas ovelhas.” (Evangelho segundo João 10:11).

É sobre exatamente isso que o apóstolo João afirma: “Nisto consiste o amor de Deus: não que nós temos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou seu filho como propiciação pelos nossos pecados.” (I João 4:10). Sobre isso, o apóstolo Paulo afirmou: “Deus o ofereceu (Jesus) como sacrifício para propiciação mediante a fé, pelo seu sangue, demonstrando a sua justiça.” (Romanos 3:25). E também: “Mas Deus demonstra seu amor por nós: Cristo morreu em nosso favor quando ainda éramos pecadores.” (Romanos 5:8). Jesus é, ao mesmo tempo, o cumprimento das plenas justiça e bondade de Deus ao ser humano. Não há bondade maior do que sofrer e morrer por alguém mesmo sem merecer.

Assim, Jesus foi a obra suprema para acabar com o mal que assola a humanidade. Contudo, ela ainda desfruta de liberdade que Deus a concedeu. Mas é preciso reiterar que, pelo fato de os primeiros seres humanos terem feito uso indevido desta liberdade, a humanidade está debaixo da escravidão do pecado. Consequentemente, tem sofrido toda sorte de mal. Em outras palavras: o ser humano escolheu o mal e agora tem arcado com suas terríveis consequências.

Deus pode acabar com o mal. Sua “arma” foi o sofrimento e morte de seu Filho em nosso lugar. Foi isso que Isaías declarou ao dizer: “O castigo que nos traz a paz estava sobre ele.” (Isaías 53:5). O sacrifício passado de Jesus nos traz paz no presente, e trará no futuro (Evangelho segundo João 14:27). A “escolha”, portanto, é nossa de retornarmos, por intermédio da cruz, ao Bem Supremo. Ele já fez a Sua parte, o Seu ato soberano de bondade.

Sobre o fato do ser humano arcar com as consequências de suas escolhas e atos, há quem diga que Deus pode reverter a penalidade do ser humano, por isso concede, através de Jesus, a vida eterna ao pecador. Contudo, a vida eterna, apesar de não ser meritória - mas absolutamente pela Graça - é fruto da escolha humana de se arrepender de seus pecados, receber a justificação oriunda da morte de Jesus e recebe-Lo, pela fé, como Senhor e salvador (Efésios 2:8).

Conforme Paulo preconiza, o salário (consequência) por escolher e cometer o pecado (mal) é a morte, mas o dom gratuito de Deus (consequência) para aqueles que se arrependem – escolhem ser justificados em Cristo – é a vida eterna (Romanos 6:23). Esta escolha, no entanto, é fruto da ação do Espírito Santo de Deus (chamado de Graça precedente por uns e Graça irresistível por outros) no interior do ser humano, conforme Jesus advertiu: “Quando ele (O Espírito Santo) vier, convencerá o mundo (kosmon/cosmon - cosmos) do pecado, da justiça e do juízo.” (Evangelho segundo João 16:8).

O apóstolo Paulo elucida: “Irmãos, você foram chamados para a liberdade. Mas não usem a liberdade para dar ocasião à vontade da carne; ao contrário, sirvam uns aos outros mediante o amor.” (Gálatas 5:13). Paulo aqui nos adverte sobre o bom uso de nossa capacidade de escolha. Que possamos reconhecer o quanto somos maus, por conta de nossa natureza corrompida que nos torna escravos do mal (Romanos 3:12) a fim de que, por intermédio do Espírito Santo, busquemos o Bem Supremo.

Continua...

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Ensaios sobre o mal - Parte I

Matheus Viana

O mal possui várias faces. Muitas delas estão estampadas na realidade que nos cerca, seja de perto ou de longe. Mediante este drama, é comum surgir a questão: “Como pode existir um Deus bom diante de tanto mau?”. Esta é uma das principais indagações feitas pelos ateus, mas não é “patrimônio” deles.

Epicuro (341-270 a. C) elaborou o seguinte argumento: “Ou Deus quer abolir o mal, e não pode; ou ele pode, mas não quer; ou ele não pode e não quer. Se ele quer, mas não pode, ele é impotente. Se ele pode, e não quer, ele é cruel. Mas se Deus tanto pode quanto quer abolir o mal, como pode haver maldade no mundo?”.

Este argumento está recheado de problemas lógicos. Os que pensam exatamente assim ou de forma semelhante acreditam que a razão é o único fator em exercício. Mas não é! A indagação tem sua origem na razão, já a indignação tem na emoção. Ou seja, por mais que pareçam racionais, questionamentos desta espécie têm caráter sentimental.

Por isso, quanto mais usamos a razão, dissipando toda a neblina da ideologia pré-concebida e do sentimentalismo, vemos que as próprias questões são inconsistentes, assim como toda e qualquer tentativa de transformar a existência do mal em evidência para a não-existência de Deus ou em colocar em descrédito Suas atribuições consideradas pelos teístas.

Jesus certa vez contou uma parábola sobre certo jovem, a qual podemos tirar algumas lições sobre o tema aqui abordado. Caminhando para o clímax da parábola, Ele disse: “Ele desejava encher o estômago com as vagens de alfarrobeira que os porcos comiam, mas ninguém lhe dava nada.” (Evangelho segundo Lucas 15:16). Se lermos este versículo isolado de todo seu contexto, podemos ficar indignados: “Como pode uma pessoa chegar a tamanha desolação?”.

Se lermos o versículo seguinte da mesma forma, – “Caindo em si, ele disse: ‘Quantos empregados do meu pai têm comida de sobra e eu aqui, morrendo de fome!’” - esta indignação se intensifica: “Como pode o pai deste jovem permitir isto?”. É assim que agimos quando nos deparamos com o mal. Trocamos apenas os personagens Pai por Deus. Contudo, ignoramos o início da parábola. O jovem protagonista escolheu abandonar o pai e viver de maneira DISTANTE e INDEPENDENTE. A degradação a qual alcançou foi mera consequência de sua escolha. O pai não teve culpa alguma.

Há quem refute tal afirmação indagando: “Mas se o pai não tivesse dado a parte da herança nem permitido que ele saísse de casa, o mal não teria acontecido”. Todavia, tal atitude seria pautada na falta de liberdade, algo que o ser humano tanto deseja e anseia. Rousseau dizia que o homem nasce livre e, por isso, a liberdade não é apenas uma benesse natural, mas um direito irrevogável.

De acordo com a antropologia judaico-cristã, o ser humano foi formado por Deus em plena liberdade, pois fora feito à imagem e conforme a semelhança de um Ser Supremo que é livre (Gênesis 1:27). É neste mote que Jesus declara: “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” (Evangelho segundo João 8:32). Ou seja, o ser humano é, em sua essência original, livre. E liberdade implica em capacidade de escolher. C.S Lewis elucida: “Uma vez mais, a liberdade de uma criatura deve significar liberdade de escolha e esta implica a existência de coisas entre as quais escolher.”1.

Assim como o pai do jovem protagonista da parábola, mesmo se entristecendo, permitiu que o filho seguisse suas escolhas, Deus também permitiu. Conforme Agostinho preconizou em seu livro Livre-arbítrio, o mal existe como consequência do mau uso que o ser humano fez do livre-arbítrio que Deus o concedeu. Mas há quem diga: “Por que Deus, então, permitiu que o ser humano escolhesse?”. Porque Deus queria que o ser humano tivesse uma comunhão com Ele baseada na escolha, na liberdade de amá-Lo, e não como resultado de ser a única possibilidade.

Conforme elucida Agostinho ao seu discípulo Evódio: “... se o homem carecesse do livre-arbítrio da vontade, como poderia existir esse bem, que consiste em manifestar a justiça, condenando os pecados e premiando as boas ações? Visto que a conduta desse homem não seria pecado nem boa ação, caso não fosse voluntária. Igualmente o castigo, como a recompensa, seria injusto, se o homem não fosse dotado de vontade livre.”2.

Sobre o exercício da escolha, João Calvino diz no livro I de suas Institutas: Portanto, Deus proveu a alma do homem com a mente, mediante a qual pudesse distinguir o bem do mal, o justo do injusto, e, assistindo-a a luz da razão, percebesse o que se deve seguir ou evitar. Razão porque os filósofos chamaram a esta parte diretiva to hégemonikon (o dirigente). A esta mente Deus associa a vontade, em cuja alçada está a escolha.”3.

Nossas atitudes são classificadas como “boas” quando destoam das “más”. Portanto, se não existisse a possibilidade de o ser humano fazer o mal, ele também não faria o bem. Pois o bem existe por ser diferente do que é mal. Se não houvesse o que é mal, não faríamos o bem, mas somente o que fosse possível para nós. O bem é considerado bem por ser precedido por uma escolha. Jesus disse em Mateus 7:10-11: “Se vocês, apesar de serem maus, sabem dar coisas boas aos filhos, quanto mais o Pai de vocês, que estás nos céus, dará coisas boas aos que lhe pedirem!” (Evangelho segundo Mateus 7:10-11).

Apesar de sermos maus, escolhemos e fazemos coisas boas a quem estimamos, mesmo sendo capazes de escolher e fazer o que é mal, por sermos movidos pelo amor. Se existisse apenas o bem, o ser humano seria escravo dele. Logo, nossas atitudes não poderiam ser classificadas como boas, mas apenas como ordinárias. Agostinho elucida ao seu discípulo Evódio: “Pois do mesmo modo que um cavalo que se extravia é melhor do que uma pedra que não pode se extraviar, ficando sempre em seu lugar próprio, por faltar-lhe o movimento e sensibilidade, assim uma criatura que peca por sua vontade livre é melhor do que aquela outra que é incapaz de pecar por carecer dessa mesma vontade livre.” 4.

Continua...

Notas:

1 - LEWIS. C. S. O problema do sofrimento; tradução Alípio de França Neto. – São Paulo: Editora Vida, 2009. Pg. 36.

2 - AGOSTINHO, Santo. O livre-arbítrio; tradução, organização, introdução e notas de Nair de Assis Oliveira – São Paulo: Paulus, 1995 – Patrística. Pg. 75.

3 - CALVINO, João. As Institutas; ou Tratado da Religião Cristã. Capítulo XV. Pg. 195.

4 – Idem 2, pg. 166.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Um menino de oito dias

O oitavo dia é o dia em que renunciamos toda liturgia religiosa para recebermos a circuncisão que não é na carne, mas no coração (Romanos 2:29). E, a partir de então, recebermos, um dia após o outro, a identidade que Ele estabeleceu a nós.

Matheus Viana

Imagine o drama! Uma aglomeração de vizinhos e parentes dos pais de um menino que nascera há oito dias. Prestes a ser circuncidado, conforme preconiza a cultura judaica, os presentes queriam batizar-lhe com o nome do pai, Zacarias. (Evangelho segundo Lucas 1:58).

“Nada disso!”, vociferou Isabel, a mãe do bebê. “Ele deve ser chamado de João”. (Evangelho segundo Lucas 1:60). No entanto, aquela pequena multidão foi rápida no gatilho: “Não há ninguém na tua parentela com este nome.”, alguém argumentou. Mas Zacarias, impossibilitado de falar, pegou uma tábua e emitiu o veredicto: “João é o seu nome”.

Embora pareça um fato meramente cotidiano, ele carrega em seu bojo uma verdade poderosa. Não era em vão que os pais do menino queriam lhe dar o nome de João. Mas sim por obedecer a profecia previamente proclamada: “Disse-lhe, porém, o anjo: Zacarias, não temas, porque a sua oração foi ouvida; e Isabel, tua mulher, te dará à luz um filho a quem darás o nome de João”. (Evangelho segundo Lucas 1:13).

O nome João carregava sobre si um chamado, uma peculiaridade fundamental para o estabelecimento da vontade divina sobre a Terra. “E irá adiante dele no espírito e poder de Elias, para converter os corações dos pais aos filhos e dos filhos aos pais, converter os desobedientes à prudência dos justos...”. (Evangelho segundo Lucas 1:17).

Mas para que tal profecia fosse cumprida, algo deveria acontecer. O fato daquele menino de oito dias não receber o nome de batismo de seus antecessores simboliza o surgimento de um novo sacerdócio que deve romper com a tradição religiosa, não se limitar ao templo e renunciar a liturgia sacerdotal para ser a voz do que clama em meio ao deserto da desolação humana (Evangelho segundo Lucas 3:4).

Este menino de oito dias era descendente de Arão por parte de pai e mãe. Mas só poderia cumprir a plenitude da profecia que pairava sobre sua vida se rompesse com todo tipo de tradição. Seu nascimento se deu após 400 anos de silêncio profético, o que fez, entre outros fatos, o sacerdócio se corromper.

Deus estava enojado da corrupção político-religiosa que os sumo-sacerdotes compartilhavam com o império romano. Enquanto alimentavam suas cobiças e volúpias, o povo vivia num verdadeiro deserto existencial, na expectativa do surgimento do Messias.

Por isso, assim como Jesus se desfez de Sua glória e se tornou homem a fim de comunicar o Evangelho do Reino (Filipenses 2:6-9), João, o menino de oito dias, precisou abandonar o ritualismo sacerdotal e fazer a voz de Deus, restrita ao templo, ser ouvida no deserto. O fato de muitos se dirigirem ao deserto para ouvir e serem batizados por João é a suma demonstração da realidade interior que os assolava.

É exatamente por isso que Deus estabelece o seguinte chamado ao menino de oito dias, antes mesmo de seu nascimento: “Voz do que clama do deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas. Todo vale será aterrado, e nivelado todos os montes e outeiros; os caminhos tortuosos serão retificados, e os escabrosos, aplainados”.

O chamado que repousava sobre os seus ombros era o de restituir os padrões morais em linear processo de degradação, estabelecer a justiça em todos os níveis e trazer a necessária restauração familiar. Tudo isso, claro, desdobramentos do arrependimento e da submissão ao Evangelho do Reino dos Céus.

Vivemos em um contexto semelhante. Deus, em pleno século XXI, ainda clama deste deserto. Ele espera que este novo sacerdócio (Evangelho segundo Mateus 17:11, I Pedro 2:9, Apocalipse 1:6) continue o ministério exercido por João, o Batista, até sua prisão e consequente morte pelo rei Herodes. Mas, para isso, devemos renunciar toda e qualquer tradição obsoleta da religião (como por exemplo, rudimentos judaicos, e não as bases históricas do Cristianismo) e recebermos a renovação que Deus deseja, todos os dias, estabelecer sobre nós. Não é a toa que Jesus nos adverte que somente odres novos recebem vinho novo (Evangelho segundo Mateus 9:17).

Um menino de oito dias. Oito. Deus criou o mundo e tudo o que nele há em seis dias, descansou no sétimo e no oitavo... A Bíblia não diz. O oitavo dia é o dia do renovo de Deus. É o dia em que renunciamos toda tradição da Lei para recebermos a circuncisão que não é na carne, mas no coração (Romanos 2:29). E, a partir de então, recebermos, um dia após o outro, a identidade que Ele deseja estabelecer em nós (Romanos 8:29).

Viva o seu “oitavo dia” todo dia!

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Quem é mais importante?

Matheus Viana

Quem é mais importante: Jesus ou a tradição religiosa? Há quem diga "nenhum dos dois". Mas os que confessam serem cristãos responderão, com um ar de obviedade, que Jesus é o mais importante. No entanto, muitos deles são traídos – ou desmentidos – por suas atitudes.

Em certa ocasião, Jesus estava reunido com Seus discípulos, onde comiam sem lavar as mãos (Evangelho segundo Marcos 7:8). O ato de lavar as mãos antes de comer não era mera demonstração de higiene, mas observação de um rito de purificação. A Bíblia diz: “(os fariseus e todos os judeus não comem sem lavar as mãos cerimonialmente, apegando-se, assim, à tradição dos líderes religiosos)”. (Evangelho segundo Marcos 7:3 – Nova Versão Internacional).

Vendo que os discípulos de Jesus comiam sem lavar as mãos, os fariseus e mestres da lei questionaram: “Por que os seus discípulos não vivem de acordo com a tradição dos líderes religiosos, em vez de comerem o alimento com as mãos ‘impuras’?” (Versículo 5). Antes de refletirmos sobre a resposta de Jesus, reflitamos sobre o questionamento que Lhe foi dirigido. 

O ato de lavar as mãos era uma demonstração da ênfase que a religião judaica dava ao ritual. Jesus já havia alertado: “Onde está o seu tesouro, ali está o seu coração.” (Evangelho segundo Mateus 6:21). Seus corações estavam na observância da lei. Eram devotos a ela e consequentemente a todos os rituais que dela emanava. Por isso, não se atentaram ao fato de que estavam diante do próprio Deus encarnado, ou seja, diante dAquele que pode purificar o interior do ser humano (Evangelho segundo João 15:3), já que a lei pode "purificar" apenas seu exterior.

Tais atitudes não são diferentes das que encontramos atualmente. As doutrinas elaboradas por homens, ainda que baseadas em facetas ou particularidades do Evangelho de Cristo, possuem importância maior do que o próprio Cristo revelado através das Escrituras (Evangelho segundo João 5:39). É triste, mas vejo cristãos devotos a algumas destas doutrinas – que no atual contexto recebem nomes como visão, modelo entre outros – de modo a ignorar os que não as seguem. E ainda se apropriam, de forma ilícita e deturpada, das Palavras de Cristo: “Quem comigo não ajunta, espalha.” (Evangelho segundo Mateus 12:30). Pois é, acreditem: a Palavra de Cristo tem sido usada como combustível para alimentar o ufanismo humano. Sim, trata-se de um absurdo. Mas é a realidade...

Diante deste quadro – deplorável, diga-se de passagem – Jesus disse: “Bem profetizou Isaías acerca de vocês, hipócritas, como está escrito: ‘Este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. Em vão me adoram, seus ensinamentos não passam de regras ensinadas por homens.”.

Que admoestação atual! Jesus queria mostrar para eles que o reconhecimento e as consequentes obediência e devoção ao Seu Senhorio sobre suas vidas são mais importantes do que a observação da lei. Jesus deixou de observar vários rituais, como por exemplo, guardar o sábado, não por ser um revolucionário desobediente, mas para nos mostrar o que, de fato, é importante e preponderante para um verdadeiro relacionamento com Deus: Ele. Por isso afirmou: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida, ninguém vem ao Pai senão por mim.” (Evangelho segundo João 14:6).

A Igreja atual acha que está se relacionando com Jesus pelo fato de obedecer, à risca, doutrinas de homens. Todavia, Jesus deixou bem claro em Seu Evangelho que, por mais que queira, não está. Pelo contrário, como Ele mesmo afirmou: “Vocês negligenciam os mandamentos de Deus e se apegam às tradições dos homens.” (Evangelho segundo Marcos 7:8).

Não confundamos tradição com padrão. Jesus é o padrão usado na formação do ser humano (Gênesis 1:27, Colossenses 1:15). Portanto, Ele é o padrão ao qual devemos seguir (Romanos 8:29, Efésios 4:13). Não há lugar para pluralismos. Contudo, pegar este padrão e usá-lo para elaborar métodos, sistemas e “visões” não é segui-lo, mas criar subterfúgios, ainda que sejam bíblicos, para angariar adeptos junto ao aprisco (leia-se denominação) de modo a alimentar o triunfalismo latente.

Negligência. Este é o nome que Jesus dá ao fato de nos submetermos às doutrinas humanas (repito, ainda que baseada em preceitos bíblicos, como é comum) com o intento de servirmos a Deus. Pois estamos deixando de lado o verdadeiro e pleno Evangelho: Jesus Cristo. Isto é engano. É, de acordo com o próprio Jesus, adoração vã (Evangelho segundo Marcos 7:7).

Conforme o apóstolo Paulo preconiza, a verdadeira adoração passa pelo exercício da consciência e pela renovação de mente (Romanos 12:1-2). Não foi em vão que Lutero, lutando contra as doutrinas papais contidas nas encíclicas que deturpavam o relacionamento entre Deus e o ser humano na chamada Dieta de Worms, evocou as palavras do apóstolo Paulo: “Levo cativo todo pensamento, para torna-lo obediente a Cristo.” (II Coríntios 10:5). Que nossa plena obediência seja a Cristo, o Logos que se fez humano (Evangelho segundo João 1:14), e não de doutrinas humanas derivadas dEle. O original e completo é sempre melhor. Portanto, não nos contentemos com menos do que Jesus, o Cristo, pois Ele não é apenas o mais importante, é essencial.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Elementos complementares

Matheus Viana

Conhecemos a diferença entre gratidão e satisfação (contentamento)... Na teoria. Na prática, a realidade é bem diferente. Por vezes, assaltado pela insônia ou pela dificuldade de respirar, fico vagando pela minha casa durante a madrugada, contemplando minha esposa e o meu filho dormindo. Com isso, sou acometido por um turbilhão de pensamentos.

O sentimento de gratidão, no entanto, se destaca. Lembro-me do Salmo 100:4: “Entrai pelas portas do louvor com ações de graças.”. Ações de graças. Quando recebemos algo de alguém, somos acometidos, de súbito, pelo sentimento de gratidão que se manifesta, na maioria das vezes, em três passos. O primeiro é o pedido verbalizado de “obrigado”. O segundo é o senso de dívida, ou seja, o desejo – e também a necessidade – de retribuirmos o que graciosamente recebemos. O terceiro é a prática desta retribuição. Por isso, a gratidão a Deus que sinto me leva a pensar que o desejo de ter meu corpo plenamente restaurado é, na verdade, um sintoma de ingratidão. Complexo? Claro que é.

Como posso desejar tal melhora se desfruto da companhia de uma esposa que me ama e me trata tão bem? Como posso nutrir um desejo como este se tenho um filho lindo, saudável, inteligente (sim, a “corujisse” paterna é evidente) e que não mede esforços em ter o meu afago? Além das inúmeras outras benesses as quais desfruto. Apesar disto, sim, tenho problemas. Quem não tem? Jesus nos advertiu no tocante a esta mórbida realidade (Cf. Evangelho segundo João 16:33).

É neste ponto que reside o “x” da questão. O desejo de progredirmos, em todo e qualquer aspecto de nossa vida, não anula a nossa gratidão. Mas confesso que ainda penso diferente disto. Como posso desejar viver com um corpo normal ao me deparar com casos bizarros muito piores que o meu? Como nutrir tal desejo ao me deparar com a vida de Nick Vujicic, por exemplo? “Sou um ingrato.”, atesto para mim mesmo. Contudo, não foi isso que Jesus nos ensinou.

Em determinada ocasião, Jesus questionou um homem cego: “O que queres que eu te faça?” (Evangelho segundo Marcos 10:51). É óbvio que Jesus sabia qual seria a resposta? Porém, Ele queria que o homem acometido pela cegueira expressasse seu desejo de ser curado. Quando um leproso chega a Jesus, ele não pede, no primeiro momento, para ser curado. Mas O adora. Seu clamor é mais do que interessante. “Senhor, se quiseres, podes purificar-me.”. Jesus responde: “Quero, fica limpo!” (Evangelho segundo Mateus 8:3).

Aquele leproso demonstrou sua gratidão ao se prostrar diante de Jesus e seu contentamento ao chama-lo de “Senhor”. Para nós, ocidentais, este termo é somente um pronome de tratamento. Mas para um judeu é muito mais do que isto. O termo  Adonai (Kyrios, no grego) era e ainda é usado somente para se referir a Deus, ou seja, a Yahweh. É neste mesmo pensamento que Davi, milênios antes, escreveu: “Alegra-te do Senhor, e Ele satisfará o desejo de seu coração”. (Salmo 37:5) Mesmo assim, o leproso expressa seu desejo de ser curado. Portanto, gratidão e desejar a cura são elementos complementares, não excludentes.


Mas e se a cura não se manifestar como e quando desejamos? E se ela não acontecer? Deus não deixa de ser Deus por isso. O fato de estarmos vivos, apesar de nossas deficiências, já é, por si só, motivo para expressarmos a Ele nossa gratidão.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Consciência protetora

Matheus Viana

A consciência de que somos pecadores é o principal instrumento que impede a ação do orgulho sobre nós. O apóstolo João preconizou tal fato (I João 1:8). Paulo o repercutiu em suas cartas, principalmente na dirigida aos romanos, como nenhum outro. Mas a explanação de Tiago sobre a ação do pecado em nós foi peculiar. Tenho a impressão de que ele pegou emprestado o princípio aristotélico do ato/potência (Tiago 1:14-15).

Cada um é tentado por sua própria cobiça. O desejo pelo pecado está em nosso DNA interior (Salmos 51:5, Colossenses 3:5). Portanto, somos pecadores em potenciais. Por isso, somos tentados. Diferentemente de Deus que não pode ser tentado, pois não há nEle o desejo pelo mal (Tiago 1:13). Infelizmente, este desejo natural pelo pecado (potência) se transformará em ato. Santidade é justamente a difícil tarefa de impedir esta transformação.

Analisando a Palavra de Deus, vemos que Ele busca em nós uma santidade pautada no arrependimento. É de conhecimento público, e graças a Deus bastante difundido, o conceito de “arrependimento”. Não é, portanto, necessário o elucidarmos. Por outro lado, é impossível praticar a impecabilidade (Romanos 7:18-19). João nos adverte sobre isto (I João 1:9-10). Mas a santidade que Jesus nos adverte (Evangelho segundo Mateus 5:48) é possível através do... Isso mesmo: arrependimento.

Sua ação, no entanto, exige a consciência de que somos pecadores lutando, através da manifestação do Espírito Santo de Deus (Evangelho segundo João 16:8), para sermos santos. E não a de que “somos santos lutando contra o pecado”. Quando estudamos os atributos de Deus, os comunicáveis e os incomunicáveis, vemos dois tipos de santidade. A que Deus comunica ao ser humano, e consequentemente deseja que ele viva, é Kadesh. Já a santidade que pertence somente a Deus, que significa a plena ausência do mal, é Kadosh. Os apóstolos, ao chamarem os crentes de “santos”, estavam falando do primeiro tipo e em seu primeiro estágio: separado, em santificação. Ou seja, separados de toda ação e padrão ético provenientes do pensamento mundano, contrários à Palavra de Deus (Romanos 12:2, II Coríntios 4:4) para começarmos a trilhar rumo à estatura do varão perfeito (Efésios 4:13).

Uma das formas mais sutis em que o pecado se manifesta é o orgulho. Por isso, nossas ações, mesmo as bem intencionadas, estão eivadas dele. Servirmos a Deus por querermos o reconhecimento dos homens. Pregamos a Palavra para que nossa opinião seja considerada e repercutida. Falem mal ou bem, mas falem de mim é o ditado em voga. Mediante tal realidade, vemos o ribombar de ministros buscando um “lugar ao sol” (leia-se fama). Alguns destes, quando contrariados, queixam que estão “sofrendo perseguição” e vociferam frases piegas como se fossem pérolas.

Quando temos a plena consciência de que somos pecadores, e por isso precisamos de arrependimento, o sentimento, na maioria das vezes inconsciente, de que somos superiores aos outros desaparece. E não nos enganemos. Este sofisma é tão latente que Paulo, em sua carta aos filipenses, precisou exortar aos cristãos a considerarem os outros superiores a si mesmos (Filipenses 2:1-3). Cujo golpe de misericórdia foi a advertência de termos o mesmo sentimento (phronesis/phroneisto – sentimento que gera uma atitude) que houve em Cristo Jesus e o levou a se tornar servo (doulos – escravo) por nós.

Qual a intenção de nossas ações? Quando nos esquecemos do fato de que somos pecadores, corremos o grave risco de pensarmos que somos importantes. Pelo menos, mais que alguém. Um erro crasso.

sábado, 19 de abril de 2014

Retenção de CO2

Matheus Viana

“Seu pulmão está retendo CO2. Isto significa que sua situação respiratória é crônica. A constante falta de ar que você tem sentido é por conta de seu pulmão não possuir ventilação suficiente e, por isso, não libera espaço satisfatório para a entrada de oxigênio.”

Este foi o diagnóstico unânime dos clínicos gerais da emergência e do pneumologista que me atende após um exame de gasometria no sangue. A solução para isso foi a indicação de um aparelho de auxílio ventilatório (e não respiratório) chamado BIPAP. Não me pergunte o que esta sigla significa, pois eu também não sei. E não me dei o trabalho de fazer uma pesquisa rápida no Google. Mas sei que ele ajuda a ventilar os pulmões na medida necessária para que, aos poucos, o CO2 que não consigo liberar por mim mesmo seja liberado para a entrada de mais oxigênio. O que tem acontecido e me feito sentir melhor.

No entanto, para que o aparelho faça o efeito esperado, preciso permanecer ligado a ele por no mínimo 6 (seis) horas diárias. Há dias, quando possível, que permaneço de 7 (sete) a 8 (oito) horas, claro, divididas em períodos de 2 (duas) a 3 (três) horas. Durante estes períodos, além de assistir televisão para que o tempo passe mais rápido, reflito sobre minha situação.

Vários são os meus questionamentos. A história de Jó parece renascer. Um dos meus principais questionamentos é o por que sinto um desejo enorme de servir a Deus mas permaneço impossibilitado. A partir disto, surge em meu intelecto o questionamento sobre o motivo de eu querer servir a Deus: se é para agradar a Deus ou achar sentido em minha vida atribulada.

Algumas lições tenho aprendido nestas situações. A primeira é a de que, mesmo com a intenção correta, corremos o risco de nos tornarmos, a exemplo de Marta, irmã de Lázaro, ativistas. Preocupada com o servir, mas sem tempo para prostrar-se aos pés de Jesus (Evangelho segundo Lucas 10:40-42). Eu estava entrando por este caminho. E o que é pior, sem perceber. Paulo foi um dos cristãos que mais trabalhou em prol do Evangelho. Mas em situações de prisões e açoites, ele substituía o tempo que poderia ser usado para o questionamento ou murmuração para... louvar e adorar a Deus (Atos 16:26-27).

Outra lição é que, assim como eu retenho CO2 em meus pulmões, adquirimos muitas coisas que são nocivas a nós e não conseguimos desfazer delas. Não vou fazer aqui uma relação destas coisas, pois vai ficar parecendo texto autoajuda, ou estes textos piegas que pretendem ter o caráter de terapêuticos sem serem de fato. O que posso fazer é citar a questão a fim de propor a reflexão. Esta última, no entanto, é própria do leitor. Ou seja, qual o “CO2” retido no “pulmão” interior de seu coração é você quem deve diagnosticar. Lembremos o que o sábio Salomão adverte: “De todas as coisas que deves guardar, guardas o coração, pois dele procedem as fontes da vida.” (Provérbios 4:23). Assim como o pulmão precisa liberar CO2 para a entrada de oxigênio, nosso coração liberará vida se primeiro receber. E, para receber, precisa ter espaço para isso, ou seja, liberar o “CO2” que recebemos ao longo de nossa jornada.