terça-feira, 11 de março de 2014

Engano altruístico

Matheus Viana

Há alguns meses minha saúde, em especial a respiração, – já bastante precária – tem piorado consideravelmente. O que tem me deixado fisicamente fraco.

Diante deste quadro, reflito sobre as limitações – que beiram a impossibilidade – que tenho para executar o que creio ser o propósito de Deus para mim: fazer e ensinar. Estas limitações têm aumentado na medida em que tornam-se alvo do meu foco. Levado pelas emoções, medito na história de Jó. Sim, já a li várias vezes, mas o atual contexto é peculiar. Movido pelo Espírito, de forma simples e prática, medito na carta do apóstolo Paulo aos colossenses. Dois relatos completamente discrepantes para uma experiência comum: o sofrimento.

Jó estava diante de um contexto cuja degradação era tão horrenda – perdera os 10 filhos, os bens que possuía e fora acometido por uma terrível enfermidade – que ele, além de amaldiçoar o dia em que nasceu, pediu para si a morte. Apesar de não blasfemar contra Deus, Jó contemplava os males que o acometia e seu clamor era a demonstração de seu absurdo desespero.

Com Paulo era diferente. Ele estava algemado, preso em uma masmorra e havia sido, por diversas vezes, açoitado por conta de sua fé em Cristo. Mas seu alvo de contemplação, ao contrário de Jó, não era ele mesmo, ou seja, toda sorte de males que o acometia, mas o conhecimento de Cristo. Seu clamor não era mórbido e pessimista como o de Jó. Era, na contramão, de esperança.

Ao me deparar com tais discrepâncias, fiquei intrigado. O que determinou estas atitudes tão díspares e contraditórias foi apenas um fator: o alvo de contemplação. Apliquei estes conceitos em minha vida e constatei: eu sou o alvo da minha contemplação, juntamente com os males que me acometem. Em outras palavras, isso é egolatria. E esta atitude redunda, concomitantemente, em justiça humana. Ou seja, na afirmação enganosa de que Deus é indiferente ao nosso sofrimento ou de que não o merecemos.

Poderíamos discorrer sobre teodiceia, mas o meu tempo e sua paciência não permitem. Faremos isso em outra ocasião, lembrem-me! Em contrapartida, quando temos Cristo como alvo (Filipenses 3:13-14, Hebreus 12:1-2), nosso latente sofrimento se transforma em “leve e momentânea tribulação” (II Coríntios 4:17) quando comparado à “boa, perfeita e agradável vontade de Deus” (Romanos 12:2).

Por vezes me esqueço de que um genuíno discípulo de Cristo – ainda que não seja perfeito – não possui vida própria (Evangelho segundo Mateus 16:24). Cruz é lugar de morte. Ou seja, nossas atitudes devem ser determinadas pela consciência de que não vivemos para nós mesmos (II Coríntios 4:9-10), mas para cumprir a plenitude do propósito de nosso Criador. É isso que Jesus quis dizer quando declarou: “Porque a minha comida consiste em fazer a vontade daquele que me enviou a fazer a boa obra.” (Evangelho segundo João 4:34). É por isso que o apóstolo Paulo atesta: “tende em vós a mesma atitude que houve em Cristo Jesus” (Filipenses 2:5).

Jesus nos libertou (Evangelho segundo João 8:32-36) para que fôssemos livres e, assim, nos tornarmos seus escravos (Romanos 6:18). Esta condição, no entanto, não é a de Jesus para conosco, mas é a nossa para com Ele. Pois assim como o filho pródigo reconheceu seu erro e se arrependeu, colocando-se diante de seu pai em uma posição de escravo e foi recebido como filho pelo pai (Evangelho segundo Lucas 15:21-22), Jesus nos recebe como filhos (I João 3:1) e amigos (Evangelho segundo João 15:16). Sofrimento não é limitador de altruísmo e do cumprimento do propósito de Deus a nós. Qualquer afirmação contrária é engano altruístico.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

O “deus” do acaso

Matheus Viana

Marxistas e darwinistas têm um ponto em comum: a maneira rígida – para não dizer fundamentalista - de interpretar e entender o mundo. Para o marxista, o mundo é resultado de uma dialética histórica de luta de classes opostas. Para os darwinistas, é resultado de processos evolutivos que ocorreram e ainda ocorrem de forma acidental.

Sendo assim, propósito é algo que não existe. Richard Dawkins que o diga. Diante disso, imaginemos a natureza sem o elemento “propósito”. O sol não serve para emitir luz e calor sobre a Terra, o faz por acidente. A precisão e perfeição dos movimentos de rotação e translação da Terra são acidentais. O eixo da órbita da Terra em relação ao sol também é. A camada de ozônio não possui o propósito de proteger a Terra da radiação do sol nociva aos seres humanos, o faz por acaso.

O ciclo reprodutor humano é acidental. Ou seja, o útero não possui o propósito de fecundar o sêmen do homem a fim de gerar vida. O nascimento de um ser humano é acidental. Consequentemente, a vida, como um ente natural, também é. Logo, estamos perdidos, vivendo em um universo que surgiu por acaso. Somos, literalmente, acidentes da natureza.

Calma! A Ciência não atesta tais absurdos. Pelo contrário, preconiza a existência de propósito em cada coisa na natureza. Vejamos os seres humanos. Cada membro do nosso corpo possui um propósito definido. Por exemplo, enxergamos através de nossos olhos. Logo, o propósito dos olhos é de nos fornecer visão. E isso desde a existência dos seres humanos. Nunca outro órgão cumpriu este papel. Até mesmo a teoria da evolução não diz que há milhões de anos ouvia-se com os olhos, via-se com os ouvidos e comia-se pelo orifício anal. O macho não pode e nunca pode fazer nascer, mesmo que seja um ser da mesma espécie, de seu ventre. Somente a fêmea. Já pensou nisto?

A chamada ciência natural não tem como intento descobrir a verdade sobre a origem de todas as coisas, mas apenas construir uma completamente desprovida de propósito. Pois quando não há propósito, não há responsabilidade. É desnecessário dizer que os cristãos que creem - o verbo é completamente pertinente – na teoria evolucionista negam – mesmo não querendo - a fé no cristianismo. Pois se o ser humano é produto do acaso, não há nele propósito. Sem propósito, não há pecado, já que o termo hebraico hata significa, literalmente, errar o alvo/não cumprir o propósito estabelecido. Sem pecado, não há redenção. Sem redenção, Jesus não passa de um mero personagem histórico e o cristianismo de uma mera religião.

Na contramão, o próprio Jesus testificou a literalidade de Gênesis (Evangelho segundo Marcos 10:6). O apóstolo Paulo, debatendo com epicureus e estoicos, afirmou que Jesus é “O Deus que fez o mundo e tudo o que nele há (...) De um só ele fez todos os povos, para que povoassem toda a terra, tendo determinado os tempos anteriormente estabelecidos e os lugares exatos em que deveriam habitar”. (Atos 17:24-26).


O salmista Davi elucida: “Tu criaste o íntimo do meu ser e me teceste no ventre de minha mãe.” (Salmo 139:13). Dizer que tal fato é obra do acaso é pegar a magnitude da obra de Deus e atribuí-la à natureza. Desta forma, a natureza, ou melhor, a ciência natural, torna-se um deus. Um deus que, pela força dos fatos, também surge por acaso.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

O paradoxo do livre-arbítrio

Matheus Viana

Jesus foi tentado também para nos mostrar que, como Ele, seremos tentados (Evangelho segundo Mateus 26:41) e que, também como Ele, podemos vencer. No entanto, para compreendermos a tentação de Jesus como um todo, temos que analisar o aspecto “vontade” ou “volição” e, consequentemente, o livre-arbítrio. Portanto, não trafegarei no eixo “predestinação x livre-arbítrio” utilizado à exaustão no confronto teológico – principalmente no que concerne à salvação - entre “calvinistas” x “arminianos”.
      
O filósofo alemão Arthur Schopenhauer, em seu livro Livre-arbítrio, preconiza que a vontade não é livre. Para defender sua tese, trabalha com a questão: “Pode o homem fazer o que quer?”. Segundo ele, este “querer”, ou seja, a vontade é determinada por fenômenos (excitações e motivos) e objetos (mundo exterior) denominados pela razão. Levando em consideração que a razão a qual ele trabalha é a síntese da racionalidade (Descartes) e do empirismo (Francis Bacon e John Locke), oriunda de Kant. Sendo assim, Schopenhauer afirma que para sabermos se a vontade é livre ou não, precisamos conhecê-la. Contudo, ele afirma que a consciência não possui tal capacidade, mas somente a razão. A vontade nasce do fenômeno (atitude empírica) e do objeto (com o que nos relacionamos através dos nossos sentidos). Ou seja, não surge do nada, do acaso, o que Schopenhauer chama de “liberdade de indiferença”. Por isso, ela não é livre, mas predeterminada.
       
Desta forma, nossas ações também não são livres, pois Schopenhauer define ação como a síntese entre o caráter - que ele define como próprio do ser humano, inato e imutável - e o motivo (propósito) - resultado de nossa experiência com o mundo exterior através dos sentidos. Mas Schopenhauer ainda reflete sobre uma questão que diz ser anterior a já brevemente analisada: “Pode o homem querer o que quer?”. Eis o seu silogismo: A essência do homem é vontade, e vontade de viver. Esta vontade determina a ação do homem. Logo, o homem faz aquilo que é.
      
Schopenhauer denomina o fato de que a vontade é determinada pela razão de “necessidade”, fazendo alusão à necessidade, por exemplo, que uma equação matemática tem de seu resultado. Sendo assim, a vontade é a “necessidade” da excitação – que não exige pensamento por ser um instinto - e também do motivo – que exige pensamento por ser um propósito. A ação, por sua vez, é a síntese do caráter e do motivo.
      
O filósofo americano Alvin Plantinga, em seu livro Deus, a liberdade e o mal, trabalha com a tese de que o bem e o mal foram atributos concedidos aos seres humanos por Deus, os quais constituem a liberdade humana. Ou seja, se o mal não existisse, o homem não seria livre, mas escravo do bem. Usando as regras da lógica, trabalha com as possibilidades de mundos possíveis onde o mal não existe. Também trabalha com o fato de que não existe bem sem o mal, assim como não existe luz sem as trevas, ou a verdade sem a mentira. Tais afirmações vêm na esteira do argumento ontológico sobre o mal feito por Agostinho quando diz em seu livro, O livre-arbítrio, que o mal não existe por si só. Assim como a ferrugem só existe pelo fato de o ferro existir, o mal existe porque o bem existe. Assim como a ferrugem está impregnada ao ferro, a existência do mal é dependente da existência do bem.
      
O ser humano só é, de fato, livre se tem a possibilidade de praticar tanto o bem como o mal. Pois, por outro lado, se o bem não existisse, o mal não seria classificado como tal. Contudo, após o pecado, a vontade do homem deixou de ser totalmente livre, pois sua natureza foi corrompida (Salmo 51:5, Jeremias 17:9, Colossenses 3:5), o que nos impossibilita de realizarmos o bem, ou seja, a vontade de Deus por nós mesmos. É neste ponto que se instala uma efervescente questão. O apóstolo Paulo diz que ele deseja fazer o bem, mas não consegue. E, em contrapartida, não deseja fazer o mal (Romanos 7:18-19), mas o realiza mesmo não querendo, ou como diria o lendário personagem do humorista mexicano Roberto Bolaños, Chesperito, conhecido no Brasil como Chaves: “sem querer, querendo”.
      
O que o apóstolo Paulo está querendo elucidar é que, por conta da nossa natureza pecaminosa, ainda que desejamos o bem, não conseguiremos realizá-lo sem a ação divina. É neste ponto que devemos nos lembrar da promessa do consolador feita por Jesus (Evangelho segundo João 14:26). Pois Ele nos fará lembrar a vontade do Pai e nos ajudará a realizá-la. O que quero dizer com isto é que só somos verdadeiramente livres, e consequentemente nossa vontade, quando Jesus nos liberta (Evangelho segundo João 8:36). Mas em que consiste esta liberdade? Na cruz. E não se trata de um “passe de mágica”, mas na subserviência constante ao que chamo de paradoxo da cruz. Ou seja, só teremos nossa vontade verdadeiramente livre quando a renunciarmos de modo a realizamos a vontade de Deus a nosso respeito.
      
Paulo chama esta sujeição de “escravos da justiça” (Romanos 6:17-18). Somos livres para realizar a nossa vontade, mas nossa vontade não é livre. Ou ela é dominada pelo pecado (Evangelho segundo Marcos 7:21-23, Tiago 4:1-3), ou pela ação do Espírito Santo de Deus sobre nós (Romanos 8:13-14). A renovação de mente que nos leva a viver a boa, perfeita e agradável vontade de Deus (Romanos 12:2) é o fato de que nossa razão - a que determina a nossa vontade elucidada por Schopenhauer - seja submetida à Logos (poder e sabedoria, I Coríntios 1:24) de Deus de modo a pensamos (I Coríntios 2:16), agirmos (Filipenses 2:5) e vivermos como Cristo (Romanos 8:29), a plenitude da vontade de Deus aos homens (Gênesis 1:27, Colossenses 1:15). 

Resumindo, seremos verdadeiramente livres quando nossa vontade for plenamente liberta da escravidão do pecado – por intermédio da ação da Graça de Deus (Romanos 5:20) a nós - de modo a ser completamente sujeita à Sua vontade (Evangelho segundo João 8:32). Sendo assim, nosso "livre-arbítrio" consiste apenas na escolha sobre onde submeteremos nossa razão a fim de que ela determine nossa vontade: à soberana vontade de Deus - por intermédio do Espírito Santo, e não por nós mesmos -, ou ao pecado.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Mendicância espiritual

Matheus Viana

Quem nunca se deparou com um mendigo? Sim, você já se deparou. O que sentiu? Eu, pelo menos em minha experiência pessoal, defino tal sentimento como estando entre a indiferença e a misericórdia, ou seja, a compaixão que nos leva a fazer algo a favor dele. É o “vulgo” sentimento chamado de ‘dó’. Isso mesmo. Poderíamos fazer uma ampla abordagem sobre o que leva uma pessoa à mendicância. Mas não é este, no momento, o meu intento.

Pedro e João, ao se dirigirem para o Templo, foram abordados por um mendigo. Não era somente um “pedinte de esmolas”. Era um aleijado. Apesar de não poder andar, ele não clamava para que as pessoas o ajudassem a andar de modo a mudar sua situação, a exemplo do clamor do cego Bartimeu a Jesus (Evangelho segundo Marcos 10:47-52). Pedia “apenas” esmolas.

Ao ler esta narrativa, sou levado a pensar que muitos dos que frequentavam o templo davam-lhe esmolas. Afinal, dar esmolas é uma advertência de Jesus (Evangelho segundo Mateus 6:1-4). No entanto, Pedro e João foram além. Ao ser abordado pelo mendigo, Pedro lhe surpreendeu dizendo: “Olhe para nós.”. Este comando é que deu início ao milagre libertador em sua vida.

“Olhe para nós.”. Pedro discerniu que a necessidade daquele mendigo era muito maior do que o objeto de sua mendicância. Ele pedia esmolas, mas sua necessidade era de andar. O comando de Pedro representou a seguinte mensagem: “Eu tenho o que você realmente precisa”. Mas a mensagem de Pedro foi ainda mais enfática: “Não tenho prata nem ouro, mas o que eu tenho, isto lhe dou.” (Atos 3:6).

O mundo pós-moderno é regido por uma mentalidade materialista. E tal regência tem alcançado, infelizmente, a Igreja. Multidões têm frequentado templos evangélicos à procura de terem suas necessidades e desejos materiais atendidos. São o “público perfeito”, ou melhor, a “freguesia ideal” para as denominações adeptas da teologia da prosperidade. Semelhantes ao mendigo, estas multidões têm clamado por “esmolas”, sendo que possuem uma necessidade muito maior do que os objetos que visam alcançar. O apóstolo Paulo revelou esta verdade quando disse: “A ardente expectativa da criação aguarda pela manifestação dos filhos de Deus.” (Romanos 8:19). O ser humano precisa de salvação. Todavia, salvação não implica apenas no direito de ir morar no céu, mas de ser religado ao Criador de modo a encontrar e viver o verdadeiro sentido da vida que existe apenas nEle.

Aquele mendigo não tinha outra perspectiva em sua mísera vida a não ser... pedir esmolas. Esta era a maneira como ele se via. Ele pensava como um mendigo, sentia-se como um mendigo e, consequentemente, agia como um mendigo. A cosmovisão materialista – após Feuerbach – não é diferente. Conforme preconizou Karl Marx em seu livro A ideologia alemã, na tentativa de explicar a práxis revolucionária: “A maneira como os indivíduos manifestam sua vida reflete exatamente o que eles são. O que eles são coincide, pois, com sua produção, isto é, tanto com o que produzem quanto com a maneira como produzem. O que os indivíduos são depende, portanto, das condições materiais de sua produção."1. Ou seja, Marx preconiza que a consciência do ser humano é determinada pelo seu ser social. E o que faz a história não é o que o ser humano pensa, mas o que ele faz.

De acordo com esta ideologia, se sou pobre, não passo de uma vítima explorada pela “elite dominante”. Por isso, não me é lícito almejar uma melhora de vida pelas vias do exercício e do desenvolvimento nos aspectos intelectual, econômico e social. Muito menos o espiritual, já que a religião é “o ópio do povo”. A única alternativa que me resta, no entanto, é a luta de classes que Marx denomina como “a derrubada violenta de toda a ordem social”.

Antes de falarmos deste comando de Pedro, analisemos a posição deste mendigo. Ele era aleijado, ou seja, um enfermo. Como sabemos, o pensamento que fundamentava a cultura hebraica, por conta da Lei de Moisés, era a de que todo enfermo é, na verdade, uma pessoa debaixo de maldição por conta de seu pecado. Premissa que Jesus lança por terra ao responder aos fariseus que lhe questionaram sobre a cegueira de um homem (Evangelho segundo João 9;1-2). Por isso, ele era um alijado social e, por que não dizer, espiritual.

Seu “ponto de ação” era a porta chamada Formosa, que fazia divisão entre o pátio exterior, reservado às mulheres e aos “cidadãos comuns” e onde eram colocados os demais enfermos; e o pátio interior, reservado aos sacerdotes. O pátio dos sacerdotes era a antessala do Lugar Santo, o lugar de culto a Deus. O lugar em que o mendigo permanecia é significativa para nós. Muitos estão inseridos no Corpo de Cristo, frequentam a Igreja, mas estão aquém do lugar que Deus deseja que eles estejam.

Para aquele mendigo, o lugar em que permanecia era cômodo, pois não desejava cultuar a Deus, e sim apenas pedir esmolas. Devemos levar em consideração o fato de que ele, por ser aleijado, não tinha permissão de cultuar a Deus no Templo. Mas, pelo menos na narrativa de Lucas, não há nenhum indício de que ele quis mudar esta drástica realidade. Exercer o discipulado não consiste em dar apenas esmolas, mas sim em ser canal para uma transformação em todos os níveis da vida do indivíduo.

Pedro e João nos legaram uma importante lição. Foram usados pela intervenção milagrosa de Deus que devolveu a dignidade àquele homem. Ele não deixou de ser mendigo somente. Deixou de ser enfermo. Todos os presentes ficaram maravilhados com sua transformação (Atos 3:11). Nossa missão é sermos agentes deste tipo de transformação. Comecemos pela nossa...

Notas:

1 - MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã, tradução de Luis Cláudio de Castro e Costa - 3ª edição - São Paulo, 2007 - Martins Fontes, pp. 11.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Balão de oxigênio

Matheus Viana

O medo aumenta na medida em que o fôlego diminui. Confissão que permeia meu coração. Preocupação que atormenta minha mente. O questionamento de outrora que relatei em meu livro vem novamente à tona: “O que nutro em meu coração é fé ou medo de morrer?”, apesar da resposta ser evidente. Por isso preciso trilhar o mesmo processo a fim de obter a mesma descoberta nele relatada. Exercício árduo.

A escassez em minha respiração tem, além de aumentado, me deixado cada vez mais fraco. Uma simples caminhada de poucos metros, e em um ritmo bastante tranquilo e lento, causa em mim um ofegar preocupante, além de uma taquicardia assustadora. Dormir está cada vez mais difícil. A chamada “apneia do sono” não me deixa ter um sono revigorante. São vários períodos curtos de sonos rasos e que, por isso, não permitem o descanso que tanto preciso.

Fôlego. Sua escassez me faz lembrar do prognóstico médico de fazer uso de um balão de oxigênio, o que nunca fiz até a presente data. Também me fez meditar sobre sua importância. Fôlego não é “meramente” importante, é vital. O ser humano se tornou vivente após receber o fôlego de vida (nishmat chayin, no hebraico) de Deus sobre suas narinas (Gênesis 2:7). Este mesmo fôlego inicial foi o que ressuscitou Jesus dos mortos. E é ele, personificado no Espírito Santo, que passa a habitar em nós quando nos submetemos ao Seu Senhorio e à Sua salvação (Romanos 8:11). A expressão Espírito que aparece em Romanos 8:11 no original grego é pneuma, por isso pode ser traduzida como fôlego. Ou seja, o Espírito de Deus é também o fôlego de vida de Deus em nós. Tanto no hebraico (ruach) quanto no grego (pneuma) uma única expressão é traduzida para o português como espírito e fôlego.


Apesar de minha respiração precária, o Espírito (Fôlego) de Deus habita em mim, pairando sobre minha vida assim como pairava, no início, sobre a face do abismo (Gênesis 1:2). A expressão Espírito de Deus que aparece no referido texto é a tradução da expressão original Ruach Elohim. Sendo assim, não há motivo para que eu tema. Preciso apenas me atentar, devida e satisfatoriamente, para este fato. Pois meu escasso fôlego tem o poder de tomar minha atenção e também minha emoção. A fé desfalece. A nuvem negra do medo se avoluma. Mas se dissipa na medida em que me atento para o fato citado acima. O Ruach Elohim está sobre mim. Ele tem garantido o meu viver. Ele é o meu “balão de oxigênio”.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

O propósito da insígnia

Matheus Viana

O sociólogo francês Emile Durkheim (1858-1917) constatou em seu livro Suicídio: um estudo sociológico, que uma das principais causas de suicídio é a carência de propósito na vida do indivíduo. Conforme preconiza o argumento teleológico, defendido por Willian Paley, e também o argumento cosmológico, defendido por Tomás de Aquino e Al-Ghazali, tudo o que existe na natureza possui uma origem e um propósito. Nada é por acaso.

O ser humano é natural. Logo, sua existência é a prova cabal de que possui um propósito. Antes, portanto, de meditarmos sobre o propósito que repousa sobre nós, precisamos adquirir a consciência de que ele existe. Esta consciência, por sua vez, não é teórica ou passiva, mas prática.

O apóstolo Paulo elucida sobre esta prática advertindo os cristãos filipenses: “Tende em vós o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus.” (Filipenses 2:5). Não se trata de sentimentalismo piegas ou comiseração auto-ajuda atualmente em voga. A expressão sentimento, em outras traduções - como por exemplo a NVI (Nova Versão Internacional) - é traduzida como atitude. A expressão original é froneísto, derivada do radical froneo, que significa o pensamento que antecede uma ação.

Para entendermos melhor o que Paulo quis dizer, precisamos evocar a diferença entre instinto e vontade (Não deixe de ler o texto: Instinto, vontade e propósito). Instinto é uma ação desprovida de razão. Por outro lado, a vontade sempre é determinada pela razão. Immanuel Kant teorizou uma divisão da razão humana em duas partes: pura (pensante) e prática (uso dos cinco sentidos). Para ele, nossas atitudes são, além de desdobramentos de nossa experiência empírica (razão prática), determinadas pela nossa racionalidade (exercício do pensamento). Grosso modo, o númeno (razão pura, pensamento), determina a razão prática (fenômeno). Todavia, a razão pura (númeno) não pode ser conhecida (incognoscível). Já a razão prática (fenômeno) pode ser conhecida e estudada (cognoscível).

Um exemplo disto é quando eu exclamo: “Estou com vontade de comer bolo de chocolate!”. Este desejo, contudo, é fruto de ter me lembrado (razão pura) do bolo que minha mãe fez há um mês. Mas esta lembrança só é possível por conta da experiência empírica de tê-lo comido pela primeira vez. Ou quando estamos sentados em nosso confortável sofá, vendo TV e nos deparamos com a propaganda de uma lanchonete famosa mostrando um sanduíche suculento. Esta visão pode causar em nós o desejo de comer o sanduíche. Ou seja, tal desejo é produto da razão prática (experiência empírica, visão) que tivemos com o “sanduíche virtual”.

É exatamente isso que a expressão froneísto significa: pensamentos que determinam nossas atitudes. Contudo, nosso froneísto deve ser exatamente o mesmo de Jesus. Por isso o apóstolo Paulo exorta aos cristãos romanos: “Transformai-vos pela renovação da vossa mente (nous – intelecto), para que experimenteis qual seja a boa, perfeita e agradável vontade de Deus.” (Romanos 12:2). Pois o mesmo Paulo advertiu: “O deus deste século cegou o entendimento (nous – intelecto) das pessoas para não lhes resplandecer a luz do evangelho.” (II Coríntios 4:4). Por isso a renovação da nossa mente, que consiste na plena submissão de nosso modo de pensar, e consequentemente de ser e agir, ao padrão de normalidade de Deus ao homem, que é Cristo Jesus, é fundamental. Não é em vão que Paulo orienta aos coríntios: “... levando cativo todo pensamento, para torná-lo obediente à Cristo.” (II Coríntios 10:5).

Uma vez entendido o caráter da consciência que devemos obter, partamos para o propósito. Como discípulos de Cristo, pais e professores, o propósito que repousa sobre nós é o de sermos usados por Deus para que possamos formar pessoas à semelhança de Cristo. O apóstolo Paulo diz aos cristãos colossenses: “Nós o proclamamos, advertindo e ensinando a cada um com toda a sabedoria, para que apresentemos todo homem perfeito em Cristo.” (Colossenses 1:28).

Sabemos que o propósito central de Deus a nós é o de nos tornarmos à semelhança de Cristo para que possamos viver como Ele (Romanos 8:29). Fomos formados à Sua imagem e semelhança (Gênesis 1:27, Colossenses 1:15). Mas o pecado degradou este padrão de normalidade. No entanto, conforme o apóstolo Paulo exorta, a maneira de cumprir o propósito que repousa sobre nós é o de advertir e ensinar.

A palavra ensino é derivada da expressão latina insignia, que significa marca. Mais do que transmitir informações e conceitos, ensinar é deixar uma marca no coração de nossos filhos e alunos. E esta marca é a que Paulo chama de perfeita varonilidade (Efésios 4:13). Por isso, em sua carta aos colossenses, usa a expressão “perfeito em Cristo”. Mas há uma maneira de exercer este ensino. É a que Jesus exerceu. Ela consiste em aprender, fazer e ensinar.


Lucas sintetizou todo o ministério de Jesus em “fazer e ensinar.” (Atos 1:1). Contudo, Jesus ensinou apenas o que realizou (Evangelho segundo Mateus 7:28-29), e realizou apenas o que viu o Pai fazer (Evangelho segundo João 5:19) e ensinar (Evangelho segundo João 8:28). Conosco não pode ser diferente. Temos que estar sempre dispostos a aprender, a realizarmos o que aprendemos (Tiago 1:22) e ensinarmos somente o que realizamos. Em outras palavras: pensar, ser e agir como Cristo.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Ortopedia

Matheus Viana

Ortopedia é uma palavra que conheço bem por ser um deficiente físico. Por vários anos fui objeto deste ramo da medicina. Sem sucesso. No entanto, a aplicação de ortopedia, em seu significado amplo às nossas vidas, possui uma conotação mais profunda, e é ela que desejo compartilhar.

Orto é o termo grego para correto ou original. Pedia é uma variação de paidia, expressão derivada de pedo, criança. Ou seja, ortopedia não tem haver somente com a correção do corpo ou exclusivamente de ossos, conforme reza o senso comum. Mas se refere ao modelo correto que mede a nossa normalidade desde o nascimento.

Mas não é só a normalidade física. As Escrituras preconizam: “Fomos formados”. Conforme afirmei em outras ocasiões, formar é diferente de criar. É fazer algo de acordo com um modelo pré-estabelecido. Fomos formados à imagem e semelhança de Deus (Gênesis 1:27). Mas como assim, imagem? Deus é Espírito! Isso mesmo. Contudo, Jesus é a imagem do Deus invisível (Colossenses 1:15). O que significa que Ele é o modelo ortopédico usado para a nossa formação.

Claro que esta afirmação não diz que somos à imagem e semelhança físicas de Jesus. Mas sim de que Ele é o nosso padrão ético. Ou seja, Jesus se encarnou para que possamos conhecer o modelo ao qual fomos formados e, consequentemente, ao qual devemos viver. No livro O discípulo radical, John Stott descreve esta verdade em três âmbitos distintos, porém coesos: passado, presente e futuro.

No passado, Stott utiliza a afirmação do apóstolo Paulo registrado em sua carta aos romanos, ao qual já utilizei em textos anteriores: “Aos que Deus de antemão os escolheu, também os predestinou para serem conforme à imagem de seu filho, a fim de que Ele seja o primogênito entre muitos irmãos” (Romanos 8:29). No presente, utiliza a afirmação paulina descrita em sua carta aos coríntios: “E todos nós com o rosto desvendado, contemplando como por espelho a Glória do Senhor, somos transformados de Glória em Glória, conforme à Sua imagem, como pelo Senhor, o Espírito.” (II Coríntios 3:18). No de futuro, utiliza a afirmação joanina: Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não é manifestado o que havemos de ser. Mas sabemos que, quando Ele se manifestar, seremos semelhantes a Ele; porque assim como é o veremos.” (I João 3:2).

Fomos formados por Deus com um padrão, que foi manifesto por Adão e Eva antes da queda. E é a esta normalidade que Deus deseja que sejamos restaurados. Portanto, podemos dizer que o Jesus encarnado é a ortopedia de Deus ao homem.

O instrumento desta ortopedia é a cruz (Evangelho segundo Mateus 16:24). Contudo, o primeiro passo para atingirmos este padrão – esta sim, a verdadeira evolução - é termos a consciência de que somos anormais, ou seja, de que estamos distantes da normalidade divina estabelecida ao ser humano no momento de sua criação. Pois Jesus não veio para os sãos, mas para os doentes. E esta consciência é que nos levará à plenitude da cruz. E sua ação em nós, por intermédio do Espírito Santo, nos restaurará ao padrão ortopédico.

Assim como o primeiro passo rumo à ortopedia de Deus ao homem é a consciência da anormalidade que nos acomete, nossa mente é o primeiro alvo de restauração. Por isso o apóstolo Paulo preconizou: “Transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, perfeita e agradável vontade de Deus.” (Romanos 12:2). Na medida em que pensamos como Cristo, como resultado da ação da cruz, passamos a ter o mesmo sentimento, conforme o apóstolo Paulo diz em sua carta aos filipenses: “Tende em vós o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus.” (Filipenses 2:5). Algumas traduções, como a NVI (Nova Versão Internacional), trazem a palavra “atitude” no lugar de “sentimento”. A expressão original é froneisto, que significa o pensamento que antecede uma atitude. Sendo assim, Paulo nos exorta a termos o mesmo pensamento que Jesus teve que o levou a tomar sobre si a cruz em nosso lugar. Não uma mera intelectualidade, mas uma racionalidade prática que envolve mente e coração. Eis o caráter do Shemá (Deuteronômio 6:5), que Jesus cita aos saduceus (Evangelho segundo Mateus 22:37-39). Eis a base ortopédica de Deus a nós.