segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Razão decapitada


Matheus Viana

João, o Batista, estava preso. O motivo? Confrontou Herodes em relação ao seu adultério com Herodias, mulher de Filipe, seu irmão. Na primeira oportunidade que teve, Herodias, através de sua filha, pediu e teve o que queria: a cabeça de João Batista (Evangelho segundo Mateus 14:8). Uma morte específica: decapitação. Algo expressivo e simbólico.

O apóstolo João afirmou: “Para isso se manifestou o Filho de Deus, para destruir as obras do maligno”. (I João 3:8). Lucas relatou em seus livros todas as coisas que Jesus começou a fazer e a ensinar (Atos 1:1). A continuação desta obra, todavia, se dará, até a consumação dos tempos e do propósito de Deus, através de Sua Igreja (Evangelho segundo Mateus 16:18).

Ou seja, estamos no mundo para destruirmos as obras do maligno, o governante desta era (I Pedro 5:8). O que consiste em deflagramos e lutarmos - lembrando de que nossa luta não é contra carne ou sangue - contra as ilicitudes existentes em todos os âmbitos com amor e misericórdia, mas também com firmeza, seriedade e santidade.

Por isso, a cabeça de um discípulo de Cristo, assim como a de João Batista, está a prêmio. Mas a conotação atual é diferente. O “deus” deste mundo quer decapitar a nossa razão. Platão, na tentativa de definir a essência do ser humano, o dividiu em três partes: razão, a cabeça, que, através do cérebro, comanda todo o corpo; coragem, região do tórax; e desejo, região do baixo ventre.

Usando esta tripartição, vemos de forma mais clara que o “deus” deste mundo quer a nossa “cabeça” (razão) com o intuito de exercer total controle sobre nós. Em outras palavras, tornar-nos alienados no tocante à nossa essência e o propósito de nossa existência. Atributos que apenas nos serão plenamente revelados na medida em que estudarmos as Escrituras. Jesus advertiu: “Examinais as Escrituras, pois elas de mim testificam”. (Evangelho segundo João 5:39). Sendo assim, quando conhecermos quem Jesus foi – e é –, saberemos quem, de fato, somos, pois fomos formados à Sua imagem e semelhança.

O apóstolo Paulo declara: “O deus deste mundo cegou o entendimento das pessoas para não lhes resplandecer a luz do evangelho”. (II Coríntios 4:4). Exatamente. Com o nosso entendimento (intelecto/razão) decapitado, não compreenderemos as Escrituras. Ou seja, não seremos iluminados pela luz a qual o salmista Davi declara: “Lâmpada para os meus pés (conduta) e luz para os meus caminhos (propósitos) é a Sua Palavra, ó Deus”. (Salmos 119:105). Este sim é o “iluminismo” salutar.

Lembre-se da advertência do profeta: “O meu povo se perde por falta de conhecimento” (Oséias 4:6). Diante de tudo isso, reflitamos: com o que temos ocupado o nosso intelecto? Nossa razão tem sido estimulada ou atrofiada? A futilidade se dissemina de maneira incontrolável. E ela tem “decapitado” a muitos, pois tem tomado a primazia das Escrituras e de Seus preceitos em seus corações e intelectos.

A filosofia atualmente em voga é o existencialismo, também chamado de anti-filosofia por não considerar o uso da razão e cujo lema principal é “a existência precede a essência”. Grosso modo, o existencialismo preconiza que o ser humano passou a existir por acaso, que sua origem é incerta. Diz também que o ser humano não é capaz de prover ou projetar o futuro, já que não tem certeza se existirá. Sua vida se resume inteiramente no presente. Portanto, deve vivê-lo intensamente. Aproveitar, da melhor maneira possível, os breves momentos da existência humana através de seus impulsos.

Esta filosofia é amplamente disseminada através dos vários meios de comunicação e na cultura de forma geral. Foi a pedra angular do movimento “sexo, drogas e rock´n roll”, também conhecido como “contracultura” em 1968, na França - através dos escritos de Albert Camus, Jean-Paul Sartre e de sua companheira, Simone De Beauvoir - que depois ribombou por todo o mundo.

Sorrateiramente, ainda determina a conduta da maioria. E, acredite, os cristãos não estão imunes desta influência. Desde Soren Kierkegaard (1813-1855), considerado o pai do existencialismo cristão, a razão tem sido colocada em segundo plano e, muitas vezes, demonizada por ser considerada inimiga e empecilho da fé. O resultado? A prática de um pseudo-evangelho, desprovido de segmentação e fundamentos bíblicos, repleto de superstições, autoajuda e apelos emocionais. Sobre isso falaremos em breve.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Campo minado


Matheus Viana

“Vigiem e orem para que não caiam em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca”. (Evangelho segundo Mateus 26:41).

O alerta de Jesus é sucinto e direto: vencer a tentação. Tentação. Ela fez Adão e Eva sucumbirem e, consequentemente, surgir o pecado com seu efeito colateral: a morte. Ela veio sobre Jesus durante toda sua vida humana (Hebreus 4:15, I Pedro 2:22). Mas de forma especial no deserto, logo após ser batizado no rio Jordão, e no Getsêmani, momentos antes de sua crucificação.

Uma simples derrota colocaria em xeque todo o plano de redenção estabelecido antes da fundação do mundo (Apocalipse 13:8). A humanidade estaria eternamente condenada. Graças a Deus, Jesus venceu. Porém, tal vitória precisa reverberar em nós. É o que preconizou o apóstolo Paulo (Romanos 8:37). Vencedores. Este título – ou nomenclatura – não tem sentido sem uma disputa, seja ela qual for. Sim, somos vencedores porque estamos em uma guerra. Qual guerra? Contra a tentação.

Mas a tentação é apenas uma das muitas armas usadas por satanás (adversário), a quem Jesus advertiu que veio somente para roubar, matar e destruir (Evangelho segundo João 10:10). O apóstolo Paulo o descreveu como o “deus deste mundo” (II Coríntios 4:4). Foi a ele que o apóstolo Pedro também se referiu quando falou sobre o ser que está ao nosso derredor buscando alguém para devorar (I Pedro 5:8).

Mas onde esta guerra acontece? O apóstolo Tiago elucida: “De onde vêm as guerras e pelejas entre vós? Porventura não vêm disto, a saber, dos vossos deleites, que nos vossos membros guerreiam?” (Tiago 4:1). Isso mesmo! O ponto nevrálgico das tentações as quais somos acometidos é a NOSSA vontade. Um campo minado. Por isso, Jesus adverte que a nossa “carne” é fraca. O termo “carne” se refere ao nosso corpo. Neste mesmo mote, Tiago usa a expressão “membros”. A palavra “corpo” tem sua raiz no latim corpus, que significa “cadáver”, ou seja, refere-se puramente à matéria humana totalmente desprovida de vida.

No grego, a palavra usada como “corpo” é soma. Diferente de “cadáver”, soma é o corpo como extensão da alma do indivíduo. Daí vem o termo “psicossomático”, comumente usado na psicanálise, que nada mais é do que quando o corpo – soma – desenvolve alguns sintomas ou patologias oriundas do estado em que a alma de determinada pessoa se encontra.

Diferentemente da dicotomia entre corpo e consciência teorizada por Platão, onde a ação da “alma” do corpo é separada da “alma” da consciência – razão -, e do dualismo psicofísico, também chamado de cogito, criado por Descartes, onde a essência do homem é seu ser pensante e o corpo é mera matéria exterior; a “carne” que Jesus afirma ser fraca é justamente a soma, o corpo como desdobramento dos desejos contidos em nossa alma. Isso significa que não venceremos as tentações que nos acomete se não vencermos, primeiramente, a nossa vontade. Esse é o grande desafio.

Vontade é originada na alma. O termo grego psique, traduzido como “alma”, engloba tanto os sentimentos (vontade) quanto entendimento (mente). Conforme temos visto, vontade, diferente de instinto, exige o uso da razão, tanto pensante quanto empírica. Portanto, não iremos vencer a nossa vontade sem sermos transformados em nossa maneira de pensar (Romanos 12:2). Pensamento aqui não se refere apenas à capacidade intelectual, mas também à tomada de decisão. Por sua vez, decisão não exige apenas inteligência, mas também sabedoria e convicção.

Estou, em plena madrugada do dia 16/11, escrevendo estas palavras. Há alguns minutos, sucumbi diante da tentação da imoralidade. Meus olhos contemplaram, por alguns segundos, mulheres ilícitas na televisão. Fui derrotado pela minha vontade. O pecado veio à tona. Neste momento, não desfrutei da vitória que Jesus conquistou em meu favor (Romanos 8:37).

Não é em vão que o sentido de arrependimento, principalmente no Novo Testamento, é “mudança de mente”. Metanoia não se trata de mera mudança na forma de pensar, mas em toda a amplitude descrita nas linhas acima. Jesus conhece as nossas fraquezas. Sabe que o pecado habita em nossa natureza corrompida (Romanos 7:18). Por isso nos oferece metanoia, que não deve ser exercida apenas em nossa mente, mas também em nosso soma. Por isso, o apóstolo Paulo advertiu: “Não sabeis que os vossos corpos são membros do corpo de Cristo?”. (I Coríntios 6:13).

O apóstolo Pedro é mais enfático: “Portanto, uma vez que Cristo sofreu corporalmente, armem-se também do mesmo pensamento, pois aquele que sofreu em seu corpo rompeu com o pecado, para que, no tempo que lhe resta (nos resta), não viva mais para satisfazer os maus desejos humanos, mas sim para fazer a vontade de Deus”. (I Pedro 4:1-2).

Schopenhauer define injustiça como o ato de alguém que, usando sua vontade própria, impede outro de realizar o que deseja, seja através da coerção física ou verbal. Já justiça, para ele, é quando uma pessoa usa sua vontade própria para fazer com que a vontade de outro seja realizada. Ou também quando um indivíduo renuncia sua vontade, segundo seu próprio querer, para que a vontade de outro seja realizada. Esta última definição de justiça é bastante similar à que Pedro exortou através de sua carta.

Tal exortação é classificada por Nietzsche de “moral escrava”. Isso mesmo! É a moral praticada por aqueles que se consideram, conforme o apóstolo Paulo elucidou, servos da justiça e escravos de Cristo (Romanos 6:19). Não que Cristo nos escravize. Pelo contrário! Ele nos liberta (Evangelho segundo João 8:36). Mas porque o verdadeiro arrependimento gera em nós a consciência de que a vontade humana, degradada pelo pecado, nos conduz à ruína. Já a vontade de Deus, gradativamente, nos restaura a plenitude de nossa essência e existência originais.



Leia também: Cobiça x necessidade

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

A outra face da verdade


Matheus Viana

Apesar de refutar as teorias de Nietzsche, concordo – em um contexto diferente, é claro – com a sua ideia sobre a busca pela verdade. Em seu livro Além do bem e do mal, além de criticar os filósofos de sua época, elucida o fato de que para descobrirmos a verdade plena sobre algo, temos que ir além dela.

É semelhante aos nos depararmos com um tapete ilustrado manualmente. A imagem pode ser bela. Contudo, é sustentada pelo seu avesso que não é belo. Mas tanto a frente quanto o verso constituem a verdade sobre a imagem. Sendo assim, quando contemplamos apenas a frente do referido tapete, temos contato com apenas parte de sua verdade.

Platão afirmava que o conhecimento da verdade não poderia ser pleno apenas com o uso dos sentidos. Mas somente quando o nosso contato com o mundo através dos sentidos – chamado de "mundo sensitivo" primeiramente por Parmênides e depois por Platão – fosse submetido ao crivo da razão. O jargão jornalístico preconiza: “Toda história tem dois lados”. Ela se aplica a todo ser humano. Por isso é imprescindível a parceria entre a fé e razão/Deus e o homem na completa compreensão das Escrituras.

O sábio Salomão orienta: “Confie no Senhor de todo o seu coração e não se apóie em seu próprio entendimento” (Provérbios 3:5). No entanto, Jesus declarou aos saduceus: “Errais por não conhecerem as Escrituras, nem o poder de Deus” (Evangelho segundo Mateus 22:29). Como? Os saduceus eram intérpretes da Lei mosaica. Conheciam as Escrituras... Não, não conheciam. Tinham apenas o conhecimento de um lado da verdade: a do entendimento humano. O conhecimento teórico das Escrituras sem a intervenção do poder de Deus é morto, conforme o apóstolo Paulo afirma: “A palavra por si só mata, mas o Espírito vivifica” (II Coríntios 3:6).

No entanto, a ação do Espírito Santo não anula, de forma alguma, a importância da razão humana. Jesus fez a seguinte promessa: “Mas o consolador, o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, vos ajudará, vos ensinará e vos fará lembrar de tudo o que tenho dito” (Evangelho segundo João 14:26). Reflita! Conforme as palavras de Jesus, o Espírito Santo, chamado de Consolador, nos guiará a toda verdade (Evangelho segundo João 16:13).

A expressão “consolador” que aparece no original grego é parakletos: para – ao lado; e kletós – chamado, convocado. Ou seja, o Espírito Santo é convocado por Deus para estar ao nosso lado agindo em aspectos concernentes ao intelecto humano: ensinar e nos lembrar dos ensinamentos de Jesus. Isso mesmo! A ação sobrenatural do Espírito Santo possui conotação intelectual. É a parceria do Consolador com a razão humana. Não se trata de racionalização da fé, mas do uso de algo que Deus concedeu ao ser humano quando o criou: capacidade de pensar submissa à ação de Seu Espírito. Pois é Ele quem perscruta as profundezas da mente de Deus e nos revela (I Coríntios 2:11).

Sendo assim, as profecias bíblicas são constituídas de verdades complementares. Para testificar tal afirmação, analisaremos o texto de Gênesis 3:15: “Porei inimizade entre você e a mulher, entre a sua descendência e o descendente dela; este lhe ferirá a cabeça e você lhe ferirá o calcanhar”.

De acordo com alguns teólogos, o primeiro elemento que representa o cumprimento desta profecia é a morte na cruz ao qual Jesus se submeteu para salvar o homem de seu pecado e restaurá-lo de sua queda (Filipenses 2:8-9). O apóstolo João declarou: “Para isso se manifestou o Filho de Deus, para destruir as obras do maligno” (I João 3:8). Milênios antes, Isaías profetizou: “Pelas suas pisaduras, fomos sarados... O castigo que nos traz a paz estava sobre ele” (Isaías 53:4-6). É evidente que a narrativa de Isaías é sobre o sofrimento e a agonia de Jesus na cruz. Sua morte representou, temporariamente, o ferimento da serpente em Seu calcanhar. Mas, ao mesmo tempo, representou Sua vitória sobre ela.

No entanto, esta vitória não se concretizou na cruz. Sim, Jesus fez a parte Dele ao proclamar: “Está consumado”. (Evangelho segundo João 19:30). Não há o que completar. Ela apenas precisa ser estabelecida em sua plenitude. E será através da Igreja. É aqui que entra em cena o segundo elemento da profecia. Por isso Jesus disse a Pedro: “Tu és Pedro, e nesta pedra eu edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Evangelho segundo Mateus 16:18).

O nome “Pedro” no original grego é Petrus, que significa “pequena pedra”, equivalente ao nome aramaico Céfas. Já a “pedra” ao qual Jesus citou que Sua Igreja seria edificada não era Petrus, mas a Petra – rocha ou grande pedra – que se refere ao próprio Jesus que, conforme o apóstolo Paulo afirma, é a Pedra angular da Igreja (Efésios 2:20-21).

O apóstolo Paulo também afirma: “Em breve, o Deus da paz esmagará Satanás debaixo dos vossos pés” (Romanos 16:20). Vemos aqui que não será a Igreja, propriamente dita, que pisará a cabeça da serpente. Mas sim o próprio Jesus através dela. Pois este “Deus da paz” citado por Paulo é, conforme o texto de Isaías 9:6, o próprio Jesus, o descendente de Eva. O fato da serpente ferir o calcanhar do descendente de Eva representa também a perseguição da Igreja desde o seu nascimento em Pentecostes. Por isso Jesus, através do apóstolo João, alerta Sua Igreja no tocante à severa perseguição e promete que aquele que permanecer fiel até o fim receberá a coroa da vida (Apocalipse 2:10).

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

De geração para geração


Adquirir sabedoria envolve um processo que se dá em três partes: obtenção da informação (conhecimento), exercício do intelecto (inteligência para processar o conhecimento obtido) e a sabedoria propriamente dita que consiste em aplicar o conteúdo obtido, de forma prática, em seu cotidiano.

Matheus Viana

Não podemos extrair do tema “educação” o preceito “de geração para geração”. Em todo o Antigo Testamento, Deus se mostra zeloso no tocante ao ensinar à geração posterior Sua lei para que se tornasse “Estatuto perpétuo”. Não é em vão que o sábio Salomão advertiu: “Ensina a criança o caminho em que deve andar, para que quando for velho não se desvie dele” (Provérbios 22:6). E Esdras, o escriba, declarou: “Guardo no meu coração a Tua Lei para não pecar contra Ti” (Salmos 119:11).

Além disso, teóricos da educação como Jean Piaget e Lev Vygotsky, entre outros, preconizam que o papel dos pais é crucial no desenvolvimento moral e acadêmico da criança. Mas uma verdade deve ser constatada e observada: os papeis dos pais e dos professores neste processo ainda não são plenamente definidos, por isso se confundem, o que compromete a tão necessária sinergia entre eles.

Como professor, tenho visto um grande número de pais que transferem suas responsabilidades aos professores e cobram dos mesmos o que eles, pais, devem fazer em prol da educação de seus filhos. Pior, muitos destes pais criticam e prejudicam o trabalho desenvolvido na escola em prol de seus filhos.

A criança mais extraordinária que passou pela Terra, Jesus, conforme a narrativa de Lucas, cresceu em sabedoria, estatura e graça diante de Deus e dos homens (Evangelho segundo Lucas 2:52). É papel dos pais e dos professores fazer com que as crianças e adolescentes aos quais temos acesso experimentem este desenvolvimento.

No entanto, adquirir sabedoria envolve um processo que se dá em três partes: obtenção da informação, exercício do intelecto (inteligência para processar o conteúdo obtido, transformando-o em conhecimento) e a sabedoria propriamente dita que consiste em aplicar tal conhecimento, de forma prática, em seu cotidiano. Há um amplo arcabouço filosófico, histórico e psicológico que pode – e deve – ser discutido e aplicado. Mas não é, pelo menos por enquanto, a nossa proposta. É preciso, antes de tudo, diagnosticar os males para solucioná-los da maneira mais otimizada possível.

É justamente na obtenção da informação que temos o que chamamos de “gargalo”. Ou seja, uma falha no processo que compromete seu todo. Devido ao “boom” tecnológico, crianças e adolescentes são acometidas por um contexto em que a informação é excessiva e rápida, e que não ignora o elemento “futilidade”. Por isso, sua obtenção não exige o pensamento, apenas o saber manusear os diferentes e atrativos meios de comunicação como celulares, tablets, notebooks, entre outras parafernálias. O que, com o passar do tempo, torna-se algo mecânico, vicioso, puramente “taylorista”. A consequente alienação, infelizmente, é inevitável...

É incoerente negar os benefícios decorrentes do avanço tecnológico. Mas ocultar seus malefícios é tanto quanto. O fato de que temos nos deparado com crianças alienadas e com dificuldade de pensar e processar o conteúdo adquirido é, apesar de triste, real. E, por que não dizer, preocupante? A origem de tal problema é justamente na obtenção da informação. Platão fazia a distinção entre mundo sensitivo (uso dos sentidos) e mundo inteligível (uso da razão, intelecto). Por isso, dizia que para obter o conhecimento (verdade) de forma satisfatória, o uso dos sentidos não é suficiente. A experiência com o mundo e com o conhecimento através dos sentidos (que mais tarde vai receber o nome de empirismo) deve passar pelo crivo e regência da razão. É justamente este o ponto da defasagem: estamos diante de uma geração com extrema dificuldade de pensar.

Esta interatividade é capaz de determinar a identidade do usuário. Certa vez perguntei para um aluno como seria sua vida sem um aparelho celular. Ele respondeu sem pestanejar: “Simplesmente não existo”. Na adolescência – que a cada dia que passa torna-se mais precoce – o indivíduo tem extrema necessidade de sentir-se aceito pelo grupo social onde convive. Por isso, quer moldar sua personalidade (identidade) de modo que seja aceito. Aqui reside um grande conflito. Sua personalidade, por conta desta necessidade de aceitação, não será determinada somente pelos seus desejos interiores, mas pela opinião de seu grupo social. E esta opinião é, em grande parte, determinada pela mídia de forma geral.

É neste momento que os pais encontram dificuldades em fazer com que os filhos absorvam os princípios por eles emitidos e ensinados através de exemplos decorrentes da educação “de geração para geração”. Alguns, no entanto, não os transmitem por não terem recebido na infância ou por pura leniência. Deixam os corações de seus filhos vazios, suscetíveis a todo tipo de informação e conceitos que a mídia dissemina à exaustão. Moldados por estes conceitos, os filhos tornam-se problemáticos. Com isso, a tendência dos pais, ao invés de reconhecerem suas ausências, é de colocarem toda a culpa na escola.

Sem invadir o papel dos pais, os professores devem deixar de atuar apenas no nível acadêmico e permear o social, o moral/comportamental e, principalmente, o espiritual a fim de que a criança e o adolescente encontrem sua verdadeira identidade. A psicologia afirma que todo ser humano tem necessidade de ter um referencial. Verdade inquestionável. Tal necessidade é reflexo de que fomos formados por um referencial, um modelo. Como sabemos, este modelo é Jesus, a imagem do Deus invisível (Colossenses 1:15).


O pastor e sociólogo Ariovaldo Ramos afirma: “Jesus é o que Deus é e o que todo ser humano deve ser”. O apóstolo Paulo expressou o desejo de Deus de que vivamos à imagem e semelhança de Jesus (Romanos 8:29, Efésios 4:13). Portanto, é missão dos pais e professores, cada um cumprindo seu devido papel, proporcionar este conhecimento à criança e ao adolescente. Na esteira do conselho de Sócrates: “Conhece-te a ti mesmo!”, eles conhecerão, assim como nós, a verdadeira identidade quando conhecerem quem Jesus, o Deus encarnado, o Primogênito, é.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Instinto, vontade e propósito

O desafio em fazer o bem consiste em sujeitar os instintos ao exercício da vontade. E esta deve ser a nossa vontade: fazer a vontade de Deus a nós, a qual o ser humano nunca deveria ter se apartado.

Matheus Viana

A experiência pensante ou empírica vem antes do desejo. O que não exige a razão não é desejo, e sim instinto. E entre o desejo (vontade) e a ação há algo chamado “propósito”. Isto é explícito na sentença bíblica: “E disse Deus: ‘Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra’”. (Gênesis 1:26).

É fato: Deus desejou criar o ser humano como resultado de Seu pensamento. Mas, antes da ação criadora, estabeleceu sobre tal desejo um propósito. Vontade exige razão – pensamento – por possuir em si um propósito. Mais do que isso: propósito é o meio que arquitetamos para realizar a nossa vontade. 

Exemplo: Alguém diz: - “Quero comer chocolate!”. O que ele precisa fazer para satisfazer este desejo? Adquirir este chocolate. Caso o tenha guardado em sua geladeira, ele deve se dirigir a ela a fim de pegá-lo. Assim, sua vontade é a de comer chocolate. Consequentemente, seu propósito passa a ser se dirigir à geladeira para pegá-lo e comê-lo. Portanto, propósito é desdobramento da vontade. E é o propósito que resulta em uma ação, e não meramente a vontade em si, conforme afirma Schopenhauer. Por isso, ela exige o exercício da razão.

Mas não é isso o que acontece com o instinto. Afirmando que o ser humano é em essência vontade, Schopenhauer diz que o caráter humano se divide em três partes: inteligível, empírico e adquirido. O inteligível, segundo ele, é o conhecimento racional da vontade. Sobre o empírico – resultado da experiência através dos sentidos -, afirma: “O caráter empírico, simples instinto natural, é em si desprovido de razão. Suas próprias manifestações são impedidas pela razão...”. (Livro: Do mundo como vontade e representação, pág. 68 – Editora Saraiva). Já o adquirido é a síntese de ambos.

É notório que Schopenhauer chama de “caráter empírico” o instinto humano. Platão elucidou sobre a dicotomia existente entre a consciência e o corpo. Para ele, os feitos do corpo são desprovidos – separados, independentes – da razão (consciência). Ou seja, as ações do corpo são determinadas pelo instinto natural do indivíduo, o qual Platão também, como Schopenhauer, chama de desejo. 

O apóstolo Paulo afirma: “Pois eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum; pois o querer o bem está em mim, não porém o efetuá-lo”. (Romanos 7:18). Paulo usa a dicotomia platônica – que influenciava grandemente os romanos - entre corpo - o qual ele chama de “carne” – e consciência – que ele denomina como querer – para elucidar sobre a diferença entre instinto e desejo (vontade).

Não podemos fugir de nosso instinto, pois ele é inerente ao ser humano. Por conta do pecado original, a natureza humana foi corrompida. Logo, seu instinto também foi (Colossenses 3:5). É isso que Paulo afirma em sua afirmação citada acima. Apesar de desejar fazer o bem, não é capaz de fazê-lo por conta de seu instinto ser mau. Conosco, repito, não é diferente...

Nosso desafio em fazer o bem consiste em sujeitar o instinto ao exercício da vontade. Por ser a vontade produto da experiência, o apóstolo Paulo aconselha: “Rogo-vos, pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos (instinto e impulsos) em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional.” (Romanos 12:1). Esta deve ser a nossa vontade: fazer a vontade de Deus a nós, a qual o ser humano nunca deveria ter se apartado. 

Em seguida, Paulo elucida o propósito de tal sujeição: “E não vos conformeis com este mundo (modo de pensar, desejar, escolher e agir), mas sejam transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus”. (Romanos 12:2). Tal elucidação explicita, mais uma vez, o fato de que o desejo é produto do pensamento, ou seja, a maneira como pensamos e o que experimentamos através de nossos sentidos determinam nossos desejos. E não o contrário.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

A essência humana


Matheus Viana

Na tentativa de definir a essência do ser humano, Descartes teorizou o chamado cogito, onde dizia que o ser humano é essencialmente razão, ou seja, pensamento. Por sua vez, Kant definiu o ser humano como um ser cognoscente, que conhece e pode ser conhecido e explicado, cuja essência é a razão que, segundo ele, é o conjunto entre o pensar e o uso dos sentidos através da experiência.

Já Schopenhauer definiu o ser humano como um ser desejante, cuja essência é vontade. O filósofo foi além: afirmava que o mundo nada mais é do que a representação da vontade. Para ele, o mundo existe por causa dos fenômenos e objetos. E estes existem como desdobramentos da vontade. Na esteira, Nietzsche definiu o ser humano como um ser dominante, cuja vontade, elucidada por Schopenhauer como vontade de viver, é a vontade de poder. É neste contexto que Nietzsche define a moral nobre – egoísta, pautada na ação – e a moral escrava – não-egoísta, pautada na não-ação.

A afirmação de Schopenhauer, apesar de contestável, é a mais próxima, das citadas acima, da elucidação do apóstolo Paulo: “O primeiro Adão foi feito alma  (psique) vivente. Já o segundo Adão, Espírito vivificante”. (I Coríntios 15:45).

O ser humano se tornou “alma vivente” por receber o fôlego de vida de Seu Criador (Gênesis 2:7). Embora o termo hebraico nefesh seja traduzido como psique para o grego (Septuaginta) e anima para o latin (Vulgata), ele não carrega apenas o sentido de alma que conhecemos. Pois, para um judeu, nefesh é o ser humano integral. O apóstolo Paulo, ao usar o termo psique, trouxe o conceito judaico do termo, mas também abordou o conceito grego de alma, que é o interior do homem, cuja razão é soberana por ser ela capaz de obter aquilo que Platão, por exemplo, considerava o supremo bem: a sabedoria. Em síntese seria a capacidade de pensar, sentir, desejar e escolher que Deus conferiu ao homem.

Sua vontade, juntamente com a capacidade de pensar, era resultante do que era em essência: à imagem e conforme a semelhança de Deus. Algo interior que refletia em seu exterior. Por isso, ele pensava e desejava conforme o propósito de Deus. Consequentemente, agia segundo Seus preceitos. Portanto, a vontade humana era produto da razão - que era resultante da essência - e não a própria essência, conforme afirmou Schopenhauer.

Mas a razão (forma de pensar) humana foi subvertida ao absorver o engano da serpente. Por isso, o ser humano passou a cobiçar o ilícito e tornou-se um desobediente em potencial (Gênesis 3:5). Seu ser (essência) passou a ser determinado pela vontade (cobiça) de tomar posse de algo proibido e nocivo. No entanto, a vontade veio como efeito colateral de uma razão deturpada. O ato da desobediência, por sua vez, foi mera consequência. E ela trouxe a consciência do bem e do mal.

Schopenhauer, apesar de alguns equívocos, acerta quando sua filosofia se equipara com a alteração consequente da desobediência. O ato da desobediência foi produto da vontade humana que, por sua vez, foi produto de sua razão. Ou seja, a conduta do primeiro Adão foi pautada pela sua alma (pensamento e desejo). Portanto, o apóstolo Paulo elucida sobre a diferença entre instinto (impulso) e vontade quando diz: “O mal que não quero, faço, e o bem que quero, eu não faço”. (Romanos 7:19).

A desobediência degradou a natureza – essência – humana. Por isso, podemos afirmar que nossa conduta, muitas vezes, é pautada pelo instinto em detrimento da vontade e também da razão. Mesmo não querendo, cometemos o que é mal por conta do conhecimento obtido indevidamente no Éden. E o bem a qual temos vontade de realizar, por conta dos impulsos degradados, não conseguimos. Portanto, a essência humana – desprovida da divina – é, de acordo com o apóstolo Paulo, instinto, e não vontade. Faltou a Schopenhauer apenas distinguir uma da outra.

Mas o segundo Adão, Jesus, reverteu esta drástica situação. Renunciou sua vontade por pensar de acordo com os desígnios de Deus (Evangelho segundo Mateus 26:39). Pois, além de ser homem, Jesus também era - e é - Deus (Colossenses 1:15). Por ser Deus (essência), pensou como Deus – ao ponto de renunciar sua vontade humana – e agiu conforme o plano predestinado desde antes da fundação do mundo (Apocalipse 13:8).

Fez isso para que nossa essência volte a ser a mesma do homem no princípio: à imagem e semelhança de Deus (Romanos 8:29). E que nossa conduta seja pautada não mais pela alma (vontade humana), mas pelo Espírito vivificante, a essência de Deus, Seu fôlego de vida, em nós. 

Não deixe de ler: Cobiça x necessidade

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

O que é normalidade?


O que é normalidade? A tentativa de responder esta questão tem gerado, ao longo da história, teses e livros, além de um interminável debate. Minha proposta é modesta. É consenso que para definirmos se algo é normal, devemos ter como parâmetro um padrão de normalidade. Eu, por exemplo, tenho um corpo anormal. Pois ele é bastante diferente de um corpo considerado normal de acordo com o padrão estabelecido pela ortopedia. Assim, o anormal é o contraponto – distante, diferente - do que é normal.

Diante disso, podemos afirmar que para definirmos o anormal, devemos conhecer o normal. Por isso, andamos a esmo no tocante a este imprescindível conhecimento. Não sabemos o que é normal porque não conhecemos o anormal, e vice-versa. Esta confusão é produto da latente relativização que a dialética trouxe à tona. Ela destruiu, por exemplo, os dois princípios estabelecidos por Aristóteles para a construção da dedução lógica – necessária para a definição do que é normal ou não é: o da identidade e o da não-contradição.

É óbvio que não podemos ignorar as definições de normalidade de culturas e religiões distintas. A poligamia, por exemplo, é algo normal na cultura islâmica. Já para a sociedade ocidental, majoritariamente pautada pelo cristianismo, é considerada anormal, já que o normal é a monogamia.

No entanto, a simples necessidade de se estabelecer normalidades para a vida em sociedade, ainda que sejam divergentes, é reflexo da existência de uma normalidade soberana. C.S Lewis preconiza que uma discussão entre duas pessoas só acontece porque existe o senso de certo e errado. Quando, segundo Lewis, dizemos que uma pessoa errou ao agir de determinada forma conosco, tal afirmação está pautada por este senso. Pois, sem ele, nunca chegaríamos a esta conclusão pelo fato de o conceito de “errado” simplesmente não existir. Lewis a denomina como “Lei Moral”.

O mesmo princípio se aplica à normalidade. Em nossa vida, tentamos definir o que é normal e o que é anormal em virtude da existência da “Lei da normalidade”. O normal para Aristóteles era pautado pela sua identidade. Se algo é “isso”, então não é “aquilo” (princípio da identidade). Se é normal, não pode ser anormal (princípio da não-contradição) e vice-versa. Já para Hegel, o normal era a síntese do confronto entre tese e antítese. Ou seja, o normal só poderia ser definido como tal após passar pelo processo dialético. Algo considerado normal (tese) teria que colidir com algo considerado anormal (antítese). E desta experiência o verdadeiramente “normal” surgiria.

Fórmula contraditória. Conforme reza a dialética, só é possível ter uma síntese se houver o confronto entre tese e antítese. Mas a tese, neste caso, só é possível se definirmos o normal. Se já temos o trabalho de definir a tese, por que submetê-lo à dialética se o intento é o mesmo: encontrar a normalidade? A resposta é simples e, ao meu ver, absurda: a mera tentativa de negar a existência de uma normalidade absoluta. Contudo, a simples necessidade de definir o que é, de fato, normal, não importa a forma, é reflexo – e por que não dizer desdobramento? – da existência desta normalidade absoluta.

Existimos porque ela existe. O padrão de normalidade foi estabelecido ao homem no princípio de sua existência. Se você acredita que o ser humano é resultado de um processo evolutivo de milhões de anos, de um “ancestral” cuja origem foi a matéria e a energia liberadas no universo no evento do “Big Bang”, saiba que a própria ciência joga contra você. Segundo a Lei da Biogênese, matéria ou energia não são suficientes para gerar vida. Vida só é possível quando gerada a partir de um ser vivo. Um ser vivo, segundo a Lei da Termodinâmica, não pode surgir aleatoriamente, do nada. Tudo o que existe no universo é oriundo de processos naturais. Estes processos são submetidos às leis naturais. E estas leis não podem ter surgido... de forma espontânea ou evolutiva. Pois seria contraditório ao próprio princípio científico.

Tudo o que existe no universo tem um propósito. Filósofos como Al Ghazali, Tomás de Aquino e Leibniz, entre outros, debruçaram exaustivamente sobre o argumento cosmológico Kalam, que preconiza tal verdade. Sendo assim, as leis e os consequentes processos naturais, a diversidade da vida e a natureza em si foram gerados por um ser inteligente (capaz de formular leis e processos) e vivo (capaz de gerar vida). É exatamente isso que o apóstolo Paulo preconiza em sua carta aos colossenses: “Pois nele foram criadas todas as coisas nos céus e na terra, as visíveis e as invisíveis”. (Colossenses 1:16).

Não foi diferente com o homem. A narrativa de Gênesis é clara: “Formou Deus o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego de vida, e o homem se tornou alma vivente”. (Gênesis 2:7). Formar é diferente de criar. É fazer segundo um modelo, uma forma. O ser humano foi “formado”, ou seja, feito de acordo com a forma/modelo da normalidade. Este era o propósito. Antes da formação, foi estabelecido: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança”. E assim se fez. O modelo foi o próprio Deus/homem: Jesus, a imagem do Deus invisível (Colossenses 1:15). Este foi o resultado do ser humano ter recebido do fôlego de vida do próprio Deus - Seu Espírito – e também a capacidade de pensar, sentir, desejar e escolher, ao qual chamamos de alma.

Mas o ser humano deixou sua razão ser influenciada de modo a desejar o anormal. O resultado não poderia ser diferente: a anormalidade existencial veio à tona. A existência humana estaria fadada a ela. É sobre este drama que envolve a humanidade que analisaremos...